Os Campeonatos perdidos por Alonso

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Fernando Alonso vai tentar, de novo, ser campeão. E será que o final será o mesmo de 2012, 2010, 2007?...

No começo da temporada, depois do GP do Bahrein, escrevi que “talvez Alonso se torne um Moss com título”. Óbvio que o leitor do GPTotal entendeu o que eu quis dizer, mas vou tentar ampliar o sentido dessa frase.

O piloto britânico foi tetra-vice consecutivo, e nas grandes oportunidades que teve de chegar ao título, ora enfrentou o maior de todos, ora encarou um conjunto mais eficiente (Hawthorn-Ferrari). Verdade seja dita, porém, que em pelo menos duas ocasiões, 56 e 58, a derrota de Moss não foi muito clara – para evitar usar o termo ‘justa’.

Em 1956, Moss foi o piloto que mais liderou voltas e ficou apenas 3 pontos atrás de Fangio, em parte pelo regulamento que permitia trocas de carros; em 1958, de novo foi quem mais liderou, e seria também o maior vencedor (ganhou 4 das 11 etapas, ante apenas uma de Hawthorn) mas talvez tenha pagado pela honestidade: seu depoimento aos comissários após o GP de Portugal evitou que Mike Hawthorn, seu adversário direto no certame, fosse desclassificado.

Apesar de nunca ter vencido o mundial, Stirling Moss é presença constante quando se menciona “os maiores de todos os tempos”, sem falar no fato de ser considerado o melhor piloto que jamais foi campeão do mundo.

Isso se deve, principalmente, aos adversários que enfrentou e aos equipamentos de que dispôs: Moss venceu com 5 chassis, 4 motores e 4 pneus diferentes. Enfrentou Juan Manuel Fangio, no auge, e viu nascer a estrela de Jim Clark.

Ainda assim, possui um dos melhores aproveitamentos em vitórias (24,24%, 9° na história) e venceu mais que muita gente boa, como Mario Andretti, Graham Hill, Jack Brabham e Emerson Fittipaldi.

Em resumo, nem sempre Moss tinha carro para vencer, mas vencia; no entanto, certos conjuntos de fatores não costumam se repetir com grande frequência, e ele nunca chegou ao título.

De certa forma, vejo o mesmo acontecendo com Fernando Alonso atualmente.

Mês passado, em sua coluna Ele é mesmo tudo isso?, Alessandra Alves chegou a dizer que “Se não se afirmar neste ano, empatando com o alemão [Vettel] em número de títulos, é possível que Alonso siga convencendo o mundo de que, mais uma vez, a máquina venceu o homem”.

Já vimos o espanhol sugerir algumas vezes que: 1) não perde(u) para Vettel, e sim para Newey; 2) o adversário que mais respeita é Lewis Hamilton.

Óbvio que tudo isso passa pela chamada guerra psicológica, da qual Vettel parecia ser vítima, há alguns anos. Por outro lado, Alonso – e, errados ou certos, muita gente também – talvez não tenha se convencido de que Vettel é suficientemente bom para batê-lo.

Nesse ano, tivemos um pequeno imbróglio entre Red Bull e os principais adversários após a grande vitória de Alonso na Espanha. A equipe austríaca reclamou dos pneus, dizendo que eles estavam prejudicando o desempenho do carro, como que a limitá-lo.

Alonso ironizou: “falam que têm um super carro, mas perderam as três últimas pole-positions (…) quando você ganha tão fácil por alguns anos, é difícil perder algumas corridas depois”.

httpv://youtu.be/OH5aoD50MQE

Curiosamente, depois dessa situação, Vettel e sua equipe só ficaram atrás das Mercedes em Mônaco, enquanto que Alonso e Ferrari tiveram dois treinos ruins, e apenas um pódio no mesmo período.

Já discutimos várias vezes neste espaço sobre quando alguém ganhou sem ter o melhor carro. Houve vários campeonatos em que pilotos venceram sem dispor de um conjunto que fosse claramente superior ao de seu adversário direto, principalmente se pensarmos em uma temporada por inteiro.

O próprio Alonso tem uma conquista nesse sentido: em 2006, principalmente após a polêmica proibição dos amortecedores de massa, a Ferrari rivalizava com sua Renault em diversas pistas. Ayrton Senna, em 1991, Emerson Fittipaldi, em 1974, entre outros, foram casos semelhantes.

