O mestre de Fangio

Carta a Alonso
03/12/2018
O mestre de Fangio – parte 2
11/12/2018

Rememorando: o conceito destas colunas é trazer à tona grandes nomes do passado do automobilismo. Nomes que brilharam antes da catástrofe mundial de 1939-45. Já falei sobre Caracciola, Hermann Lang e, mais recentemente, Rosemeyer. E vários outros.

Como montar uma lista de melhores de todos os tempos sem considerar esses nomes? Por que não os vimos correr? Ora, difícil montar uma lista em que Jim Clark não esteja presente. E ele morreu em 7 de abril de 68. Portanto, há 50 anos. Quando Emerson ainda estava consolidando sua carreira aqui no Brasil, tendo sido campeão de F-Vê em 67. Quem viu Jim Clark correr?..

Se é para estabelecer um critério com base nas info disponíveis, então vamos buscar infos sobre esses nomes pré-guerra. Na véspera do conflito tinham que domar 600HP com pneus equivalentes aos nossos de rua (da década de 60, provavelmente), sem santantonio, sem cinto de segurança, sem roupa anti-chamas e com uma espécie de touca de pano a título de capacete. Em pistas sem a menor segurança, a maior parte das vezes com público amontoado nos lugares mais desafiadores. O numero de mortes por acidente entre pilotos e espectadores, como verá aqui, era apavorante.

Leia e tire sua conclusão.

Hoje o foco está em um piloto que – simplesmente – foi a referência, o mestre, de ninguém menos que Juan Manuel Fangio. Outro nome indispensável em qualquer lista de melhores de todos os tempos, sob qualquer critério. Os Varzi eram uma família tradicional de Galliate (Novara, Piemonte, norte da Itália).

Ainda no século XIX o engenheiro Ercole Varzi tinha conseguido transformar um laboratório artesanal de tecelagem em uma das maiores indústrias têxteis da Italia, a Manifattura Rossari e Varzi. Ercole tornou-se senador e seu irmão Menotti ocupou-se da gestão da empresa. Menotti era apaixonado por ciclismo, tinha fama de ser muito trabalhador e… sedutor, conquistador de mulheres. Casado com Giuseppina “Pina” Colli Lanzi, tida como doce e paciente, teve 3 filhos: Angelo (“Angioletto”), Anacleto e Achille, este nascido em 8 de agosto de 1904.


Os 3 irmãos, o tio e a Rossari e Varzi

Os três vieram ao mundo na casa da família, bastante modesta, ao lado do setor da tinturaria da Rossari e Varzi, quase no limite do perímetro da cidade. O pai gostava de bicicleta, o filho mais velho de moto. Era o meio mais rápido para ir à escola, devia ser a desculpa. Esse gosto contamina rapidamente os dois irmãos mais novos. Menotti era rico mas não esbanjava.

“Querem correr, vão de moto, que custa menos, e façam isso o mais rápido possível”.

Eles começam competindo entre eles e com os poucos galliateses que tinham moto. Aos poucos começaram a participar, com a autorização do pai, de alguma provas oficiais. Logo fica claro que Achille é o mais talentoso dos três. Em 1921, aos 17 anos, Achille corria sem se intimidar com nomes consagrados como Garanzini, Vailati, Rava, Biagio Nazzaro. Convém informar que o Sr. Menotti proporcionava o que havia de melhor na época: AJS, Garelli, Norton, Sunbeam.

Achille obtém sua primeira vitoria em 1922, no Circuito de Tigullio, com Garelli 350cc. No ano seguinte o talento se firma e ele enfileira nada menos que oito vitórias: Peruggia, Busto Arsizio, Padova, Parma-Poggio Berceto, o desafiador circuito de Lario, Treviso, Torino e Messina. Resultado: campeão italiano na categoria 350cc. Campeão da categoria senior aos 19 anos!

Ainda nesse ano participa com uma Norton 500cc no GP das Nações, em Monza. Claro que se tornou um dos destaques do motociclismo italiano e assim passa a correr também na categoria 500cc no ano seguinte. O Tourist Trophy da Ilha de Man já era um dos pontos altos do motociclismo mundial e ele participa da edição de 1924.

Um concorrente cai na sua frente e para não passar por cima ele opta, numa fração de segundo, por desviar a moto em direção a uma parede. Fica apenas levemente ferido mas é o suficiente para ter que abandonar. Essa decisão consciente impressiona a direção da prova e ele recebe o Nisbet Shield como reconhecimento por seu notável espírito esportivo. Obtém vitórias em Catalogne, Varese, Pontassieve, Parma e Nápoles, mas nada pode fazer para impedir que Nuvolari, então na faixa dos 30 anos e já um monstro sagrado no mundo da velocidade, se tornasse campeão na categoria principal.

Achille conheceu Tazio na corrida de Parma. A diferença de idade não impede que os dois se tornem amigos. A diferença de personalidades, opostas, também. Varzi era quieto, frio, distante, discreto. “Nivola” falante, caloroso, exuberante. O que os unia era a admiração mútua, um já talento consagrado outro em plena ascenção. Em 1925 Achille corre com uma Sunbeam 500cc e se dá mal, abandona em treze provas. Vence em casa, Novara, e conquista o Visitor’s Cup no Tourist Trophy em sua segunda participação. Mas estava correndo contra a elite italiana, nomes como Ghersi, Saetti, Maffei, Faraglia, Panelli, Prini e Gnesa, além do amigo Tazio.

Uma constelação de mestres, de todos os tipos.

Em 1926 mostra nas 500cc o que aprendeu, na equipe oficial da Moto Guzzi. Abandona em Ostia, alcança o pódio nas três corridas seguintes. Uma delas é a Targa Florio para motos, em que chega em segundo. Vence em Turim e em Stradella. Volta à TT e obtém sua segunda Visitor’s Cup com um sétimo na categoria senior. Provavelmente graças a Vailati, seu grande amigo e apoiador, tem a possibilidade de experimentar lá uma Bugatti Tipo 37, mas com motor da 35, 1500cc, 4 cilindros em linha. Pintada com o british green. Um divisor de águas.

Ele declara que guiar esse novo animal era tão fácil e natural que é como se tivesse feito isso a vida toda. Voltando à Italia, impõe 4 vitórias consecutivas a seus adversários: Rimini (Circuito do Adriático), GP das Nações (Monza), Lodi e Mantua, tornando-se novamente campeão na categoria. Em Mantua, diante da torcida de Nuvolari!

Prestando homenagem a Antonio Ascari, havia na Italia o Clube dos 100 Por Hora. O nome era esse porque para ser admitido era preciso superar os 100 km/h de média cumprindo um percurso de 10 km no autódromo de Monza, sob o controle dos sócios. Bom lembrar que estávamos ainda na década de 20… era uma média alta e acidentes não eram incomuns. Achille não pode completar a prova devido a uma avaria mecânica, mas não se importou. Estava consciente de que não teria nenhum problema para preencher esse requisito.

Participa de seu primeiro GP, em Monza, com essa Bugatti. Abandona, por falha mecânica, mas seu futuro estava definido. Neste ponto convém ressaltar que ele nunca tinha tido aprendizado em 4 rodas. O mais perto que tinha chegado disso tinha sido assistir aos pilotos de ponta da geração anterior, Vincenzo Lancia, Alessandro Cagno, Pietro Bordino e, principalmente, Felice Nazzaro.
Varzi se identifica mais com este último e busca assimilar sua técnica: fazer o mínimo de esforço, gastar o mínimo de energia, guiar naturalmente, com elegância, e assim poupar o carro de desgastes desnecessários.

Ele tinha total consciência de que para vencer basta cruzar a linha um centímetro à frente do concorrente. Não valia a pena forçar demais quando metade dos concorrentes costumava ficar pelo meio do caminho, as quebras eram absolutamente comuns. Um estilo que combinava perfeitamente com a personalidade de Achille. Nascido em berço de ouro, sempre se vestiu com elegância, por exemplo.


A marca da Rossari e Varzi

Nas motos sua roupa habitual, malha ou jaqueta de couro e calça knickerbocker, já chamavam a atenção. No ano seguinte ele se torna piloto oficial da Bianchi, fazendo dupla com Nuvolari.
A Bianchi era uma equipe pequena e os resultados ficam abaixo do ritmo de 1926. Achille vence em Savio e abandona em sete provas, sendo seis consecutivas. No TT obtém um quinto. Tazio e Achille a esta altura já tinham se tornado amigos para sempre e rivais cordiais, principalmente quando competiram em Lario, que a imprensa esportiva considerava ser o TT italiano. Um circuito que costumava separar os homens dos meninos.

Agora ambos queriam passar para os carros. Nuvolari já tinha tentado, através das grandes indústrias italianas Ansaldo e Chiribiri. Talvez com a expansão da Italia para a Africa tenham colocado o foco na produção de armamentos. As equipes de ponta já estavam completas. A Alfa Romeo dominava, com sua extraordinária P2, e os principais pilotos eram Emilio Materassi, Giuseppe Campari, Bartolomeo “Meo” Costantini e o Conde Gastone Brilli Peri.

A outra opção era comprar uma Bugatti, obviamente cara, como fizeram Umberto Pugno, Gaspare Bona, Conde Aymo Maggi e Conde Carlo “Caberto” Conelli, mais ou menos equivalentes aos gentlemen racers de hoje. Não eram braços-duros, muitas vezes conseguiam resultados melhores que os pilotos oficiais e eventualmente se tornavam eles mesmos pilotos oficiais. Eram tempos duros. Com o fim da formula de 1,5L as principais montadoras se retiraram das corridas, diminuindo a oferta.

Brescia deixa de sediar o GP da Itália, transferido para Monza. Aymo Maggi, bresciano famoso e influente, não se conforma. Ele queria ter a “sua” corrida. Ele se movimenta para viabilizar a Mille Miglia, e com ajuda de outros interessados, como o jornalista Giovanni Canestrini, da Gazzetta dello Sport, consegue. Nuvolari, tendo seu grande amigo Cesare Pastore como parceiro, é inscrito pela equipe oficial da Bianchi, mas com mínimas chances. Varzi inscreve sua Lancia Lambda de uso pessoal mas logo percebe que teria ainda menos chance de uma boa classificação. Decide então se divertir. Trata de “competir” com o trem pullman que ligava Milão a Sanremo. Os fãs do automóvel defendiam que o trem era um meio de transporte superado, lento, que não podia vencer um bom carro em velocidade, e Achille prova isso. Tempos distantes dos trens de alta velocidade…


à esquerda, uma multa de trânsito em Como

1928 é o ano do automóvel.

No ano anterior Materassi tinha fundado sua própria escuderia, uma novidade. Quando venceu o Reale Premio di Roma e o Circuito de Garda, ambas com Bugatti, Nuvolari acabou se aproximando naturalmente de Ettore. Depois das Mil Milhas o cenário automobilístico esportivo pareceu menos carrancudo e Nuvolari resolve fundar sua própria escuderia. Com o apoio financeiro de seu amigão Cesare Pastore compra duas Bugatti Tipo 35C da categoria Grand Prix, que tinham corrido no ano anterior. Oferece a Varzi comprar uma delas, a prazo. Achille consegue a ajuda de um amigo, Angelo Cerri, e fecha negócio. O sonho de competir na categoria Grand Prix começa a se realizar.

Varzi convida Guido Bignami para ser seu mecânico e assim se inicia uma parceria que o acompanha por toda a carreira. Eles estreiam em Tripoli. Tazio em primeiro, Achille em segundo.
Repetem o resultado no Circuito de Alessandria. Apesar de ficar duas vezes atrás de Nivola, Varzi percebe que pode superar seu sócio. Durante essa corrida ele sente que pode virar mais rápido que a melhor volta do mantuano. E assim a rivalidade que dominará ambas carreiras começa a crescer, em um período que muitos consideram a idade de ouro do automobilismo esportivo.
Hoje seria quase impensável, mas essa rivalidade não afetou a amizade.

Ambos compreendiam que estavam no mesmo nível e que a disputa só os fazia evoluir, a vitória de um espicaçava o outro a fazer melhor. Sem Varzi, talvez Nuvolari não se tornasse tão grande. Sem Nuvolari, o estilo, a técnica, a inteligência de Varzi talvez não brilhassem tanto. Um estimulava o outro, direta ou indiretamente.

No campo pessoal, as diferenças se acentuavam, talvez até para um não ser acusado de imitar o outro. Achille mandava fazer suas roupas no mais famoso alfaiate de Milão; Tazio mandava fazer suas roupas esportivas em Londres. Achille gostava da vida noturna, cercado de belas mulheres (deve ter herdado do pai o poder de sedução), amigos e conhecidos; Tazio era um homem de família, estava sempre junto de sua Carolina e dos filhos Giorgio e Alberto. Também tinham fã-clubes e até onde se sabe, quando os ânimos destes se acirravam os dois se irritavam, porque sua rivalidade passava longe disso. Quando muito faziam piadas e provocações entre si, principalmente pela outra paixão que compartilhavam, fora as corridas: a caça. Varzi talvez mais, pois chegou a alugar uma reserva de caça na Suíça, no cantão italiano, e sempre convidava amigos para ir lá, como o colega Pietro Ghersi.

Tazio preferia o tiro ao pombo, que praticava com o atleta olímpico Galliano Rossini.

Segundo Canestrini, um dos idealizadores da Mille Miglia, em um certo momento os fãs de cada um cogitaram uma competição com carros iguais para saber qual dos dois era o melhor.
Tazio e Achille foram pedir conselho a Canestrini. Este os levou para fora da cidade, para conversarem sem chamar a atenção e chegaram à conclusão que não valia a pena ambos arriscarem suas reputações, tão arduamente construídas, por uma bobagem como essa. Ambos apertaram as mãos e, tudo indica, combinaram de competir observando que o sucesso de ambos valorizava ambos.
Mas nas pistas, na Scuderia Nuvolari, Achille sente que vai ter poucas chances de bater Tazio.

Decide deixar a equipe e se juntar a Campari na compra de uma Alfa P2 antiga de cinco anos. Pelas mesmas 75.000 liras que pagou a Nuvolari pela Bugatti, também em parcelas. Com esse carro ele e Campari fazem um segundo no GP da Italia em Monza, na trágica corrida que vitimou Materassi e mais de 20 espectadores. Chiron vence e Tazio chega em terceiro. Nas motocicletas Achille está em ótima forma. Vence em Lario e em Roma. Participa de mais 2 provas, abandonando uma e fazendo um quarto na outra.

Em breve continuaremos esta história.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

7 Comentários

  1. PH disse:

    Bela história!
    Belo texto!
    PH

  2. jean pierre veronese disse:

    Muito bom, parabéns!
    Jean Pierre Veronese
    João Pessoa PB

  3. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    grande história!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *