O mestre de Fangio – parte 7

O mestre de Fangio – parte 6
25/01/2019
O mestre de Fangio – parte 8
25/02/2019

Confira as parte anteriores clicando aqui.

A Ferrari representa a Alfa na Targa Florio, com quatro 2.3L para Tazio, Baconin, Ghersi e Antonio Brivio. A Maserati vem com duas 2.8 para Fagioli e Amedeo Ruggeri. A Bugatti envia, como independentes, Varzi e Chiron, com T51. Achille passa em 4º na primeira volta mas já com problemas de câmbio, que o obrigam a abandonar na seguinte. Na 5a. volta Chiron pára nos boxes, exausto, e Varzi assume seu lugar. O estafante ritmo da corrida, somado ao calor e aos efeitos do acidente de Monaco cobraram um preço alto ao monegasco. Mas não havia mais tempo de recuperar a vantagem das Alfa. Nuvolari em primeiro, Borzacchini em segundo, Chiron/Varzi em terceiro.

O GP da Italia, em Monza, como a primeira das três principais provas européias, reune a turma completa, com tudo que tinham direito. O regulamento agora estabelece 5 horas de duração, sem necessidade de revezamento de pilotos. A Alfa estréia duas novas Tipo B monoposto, também chamadas P3, com 2.65L, para Tazio e Campari, ficando Baconin e Caratsch com duas 2.3L, chamadas Monza. A Ferrari inscreve mais duas 2.3 para Ghersi e Siena. A Maserati traz a V5 para Fagioli e uma 2.8 para Ruggeri. A Bugatti traz duas T54 para Chiron e Varzi e uma T51 para Divo. Além disso, como sempre, tinha uma multidão de Maseratis e Bugattis independentes.

Varzi largava na terceira fila, atrás de Borzacchini (primeira fila), Nuvolari, Chiron e Fagioli (segunda fila). Ao fim da primeira volta, Tazio lidera com Chiron colado atrás, Campari a um carro de distancia (largava ao lado de Achille), Fagioli e Varzi. Os três primeiros brigavam diretamente até que Chiron conseguiu tomar a dianteira, na segunda volta, batendo o recorde na terceira.  

Antes do fim da 5a. volta Fagioli e Varzi ultrapassam Campari. A disputa é feroz nessa turma.

Na volta 10 Fagioli, que se sente em casa em Monza, aproveita a potência da V5 e passa Nuvolari. Varzi passa Chiron mas ambos são novamente ultrapassados por Campari. Varzi abre 18” do companheiro de equipe na altura da 15a. volta, este possivelmente ainda sofrendo os efeitos de seu acidente em Monaco somados ao calor. 10 voltas depois e várias paradas no boxe a ordem é Nuvolari, Varzi, Chiron, Borzacchini, Campari. Fagioli caiu para a 8a. posição.

Até esse momento estava claro que ninguém era páreo para as Bugatti de 5 litros nas retas, mas esta ficava devendo nas curvas. Pior, com sua dirigibilidade difícil, parecia que os dois pilotos estavam ficando cansados. E de fato Chiron veio para os boxes na volta 27 reclamando de dores no ombro e problemas de alimentação de combustível. Achille tinha parado na volta anterior com problemas no câmbio e assim que a T54 de Chiron fica em ordem ele assume o volante. Mas o problema de combustível volta a ocorrer e, com um pistão bloqueado ele é obrigado a desistir na volta 39. Tazio vence, seguido por Fagioli.

A Maserati não comparece no GP da França, em Reims,, deixando o campo livre para o duelo Bugatti/Alfa. A primeira inscreve duas T54 para Achille e Divo, com Chiron levando a T51. Guy Buriat estava escalado como piloto reserva. A Alfa inscreveu três Tipo B/P3 para Tazio, Borzacchini e Caracciola, com Giuseppe Campari como reserva. Como sempre, havia um belo esquadrão de independentes, com carros vermelhos, azuis e verdes, eventualmente algum branco, conforme a nacionalidade do piloto.

Debaixo de um sol escaldante, um público estimado em 100 mil pessoas viu Caratsch sair da terceira fila e ultrapassar Tazio e Achille, que estavam na segunda, assumindo a ponta.

