Ócio criativo

Vencedor Moral – Parte 1
10/04/2020
O melhor e o pior da F1
16/04/2020

Terminei este texto ainda na quinta-feira (dia 9). Três dias depois, veio a notícia da morte de Sir Stirling Moss. Lamento profundo. E, sim, reafirmo sua posição nos meus 10 melhores da história da F1, muito menos pela emoção do momento e muito mais por seus impressionantes feitos na categoria e além dela.

***

A quarentena — e tenho tentado cumpri-la ao máximo, sabendo, também, que (além de privilégios históricos que eventualmente hão de ser evocados) meu setor profissional não está, por enquanto, sendo tão afetado — tem me permitido várias coisas: de todas elas, o tempo de qualidade com meu filho é certamente a mais importante. Por outro lado, a estafa mental também existe, inda que tentemos ocupar nossas cabeças com leituras e pesquisas que julguemos relevantes.

Surge, por consequência, aquela máxima popularizada por Domenico de Masi em seu best seller: o ócio criativo.

Ocio Criativo, O - Sextante - Livrarias Curitiba

Já publiquei aqui no gepeto uma série de colunas cruzando futebol e fórmula 1: duas foram sobre coincidências de datas entre partidas da Copa e GPs, e outras três foram comparativos de perfis de personalidade e longevidade das carreiras de grandes pilotos e grandes jogadores de futebol. (a quem se interesse, links estarão dispostos ao final da coluna).

Desta vez, vou por algo mais objetivo (já que uma data é o ponto partida) e ao mesmo tempo mais despropositado: tentar encontrar semelhanças partindo deste fator. Gosto dessa ideia há tempos: por exemplo, fiz um seminário na faculdade de Letras sobre Manuel Bandeira e Roberto Carlos — ambos nascidos em 19 de Abril.

Mas a ideia deste texto me surgiu há alguns meses: quando fui fazer um video falando sobre Gustavo Kuerten, propus que ele estaria entre os três melhores sul-americanos da história (disputando o pódio com del Potro), mas inegavelmente atrás de Guillermo Vilas. Quando fui me aprofundar mais na história de Vilas, notei que sua data de nascimento era 17 de Agosto de 1952: o brasileiro fã de F1 já entendeu: é também nesse mesmo dia, mês e ano que nasceu Nelson Piquet. (Além dos dois, 17 de Agosto é também aniversário de Robert de Niro, top 10 de atores de Hollywood.)

São eles o estopim desta coluna: a partir disso eu notei que vários pilotos de F1 fazem aniversário na mesma data que outros craques. Sim, parece óbvio: ao longo da história, tivemos bilhões de pessoas, e são 365/6 dias no calendário. Logo, haverá milhares destas “coincidências”. A questão é que todos os dois, Nelson e Guillermo, formam as minhas listas dos 10 melhores da F1 e do tênis. Mais que isso, são eles justamente os décimos colocados em cada uma delas!

Numa análise do estilo de ambos, poderíamos na verdade afirmar que Vilas estaria mais próximo, no tênis argentino, daquilo que Emerson Fittipaldi representa no Brasil: o desbravar, a conquista do desconhecido, e uma influência e legado enormes — na Argentina, aquele papo de que tênis é esporte de uma elite burguesa em clubes de campo no fim de semana não se aplica.

Mas é possível perceber semelhanças: Vilas é o criador daquela jogada em que o atleta, ao tomar um “lob”, precisa correr ao fundo da quadra e, como que numa tentativa final, rebate por entre as pernas, de costas para a rede: a isso se dá o nome “Gran Willy“. Willy, WIlliam, Guilherme, Guillermo.

Não preciso nem começar a dizer que Piquet eternizou uma “Jogada” na F1, considerada pela maioria como a mais bela de todos os tempos.

Por outro lado, podemos entender que tanto Vilas quanto Piquet são subestimados mundo afora (há quem coloque Andy Murray À frente do argentino, e Piquet RARAMENTE figura em top 10 de listas europeias), e um pouco superestimados em sua terra natal: já li, na Argentina, que Djokovic, Federer e Nadal não dominariam o circuito na época de Guillermo, como vejo volta e meia aqueles super argumentos de que “se não fosse a Globo…”.

Seguem, portanto, as coincidências de aniversários e, ao mesmo tempo, os outros 9 integrantes do meu top 10 pessoal da Fórmula 1. Inicialmente, meu objetivo era apenas o cruzamento entre esportes, mas expandi para mitos da música (outra área que tenho grande interesse) e eventualmente adicionei inventores e inovadores (quando nem nos esportes nem nas artes encontrei gente do mesmo “tamanho”).

17 de Setembro de 1929 é a data de nascimento de Stirling Moss, mesmo aniversário do grande Jimmie Johnson, da Nascar, mas a melhor comparação é com Phil Jackson (neste dia e mês, mas em 1945).