Mas quantas vezes vimos um piloto com carro claramente inferior atingiu uma conquista de título mundial? O caso de Hunt em 1976 é bem específico, e por isso Nelson Piquet em 1983 me parece ser o único – em 1981 ele não tinha o melhor carro, mas alinho aquele mundial aos de 1973, 1986 e 2007, guardadas as devidas proporções.

Vê-se, portanto, que é raro isso acontecer.

Em sua cobertura do GP do Canadá, Márcio Madeira apontou que Alonso-Ferrari pode ser considerado, até aqui, o conjunto mais eficiente do ano, uma vez que o piloto foi acometido por dois infortúnios que, de certa forma, maquiaram a classificação do campeonato.

Quase concordo com ele.

Explico: ao mesmo tempo em que as dificuldades com os pneus podem ter limitado o desempenho de Vettel/Red Bull (na Austrália e na Espanha, principalmente), me parece ser Alonso a elevar o desempenho da Ferrari.

Digo isso não apenas no comparativo a Massa, mas por ver o espanhol realizando corridas como essa última no Canadá.

O espanhol tem um ritmo de prova simplesmente alucinante, que só vai encontrar paralelo com Michael Schumacher em sua fase áurea, na história recente da F1.

httpv://youtu.be/wtXd0roqj5o

Alonso também tem uma constância impressionante: sem hipérboles, o espanhol está sempre no pódio. Ele tem uma leitura de corrida que também o eleva no panteão dos grandes da F1: hoje pode-se afirmar que ele é o piloto atual que melhor sabe unir os quesitos arrojo & conservadorismo, rapidez & estratégia.

Mas isso aconteceu somente por conta de algumas pauladas que ele tomou no passado.

Não falo de 2012: o que ele fez ali é coisa de Jim Clark (1967) ou Senna (1993); falo de 2007 e especialmente de 2010.

No primeiro caso, Alonso tinha a oportunidade de se tornar o primeiro piloto a ganhar seus primeiros três títulos em sequência e de quebra o mais jovem tricampeão da história.

Chegava a uma McLaren que não havia vencido nenhuma corrida na temporada anterior, e como parceiro um estreante. Tudo, portanto, para Alonso trabalhar tranquilo e liderar o time, certo? Errado. O desdobramento da temporada foi bastante desgastante e viu o título escapar para Maranello.

Na minha visão, aquele foi um campeonato que Alonso perdeu, mais do que Kimi venceu (creio que o finlandês merecia mais em 2005 e até em 2003, se analisada sua pilotagem).

Verdade que ele teve alguns problemas de equipamento (por exemplo, não participou no Q3 para os treinos da França, tendo de largar em décimo, e no Canadá foi afetado por problemas nos freios), mas em alguns momentos importantes foi o espanhol que falhou.

Na Espanha, onde conseguira um ótimo segundo tempo nos treinos, foi entre afoito e confiante demais ultrapassar Massa na largada: o brasileiro defendeu sua posição de modo agressivo e não deu espaços a Alonso. Resultado: uma corrida difícil até o terceiro lugar.

Na Hungria, aquela situação dos treinos e a pole que foi retirada: Alonso largou em sexto, e teve uma corrida problemática até acabar num azedo quarto lugar. Por fim, o abandono no Japão ao aquaplanar.

httpv://youtu.be/FsMoktU88GE

Foi um ano de aprendizado, que o levou a deixar a McLaren e ir para a Renault enquanto aguardava a assinatura do contrato com a Ferrari.

Chegando lá, um cenário parecido ao de 2007: uma equipe vinda de uma temporada fracassada e um companheiro de equipe que não apresentaria ameaça.

A diferença ficou por conta do carro: a Ferrari teve corridas em que era mera coadjuvante: provas constrangedoras como Turquia e Inglaterra comprovam isso.

No entanto, Alonso comandou uma virada espetacular a partir do “Fernando is faster than you”: até Abu Dhabi, Alonso tinha vencido quatro etapas e marcado pódio em outras três de um total de oito.

Com 15 pontos de vantagem para Vettel e 8 ante Mark Webber, poucos eram os cenários que não lhe dariam o título. E aconteceu: Alonso talvez tenha perdido o caneco já na largada, quando não quis se defender de Button.

Depois, novamente a falta de arrojo na disputa com Vitaly Petrov. Antes Alonso abandonasse, em colisão com o russo. Melhor do que ficar inerte e, depois, reclamar.

Mas o problema maior foi a estratégia equivocada da Ferrari, “marcando” Mark Webber. Como diz a máxima futebolística, “time que entra pra empatar, não vence”.

httpv://youtu.be/R-JZFPSgR7A

Nesse ano, estamos vendo Alonso constantemente na ponta (exceto em Mônaco) e sempre ficar por lá quando não tem problemas no carro. O espanhol se tornou um piloto calejado, consciente do que precisa e principalmente do que pode fazer.

No entanto, parece que de novo a Red Bull contornou os problemas e podemos ver Vettel igualar Fangio com quatro mundiais consecutivos. Como a mesma Alessandra apontou na supracitada coluna, é possível que diante de nova derrota Alonso “não se sinta mais capaz de vencê-los. Derrotada a mente, morrerá o campeão”.

E, assim, Fernando poderá virar um “Moss com título(s)”. Stirling Moss pode dizer, pelo menos, que lutou contra Juan Manuel Fangio.

Bom restante de semana a todos!

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

17 Comments

  1. Mario Salustiano disse:

    amigos

    Na rivalidade Alonso vs Vettel quem mais ganhou foi a Renault, já que os cinco títulos dos dois foram com esse propulsor….

  2. Leonardo - RS disse:

    Alonso é o mais completo, mas o alemão está melhorando, ganhando experiência.
    Acho que o Vettel é o único com chances de igualar ou até ultrapassar os 7 títulos do Schumacher, considerando que ele poderá se transferir para a Ferrari ou Mercedes futuramente como já foi especulado.

  3. Lucas disse:

    Acho que a frase “em 2006 (…) a Ferrari rivalizava com sua Renault em diversas pistas” se aplica à primeira metade do campeonato. Na segunda, a Ferrari não rivalizava – ela sobrava, tanto é que não só Schumacher como o próprio Massa atropelavam a concorrência na maior parte das corridas depois da polêmica retirada dos amortecedores de massa. Não é querendo desmerecer o Massa, mas o fato dele ter tantas vezes superado Alonso e Fisichella naquele ano mostra o quanto a Ferrari era superior, já que, com o mesmo carro, ele terminou bem atrás tanto do italiano (poucos lembram, mas eles foram companheiros na Sauber em 2004) quanto do espanhol.

    Também não vejo sentido em falar que a Ferrari tem conjunto melhor que a Red Bull esse ano. Veja que embora Massa não tenha conseguido grande coisa, Webber teve desempenho de vencedor (embora não tenha levado) na Malásia, e sua diferença em pontos para Massa só não é bem maior por conta de azares em pistas onde o carro andava muito bem. Red Bull já fez dobradinha em treino e em corrida esse ano, a Ferrari ainda não teve uma corrida em que era claramente o carro a ser batido. E Vettel ganhou sem esforço no Canadá (e Webber fez a volta mais rápida – não fosse a trombada, dava pra pensar em pódio).

    Enfim, tem muito campeonato pela frente ainda, e espero que a decisão seja tardia (preferivelmente com Kimi na briga também). E eu sinceramente também espero que, se mais uma vez o Vettel levar a taça, a previsão da Alessandra não se confirme. Claro que, até por questão de justiça, Alonso merecia mais alguns títulos, mas ainda assim vê-lo o tempo todo fazendo o papel de Davi contra Golias tem sido fantástico. 2012 foi algo realmente comparável a pouquíssimas coisas na história da F1.

    • Marcel Pilatti disse:

      Oi Lucas, sim.

      Divido o campeonato de 2006 em duas fases bem distintas: as primeiras 9 etapas, e as outras 9.

      Acho 2006 bem parecido com 1991, se analisarmos as evoluções ao longo do ano.

      De fato, a partir da França a Ferrari dispunha do melhor carro, e foram somente condições adversas (chuva) que fizeram a Renault superá-los. E, ironicamente, tanto na Hungria quanto na China, Alonso fez corridas geniais e foi prejudicado pela equipe.

      Abraço!

    • Marcel Pilatti disse:

      Ops, *desde Indianápolis.

      E nas primeiras 9 etapas, no Bahrain e especialmente em San marino e Nürburgring, a Ferrari foi melhor.

  4. Salve Marcel!
    Talvez eu tenha me expressado mal, meu amigo, mas não poderia dizer que Alonso e Ferrari formam o conjunto mais eficiente do ano, justamente pela quantidade de pontos que já jogaram fora. Os mais eficientes, com certeza, foram Vettel e Red Bull.
    Alonso e Ferrari, a meu ver, formam o conjunto de desempenho mais robusto, considerando as pistas boas e más. Se a Red Bull vence e depois termina em quarto, Alonso e a Ferrari, em condições normais, estão sempre em 1º ou 2º.
    Acho que ele briga sério pelo título deste ano, se a Red Bull não emendar uma daquelas irresistíveis séries de vitórias a partir de algum ponto.
    Em termos de pilotagem, sempre achei Vettel mais brilhante e Fernando mais completo.
    Abraços a todos.

  5. Ballista disse:

    Não podemos esquecer que a F1 é um campeonato de construtores. A norma é que vença o melhor carro. Alonso é o melhor piloto do grid em muitos quesitos, mas acabou se mostrando um tanto ineficiente em buscar o melhor carro para si.

    • Fernando Marques disse:

      A F1 também é um campeonato mundial de pilotos mas concordo com a sua teses …

      fernando Marques

    • Mauro Santana disse:

      Concordo Ballista, e um bom exemplo disso é o que aconteceu com Button em 2009, pois um ano antes o cara era mais um, e no ano seguinte(2009) era considerado uma fera quase imbatível.

    • Ronaldo de Melo disse:

      Concordo bastante com a última parte da sentença, especialmente olhando para 2007/2008, quando o ego do espanhol o fez largar do melhor carro. Que fique claro: Ele não queria a oportunidade de bater o companheiro de equipe no melhor carro, mas ter o melhor carro para si e ponto. Se não fosse a patacotada da Hungria, creio que contaríamos outras histórias hoje, especialmente se levarmos em conta a instabilidade emocional de Hamilton.

  6. Tiago disse:

    Alonso é o melhor da atualidade e da última década para mim. Porém, é o que os amigos disseram, ele não contava com um menino que viesse a render tudo isso, contando, lógico, com um ótimo carro.

    Alonso é constante e regular. Mas Vettel é mais.

  7. calhiandro disse:

    Concordo com o Mauro Santana, ele tem que se aposentar no mínimo como um tricampeão do mundo!

  8. Fernando Marques disse:

    O Alonso é o melhor piloto da atualidade mas o Vettel não fica muito atras, pelo contrário, já demonstrou varias vezes que não fica nada a dever ao Alonso. A diferença pode estar no equipamento. Alonso mostra toda a sua habilidade numa Ferrari que não consegue ser competitivamente constante durante todo o campeonato como a RBR. O Vettel até então nunca teve que disputar um titulo nestas condições que o Alonso tem, dái o Alonso estar na frente como o melhor.
    Agora não torço pelo ALonso. Esta condição que ele tem na Ferrari, como o Schumacher tinha na sua epoca, a meu ver tira pontos dele em relação a minha torcida.
    Piquet disse que hoje um bom piloto de Formula 1 tem que ser rápido durante toda a corrida. Não precisa mais se preocupar com a resistencia do carro. O Alonso é rapido mas o Vettel também é rápido e constante.
    Agora verdade seja dita, para quem bateu o Schumacher por duas vezes e achava que ia superar o recorde do Alemão, e de repente vê a sua carreira indo para ser o maior perdedor da historia da Formula 1 a meu ver deve ser um trem muito complicado. Ele não contava com um Vettel a sua frente.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • admin disse:

      Olá Fernando.

      Sim, acho que Vettel está no mesmo nível de Alonso, tendo vantagem em alguns aspectos (velocidade pura, por exemplo). Algumas dúvidas quanto à sua real capacidade também foram sanadas ano passado: se do lado de Alonso tivemos a clássica performance do “render muito mais que o equipamento permite”, do lado do alemão tivemos um cara que fugiu às suas características em muitas provas e fez por merecer vencer, sim.

      Creio que Hamilton é o que mais perdeu nessa história toda pois, também ele, era apontado como futuro homem dos números, e se vê, atualmente, como um “vencedor de GPs”. E você apontou para algo interessante: na história, Moss (4) e Prost (idem) são os que mais vezes foram vice-campeões. Alonso já tem 2 (2010 e 2012) e em 2007 foi terceiro tendo marcado os mesmos pontos do vice, e um a menos que o campeão.

      Portanto, podemos estar diante de um novo recordista. Do avesso, porém.

      Abraços!

      • Fernando Marques disse:

        Concordo com a sua opinião em relação ao L. Hamilton … tudo parecia que ele ia ser imbatível … mas a forma como ele conquistou o campeonato de 2008, aquela ultrapassagem nas ultimas curvas na ultima volta em Interlagos achei meio na mutreta … mas acho ele muito bom e poderia estar mais forte nesta briga Alonso x Vettel …

        Fernando Marques

  9. Mauro Santana disse:

    Bela coluna!

    Alonso é o melhor da atualidade, e ele no mínimo tem que se aposentar no grupo dos Tricampeões, pois o cara é FERA!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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