O Som Slade

Apenas 20 voltas
04/11/2013
Melhor perder esse trem
08/11/2013

Precisamos de um "som formula 1" que seja inequívoco e até nos arrepie ao passo dos carros. Serão estes novos motores capazes de causar essas sensações?

“Slade” foi um de meus grupos de rock favoritos lá pelos já longínquos anos 70. Apesar do sucesso que conseguiam (três de suas canções haviam chegado até então a ser número um nas listas de sucessos britânicas), seus detratores criticavam que o som do grupo era demasiado potente e até estridente, o que, segundo esses detratores, resultava inclusive desagradável.

Em fevereiro de 1973, Slade lançaria um single com a canção titulada “Cum on feel the noize” (venha sentir o som), que entraria direto no número 1 do hit parade britânico, algo que só os Beatles haviam conseguido antes! Posteriormente, a canção seria incluída no álbum titulado “Sladest”, novamente alcançando o número um (eu ainda conservo meu exemplar desse álbum!).

Segundo Noddie Holder, um dos guitarristas do grupo e co-autor da canção, esta era uma homenagem aos seus fãs e uma resposta aos seus detratores. A canção tratava de enfatizar o vinculo emocional entre o grupo e os fãs, reforçando vigorosamente tal vinculo através do rotundo e contundente som típico da banda e que chegaria até a ser conhecido como o “som Slade”.

httpv://youtu.be/VLsw668PVyY

Dez anos mais tarde, em 1983, o grupo norte-americano “Quiet Riot” volta a gravar essa canção, que se tornaria seu maior sucesso. A partir desse momento, muitos outros grupos também gravaram essa mesma canção, talvez o mais popular deles tenha sido “Oasis” nos anos 90. No entanto, para os que haviam conhecido a versão original de Slade, nenhuma das posteriores transmitia a mesma força nem promovia as mesmas sensações.

Como bem sabem, a partir de 2014, temos o retorno dos motores turbo à formula um (recentemente, nosso querido Giavoni nos ofereceu uma bela coluna a respeito) e um ponto que logo suscitou curiosidade e até receio foi o do som que produziriam esses motores. Bernie Ecclestone foi um dos primeiros que mostrou sua preocupação pelo som destes novos motores turbo, e Ron Walker, presidente da associação de promotores de GPs e diretor do GP da Austrália, também não ocultou suas reticências ao respeito e inclusive chegou a dizer que esses motores soam como um cortador de grama.

O simples feito de que o som destes novos motores seja comparado ao de um cortador de grama não é um bom sintoma do efeito que produzem. Eu mesmo, ao ouvir esses motores na internet, me lembrei de minha primeira maquina de barbear elétrica (uma velha Sunbean), o que me resultou decepcionante. Vale recordar que o som que produz um motor provém de três fontes básicas: o barulho próprio das diferentes peças em movimento. A admissão, quando o ar é aspirado e a exaustão, quando os gases da combustão são despejados. Destes três sons, o da exaustão é o que predomina num motor a explosão.

De fato, num motor turbo as explosões são mais poderosas devida à maior quantidade de ar e de combustível que chega até a câmara de combustão, no entanto a presença do turbo compressor atenua o som que acaba saindo pelo escapamento. Há inclusive quem diz que o som dos antigos motores turbo não era muito diferente ao destes e que, simplesmente, já não lembramos deles. Dizem que estes novos V6 são parecidos àqueles antigos turbo dos anos 70 e 80 (Então, também tínhamos motores de 4 cilindros em linha – BMW, Hart e Zakspeed – e V8 – Alfa Romeo).

Até a cilindrada é quase igual: 1600cc agora e 1500cc antes. Porém… ai acabam as semelhanças. Recordemos que aqueles motores turbo tinham os chamados “Wastegate” (válvula de alívio) externos que também produziam um bom som. O turbo-compressor funciona com os gases da exaustão ao passar estes pelas pás da turbina, mas quando a turbina começa a girar acima do nível estabelecido de máxima compressão, há perigo de que esse excesso arrebente o motor. Então, a partir desse ponto estabelecido, o wastegate descarregava o excesso de gases ao exterior impedindo que estes chegassem à turbina.

