Marc Márquez e seu pior rival

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A quarta etapa do Mundial da MotoGP de 2019, disputada em Jerez de La Frontera é, como sempre, o verdadeiro começo da temporada. A razão: as equipes chegam à Europa,continente onde estão suas bases, suas estruturas, e competem em pistas que há décadas pertencem ao calendário da motovelocidade.

Jerez é assim: pela 33ª vez recebeu o Mundial. Só perde para Assen, na Holanda, pista presente nas 70 temporadas até hoje disputadas,e Mugello, na Itália, que em breve marcará sua 34ª presença.

Márquez venceu na clássica (e estreitinha) pista de Jerez de maneira exuberante, dando quase um passeio. Largou na ponta pulando da 3ª posição no grid para a liderança logo na primeira curva e… tchau! Até a metade da corrida teve gente meio perto de sua rabeta, gente que sabíamos – ao menos eu sabia! – que jamais conseguiriam ameaçá-lo seriamente. E assim foi.

Não quero diminuir estes perseguidores mas a real capacidade de ataque de Franco Morbidelli e Fabio Quartararo, respectivamente em sua 2ª e 1ª temporada na MotoGP (pilotando Yamaha satélites, motos que não são da equipe oficial), era reduzida face à Marc Márquez em seu standard natural.

Mais para o final do GP, Quartararo (por quebra) e Morbidelli (baixou o ritmo) cederam o posto de perseguidor a outro jovem, Alex Rins, piloto nº 1 da Suzuki.Aos 23 anos Rins venceu pela primeira vez na MotoGP semanas atrás, em Austin, no Texas, corrida que Márquez liderava com folga quando caiu.

Quem de fato poderia causar alguma preocupação a Márquez na corrida em Jerez não seriam estes jovens citados, mas sim osos mais tarimbados Andrea Dovizioso e sua Ducati ou ele, o velho (40 anos) Valentino Rossi. Em Jerez estes experientes rivais tiveram problemas que os impediram de usaro repertório de pilotagem que é verdadeiramente capaz de, as vezes, confrontar o “magicmoment” de MM93, que já dura anos…

Desde quando estreou na MotoGP em 2013 faturando o título em sua 1ª temporada, Márquez é a referência da categoria. Apenas em 2014 não foi campeão, ano em que talvez desconcentrado pela conquista precoce do Mundial deu mole para o compatriota  Jorge Lorenzo, então na Yamaha. Por “mole” entenda-se perder pontos bobos, caindo na hora errada. Leitura concreta: Márquez perdeu para Lorenzo, não foi Lorenzo que ganhou de Márquez.

Infelizmente para os outros, felizmente para ele, desde que este espanholzinho de Cervera, um pueblito merreca da província de Lérida, na Catalunha, estreou na MotoGP ele em geral só perde para ele mesmo, como fez no GP do Texas, etapa que antecedeu esta de Jerez: liderava folgado e caiu!

Márquez pilota de maneira transbordante, excede limites que pareciam inatingíveis antes que ele os redimensionasse à seu talento. Salva escorregadas de modo desconcertante, desafia as leis da física com frequência e exibe uma pilotagem brutalmente eficiente mesmo se meio “porca”. Explico: virtuoses do guidão são todos esses que alinham para uma corrida da MotoGP. Todavia, como em todas as categorias, quatro ou no máximo cinco deles tem aquele “algo a mais”. É assim desde sempre.

Um desses virtuoses é o companheiro de Marc Márquez na equipe oficial da Honda, Jorge Lorenzo, que recém-chegado à equipe, vindo da Ducati, ainda não se achou com a RC 213V, moto extrema e talhada ao gosto de MM93. Comparativamente em termos de pilotagem, Jorge é um neurocirurgião do guidão: preciso, exato, milimétrico. Se a moto não estiver como gosta para exercer seu ofício, não vai. Em Jerez foi 13º, 20 segundos atrás do companheiro de equipe depois de 25 voltas. Tomou quase um segundo por volta…

Para os matusaléns da Motovelocidade comparo a pilotagem de Márquez ao texano Kevin Schwantz e Jorge Lorenzo a Eddie Lawson, se é que me entendem. Um malabarista, outro violinista.

Alguém gritou aí “e Valentino Rossi?”, “e Andrea Dovizioso?”. Bem, digo que Rossi é incomparável, ainda o maior de todos os tempos.Só que suas 19 temporadas na MotoGP e cinco títulos conquistados o fazem pilotar de modo menos agressivo do que fazia no início. Para mim Rossi só será superado – por Márquez, eventualmente – quando o espanholzinho conseguir mostrar que conseguirá competir até os 40 anos de idade em alto nível (faltam 14 anos…).

Um aspecto brilhante de Rossi é sua capacidade de metamorfosear sua tocada.Estreou na MotoGP no ano 2000 pilotando as 500 com motores 2 Tempos. Na passagem para as 1000 quatro tempos teve que mudar seu estilo e de todas as máquinas que pilotou só não se entendeu com sua compatriota, a italiana Ducati, com a qual empenhou duas temporadas nas quais, se tivesse continuado na Yamaha, poderia ter sido campeão.

Quanto a Dovizioso, se comparado a Márquez o italiano é suave, gradual, eficiente mas não espetacular. Em meio como era Wayne Rainey, rival de Kevin Schwantz (e Eddie Lawson) nos fim dos anos 1980, começo dos 1990.

Volto a Márquez, à temporada 2019 e ao que disse no início: a temporada começou de verdade agorinha em Jerez e MM93 venceu sem incômodos. Ele é seu pior rival e, mesmo a Honda tendo lhe dado uma moto este ano que parece ter alguns probleminhas, o espanhol só não será campeão se adotar uma pilotagem autodestrutiva, exagerada.Exagerar está no DNA de Márquez, e esta é a esperança de seus rivais. Cai muito Márquez, mas não se machuca, e assim desejo que continue.

Elegi os rivais mais insidiosos de MM93 (fora ele mesmo) Rossi e Dovizioso, que contam com ferramentas diferentes: o primeiro a regularidade e força psicológica, e a arte de se aproveitar de situações favoráveis – ou criá-las para dizer a verdade. Já Dovi, além de ser frio como um peixe, tem nas mãos a Ducati, moto especial, talvez a mais evoluída máquina do grid, mas que nem sempre funciona perfeitamente a ponto de lhe dar o poder de superar o virtuosismo quase que irresponsável de Márquez.

Esse é o retrato deste momento da temporada que de agora até o final de setembro terá 10 corridas, todas elas na Europa, pistas clássicas que vão delinear o campeonato mais disputado de todo o esporte a motor mundial. Apesar de Marc Márquez…

P.S.: devo dar uma palavrinha sobre o autor da pole em Jerez, o jovem – 20 anos – Fabio Quartararo. Francês, sem grande currículo nas categorias de acesso,ele para muitos estreou na categoria máxima antes da hora. Em quatro corridas Fabio provou que sua estreia na MotoGP não foi tão precoce assim. Abandonou a corrida em Jerez quando era 2ª colocado perseguindo Márquez por conta da quebra da alavanca de câmbio… Perguntado sobre como fez a pole e ser tão rápido com uma Yamaha não oficial, Quartararo respondeu: “desliguei meu cérebro!” Isso diz tudo sobre o que é pilotar rápido uma motocicleta. Pura intuição, inteligência física e espacial, racionalidade quase a zero. Afinal, a razão rouba tempo de volta quando se está ao guidão…

Roberto Agresti
Roberto Agresti
"Rato" de Interlagos que, com sorte (e expediente), visitou profissionalmente Hockenheim, Mônaco, Monza, Suzuka e outras. Sempre com uma câmera na mão e uma caneta na outra.

4 Comments

  1. Marcelo Barroso disse:

    Muito preciso na análise desse ponto do campeonato e a individual de cada adversário real no caminho do Espanhol.

  2. Gus disse:

    Marquez é tão superlativo que arrancaria vitórias até com equipes satélites; malgrado o monumento que Rossi foi, Marquez está acima mesmo se a gente voltasse a relembrar dos anos de ouro do italiano. Sua superioridade é gritante demais, sua imposição sobre os outros é massiva demais, você nunca vai esperar – depois desses anos todos acompanhando – que ele será superado por qualquer companheiro de equipe, mesmo que seja em uma única corrida. Marquez perder uma prova que seja já é motivo de espanto atualmente, depois de mastigar Pedrosa por muitos anos, estamos já conformados que Lorenzo – antes um campeão tão respeitado – terá o mesmo triste destino. E não adianta ele se habituar a moto e recuperar o vigor físico pleno, vai ficar em quinto plano, o que pode denotar que a Honda talvez não seja a melhor moto disparada do grid, talvez seja apenas muito boa em todos os pontos mas não excelente.
    Sou torcedor de Rossi, mas o espanhol é pura força da natureza, não precisará chegar aos 40 anos pilotando competitivamente se muito antes de chegar lá, continuar com esse ritual de títulos e de destruição dos adversários.
    Claro, seria interessante ele aceitar o desafio em uma nova equipe, tal como Sebastian Loeb no grupo PSA dos seus anos de ouro, um multi campeão perde parte do seu brilho se defendeu e ganhou títulos apenas por uma marca.

  3. Fernando Marques disse:

    Roberto

    comentário perfeito
    não sei se estou errado mas a Yamaha e a Ducatti precisam fazer algo a mais para permitir que Rossi e Dovizioso possam ao menos tentar parar o Marc Marquez … que como vc mesmo disse não tem uma Honda lá de outro planeta este ano … será possível isso ainda este ano???

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Mauro Santana disse:

    Belíssimo Texto, Agresti!

    E a sua comparação das Feras atuais, com as Lendas dos anos 80, foi perfeita.

    E essa temporada de 2019 promete demais.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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