O plano de 4 anos

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Flavio é um fantasma que volta e meia nos assombra; Bernie é a múmia que reina eternamente.

Nenhum de nós vive num mundo paralelo, achando que a Fórmula 1 é uma categoria 100% limpa, onde só se vence com trabalho e talento. No entanto, apesar disso, a verdade é que amamos esse esporte miserável.

Quando escutamos alguns nomes relacionados à história da F1, muitos causam repulsa; mas poucos (ou nenhum) são tão repugnantes quanto Flavio Briatore. Diretamente responsável pela ascensão de dois dos maiores pilotos da F1 nos últimos 20 anos, o italiano conseguiu muito mais destaques negativos do que as possíveis menções positivas que seus 3 mundiais de construtores merecem.

Junto a ele, temos Bernie Ecclestone, que talvez seja até mais odiado pelos fãs de F-1 (afinal de contas, Edu chegou a decretar sua pena de morte!), mas que não tem tantos escândalos associados a seu nome. Pelo contrário, Ecclestone é visto como o “homem que trouxe segurança à Fórmula 1” e que “transformou a categoria no maior business do mundo esportivo“.

Nem mesmo no famoso caso das vendas de ações da F1 em 2005, pelo qual Ecclestone chegou a ser investigado judicialmente, houve manchas: “foi Briatore quem pagou Gribkowsky“, said Bernie.

Assim, Briatore e Ecclestone seriam uma espécie de José Dirceu e Luis Blindado Lula da Silva da F-1.

Bernie e Briatore sempre andaram juntos: sabedores que são de como ganhar dinheiro, estão sempre atentos às diversas maneiras de triunfar seja no esporte ou através do esporte, pouco importando o que custe – às vezes, quem custe.

A engenhosidade da dupla foi vista já no início dos anos 90, na infame situação envolvendo Jordan Team-Roberto Moreno-Michael Schumacher; em 1994, já com tudo estabelecido, vimos as punições com cara de vista grossa à Benetton e ao piloto alemão. Até imagino Ecclestone falando com Briatore: “Bloody hell, you have to be more careful!”.

A dupla se reuniria até mesmo contra Schumacher, se preciso fosse: na famigerada estacionada de Schumy na Rascasse, em 2006, foi Briatore quem sentou com Ecclestone ‘solicitando’ a punição imediata ao piloto alemão.

Mas Ecclestone nem sempre livrou a barra do italiano, e “lavou as mãos” quando necessário: a punição a Alonso em Monza, 2006, ou a expulsão de Flavio da F-1 após o “Singapuragate” em 2009.

Um ano e meio depois da revelação do ‘Nelsinho crash’ (em fins de abril de 2011), o Queens Park Rangers conseguia finalmente seu acesso à primeira divisão do Campeonato Inglês de Futebol, depois de 15 anos sem disputar a “Premier League”.

Classificação que entrou em cheque, dias depois: o clube havia feito um contrato fora dos termos (vamos ser polidos, ok?) com o jogador Alejandro Faurlin em 2009. Feitas as “investigações” e tudo mais, não houve restrições à participação do QPR na temporada 2011-12 da liga inglesa.

Ok… mas qual a relação entre Queens Park Rangers e os supracitados magnatas da F-1? Voltamos no tempo outra vez.

Há duas semanas, postei em nossa página do FaceBook uma notícia que li em dezembro último no jornal “The Guardian”, falando sobre um determinado documentário que estava sendo feito. Chama-se “The 4 year plan”, lançado ano passado.

Confira a entrevista com o diretor, e um trailer da produção:

O roteiro: em 3 de setembro de 2007, Briatore e Ecclestone, juntamente ao magnata Lakshmi Mittal, compraram o clube (que estava à beira da falência) e traçaram um plano: em 4 anos, retornariam à primeira divisão. Não sei se este foi mesmo o prazo estipulado, mas a trajetória dos 48 meses foi cuidadosa e meticulosamente registrada no documentário.

Uma frase curiosa de Bernie Ecclestone, dita quando toda a farsa de Singapura foi descoberta, ilustra bem a importância do clube inglês para eles: “É uma pena que Flavio tenha terminado sua carreira na Fórmula 1 desta forma (…) Ao menos agora, terá mais tempo para cuidar do Queens Park Rangers“.

Depois do retorno à primeira divisão e um primeiro ano sofrido, a equipe vai de mal a pior: não fosse pelo goleiro brazuca Julio César, o time mal teria pontuado.

A imprensa inglesa já começa a ver um futuro ainda mais tenebroso do que a década e meia que antecedeu o retorno à primeira divisão para o QPR: o dinheiro está sumindo e, para ainda ter chance de evitar a bancarrota, é preciso se manter na Premier League.

Não, caro leitor, não pense que Briatore e Ecclestone deram “um tiro no pé” ou que estejam com quaisquer problemas financeiros. A grande sacada vem agora: em agosto de 2011 eles venderam os seus 66,6% (número sugestivo, não?) das ações para Tony Fernandes – aquele, da Caterham – pela quantia de 100 milhões de libras esterlinas (mais de 310 milhões de reais!). Quanto foi pago na compra? £14 mi.

Outro detalhe importante: não gastaram um centavo (sem hipérboles) próprio na compra de jogadores ou na ampliação/reforma do estádio da equipe, que comporta nove mil lugares!

Bloody hell!”, de novo.

É o sadismo da dupla dando as caras novamente: depois de quase duas décadas de “parceria” na F1, encontraram no futebol o ambiente perfeito para sua proliferação.

Flavio é um fantasma que volta e meia nos assombra; Bernie é a múmia que reina eternamente.

Mas um dia eles vão cair pra segunda divisão.

Amém!

Marcel Pilatti

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

8 Comments

  1. Fernando marques disse:

    Olá amigos,

    infelizmente a conclusão que se chega é que com a chegada da era Schumacher também se chegou a era das falcatruas e que se mantem até hoje … a maioria delas cometidas pela Ferrari que deve ter aprendido muito com o esquema Schumacher e que de certa forma acontece com Alonso que sempre quis desfrutar das regalias do Alemão … que não conseguiu na Mclaren e teve um pouco e/ou bastante na Bennetton como no caso de Cingapura … mas na Ferrari ele desfruta de tudo e a prova disso são as imorais mas legais manobras que a equipe sempre faz a favor do Asturiano … pena que o Massa, em troca de dinheiro, se sujeite a isto tudo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Marcel Pilatti disse:

      Money, Fernando, money. É a resposta de tudo, infelizmente.

      Abraços!

    • Fernando marques disse:

      Marcelo,

      talvez seja melhor a gente ignorar estes fatos e continuar assistindo as corridas como se elas tivessem um espirito esportivo no melhor sentido da palavra …


      E pelo que li as incertezas criadas pelos pneus em 2012 prometem em 2013 …

      Fernando Marques
      Niterói RJ

  2. Bruno Wenson disse:

    Compram por 14 milhões. Nada muda quase, tá falindo, pra cair pra segundona, e ainda é vendido por 100 milhões????
    Como é que se valoriza tanto uma coisa que não tá valendo nada, teoricamente???
    Como em equipe de F1 isso não acontece??
    Me impressiona como essa gente consegue fazer valorizar o que vale nada.

    • Ballista disse:

      Os escândalos de resultados arranjados no futebol que vieram à tona na última semana pode ser uma resposta à sua pergunta, Bruno. Não duvido de mais nada.

      Abraços

  3. Ballista disse:

    Belo texto Marcel.

    Particularmente, tenho um ódio maior por Ecclestone do que por Briatore. Basta dizer que o anão inglês é o principal motivador do “regulamento de merda” que está presente na categoria desde o início da última década. Como você bem definiu, enquanto Briatore é o José Dirceu, Bernie está sempre se safando, como Lula.

    Sobre o Queens Park Rangers, não sabia da participação de ambos nos negócios do time. Diversificar os negócios é sempre bom para os pilantras, pois permite lucros extras e uma possibilidade a mais de lavar o dinheiro sujo de operações excusas.

    E coitado (será?) do Tony Fernandes, que comprou o time por 10 vezes mais do que vale.

    O pior de tudo isso é saber que o esporte que acompanhamos sempre será influenciado cada vez mais pelo lado dos negócios. Na verdade, podemos dizer que atualmente a F1 é ditada pelos negócios, assim como o futebol. O jeito é conviver com isso. Como diria Didi Mocó, me engana que eu gosto.

    Abraço

  4. Lucas Giavoni disse:

    Excelente texto, amigão.

    Há um terceiro personagem nefasto que faz parte da trajetória dessa dupla. Este é Mack Mouse. Mas se você o incluísse no texto, eu talvez não resistisse. Vomitaria em cima do teclado.

    Sobre Tio Bernie, quero ver ele se livrar da justiça alemã. A propina que ele pagou na ocasião da transferência das ações da F1 para a CVC já foi comprovada, e o banqueiro Gerhard Gribkowsky, que recebeu uma maleta com 45 milhões de euros, jaz em cana. Caso o anão seja condenado, não poderá pisar em qualquer ponto da União Europeia.

    Isso é muito mais do que cair para a segundona. É ser expulso do jogo. Para sempre.

    Abração!

    Lucas Giavoni

    • Ballista disse:

      Tomara que seja este o resultado dos tribunais alemães. Se o Mad Max caiu, tenho esperanças de ver o Berne (sic) caindo também.

      Abraços

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