Para um olhar mais frio e distante do contexto, Moss e Jackson são totais opostos: Moss foi vice-campeão quatro vezes seguidas, ao passo que Jackson é simplesmente o homem com mais títulos na história da NBA: 2 como jogador e 11 como técnico.

No entanto, de alguma forma tentam questionar o treinador americano: como jogador, ele de fato era mediano, mas como treinador foi bastante influente: foram três tricampeonatos (1991-93, 1996-98, 2000-02) e um bicampeonato (2009-10), com 13 finais ao todo (vice em 2004 e 2008). Muita gente ainda tenta reduzi-lo no entanto, lembrando que Jordan, nos seis primeiros, e Kobe, nos últimos 5, eram suas estrelas.

Moss, por outro lado, é considerado como “campeão sem título” por ter concorrido com Fangio, além de ter perdido em 1956 por conta do regulamento que permitia a troca de carros, e em 1958 porque foi honesto demais: seu depoimento salvou Hawthorn de uma desqualificação, em Portugal. De todo modo, faz parte do seleto “Clube dos 25”, do qual Vettel foi excluído.

São (Eram…) os dois, também, verdadeiros apaixonados, dedicados, e estudiosos de automobilismo e basquete. Moss participou de 585 corridas ao longo de sua vida. Phil Jackson atuou ou dirigiu suas equipes em mais de 2.600 jogos.

Outro video que fiz, e este faço questão de sugerir ao amigo leitor, foi falando sobre Julius Erving, o mitológico Doctor Jay, jogador que integra meu top 10 da NBA e que considero talvez o mais importante da história da liga. Seu aniversário coincide com o de Niki Lauda: ambos de 22 de fevereiro, o mito da F1 é de 1949 e o do basquete de 1950 (Séculos antes, no mesmo dia e mês, se dava o nascimento de Arthur Schopenhauer, um de meus filósofos prediletos).

Tempo profissional parecido (os dois começaram em 1971, final em 1987 para Doctor e em 1985 para Lauda), eles têm o ano de 1976 como divisor de águas em suas trajetórias: Lauda “ressuscitou”, Erving foi dos Nets para os Sixers — mudando não apenas de time, mas de liga (ele atuava na ABA). O estilo deles guarda poucas semelhanças, mas ambos são personagens fundamentais no período de expansão mundial das siglas NBA e F1.

Jackie Stewart até tem um gigante de outro esporte que faz aniversário consigo: Joe Montana, monstro do futebol americano, para muitos o melhor da história da NFL. Mas o nome mais interessante de 11 de junho é o de Jacques Cousteau.

Ambos pioneiros e verdadeiros ativistas (as lutas de Stewart pela segurança na F1 encontram paralelo no Cousteau que liderou campanhas e perojetos de conservação marinha. O envolvimento futuro no cinema, inda que com pesos diferentes (Stewart foi dublê no lendário Grand Prix, e Cousteau foi diretor premiado na Palma de Ouro), é outra semelhança.

Duas personalidades fundamentais para a evolução positiva do ambiente em que viveram.

Meu top 6 vai para Lewis Hamilton, e neste caso foi realmente impossível achar algum esportista cujo tamanho histórico se aproximasse do inglês. Cheguei a pedir a um querido amigo palmeirense que descrevesse a importância do atual camisa 7, Dudu, na história do clube.

Mas o 7 de janeiro do piloto britânico é também o dia/mês em que nasceu Sandford Fleming, o homem que praticamente definiu as regras e coordenadas (Meridiano universal, fuso horário, UTC) para que utilizamos nas nossas 24 horas diárias.

Podemos dizer que, com nascimentos separados por 158 anos, Fleming e HAmilton ajudaram a redefinir o tempo.

Meu quinto colocado é Alain Prost. A exemplo de Stewart, também nasceram num 24 de Fevereiro outros grandes esportistas (Floyd Mayweather, Lleyton Hewitt, Denis Law), mas além do tamanho histórico de Prost ser maior que o desses colegas, há uma coincidência data-hora: 24/2/1955 marca o nascimento de Steve Jobs, um dos maiores cérebros do nosso tempo — certamente seria chamado de Professor, se fosse piloto de F1.

E Jobs só foi tão grande porque teve um Bill Gates para “puxá-lo”. Senna estaria para Prost como Gates para Jobs.

O dia 3 de janeiro é a data de nascimento de Michael Schumacher. Assim como no caso de Hamilton, nenhum esportista de primeira relevância na lista de nascidos nesse dia/mês. Porém, nas artes isso se compensa: o diretor de cinema Sergio Leone (Era uma vez na América), o escritor J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e o grande baixista John Paul Jones (do Led Zeppelin) também celebra(va)m no terceiro dia do ano.

Mas o aniversariante mais equivalente a Schumi é George Martin, produtor/maestro/arranjador, notabilizado por seu trabalho com aquela banda algo famosa, os Beatles. Martin foi decisivo nos rumos do grupo, especialmente na virada marcada pelo Sgt. Pepper’s. Não por acaso, ficou conhecido como “o quinto beatle”. Mas as estrelas maiores eram Lennon, McCartney, Harrison e Ringo Starr.

Como Schumacher, George esteve entre os melhores, mas não era o melhor.

Jim Clark inicia o nosso pódio: ele nasceu em 4 de março e, assim como seu compatriota Kenny Dalglish (King Kenny), um dos maiores da história do Liverpool FC. Mas para fazer jus à sua grandeza, foi preciso viajar na Europa e desembarcar na música erudita italiana: no mesmo dia e mês, mais de 250 anos antes de Clark, nascia Antonio Vivaldi.

Como Clark, Vivaldi era de assinalada simplicidade em sua vida.  Famoso principalmente pela obra-prima “As Quatro Estações“, foi um homem de imensa virtuosidade, transitando entre o sagrado e o profano de forma quase literal. Nos remete a Clark, que podia correr com qualquer espécie de veículo motorizado e era sempre candidato a vencer.

Ayrton Senna faz(ia) aniversário junto a lendas do futebol: Lothar Matthaus (primeiro premiado pela FIFA e o homem com mais jogos de Copa) e o agora detento Ronaldinho, duas vezes melhor do mundo e personagem de capítulos ímpares no futebol. Mas, assim como no antecessor do pódio, nenhum deles se equipara à grandeza de Senna. No entanto ( e não à toa sempre tivemos comparações de Senna com Clark), o nome mais simbólico também está na música erudita e se inspirou muito em Vivaldi: o holandês Johan Sebastian Bach.

Além de compositor, Bach tinha diversas outras capacidades e ocupações, se destacando em todas elas. Um camarada perfeccionista ao extremo, assim como Senna. O entendimento de Senna da telemetria, e sua sensibilidade para com motor, freios e pneus, encontram paralelo (guardadas as devidas proporções, claro) em Bach e sua simetria.

Juan Manuel Fangio faz(ia) aniversário no mesmo dia de Lionel Messi. Ambos nascidos na Argentina. Messi, como Fangio, é do tipo que diz “deixem que os outros digam que você é o melhor, mas nunca diga que você é o melhor”. Messi, assim como Fangio, só atuou em alto nível, mesmo que vez ou outra não estivesse melhor do mundo. Messi, assim como Fangio, teve a regularidade de atuações em alto nível, ironicamente, um fator problemático: para impressionar, era preciso fazer algo muito maior.

Simbolicamente, assinalando a primeira posição de Fangio e a segunda de Senna, Messi foi sucessor e uma versão melhor e mais completa de Ronaldinho. Piloto e jogador argentinos devem figurar, na pior das hipóteses, no pódio histórico de F1 e Futebol.

Como curiosidade, o formidável escritor Ernesto Sabato nasceu exatamente na mesma data de Fangio, e o craque Riquelme também nasceu nesse dia, 9 anos antes de Messi. Pra coroar: foi também num 24/6, em 1935, que faleceu Carlos Gardel, mito maior dos portenhos.

Portanto, não sei por que razão o dia 24 de junho não é feriado nacional na Argentina.

Abraços,

Marcel Pilatti

***
F1 e Copa parte 1 e parte 2

Pilotos e jogadores: parte 1 , parte 2parte 3

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

3 Comments

  1. wladimir disse:

    Tenho que mencionar uma injustiça que você cometeu, Marcel;

    Nenhuma menção a Jack Brabham? A meu ver old Jack é o maior de todos. Seu feito é inigualável e os três que tiveram chance de igualá-lo ou a fatalidade não permitiu (Bruce McLaren), não tiveram competência e/ou sorte (John Surtees, Alain Prost e Emerson Fittipaldi).

    • Marcel Pilatti disse:

      Boa tarde, Wladimir, tudo bem?

      Jack Brabham está na minha lista entre 11 e 13º, justamente com Emerson ou Alonso.

      Acho-o formidável e, de fato, o feito dele é inigualável — Graham Hill, Emerson e Surtees têm feitos também inigualados, embora os de Emerson (bi nas 500 e na F1) e Hill (tríplice coroa) possam ser superados. O de Surtees, não.

      Mas Jac era mesmo fenomenal, apenas não o considero, numa corrida com carros iguais numa mesma condição de pista, passível de superar os 10 mencionados na lista.

      A propósito, Sir Jack fazia aniversário 1 ano e 1 dia depois de Ferenc puskas 🙂

  2. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    brincando um pouco com sua excelente coluna elejo mais um “Ócio Criativo” … um estaria em ultimo lugar em importância esportiva mundial e o outro num patamar onde certamente estaria nos meus TOP 12 ou 15 da história da Formula 1.
    O dia em questão é o dia 06 de outubro
    o lanterna da qestão sou eu, apenas um mero torcedor incorrigivel flamenguista que adora também o automobilismo
    o TOP 12 e/ou 15 seria o José Carlos Pace que além de ser a celebridade mais importante (dentro do meu conhecimento) que faz aniversário junto comigo foi também uma fera na Formula 1.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *