O Rato que ruge

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40 anos do primeiro título de Emerson Fittipaldi: nada mais justo que uma homenagem.

Esse era o nome de uma comédia com Peter Sellers, de 1959. Um fictício e minúsculo país europeu se vê à beira da bancarrota. Qualquer semelhança com o que ocorre hoje com alguns países dessa região do globo deve ter sido futurologia involuntária.

Os dirigentes do Grão-Ducado de Fenwick decidem que o melhor jeito de sair da falência é declarar guerra aos Estados Unidos e, logicamente, perder. Perdendo, aceitariam ajuda externa, como ocorreu com a Alemanha Ocidental, por exemplo, beneficiada pelo Plano Marshall.

Só que – surpresa – eles ganham!

Imagino que foi mais ou menos o que ocorreu quando nosso Emerson, conhecido como Rato quando era apenas o irmão do Tigrão, venceu seu primeiro GP, depois tornou-se campeão, vice, campeão pela segunda vez… impondo-se como o mais eficiente rival do piloto de referencia da época, Jackie Stewart.

Ele pegou uma F1 desacostumada com a presença de pilotos sul-americanos. É bom que se diga que Emerson não foi o primeiro brasileiro na categoria e ele, muito corretamente, frisou isto durante homenagem recente.

Chico Landi, o primeiro brasileiro a correr com uma Ferrari de F1, tornou-se um ícone no Brasil, mas não na Europa, independente de seu talento e de ter vencido um GP, em 1948.

De modo que aquele rapaz que estava em sua terceira corrida de Lotus F2 depois de ter feito meia temporada de F-Ford e meia de F3 era um ser estranho na Inglaterra do início dos anos 70.

Estranho mas que mostrava serviço. Já estava incumbido de testar, exaustivamente, os Lotus de F2 e F3, devido aos bons resultados obtidos nessas categorias com os carros dessa marca.

Fazia isso na pista de provas de Hethel e em Snetterton.

De seu escritório Colin Chapman podia ver a pista e andava sempre com um cronômetro. Não era à toa que tinha bom olho para descobrir novos talentos.

Um dia Emerson estava chegando na fábrica de Hethel e viu Colin saindo da garagem com seu Elan. Este viu o Rato e parou.

“Alô, Emerson! Gostaria que você testasse um Formula 1 para nós.”

Alguns dias depois Colin leva Emerson para Silverstone em seu Piper Navajo.

Jochen Rindt estava lá para testar uma nova suspensão na 72 com vistas ao próximo GP, em Zandvoort, Holanda.

Colin pediu para Jochen dar umas voltas com a 49 que tinha vencido em Monaco para ver se o carro estava em ordem.

O austríaco fez três ou quatro voltas sem forçar muito e liberou o cockpit.

Após os necessários ajustes de direção e pedais, porque Rindt era mais alto, o Rato foi para a pista.

Tratou de apenas sentir o carro nas primeiras voltas. Ele sabia que se andasse devagar demais Colin não iria gostar e se tentasse andar depressa demais poderia estragar o carro, causando o mesmo efeito.

Emerson percebe que um F1 era muito mais fácil de dirigir do que ele imaginava. E olhe que sua maior experiência com monopostos tinha sido com os F-Vê de 40HP, no Brasil.

Desde o começo podia andar perto do limite mas o carro estava saindo muito de frente.

Ele pára no boxe e pede mais aerofólio dianteiro.

Mais tarde Emerson soube que tinham deixado propositalmente pouco aerofólio exatamente para avaliar sua percepção e reação com um carro desconhecido.

Com o aerofólio do jeito que queria, esse Rato começou a se sentir mais à vontade nesse novo meio ambiente. Ele gostava de circuitos rápidos com curvas rápidas.

Ele pára novamente para pedir novos ajustes.

Rindt, que a esta altura estava observando, interfere: “Sabe o que é preciso para fazer o carro parar de sair de traseira? Apertar o acelerador com força!”

O Rato sai e vira 1’24”, tempo bastante bom para Silverstone naquela época. Baixa para 1’23 e seis. 1’23 e cinco. Na volta seguinte é o próprio Jochen quem está segurando a placa, entusiasmado com os tempos do novato.

Um gesto autêntico, de um verdadeiro campeão, um talento que pode reconhecer outro talento sem se sentir ameaçado.

O treino termina por volta de 1’22 e oito e os consequentes elogios do boss. Todos estavam felizes. O Rato encontrara seu habitat ideal.

No segundo dia de treinamento em Zandvoort, Colin estava ao lado de Elizabeth Hayward cronometrando os tempos do 72. De repente ele volta-se para ela, todo cheio de si, e proclama: “Tenho comigo o futuro campeão mundial. Ele nem mesmo está aqui. Está ainda na F2.”

Apesar de uma oferta muito tentadora de Frank Williams, Emerson assina com Colin por dois anos e é escalado para o GP da Inglaterra, em Brands Hatch.

O 49 e essa pista tinham diferenças irreconciliáveis e Emerson vai largar em último. Ninguém acha que foi incompetência ou inexperiência. Ao lado dele está ninguém menos que Graham Hill, com outro Lotus 49.

O carro de Emerson está com problemas de dirigibilidade e bate demais no chão, mas ele encara uma briga com Cevert, já guiando para Ken Tyrrell, e o ultrapassa.

Logo depois perde a quarta marcha.

Obrigado a passar da terceira para a última, todo mundo pensa que seu motor está perdendo força. Inclusive porque emitia um ruído horrível. Mas Emerson sabia que estava tudo em ordem no motor e era apenas um buraco no escapamento. Não, não havia telemetria nem rádio na época para informar a ele qual era o problema. Não pára no boxe, como era de se esperar, porque sabia que não iria resolver nada. Chega em oitavo, apenas duas posições distante da então zona de pontos, em sua estréia.

Presto aqui minha homenagem ao primeiro brasileiro campeão mundial de pilotos, aos 40 anos da conquista de seu primeiro título. Esta passagem de sua carreira, a meu ver, é um vídeo de sala de parto, mostrando como nasce um campeão. E não é um campeão qualquer. Seus primeiros sucessos sinalizaram que o Brasil não estava condenado para sempre a ser o país do futebol.

Mostrou que, mesmo em um esporte (na época a F1 era um esporte) altamente tecnológico e complexo, um brasileiro não só podia competir de igual para igual como vencer. Um excelente antídoto para o complexo de vira-lata do brasileiro-padrão, identificado por Nelson Rodrigues.

Fonte: “Voando sobre rodas”, Emerson Fittipaldi e Elizabeth Hayward, Editora Edameris, copyright Emerson Fittipaldi, 1973.

Relembre a conquista em nossa página do Facebook: aqui, a prova em Monza, e aqui, a campanha do título.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

6 Comments

  1. Carlos Chiesa disse:

    Ah, e o Marinho, Mario Cesar Camargo Fo., nos DKW, um mestre da tração dianteira. Meu amigo Gigante, mecanico dessa equipe na época, me contou que foram os primeiros a conseguir mais de 100 cavalos de um motor de 1 litro.

  2. Carlos Chiesa disse:

    Fernando, vc deve ter visto também que o Chico foi chefe da Equipe Simca, com os belos Simca Abarth.

  3. Sandro disse:

    O corintiano Emerson Fittipaldi, contrariado, com o uniforme do Santos, hehehe!
    Espetacular o Lotus 72D! Com o patrocinio tabagista da John Player Special. Outros tempos!
    40 anos?! O tempa passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus nem existe mais!

  4. Fernando Marques disse:

    Show de bola o texto e a homenagem!!!!
    O Emerson derrubou muitas barreiras preconceituosas, por ser um brasileiro e sul americano, numa epoca em que a Formula 1 era dominantemente inglesa e acostumada a campeões do estirpe de um J. Clark, G. Hill e J. Stewart e onde nem a Ferrari conseguia se sobrepor.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Carlos Chiesa disse:

      Muito obrigado, Fernando. Todo mundo via com grande simpatia e respeito Chico Landi, aliás merecidamente. Mas Chico não tinha conseguido mostrar ser páreo para um Fangio. O sucesso de Emerson nos colocou numa outra dimensão, até então inesperada, até porque o Rato não era o piloto mais reputado antes de ir para a Inglaterra. Jackie Stewart parecia inatingível para qualquer europeu ou americano, ainda mais para um jovem brasileiro recém-saido da F-Vê.

    • Fernando Marques disse:

      Carlos,

      como leitor da 4 Rodas e Auto Esporte dos anos 70 pude apreciar reportagens magnificas das ultimas aparições do Chico Landi nas pistas … creio que sua ultima corrida foi os 500 km de Interlagos num Maverick … ele sempre foi idolatrado e respeitado no automobilismo brasileiro …
      A geração de pilotos brasileiros quando Emerson foi para a Europa era fantastica … Luis Pereira Bueno, Wilson Fittipaldi, Jose Carlos Pace, Marivaldo Fernandes, Bird Clemente entre outros dividiam vitorias e mais vitorias nas pistas mas o Emerson pelo visto tambem tinha o dom de ser o descobridor e ensinar o caminho para chegar ao topo e a Formula 1. E neste aspecto ele é unico aqui no Brasil.

      Fernando Marques
      Niterói RJ

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