O resto… veio depois! – Final

A última vitória
19/05/2018
A última corrida
23/05/2018

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O resto… veio depois – parte 3

De volta na Inglaterra, em dezembro, Aitken, convoca Frank a uma reuniao no escritório da companhia em Mayfair. Tao logo se conheceram, uma boa amizade surgiu entre os dois homens e se reuniriam varias vezes mais. Os relatórios que Aitken envia são tão favoráveis que o principe lhe pede que organize uma reuniao com Frank para a próxima vez que for à Inglaterra.

Várias semanas depois, Aitken telefona Frank dizendo-lhe que o príncipe bin Fahd chegaria nos próximos días, e programa uma reuniao no escritório da empresa. Aitken, conhecedor da paixao do principe pelos carros, sugere a Frank que leve o novo FW06. Assim foi feito e , após os cumprimentos habituais e uma curta conversa, Frank convence o principe para que o acompanhe a ver o carro que estava lá mesmo, estacionado em Grosvenor St.

O carro estava coberto com uma lona e escoltado por varios mecânicos impecávelmente vestidos com o uniforme da equipe e, tão logo Frank descobre o carro, o principe fica impressionado pelo que vê: Frank havia pintado o emblema de sua companhia bem grande no cockpit do carro – Al Bilad -. O entusiamo do principe ainda seria maior quando Frank lhe convida a entrar no cockpit, e passa a lhe explicar suas caracteristicas e algumas técnicas de pilotagem. O príncipe parecia tao feliz quanto uma criança com um brinquedo novo!

Quando voltam ao escritório, bin Fahd, de imediato, entrega a Frank um cheque por 50.000 libras, e outros 4 lhe seriam entregues nos seguintes 3 meses, todos do seu próprio bolso. Aquele era um patrocinio pessoal do principe, pois a empresa nao precisava se publicitar. Portanto, para conseguir mais fundos, bin Fahd promete falar com alguns amigos para que se involucrem no projeto.

Pouco depois, Frank vai à Arabia Saudita se entrevistar com alguns desses amigos e seu anfitrião seria o príncipe Muhammed bin Nawad, amigo de bin Fahd e de Aitken, quem o acompanharia em todo momento. Após intermináveis dias de reunioes, Frank volta para casa com varios patrocinios debaixo do braço. Estava a Dallah Avco, do xeique Saleh Kamel; a TAG, de Akram Ojjeh; a USI do xeique Faisal al Sowayel e a M&M, da qual o próprio Nawad era sócio. Também havia outras que aportavam somas menores como a Encotrade, a Baroon, a Kanoo e a Bin Laden, a empresa construtora da familia do infâme Osama bin Laden.

Ao todo, Frank conseguiria suficientes fundos para colocar sua equipe entre as grandes (apenas por trás da Ferrari e da Renault), ainda que alguns desses patrocinios só se formalizariam com a temporada já iniciada. Alem disso, tambem obtém bons contratos de fornecimento com a Mobil Oil, através de sua filial na Arabia Saudita, e com a GoodYear, que passa a dar a Frank tratamento prioritário. Segundo diria o próprio Frank anos depois: “Se não fosse por Jonathan Aitken, a equipe Williams nao existiria!

Para a temporada de 1978, Frank decide concentrar os esforços em um só piloto e o escolhido é o aguerrido Alan Jones. A temporada começa na Argentina, onde Jones abandona com problemas na bomba de gasolina. No Brasil, novos problemas o relegam ao 8º lugar mas, em Kyalami termina num bom 4º lugar. Depois viria a prova de Long Beach, onde Jones, com mais de meia corrida disputada, estava acosando o Ferrari de Reutemann, entao o lider, quando problemas com o aerofólio dianteiro lhe fizeram perder toda opçao à vitória. Lhe restaria o consolo de conseguir a volta rápida do GP. Novos problemas condenariam Jones ao abandono na maioria dos seguintes GPs. Na Inglaterra, até podia lutar pela vitória, quando, estando em 2º lugar, e se aproximando a Schekter, a transmissao falhou. Finalmente, em Watkins Glen, Jones sobe ao podio com seu 2º lugar, depois de partir desde a 3º posição no grid, a melhor da temporada.

Para se ocupar de agasalhar os patrocinadores, Frank havia incorporado à equipe seu amigo Charlie, cuja presença seria muito importante nas relaçoes com os árabes e os patrocinadores em geral. De fato, com o propósito de acelerar sua decisao, Charlie convidaria Mansour Ojjeh, filho do dono da TAG, ao GP de Monaco e a visitar o box da Williams. Para Ojjeh, aquela seria a primeira vez que presenciava um GP e, apesar do abandono de Jones, logo depois veriamos o nome TAG no FW06. Efetivamente, a TAG se converteria no maior patrocinador da equipe, depois da Saudia.

Com patrocinio já consolidado, Head começa a projetar o carro para 1979. Ainda que o FW06 era um bom carro, o conceito do carro asa da Lotus, havia deixado os carros convencionais obsoletos. Uma vez mais, Head apresentaria um carro simples e compacto, sem cair na tentaçao de ir um passo além, como foi o caso da Lotus, da McLaren e até da Arrows. Este seria o FW07 e, em deferência a Bin Fahd e em agradecimento por sua ajuda, Frank inscreve a equipe como Al Bilad – Saudia RacingTeam. A equipe teria dois carros e Clay Regazzoni formaria dupla con Jones.

Com o FW07 ainda sem terminar, o FW06 é usado nas três primeiras provas, e o melhor que conseguem com ele é um nono lugar cada um. Em Long Beach, se apresenta o FW07, mas sem haver tido tempo para testes, Jones prefere o FW06 e acabaria em 3º lugar. Na Espanha e na Bélgica, ambos se retiram. Em Mónaco, onde Ojjeh e outros de seus patrocinadores estavam presentes para ver a corrida, chegaria a primeira alegria para a equipe, quando Regazzoni termina 2º colado em Scheckter, e mostrando que o FW07 tinha muito potencial, enquanto que na França, Jones é 4º e Clay 6º. Assim chegamos ao GP da Inglaterra.

Pouco antes da corrida, Aitken diz a Frank que bin Fahd e alguns de seus familiares, estavam vindo para presenciar o GP. Assim, Frank sabia que aquela era uma ocasiao de ouro para contentar seu mecenas com uma boa atuaçao. Os carros sao preparados com o maior esmero e mimo para a ocasiao. O principe e seu séquito chegam ao circuito pouco antes da largada e fica muito satisfeito ao ver “seu carro” na pole com Jones e Clay em 4º lugar. Na largada, Jones pula na frente enquanto que Clay passa a terceiro, por trás de Arnoux. Na volta 17 o francês entra no box e Clay escolta seu companheiro na frente.

Os dois comandariam o GP com autoridade até que, na volta 38, Jones tem que abandonar. Foi um momento de preocupaçao para Frank, quem temia como, uma vez mais, os problemas mecânicos pareciam se empenhar em impedir a vitória de um de seus carros. Contudo, Regazzoni continuou firme na liderança até o fim, cruzando a linha de chegada com quase 25 segundos sobre Arnoux e marcando a volta rápida. Todos na equipe estavam exultantes com aquele primeira vitória que tanto havia custado conseguir. Apesar da alegria, Frank, por respeito ao principe e aos seus convidados, pede a Regazzoni que se abstenha de celebrar seu triunfo com a tradicional garrafa de champanhe no pódio, pois o consumo de bebidas alcoolicas nao se permitia aos muçulmanos.

Na alemanha, chegaria a primeira dobradinha da Williams, com Alan Jones vencendo, coisa que faria outras tres vezes, enquanto que Clay conseguia dois 3º e um 5º lugares. Com o FW07 em plena forma e vencendo em cinco das últimas sete provas, era impossivel nao pensar em como teria sido o campeonato, caso o carro tivesse estado pronto antes.

Em 1980, Williams, em sua terceira temporada como construtor, conquistaria o titulo de pilotos com Jones e o de construtores (com quase o dobro de pontos do que o vice campeão!), iniciando uma série de vitórias e titulos que se prolongaria ao longo dos anos seguintes, confirmando que, como havia dito Munson, quando teve dinheiro, o resto… veio depois!

Um abraço e até a próxima.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    a história de Frank Williams e sua equipe foi sensacional …
    é uma pena que atualmente ela tenha o pior carro do grid da Formula 1
    é uma pena que seus atuais pilotos, tão ruins quanto o atual carro, nem cheguem perto do dedinho mindinho do pé de nomes como Alan Jones, Keke Rosberg, Nelson Piquet, Nigel Mansel, Alain Prost, Damon Hill e Jacques Villenueve …
    é muito grande a diferença do que era antes para o que vemos hoje
    Será que a Williams consegue reagir e dar a volta por cima um dia????

    Fernando Marques
    Niterói – RJ

  2. Rubergil Jr. disse:

    Muito boa esta sequência de textos. Uma bela história de superação, perseverança e amor ao esporte, protagonizada por Sir Frank Williams.

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