Outra característica daqueles primeiros motores era a forma usada para paliar a “preguiça” do turbo. Quando o piloto levantava o pé do acelerador para entrar numa curva, sem gases acionando a turbina, suas rotações e pressão fornecida caiam rapidamente, e demorava um par de segundos recuperá-la quando o piloto pisava o acelerador novamente. Para impedir essa queda de rotações na turbina, se injetava um pouco de combustível, justo quando as válvulas de exaustão se abriam. Portanto, o combustível se inflamava fora do cilindro, gerando gases que procuravam manter as rotações da turbina e reduzir o temido “turbo lag”.

A consequência disto eram as espetaculares explosões e labaredas que saiam pelos escapamentos. Nestes novos motores turbo… não teremos nada disso pois tudo será controlado eletronicamente. O chamado TERS (sistema de recuperação de energia térmica), estará conectado ao turbo e também funcionará com os gases da exaustão. O tal TERS gera energia elétrica que é enviada às baterias do KERS e, quando não hajam gases suficientes para manter as rotações da turbina, o TERS a mantem girando eletricamente e sempre no nível ótimo estabelecido, segundo as rotações do motor em cada momento, o que elimina o turbo lag. Além do mais, a própria instalação do TERS no escapamento é outro fator atenuante do som.

Assim, não é estranho que Ecclestone até insinuasse que os fabricantes poderiam modificar artificialmente o som de seus motores para que resultasse mais atraente. De fato, isso é o que a BMW já faz com seus modelos esportivos. Talvez os mais velhos recordem que, quando a William estava a ponto de equipar em seus carros a revolucionária transmissão de variação contínua – CVT – para 1994, uma das criticas e até argumentos esgrimidos em contra dela foi que o som do motor, que se mantinha sempre num nível de rotações ótimo, resultava monótono e raro demais.

Mercedes Benz e Renault já apresentaram seus respectivos motores e o som que emitem realmente é diferente, fruto lógico de sua nova arquitetura e menor cilindrada e rotaçoes. Ao parecer, os engenheiros estiveram trabalhando para conseguir um som menos atenuado e insípido e garantem que este será potente. Porém, creio que no se trata só de uma questão de decibéis e, como diz a canção de Slade, se trata de “sentir” o som. Não se trata de uma questão de razão ou lógica, mas dos sentimentos que esse som suscita e das emoções que promove nos aficionados e até no simples espectador ocasional.

Não nos causa o mesmo efeito o som de um leão rugindo que o de uma vaca mugindo, ainda que ambos apresentem a mesma intensidade sonora. O som da Fórmula Um, ao meu modesto entender, deve promover nos aficionados a sensação de potência e até de agressividade que sempre lhe caracterizou. Assim como tínhamos o “som Slade” precisamos de um “som formula 1” que seja inequívoco e até nos arrepie ao passo dos carros. Serão estes novos motores capazes de causar essas sensações?

Enfim, ainda bem que sempre posso recorrer ao recurso de assistir as corridas escutando a Slade!

Um abraço e até a próxima.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

11 Comentários

  1. Mário Salustiano disse:

    Manuel
    a analogia que você faz é perfeita, a interação do ser humano com o mundo é ditada pelos sentidos que possuímos, e dentre os cinco, os que mais nos afetam são a visão e a audição, e dos dois a audição numa corrida faz uma enorme diferença em termos de sensação de emoção, minha primeira experiência ao assistir uma corrida de F1 no autodromo foi algo de sensacional, porque ali deu para estabelecer uma fronteira do que é assistir uma corrida pela TV e ver e ouvir um carro a poucos metros ,e o ronco ao vivo nem dá para descrever, porque eu digo que cada um tem de passar pela experiência pessoal para entender isso.
    Comigo esse primeiro contato aconteceu num treino livre da sexta feira ,no sábado pude comparar esse tipo de sensação quando outras categorias que correm nas preliminares da F1 , quando entraram na pista, sem querer ofender, primeiro foram os Porsches da Cup que fizeram seu treino ,foi algo de broxante ouvir um ronco semelhante ao dos carros de rua, depois foram os F3 Sulamericana
    Agora no domingo, aqueles 22 carros juntos acelerando na largada….Situação semelhante, ouvir o som do Slade ou qualquer outra banda de preferência ao vivo e ouvir em casa, por melhor que seja o equipamento não dá para comparar
    abraços
    Mário

