O mestre de Fangio – parte 10

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1935.

A AU vai alinhar a Type B, com 56 melhorias sobre a versão A, incluindo a cilindrada aumentada para 4.9. Além de Varzi, mantém Stuck e o príncipe zu Leiningen como titulares. Como reservas – atenção – terá o até então piloto independente Paul Pietsch e o jovem motociclista Bernd Rosemeyer.

A M-B também aumentou a cilindrada das W25 para 3.7, mantendo o trio Caracciola, von Brauchitsch e Fagioli como titulares.

A Maserati encarregou a Scuderia Subalpina, do Conde Luigi Della Chiesa, de ser sua representante. Como pilotos teria Philippe Étancelin e “Freddy” Zehender, até então independentes, pilotando as 6C 34 e 8CM melhoradas, aguardando a estréia da nova V8-RI de 4.8. Outra equipe satélite da Maserati teria Gino Rovere, o futuro campeão Giuseppe Farina e Armand Girod.

A Ferrari alinharia as P3 também com motor aumentado para 3.2 e suspensão dianteira independente, enquanto não apronta a Tipo C com motor 3.8 e suspensão independente total. Além de Tazio, Dreyfus e Chiron terá Carlo Felice Trossi (que acumula o cargo de presidente da Ferrari), Antonio Brivio, Gianfranco Comotti, Mario Tadini e Carlo Pintacuda.

A Bugatti também aumenta seu motor para 3.8 e finalmente resolve a falta de confiabilidade. Pilotos oficiais: Jean-Pierre Wimille, Piero Taruffi, Robert Benoist. Ainda terão várias equipes e pilotos independentes com Bugattis, Alfas e Maseratis de diversos tipos e idades, mas ao longo da temporada as chances deles diminuem cada vez mais.

Diante da aparição das potentes e evoluídas AU e M-B, apoiadas de modos diversos por volumosos recursos do governo nazista, o jogo ia ser pesado para quem quisesse vencer.

A Auto Union considera que a longa distância entre eixos de seus carros não se adequa a Monaco e deixa o caminho livre para os concorrentes. A Type B ainda não estava pronta quando chega o GP da Tunisia. Achille, duas vezes vencedor nesse circuito, convence a equipe a inscrever uma Type A contendo inovações da Type B. Achille estava mudando seu estilo de pilotagem para poder tirar o melhor desse pioneiro carro com motor central traseiro e, além de ganhar prêmios de largada e chegada, aproveitaria para ganhar intimidade com o monstro.

O governo nazista dava bônus para M-B e AU se participassem de determinadas corridas, e não era o caso desta, por isso Varzi estava disposto a bancar todas as despesas.

A Type A tinha potência de sobra e Achille vence de ponta a ponta. Tazio logo se apodera do segundo posto e Wimille, com a única Bugatti, terceiro. Mas na 5a. volta Varzi já está 43 segundos à frente do mantuano e 56 à frente de Wimille.    

Em Tripoli M-B e AU se apresentam completas, esta já com a Type B. A Ferrari alinha a nova Bi-motore, 6.3L, 540HP, uma tentativa de se equiparar à potência de seus rivais tedescos. Um motor era colocado à frente do piloto e outro atrás. Mas não consegue fornecimento de pneus que resistam por muito tempo ao peso dessa cavalaria desembestada. Aliás, nessa pista, todo mundo sofreu com pneus e eles foram decisivos para a vitória. Pista de alta e calor, com gasto excessivo ou furos, eles determinaram o resultado.

Antes de completar 5 voltas, Tazio já tinha parado duas vezes por causa deles. Chiron, com outra Bi-motore de 5.8L, 510HP, também sofria. Caracciola teve que fazer duas paradas devido aos pneus e tomou uma volta. Após 10 voltas Achille liderava, seguido por Stuck, Fagioli, Farina, Dreyfus. Caratsch não se deu por vencido e recuperou essa volta. Durante a maior parte do tempo Fagioli e Stuck disputaram com Varzi a liderança, mas este a ocupou a maior parte do tempo. Chegando ao final, tendo decidido que dava para seguir sem trocas, Achille tinha grande vantagem para Rudi, que em meio àquela profusão de trocas que todos fizeram tinha chegado ao segundo posto. Faltando 10 voltas para o final, Achille coloca uma volta sobre Nivola. Parece que a rivalidade sobe à cabeça e os dois começam a duelar até que o mantuano queima seu jogo de pneus e vai aos boxes. Faltando 5 voltas o pneu traseiro direito de Achille perde a banda de rodagem. Ele tem que ir ao box para fazer a troca inesperada, volta, os dois duelam mas Achille tem o outro pneu traseiro estourado e assim Rudi obtém sua primeira vitória pela M-B.   

Como prova de seu prestígio como piloto o contrato de Varzi permite diversas liberdades e assim ele participa da prova Coppa Duca di Spoleto de motonáutica no lago de Garda e vence na categoria principal.

Em AVUS o desgaste dos pneus, com carros pesados, volta a ser decisivo. Ao ponto das rivais alemãs não aumentarem a pressão dos superchargers para que os Continental durassem mais.

Com diferentes estratégias para vários pilotos, Fagioli foi mais feliz. Conseguiu fazer a corrida toda sem trocar pneu sem tanta diferença na média final. Chiron foi segundo, com os pneus em pedaços, e Varzi terceiro após várias trocas.

Em Nurburgring (Eifelrennen) Achille tem uma apendicite. Começa na quarta, ele é examinado pelo médico da AU, liberado para os treinos, a crise piora e ele é vetado para a corrida. Mas ele não se entrega e insiste em correr. Ao fim da primeira volta está em terceiro, primeiro das AU, Von Brauchitsch e Rudi nas primeiras posições. Mas o tempo varia entre chuva e sol e isso afeta a escolha das velas, obrigando todo mundo a paradas não previstas. Isso mais as dores crescentes no abdome fazem Achille entregar o carro ao piloto reserva, zu Leiningen.

E aqui começa a pior fase de sua carreira.

No GP da França, com a Type B portando o novo motor 5.6 ele faz a pole. Mas antes de completar a segunda volta vai aos boxes, com problemas nas velas, encharcadas de óleo. Teve que parar várias vezes e no 14º giro passou o carro para o reserva Rosemeyer, quando estava em quarto, mas já com uma volta atrás. É a única AU a terminar.

Willy Walb, o chefe da equipe, decide não participar dos GPs da Espanha e da Bélgica, para resolver os problemas de confiabilidade. No GP da Alemanha (Nurburgring) choveu forte até pouco antes da largada. O motor de Stuck, que largava na primeira fila, morre alguns segundos antes da luz verde. Ele levanta os braços. Seu mecânico Rudolf Friedrich corre para fazer o motor funcionar novamente, o que é proibido, parando ao lado do carro. A luz verde acende. Achille, que largava na quinta fila, tem a visão encoberta por uma nuvem composta por água de chuva, fumaça derivada de pneus e escapamentos em plena ação. Consegue evitar o carro do colega mas atropela Friedrich, que cai inconsciente, com o crânio fraturado.

Isso tem efeito psicológico imediato em Achille e ele dirige maquinalmente. Está em sexto na volta 7 quando pára nos boxes e relata à equipe que não consegue deixar de pensar no mecânico ferido. Volta, mas segue fazendo apenas o essencial. Na volta 14 desiste de vez, entregando o carro para zu Leiningen.

Independente disto, durante os treinos para este GP Achille e Ilse, esposa de Paul Pietsch, se apaixonaram. Poderia ser algo banal, mas essa ligação terá influencia definitiva na carreira do galliatese.

A M-B não se inscreve para a Coppa Acerbo e assim três Type B 5.0, para Varzi, Bernd e Stuck enfrentariam seis Alfa 3.2., para Tazio, Chiron, Brivio (com suspensão dianteira independente), Tadini, Comotti, Pintacuda. Achille largou na frente e correu para outra vitória ponta a ponta. Nuvolari lutou com Rosemeyer pelo segundo posto mas teve uma válvula quebrada na volta 13 e abandonou.

No GP da Suíça a M-B retorna, com força total, mas Varzi faz a pole. Tinha chovido antes da largada, a pista ficou parcialmente seca e todos decidem por jogos mistos de pneus, seco atrás e molhado na frente, exceto Achille, que opta por um jogo para molhado, visando obter vantagem logo na largada.  Mas Rudi, o especialista em chuva, larga na frente e os dois passam nas primeiras posições ao fim da volta inicial, seguidos por Stuck, Fagioli, Bernd, Nuvolari.

Durante a segunda volta Achille teve que por à prova seus reflexos quando deu de cara com o carro de Étancelin bloqueando a passagem em uma curva lenta. Ele escapa do choque mas teve que sair fora da pista e isto afeta o eixo traseiro. Dá para continuar mas sem chance de vitória.

Na volta 10 ele está em 9º mas acaba fazendo um honroso 4º.  

GP da Italia também era um campeão de audiência e a turma toda comparece, inclusive a inconstante Bugatti, com duas T59 para Wimille e Taruffi. AU com Varzi, Stuck, Rosemeyer e Piestch, M-B com Caracciola, von B e Fagioli, Lang com um 3.4. A Subalpina finalmente estreou a Maserati V8-RI, com Farina e Étancelin. Ferrari também estreou as novas Alfa 8C-35 com motor 3.8, para Nivola e Dreyfus. Chiron ainda se ressentia do acidente de Berna e ficou como reserva.

Durante os treinos é Varzi quem faz o melhor tempo, dois segundos abaixo de Fagioli e três de Bernd.

Dada a largada Rudi assume a ponta, seguido por Stuck, Varzi e Fagioli, todos bem próximos. Nuvolari vinha a seguir, um pouco mais longe.

Stuck passou Rudi na volta 3, Varzi na volta 4. Eles foram se alternando na liderança, faziam uma corrida à parte. Mas Achille era o mais rápido, até a volta 14, quando entrou lentamente nos boxes com um pistão quebrado. Em compensação o divórcio de Paul Pietsch e Ilse é concedido e ela se junta a Varzi.


Varzi e Ilse Pietsch

No GP da Espanha, em San Sebastian, Achille se mostra novamente o mais rápido de todos, 6.08 contra 6.23 de Stuck. Mas ele não vai longe na disputa pela ponta. Uma pedra quebra seu párabrisa, algo nada incomum na época, e pedaços de vidro atingem seu rosto com força. Ele pára nos boxes ainda tonto com o choque e enquanto limpa seu rosto Pietsch assume o cockpit.

Varzi retoma na sexta volta, em 11º. Ele vai baixando os tempos de volta consistentemente, fazendo a melhor da corrida em 5’58”6, 174km/h de média, mas continua longe. A segunda melhor foi de Bernd, 6’06″7. Na volta 14 entrega novamente a Pietsch, com as marchas escapando.

Em Brno, sem as M-B, Varzi lidera até que seu motor quebra, na volta 12. Novamente faz a volta mais rápida.

1936

Em 1936 a situação política na Europa começa a se complicar. A Italia tinha invadido a Abissínia em outubro do ano anterior e a Liga das Nações reagiu com punições. Mussolini contra-atacou e, no que se refere ao automobilismo, determinou o boicote de provas na França e na Inglaterra.

Em março de 36 tropas nazistas ocuparam a região do Reno, contrariando o tratado de Compiègne. Em julho começa a guerra civil espanhola. Com isso os GPs da Bélgica e da Espanha são cancelados, bem como Le Mans.

Varzi aproveita o intervalo para tirar brevê, ele e Tazio cogitavam compartilhar a compra de um avião.

A temporada efetivamente começa em Monaco, em abril.

Chiron se juntou à Mercedes e vai dispor da W25K, mais curta e mais baixa que a versão anterior, novo motor ME25 de 4.74L, 453HP, também disponível para Rudi. Fagioli e von B pilotariam a versão com distância entre-eixos longa e motor M25C de 4.31L, 402HP.

Paul Pietsch é substituído por Ernst Von Delius. Desgostoso com a situação interna criada pelo caso de Ilse com Achille e o modo como a direção da equipe lidou com isso preferiu sair.

A AU traz os novos Type C, motores aumentados para 6.0L produzindo 520HP.

A Ferrari vendeu a maior parte das Tipo B e levou quatro 8C-35 3.8L 330HP para Tazio, Brivio, Farina e Fadini.

A Bugatti resolve participar e envia uma T59 carenada, com traseira longa e outras modificações, e uma T50B com motor 4.7L, 370HP, mas Wimille e Williams preferem a velha T59 de 240HP.

Em meados de janeiro Achille tinha se submetido a uma cirurgia na garganta e em meados de março outra para se livrar da inflamação no apêndice. Para minorar suas dores, Ilse o apresenta à morfina, que ela conheceu quando teve uma nefrite. E aí começa o vício que irá ofuscar a intensidade de seu brilho.

Ele faz o 7º tempo em Monaco, terceira fila. A largada se dá debaixo de uma chuva torrencial.

Ele logo escala a turma da frente, apesar do óleo jogado na pista pela Alfa de Tadini ainda no grid, passando em terceiro na volta 6. Nivola, que estava em segundo tem problemas de freio na 27a.  volta e assim ele sobe mais uma posição, mas sem chances de alcançar Rudi. No meio do caminho tem que duelar com Stuck. Este vinha em segundo e diminuiu o ritmo para poupar combustível. Achille acelerou e o ultrapassou na volta 83. Stuck parou para abastecer e voltou fazendo voltas cada vez mais rápidas. A equipe passou a sinalizar para Achille parar mas ele não obedece, o que vai gerar má imagem junto ao Dr. Karl Otto Feuereissen, novo chefe da equipe.

E aí vamos para o momento-chave de sua carreira, em Tripoli.

Era do interesse do governo hitlerista agradar o governo do vizinho italiano.

Assim as equipes alemãs recebem ordem vinda “de cima” para deixar que um italiano da equipe seja o vencedor. O próprio Martin Bormann estava em Trípoli. A M-B tinha Fagioli, a AU Varzi.

A Mercedes decepcionou. A W25K de von B tem problemas de alimentação, as de Fagioli e Rudi ficam sem os freios dianteiros. As AU dominam, uma vez que as Alfa não são páreo para tanta potência, ainda mais que Nuvolari se acidenta feio hora e meia antes da largada. Os médicos o proíbem de participar, ele tem duas vértebras quebradas, a região lombar está envolta em gesso mas… ele vai mesmo assim.

Stuck e Rosemeyer lutam pela ponta desde a largada. Varzi larga mal. Pode ter sido problema de câmbio, porque há um relatório da AU referente à corrida informando que ele perdeu a 2a. e 3a. marchas logo no inicio, decidindo usar somente a 4a.. No quarto giro ele já está em terceiro, com Bernd e Stuck à frente. Na volta 18 o carro de Bernd pega fogo na traseira e ele abandona.

Stuck e Varzi tem uma corrida tranquila à frente, Achille encosta e passa, para ser ultrapassado duas voltas depois. Ambos recebem sinalização do box para diminuir o ritmo, Fagioli com a última M-B estava bem atrás. Na volta 33 Varzi faz uma parada inesperada, para trocar o pneu dianteiro esquerdo, perdendo cerca de 30”. Como Stuck estava em velocidade de cruzeiro, em poucas voltas Achille encosta. Na volta 35 ele vira mais rápido e passa o colega.

Na 37 ele aparentemente reduz o ritmo e é a vez de Stuck encostar. Quando a volta 40, última, se inicia Stuck está colado, mas Achille vira ainda mais rápido, fazendo a melhor volta da corrida e cruza 4.4” à frente. Dr. Feuereissen sinalizara para Stuck diminuir o ritmo e para Achille acelerar.

 

À noite, na comemoração oficial, Stuck e sua esposa são colocados nos lugares destinados ao vencedor. Pior: o governador da Líbia, Marechal Italo Balbo, ergue um brinde ao vencedor e aponta para o alemão. Achille fica arrasado, é uma humilhação pública. E ele tinha feito uma corrida brilhante, usando somente a 4a.! Ambos pilotos se dão conta de que foram logrados.

Stuck, um sujeito habitualmente calmo, pára diante do Dr. Feueressein e diz, com todas as letras, que por ele o Eixo Roma-Berlim pode ir se f….

Parece que o uso da morfina se torna mais frequente a partir deste momento. O que é certo é que foi a última vitória de Achille pela equipe oficial da AU.

Estamos muito perto do fim da saga de Varzi. Na próxima coluna, a conclusão

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

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