Rudolf cruza a linha na ponta, com Varzi, Gaupillat (independente, T51), Williams (independente, T51), Nuvolari, Borzacchini, Phillippe Etancelin (independente, Alfa 2.3), Chiron. Enquanto Rudi e Achille duelavam, um surpreendente Williams fazia a volta mais rápida, 3’02.5”. Mas não bastava para impedir que Nuvolari e Borzacchini o ultrapassassem antes de completar a 5a. volta.

A partir da sexta Varzi começa a perder terreno e na oitava Nuvolari, Borzacchini, Williams e Chiron já estão à sua frente. Tazio guia agressivamente e passa Caratsch no 11º. giro.

No seguinte ele quebra o recorde, virando em 3’ cravado, média de 160km/h. Varzi abandona, com um rolamento de cambio quebrado.

Era o dia da Alfa. Tazio e Rudi se alternam na ponta, com Baconin sempre perto. Jano sinaliza que quer os três emparelhados na última volta. Caracciola, sempre um cavalheiro, diminui e Baconin passa por ele. Nivola finge que não entendeu o sinal e mantém o ritmo.

Para falar do GP da Alemanha, terceira e última prova do campeonato europeu convém assinalar que a Mercedes tinha se retirado completamente das pistas, devido à difícil situação econômica porque passava o país. Por isso Caracciola foi liberado e acertou com a Alfa.

As SSKL foram inscritas por particulares, Hans Stuck patrocinado por um amigo rico, por exemplo.

A Alfa trouxe as P3 para Nuvolari, Borzacchini e Caratsch.

A Bugatti quatro T51, agregando Divo e Bouriat à dupla principal.

A Maserati compareceu com Ruggeri pilotando uma 8C 3000.

Mas Achille foi impedido pelos médicos de participar, por ter sofrido um incidente no GP da França, quando um pedaço de vidro dos goggles machucou seu olho.

As Bugatti têm uma serie de problemas, logo ficam pelo caminho, a Maserati idem e as Alfa seguem para mais uma vitória consagradora. Desta vez Tazio obedece as ordens do boxe e permanece em segundo lugar, deixando Caracciola cruzar a linha livre de ameaça, com Baconin em terceiro. Com duas vitórias e um segundo, Nuvolari é o campeão europeu.

Na Coppa Ciano o domínio das Alfa novamente fica escancarado, ainda mais que a Bugatti não comparece oficialmente e Varzi tem que alinhar novamente sua T51 vermelha. Quarto lugar é o melhor que ele pode fazer, com Tazio vencendo novamente, seguido por Baconin e Campari, com uma 2.3. O consolo é que Varzi termina à frente do esquadrão de quatro Alfas 2.3 da Ferrari.

A Maserati não participa oficialmente.

O massacre se repete na Coppa Acerbo. Mais uma vitória de Nivola com a P3, desta vez pela Ferrari, seguido por Caracciola. A Bugatti participa oficialmente com a T51 para Chiron e Varzi.

A Maserati alinha a V5 com Fagioli e a 26M 3.0 com Ruggeri, apesar da combinação de um motor maior no já antigo chassis 26M aparentemente não estar funcionando a contento.

Varzi abandona com problemas de pressão de óleo na 4a. volta.

Brivio, pela Ferrari, chega em quarto com uma 2.3, e a Maserati quinto com a V5.

A próxima prova seria em Masaryk.

A Bugatti envia três T51, a Alfa envia via Ferrari uma P3 para Borzacchini e três 2.3 para Tazio, Brivio e Siena. A Maserati envia a 3.0 para Fagioli.

Com o olho machucado, Achille dá apenas duas voltas. Chiron vence, seguido por Fagioli e Nuvolari, que dá um show na chuva.

Finalmente chega a última grande prova da temporada, Monza.

A derradeira batalha entre Alfa, Maserati e Bugatti. Sinalizando a importância desse confronto, desta vez a Alfa pôs quatro P3 na pista, para Tazio, Borzacchini, Campari e Caracciola. Duas 2.3 Monza foram cedidas para a Ferrari, para o Conde Brivio e Piero Taruffi. A Maserati tratou de acertar o passo e estreou a nova monoposto 3.0 com tração dianteira, muito aguardada, para Ruggeri, Minozzi e Ernesto, encarregando Fagioli de levar a poderosa V5. A Bugatti levou as T54 para Chiron e Varzi. Com o flagrante domínio das P3 e a potência da V5 Varzi não podia fazer melhor do que um 5º, o primeiro dos demais. Nuvolari e Borzacchini tiveram problemas de alimentação de combustível, Fagioli problemas de câmbio e assim Rudolf obteve a vitoria.

Ordem de chegada: Caractsch, Fagioli, Nuvolari, Borzacchini, Varzi.

Achille vai à Argentina participar de três provas de 150km para ajudar a promover o autódromo General San Martin, que ele tinha inaugurado mais cedo nesse mesmo ano. Começava ali sua ligação com a terra natal de Juan Manoel Fangio.

Em 1933 as principais provas seriam GP de Monaco, GP da França, GP da Bélgica, GP da Itália e GP da Espanha. Este não vinha sendo realizado devido à situação interna do país que, como se sabe, resultou em guerra civil. O da Alemanha acabou sendo cancelado por problemas internos do país, talvez o principal a falta de carros à altura dos concorrentes.

Ao invés de cinco horas de duração passaram a contar as distancias percorridas, 500km, à exceção de Monaco, com 318km.

Para 1933 a Bugatti tem modificações estruturais. Albert Divo substitui “Meo” Constantini como gerente de equipe. Chiron sai para montar a sua própria equipe em sociedade com Caracciola, pilotando Alfa. Williams e Dreyfus, que se destacavam com suas Bugatti independentes foram incorporados à equipe. Ela continuaria com a T51, com melhorias no compressor, e a até então difícil T54, agora inteiramente revisada. Como em 34 teria inicio outra formula técnica, a Bugatti decidiu concentrar a maior parte de seus investimentos no carro novo, a T59.

Mas os italianos não pensavam dessa forma. A Maserati desenvolveu um novo chassis para seu já confiável motor 3 litros 8 em linha. Monoposto, bastante estreito. Ernesto decidiu manter Fagioli como piloto mas optou por alternar pilotos independentes, buscando as melhores opções.

Com dificuldades financeiras a Alfa decidiu abandonar oficialmente as corridas. A herdeira natural seria a Ferrari, mas surpreendentemente as P3, que tinham esmagado a concorrência no ano anterior, ficariam guardadas. Enzo não teve outro remédio senão desenvolver sozinho suas seis Alfa Monza. A primeira coisa que fez foi aumentar a capacidade cubica de 2.3 para 2.6, mantendo Nuvolari e Borzacchini como pilotos principais. Com isso o motor passava a entregar 180HP, potência similar à das T51. Assim ambas tinham velocidade máxima entre 225/230km/h.

Chiron levou para a Scuderia CC as T51 que já possuía e ele e Caratsch compraram duas Alfa Monza e uma Alfa Monza esporte, para correr as 24 Horas de Le Mans e Spa.

Como sempre Túnis abria o campeonato. A Ferrari levou uma Monza 2.6 para Tazio e uma 2.3 para Baconin. A Maserati uma 3.0 para Fagioli. Desta vez a Bugatti resolveu entrar oficialmente e Varzi compareceu com uma  T51 azul clara.

Ele largaria na última fila e o mantuano na quinta, duas à frente.

Largando na segunda, Baconin rapidamente assumiu a liderança. Ao fim da primeira volta Tazio está em 4º, tendo ultrapassado 9 carros, e Varzi em 5º, tendo ultrapassado 13. A promessa de duelo entre os dois era real. E de fato Nuvolari assume a ponta na altura da volta 5, abre de Borzacchini que é seguido de perto por Achille. O ritmo é fortíssimo. Na volta 10, por exemplo, Nuvolari faz o melhor giro da corrida, com média de 150.066km/h. As quebras vão acontecendo e, mais uma vez, Varzi é vitimado. Eixo de transmissão quebrado na volta 12, a mesma em que Fagioli abandona, por quebra do magneto. Vitória tranquila, a partir de então, para a dupla da Ferrari.

O confronto seguinte seria em Monaco que, pela primeira vez, teria o grid decidido por performance e não por sorteio ou ordem crescente dos números dos carros. Não apenas por isso iria se tornar lendário. Era a terceira vez que essa corrida seria disputada e já tinha sido aceita pela autoridade internacional, AIACR, como uma prova Grand Prix, entre as “Grandes Épreuves”, que incluíam o Tourist Trophy e as 500 milhas de Indianápolis entre os GPs citados mais acima.

Na quinta Chiron e Caracciola marcaram os melhores tempos, na faixa de 2.03s. Etancelin, um independente com Alfa 2.3, marcou 2.04s, Tazio e Baconin (Alfa 2.6) ficaram com 2.05s.

Nivola bateu no Bureau du Tabac, felizmente sem se ferir, mas sua Alfa ficou danificada demais. Mais tarde, quase no mesmo lugar, Caracciola teve o famoso acidente que o deixou fora das pistas por um ano, além de gerar dores e o andar manco para o resto da vida. Também prejudicou seriamente os planos da Scuderia CC.

No sábado a classe de Varzi (T51) se mostrou intacta, apesar da sequencia de problemas do ano anterior, e ele fez a pole, com 2.02s. A seu lado largariam Chiron e Baconin, ambos com 2.03s. Na segunda fila Nuvolari largaria logo atrás de Varzi, usando outra Alfa com o motor da acidentada, com Etancelin também com 2.04s e Dreyfus (T51) com 2.05s. Fagioli, inscrito como independente com uma Maserati 3.0, com 2.06s largaria logo atrás de Tazio, completando assim os principais competidores.

Dada a largada Achille aproveitou sua merecida pole e assumiu a ponta, seguido por Borzacchini, Lehoux (T51) e Nivola. Chiron largou mal e prejudicou Philippe Etancelin, e assim atrasou o resto. Nuvolari não demora para embolar com Varzi e os dois passam a se alternar na ponta. O resto fica estável: Borzacchini, Lehoux, Etancelin, Dreyfus, Fagioli, Falchetto (independente, T51), Chiron.

Na volta 30 Achille lidera Nuvolari por um segundo, seguido por Etancelin, Borzacchini, Fagioli, Dreyfus, Chiron. Na volta 40 Nivola lidera Varzi por um segundo, com Borzacchini, Etancelin, Dreyfus, Fagioli, Trossi a seguir. O ritmo era tão forte que este já estava uma volta atrás.

Nuvolari perde momentaneamente o controle, derrapa para cima da calçada mas consegue retomar o curso sem danos. E com mais vontade: é o primeiro a baixar o tempo de volta de 2.02s.

Achille está longe de se assustar e faz o mesmo por duas voltas seguidas.

Na volta 50 Nivola já está um segundo atrás de Achille e vinte à frente de Baconin. Era como se os dois estivessem em uma dimensão à parte.

Mas isso não ia ficar assim. O surpreendente Etancelin vira em 2.01s e passa ao ataque, seguido por Baconin. Na volta 60 Tazio lidera, Achille um segundo atrás, Etancelin outro segundo atrás e Baconin idem. Não estava faltando fogo nessa fogueira mas ela aumenta ainda mais, todos tratam de bater o tempo de volta do francês intruso.

Este se mantém bravamente no grupo até que um rolamento do eixo de transmissão quebra e ele é obrigado a abandonar.

Na volta 70 Nuvolari, Varzi e Borzacchini estão separados por um segundo cada e 90 segundos à frente de Dreyfus. Na volta 78 Varzi troca de lugar com Nuvolari. A média de velocidade vai sempre aumentando, à medida que não afrouxam o ritmo e os tanques se esvaziam.

Na volta 90 Tazio está na ponta e abre quatro segundos mas a tensão da plateia não alivia, todos sabem que nada está decidido, até porque a esta altura os três ponteiros já colocaram uma volta sobre Dreyfus.

Na volta 98 o galliatese assume a liderança. Mas o mantuano dá o troco na altura do Casino. Penúltima volta e Varzi vai ainda mais rápido, estabelecendo o novo recorde da pista, 1’59”, 96.202km/h. Ele volta à liderança, mas Tazio não se entrega. Os dois passam diante do Casino em velocidade suicida. Ambos passam do limite de giros sem dó. Ambos dão tudo que tem. Ninguém pode afrouxar. O público fica de pé. Quem irá aparecer na frente na saída do túnel?

Varzi! grita a platéia, entusiasmada. Mas, e Nivola? Lentamente, deixando uma fumaça preta atrás, a Alfa desliza para fora do túnel. Uma mangueira de óleo tinha escapado.

Os dois tinham se alternado na liderança 21 vezes.  

Épico! Não há outra palavra para classificar esse duelo.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

3 Comments

  1. […] Confira as colunas anteriores clicando aqui. […]

  2. Carlos Chiesa disse:

    Eu também, Rubergil.

  3. Rubergil Jr disse:

    Olha, estava esperando ansioso esta história chegar em Monaco 33. Valeu a pena. Épico! Suei só de ler o texto!

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