  2. Fabiano disse:

    Só pra contrariar, gosto da ideia em torno da introdução do novo regulamento de motores da F1.
    Infelizmente não vivemos mais nos anos 70 ou 80, sequer estamos no mesmo século, e acho que já passou da hora da F1 buscar um papel diferente e mais relevante no esporte a motor.
    Incentivar a busca pelo aproveitamento máximo da energia que pode ser gerada por um motor é o mínimo que a categoria pode fazer.
    Respeito quem pensa diferente, mas estou esperando muito pelas inovações que os engenheiros da F1 farão no próximo ano.
    Outra mudança que na minha opinião parece ser um passo na direção correta é a busca pela redução da importância da aerodinâmica na performance dos carros. Sei que não será uma mudança muito grande, mas me agrada bastante ver que a categoria está trilhando este caminho. Não vejo sentido em gastar tanto dinheiro no desenvolvimento aerodinâmico destes carros, é um recurso aplicado em algo que não servirá para mais nada.
    Imaginem o quanto a F1 poderia estar contribuindo no desenvolvimento de motores mais eficientes caso os recursos gastos no desenvolvimento aerodinâmico estivessem sendo direcionados para este tipo de pesquisa.
    Quanto ao som dos motores, penso que o que seduz mesmo é o “som da vitória” e todos vão achar lindo o barulho do melhor motor do grid, seja ele turbo, aspirado, híbrido ou elétrico.

    • Guilherme disse:

      Olá, FAbiano. Se me permite, seguindo a tua linha de raciocínio eu discordo parcialmente da tua opinião.
      Concordo que a F1 deva “buscar um papel diferente e mais relevante”, mas na verdade ela sempre teve ( ou deveria ter) esta função.
      Entretanto em tudo o que fazemos, e na própria evolução do esporte, ou da categoria, a busca de novos caminhos, também deve ser em função de experiencias (especialmente as boas) passadas.
      A experiencia dos motores turbos na F1 foram ótimas nas décadas de 70/80. O melhor conhecimento da aerodinâmica também foi muito importante, assim como os sistemas de recuperação de energia. REsta fazer uma mistura do que foi bom, evitar excessos(como a própria interferencia demasiada da aerodinâmica citada) , e descartar o que foi ruim( para que serve pneus que duram poucas voltas, e toneladas de borrachas desfeitas na pista no final de uma prova??), utilizando novos desafios e experiencias passadas.Abçs,

      • Mauro Santana disse:

        Sabe Guilherme, esta tonelada de borracha que é esfarelada ao final de cada corrida, é na verdade um baita TAPÃO na CARA dos ambientalistas.

        A Pirelli deveria é se envergonhar e ser a primeira a dizer não para isso.

        Abraço!

      • Fabiano disse:

        Olá Guilherme.
        Não percebi discordância nos raciocínios, e concordo com a questão dos pneus, não faz sentido todo este desperdício, mesmo ele tendo nos proporcionado um princípio de campeonato tão espetacular no ano passado.
        Já que estamos próximos de uma mudança grande no regulamento da F1, bem que os dirigentes podiam optar novamente por pneus que durassem uma corrida inteira.

  3. Wladimir Duarte Sales disse:

    Se me permite, Fernando, quero acrescentar à sua lista as Runaways. O primeiro grupo de rock feminino da história, que ainda revelou Joan Jett e cuja trajetória foi retratada no filme de 2010 The Runaways – garotas do rock (em minha opinião a única atuação decente de Kristin Stewart e o salto para a maturidade artística de Dakota Fanning). Não vivi os anos setenta ( nasci em 72 e em 80 tinha 8 anos) mas as histórias das grandes bandas de rock como KISS, Led Zeppelin, Black Sabbath, Iron Maiden, AC DC e tantas outras me dão vontade de voltar no tempo e tentar nascer dez anos mais cedo. Também para poder assistir as performances memoráveis de Lauda, Peterson, Hunt, Regazzoni, Pace e outros áses da f1 daquela época, mas infelizmente a máquina do tempo de “De Volta para o Futuro” não existe nem sei se existirá algum dia.

