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Lewis Hamilton chegou ao seu terceiro e muito esperado título mundial: o que ainda falta para o inglês?

E eis que a Fórmula 1 conheceu neste domingo o décimo piloto em sua história a conquistar ao menos três títulos mundiais. Com a vitória no agitado GP dos Estados Unidos – sua décima na atual temporada – o inglês Lewis Hamilton sagrou-se tricampeão com nada menos do que três corridas de antecipação, e ingressou no seleto grupo formado por Jackie Stewart, Niki Lauda e Nelson Piquet, além dos imortais Jack Brabham e Ayrton Senna.

A ocasião, claro, vale mais do que qualquer vestígio de surpresa, uma vez que a conquista era apenas uma formalidade. Afinal, não apenas Lewis fez uma campanha muito mais sólida no que as que lhe valeram os dois primeiros títulos, como também Rosberg mostrou-se um piloto bastante opaco ao longo da maior parte de uma temporada, que, coincidência ou não, se desenrolou ao longo de um período bastante conturbado de sua vida pessoal. A rigor, se o título não fosse decidido nos Estados Unidos seria no México – e boa partes dos espectadores brasileiros, em especial a parcela que não tem acesso a canais de tevê por assinatura, não veria a prova do mesmo jeito.

Uma pena, porque além do momento histórico, a corrida em si também foi bem interessante, sobretudo graças à instabilidade climática que deu o tom de todo o fim de semana texano.

No fim de semana em que garantiu seu espaço entre os maiores de todos os tempos, Hamilton teve de dividir as manchetes com um nome feminino: Patrícia. E desta vez não estamos falando de nenhuma cantora pop, como as que habitualmente acompanham o novo tricampeão nas pistas do mundo, mas sim de um furacão no sentido literal, que causou muitos estragos na zona que se estende do sudoeste americano ao noroeste mexicano.

Patrícia chegou a ameaçar seriamente a realização do evento, a tal ponto que a classificação teve de ser realizada de forma precária na manhã de domingo, com o grid sendo definido pouco antes da largada, e assim mesmo com os tempos anotados na Q2. Mas, dadas as circunstâncias, até que foi bom demais.

Curiosamente, durante a prova não choveu. Contudo, as sessenta horas praticamente ininterruptas de forte precipitação não apenas deixaram a pista bastante molhada nas voltas iniciais, como também comprometeram de forma significativa a capacidade de drenagem do autódromo – que jamais ficou completamente seco, mesmo com toda a ação ao longo das 56 voltas.

Assim, como tantas vezes acontece em corridas com pista molhada, a quantidade de alternâncias e subtramas acabou sendo tão grande que seria fácil perder os fatores decisivos em meio a distrações. Basicamente, os carros da Red Bull entregaram o melhor desempenho com pista úmida, pressionando as Mercedes a ponto de primeiro Kvyat, durante alguns metros, e depois Ricciardo, de forma consistente, conseguirem assumir a liderança da corrida.

A prova começou a mudar de rumo a partir da volta 18, quando os pneus intermediários de Hamilton foram para o bagaço, e em seu retorno com pneus slicks macios ele começou a virar mais rápido que todo mundo. Na volta seguinte todos os líderes fizeram suas trocas, e nessa altura a soberania das Mercedes voltou a se fazer notar. Os pilotos da Red Bull perderam terreno rapidamente, ao mesmo tempo em que as Ferraris – que já vinham andando muito bem na chuva, escalando o pelotão após serem penalizadas pela utilização do quinto motor no ano – continuaram sua progressão.

Em meio a quatro intervenções do carro de segurança (real ou virtual) Rosberg e Hamilton seguiram caminhos diferentes, de tal forma que o alemão liderava a sete voltas do fim com pneus quatro voltas mais gastos. A disputa entre os dois prometia ser interessante, até que o filho de Keke deu uma daquelas escorregadas que em outros tempos o teria levado à caixa de brita, e acabou entregando de bandeja a vitória e o título mundial. Vettel foi terceiro e Kimi só não foi o quarto porque fez brilhar os olhos dos fãs de Gilles Villeneuve quando escorregou, atravessou a brita, atingiu uma barreira de proteção, empenou o carro todo e, em vez de bater no cinto e abandonar, simplesmente ignorou tudo e trouxe a barata de volta à pista, como bom viking que é. Um duto de freio danificado, no entanto, o impediria de continuar.

Saindo das linhas gerais para os detalhes, o GP dos Estados Unidos produziu alguns lances dignos de menção. Além do já citado momento Villeneuve de Kimi, há que se registrar a linda ultrapassagem de Ricciardo sobre Hamilton, o australiano segurando o carro no limite em meio a diversas perdas de aderência enquanto encurtava a linha normal numa curva de raio longo.

Também não podemos deixar de abordar a desnecessário e feiosa espalhada de Hamilton na curva 1, deliberadamente jogando Rosberg para fora da pista logo após a largada, numa síntese de tudo que não queremos ver nas pistas. Sob vários aspectos, aliás, essa manobra faz lembrar o momento mais comentado do fim de semana, envolvendo Rossi e Márquez, sobre o qual falaremos daqui a pouco. Importante salientar, contudo, que o episódio envolvendo Hamilton e Rosberg teve muito menos contexto envolvido do que seu sucedâneo em duas rodas.

Em termos estatísticos, parece não ter muita importância mas Hamilton superou o número de vitórias de Sebastian Vettel, tornando-se o terceiro maior vencedor na história da F1, a oito triunfos de alcançar Alain Prost. Os dois, aliás, já somam sete títulos mundiais, todos eles conquistados nos últimos oito anos, num monopólio alternado que, infelizmente, ainda não comportou um confronto direto, em igualdade de equipamento.

Milionários, multicampeões e ainda jovens, às biografias de Hamilton e Vettel parece faltar justamente isso, o funil definitivo, o encontro dos Highlanders, o drama, o limite emocional que diferencia craques de lendas. Falo aqui de encontro nos respectivos auges, envolvendo disputa direta pelo título mundial. Alonso, aliás, está neste mesmo barco. Como diria o mestre Yoda: “então, e só então, um Jedi você será”.

Fica, desde já a pergunta: será que essa geração de grandes talentos irá passar sem esses confrontos tão aguardados e que podem, melhor do que qualquer regra besta, resgatar o interesse pela categoria?

O que os leitores pensam?

Publiquei em nossa página do Facebook, ainda no calor da emoção, um texto a respeito do polêmico GP da Malásia da MotoGP. Desde então já revi minha opinião a partir de outras análises e da própria avaliação cuidadosa das imagens e do contexto imposto a Rossi antes do confronto decisivo.

A este respeito, recomendo fortemente a leitura da reflexão proposta pelo amigo Alexander Grünwald, do SpotTV.

 

Abraços, e uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

12 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    a Formula 1 precisa ficar mais simples. Precisa ter um regulamento mais simples.
    Em Austin, assim que a pista começou a ficar “seca” o Button fez a melhor volta da corrida até então com 1 min e 48 segundos mais ou menos … depois que Hamilton botou calçado novo andou em 1 min e 42 segundos … esta disparidade na Formula 1 é que precisa acabar … aí saberemos se temos realmente grandes pilotos na atual Formula 1.

    Fernando Marques

    • Mauro Santana disse:

      Perfeito Fernando!!

      Nos últimos anos o dominio foi do Vettel e agora Hamilton.

      Então, temos que ter uma distância menor entre as equipes, pra que os duelos aconteçam de verdade em condições normais.

      Mauro

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Texto Amigo Márcio!

    Hamilton está numa excelente fase, reinando absoluto na Mercedes, com o Rosberg agindo igual o Barrica nos tempos de Ferrari.

    Infelizmente, por conta de regulamentos cada vez piores, temos grandes pilotos e campeões sendo limados das disputas por contar com equipamentos limitados.

    Com certeza, teríamos grandes duelos com quatro ou cinco pilotos lutando pelas vitórias e títulos.

    Uma pena!

    Eu estou do lado do Rossi, e o Marquez está agindo de maneira infantil demais.

    Já o Lorenzo chora muito, e com este duelo soltando faíscas entre o 46 x 93, ele ficou totalmente escanteado.

    Força Rossi!!!

    Abraço

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Fernando Marques disse:

      Mauro,

      também estou na torcida pelo Rossi, apesar de admirar demais o Marc Marquez.

      Fernando Marques

  3. Lucas dos Santos disse:

    Mais uma corrida praticamente sem treinos livres e que, por conta disso foi movimentada e imprevisível!

    Estou começando a acreditar que a “receita” para corridas assim é acabar com os treinos livres ou diminuí-los – ao invés de três treinos livres, realizar um apenas. Japão e Rússia também tiveram treinos livres limitados pela chuva e isso rendeu ótimas corridas!

    O que os colegas acham da idéia?

  4. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    respondendo a sua pergunta acho que a Formula 1 chegaria ao auge de emoções se Hamilton, Vettel e Alonso corressem pela Mercedes. Seria emoção nas pistas e fora dela para ver quem era mais quem na equipe.
    Quanto ao tri do Hamilton … ele sobrou nas pistas e na Mercedes … não deu chance pra ninguém …o N. Rosberg virou um Barrichello dos tempos do Schumacher/ Ferrari. Foi engolido e teve que ficar quieto. Com certeza Hamilton foi o melhor já visto de Hamilton desde que ele chegou a Formula 1.
    A reflexão do Alexander Grunwald me parece bem coerente por tudo o que está acontecendo entre Rossi e Marquez nesta temporada. A patada do Rossi me parece ter sido o climax deste duelo, que neste momento me parece mais importante do que o próprio duelo entre Rossi e Lorenzo pelo titulo desta temporada, que já está em segundo plano. A expectativa total está girando entre Rossi e Marquez. O que acontecerá na ultima etapa é uma grande incógnita o que fará do GP de Valencia uma corrida imperdível.

    Fernando Marquez
    Niterói RJ

  5. Rodolfo César disse:

    Em resposta para a pergunta lançada… Acho que isso não depende dos talentosos pilotos, mas sim da própria F1. A rigidez das regras que dificultam o trabalho das equipes de buscarem soluções para alcançar os ponteiros e a falta de estabilidade das mesmas são os grandes vilões para isso (aliás, de vilões a F1 está cheia!).

    Como é possível em um curto espaço de tempo alguém produzir um motor e dá a este confiabilidade suficiente para competir com a Mercedes? Se uma nova montadora se “interessar” em colocar um novo motor na categoria, como vai conseguir alcançar a Mercedes havendo tantas restrições em testes e atualizações? O próprio regulamento prejudica essa evolução, basta olhar o que ocorre com a Honda e a Renault!

    Quanto a falta de instabilidade das regras, basta citar as ideias do Bernie em querer voltar os V8 junto com os turbos V6 ou utilizar os motores da Indy… Não dá pra garantir que esses motores V6 vão ficar para próxima década. A McLaren, por exemplo, parece que precisa atualizar seu túnel de vento, mas há riscos de que essa tecnologia seja banida logo! Se as regras do jogo continuarem mudando constantemente é impossível estabelecer uma igualdade futura entre as principais equipes (haverá sempre alguém se beneficiando do “status quo” e todos os demais correndo atrás do prejuízo).

    Tem muita coisa errada na F1 e é isso que atrapalha para nós vislumbrarmos em Hamilton e Vettel o quanto são bons, de colocá-los no mesmo patamar de antigos campeões… e o pior é que, talvez, sejam até melhores que muitos outros que passaram pela história!

    Enfim, pra ser sincero nesse fim de semana acabei preterindo a F1 pela Nascar (foi a primeira vez que fiz isso). Depois acabei assistindo o compacto da corrida, mas, apesar de ter sido um grande prêmio interessante, acho que elegi a melhor escolha… A corrida em Talladega foi emocionante do começo ao fim e por lá a lógica não é uma certeza…

    Hamilton é tri e muito provavelmente será tetra, vou ficar torcendo para a Ferrari evoluir tanto quanto evoluiu em comparação a 2014 e que na McLaren aconteça um milagre!

    Abraços!

  6. Salve Lucas!
    Concordo contigo, mas não é justamente essa a grande ressalva feita à carreira de Schumacher?
    Alonso e Hamilton dividiram a mesma equipe (literalmente), mas Lewis havia acabado de chegar, e acabou perdendo aquele título para a própria inexperiência. Räikkönen, por sua vez, é um dos grandes talentos do esporte, mas precisa ter a motivação correta para render tudo que pode.
    Minha referência foi mesmo em relação a vermos Alonso, Vettel e Hamilton, em seus auges, brigando ponto a ponto por um título mundial, dispondo do mesmo equipamento.
    Um confronto nesses moldes essa geração ainda não produziu.
    Abraço!

    • Lucas disse:

      Isso é verdade, mas acho que mesmo faltando aquilo que nós mais gostaríamos de ver, acho que já deu pra tirar algumas conclusões sobre quem não está disputando título que não seriam possíveis sem esses confrontos todos:
      1) Vettel pode não ser tão sensível a condições fora de suas preferências para carro como o Kimi, mas também pode sofrer com isso – como visto em 2010 e, de forma muito mais pronunciada, em 2014.
      2) Button é um piloto muito subestimado. Pode “só ter sido campeão com o melhor carro”, mas seus desempenhos frente ao Hamilton e ao Alonso mostram que ele está longe de ser só um cara que estava no lugar certo na hora certa.
      3) Alonso é um fora de série muito maior que seus números sugerem. São raros os pilotos na história da F1 que tantas vezes tiveram como companheiro pilotos de altíssima qualidade (no caso de Alonso foram três campeões mundiais e mais alguns pilotos considerados velocíssimos até ficarem em igualdade de condições em relação a ele, como Fisichella e Trulli) e nunca “passaram vergonha” frente a nenhum deles. Se não me engano o Alonso é o único piloto na ativa que, em corridas completadas pelos dois carros, sempre bateu o companheiro mais vezes que foi batido em todas as temporadas que correu.
      Acho que por si só essas coisas já são bem interessantes, embora, de fato, seria muito mais legal mesmo se tivéssemos Hamilton, Vettel, Alonso e Button com carros bons o suficiente pra disputar entre si, e o Räikkönen com um carro em que se sinta confortável, já que o finlandês é bom (por vezes genial), mas muito “enjoado” nesse aspecto.

  7. Lucas disse:

    Que coisa, eu já acho que a geração atual é uma das mais “bem testadas” da história. Dos campeões atuais, já tivemos embates diretos entre Hamilton e Button, Hamilton e Alonso, Alonso e Button, Alonso e Räikkönen e Vettel e Räikkönen. A nível de comparação, dentre os quatro campeões mundiais na ativa na segunda metade da década de 90, os únicos embates diretos que tivemos foram as 16 corridas em que Hill e Villeneuve correram juntos. Hakkinen só teve um breve período no mesmo carro que Senna muitos anos antes, enquanto Schumacher, após meia temporada ao lado de Piquet nunca mais teve um único campeão como companheiro.
    Claro que seria muito melhor se víssemos um dos outros campeões na Mercedes dando mais trabalho ao Hamilton, mas acho que já vimos situações muito piores (o que dizer do período de dominação da Ferrari?)

    • Ronaldo disse:

      Mas eu acho que a questão proposta não é exatamente esta. Estar em carros iguais em um mesmo ano não é parâmetro. A exemplo do que está acontecendo na garagem da Yamaha nos últimos dois anos, brigar para estar à frente do companheiro nunca terá o mesmo significado de brigar para estar na frente de todos os outros mortais. Os confrontos que você citou, Hamilton e Button, Hamilton e Alonso, Alonso e Button, Alonso e Räikkönen e Vettel e Räikkönen, não valeram, na verdade, nada! podemos dizer que as temporadas de 2010 e 2012 foram mais intensas no que toca à competitividade, mas havia mais variáveis em jogo, que renderam até vitória para Pastor Maldonado. O maior duelo entre Vettel e Hamilton aconteceu na f3 inglesa; não vimos ainda uma briga pela ponta entre os maiores, excluindo obviamente o duelo AlonsoXHamilton em 2007, especialmente nos EUA e Mônaco daquele ano. Mas também neste caso, o teste não foi conclusivo, pois nenhum dos dois saiu com a taça, permitindo, aliás, que um terceiro gaiato surgisse circunstancialmente (portanto, bem diferente de prost 1986), e levasse a taça. Em uma análise mais fria é até possível afirmar que no embate entre eles, ambos perderam.

    • Lucas disse:

      Bom, depende do ponto de vista. Estas disputas pra mim são as mais importantes de todas, pois dá pra realmente saber como dois pilotos realmente se comparam um ao outro. Como o Márcio comentou, a grande ressalva da carreira do Schumacher foi não ter sido realmente testado em igualdade de condições contra os pilotos de sua geração (mesmo sendo quase consenso que ele tenha sido o melhor após a saída do “quarteto fantástico” e antes da chegada dessa molecada que está aí hoje, a gente sempre fica com uma pulga atrás da orelha – será que na mesma equipe e sem preferências ele realmente bateria um Hakkinen facilmente? Com dificuldade? Ou seria batido? É pena que nunca saberemos a resposta).

      Claro que muitas vezes damos azar dessas disputas se darem em carros que não disputam nada (no que talvez seja o melhor exemplo de toda a história da F1, hoje temos dois campeões numa equipe que só não é a pior do grid porque existe a Manor), mas na minha opinião não é necessário que eles disputem título para que a briga valha a pena ser vista. A não ser nesses casos extremos como o da própria McLaren de 2015 em que nem dá pra tirar grandes conclusões já que não deve ter havido um único fim de semana sem algum problema em pelo menos um dos dois carros…

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