  4. Fernando Marques disse:

    Não entrei no debate da coluna “Apenas 20 voltas) pois só pude ver muito pouco da corrida de domingo. Por causa de um compromisso só vi as primeiras 15 voltas e contava com um bom resultado final do Massa por causa do seu bom inicio mas pelo visto o Alonso ainda manda pra cacete na Ferrari … hehehehehe

    Fernando Marques

  5. Fernando Marques disse:

    Os textos do Manuel Blanco são demais … esta do Slade então nem se fala … lendo a coluna me veio em mente o tão quanto bom foi os anos 70 … não só na Formula 1, mas na musica também … sou um fã incondicional do rock dos anos 70 … se não bastasse os anos 60 ter apresentado os beatles e os Rolling Stones, assim como a Formula 1 apresentou o J. Clark e o J. Stuwart como exemplos máximos, os anos 70 na musica alem do Slade nos embalou ao som do rock pauleira do Led Zeppelin, Black Sabath, Deep Purple, assim como a Formula 1 com Emerson e Lauda como os maiores expoentes daquela década … para se ter uma ideia eu não consigo ouvir musica que não seja dos anos 70 para trás … a partir dos anos 80 já conto no dedo o que presta e dos anos 90 pra frente então ignoro quase tudo em se tratando de Rock’n roll. Ouvir um Lynyrd Skynyrd, um A|lman Brothers Band é muito melhor do que ouvir estas bandas atuais …
    O que vai ser da Formula1, principalmente a partir do ano que vem com os novos motores turbos, sinceramente eu não sei … apenas espero que a Formula 1 continue sendo encantadora como sempre foi … algo que o rock’n roll para mim não foi mais a partir dos anos 90 para cá …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Mauro Santana disse:

    Texto Fantástico amigo Manuel!

    Sou baterista de uma banda de rock e tocamos este clássico do Slade, que é um som tão poderoso e quando se é reproduzido com aquela “pegada”, se torna uma verdadeira bomba, de levantar a todos que estão assistindo.

    E adorei a explicação que você deu a respeito das línguas de fogo que eram comum na era turbo, e que para os fotógrafos, eram um prato cheio para descolarem imagens fantásticas.

    Nesta questão de manter o carro com o giro levantando, Senna foi um dos melhores, pois ao contornar uma curva de baixa sempre dava pequenos toques no acelerador para manter o turbo em alta.

    Mas infelizmente, com tantos ERSSSSSSSSSSSSSS, não iremos rever estas coisas.

    E como diz um grande amigo meu e guitarrista da nossa banda, se vai copiar, procure fazer o mais bem feito possível, pois do contrário, é melhor deixar quieto e apreciar o original.

    E para finalizar, segue uma sugestão de outra bela coluna do amigo Agresti, e que por sinal anda meio sumido aqui no gepeto.

    http://gptotal.com.br/2005/Colunas/Agresti/20110708.asp

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Mário Salustiano disse:

      amigo Mauro

      ganhasse mais alguns pontos no meu conceito, admiro as pessoas que tocam e curtem rock ,e confesso sou um guitarrista frustrado..rsrs

      abraços

      Mário

      • Mauro Santana disse:

        Obrigado pelos elogios, amigo Mário!

        A questão da música, eu sempre encarei da seguinte maneira, que o tesão por tocar tem que ser praticamente o mesmo, seja num ensaio para uma ou duas pessoas, como para uma apresentação para 100 ou mais pessoas, pois o que manda é o feeling, a pegada de tocar pra valer.

        E realmente, da sim para se comparar e muito um som ao vivo de um carro de F1 com um show ao vivo de uma grande banda de rock.

        E rapaz, se tens vontade de tocar, manda bala, pois a música é algo mágico!

        Abraço!

        Mauro Santana
        Curitiba-PR

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *