Os cúmplices de Schumy

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Edu,

Além de todas as considerações que você fez sobre o Schumacher, acho que há outro fator que não pode ser esquecido: o relacionamento dele com Jean Todt e o fato de o alemão ter levado para a Ferrari os engenheiros Ross Brawn e Rory Byrne, os mesmos que lhe proporcionaram seus grandes dias na Benetton.

Quando a Ferrari anunciou a contratação de Todt, em 1993, eu logo imaginei que ele poderia realmente ser o artífice da redenção da equipe. Todo mundo sabia que ele era um comandante mais do que vitorioso na Peugeot (venceu Le Mans e o Paris-Dakar). Eu me lembrava de ter lido que era um muito firme e absolutamente frio – características fundamentais para colocar ordem na bagunça que era a Ferrari no começo dos anos 90. Todt, não sei se você sabe, foi um dos melhores navegadores do Mundial de Rali nos anos 70 e começo dos anos 80. Não por acaso, ele era o preferido dos chefes de equipe para acompanhar pilotos jovens e impetuosos. Com sua capacidade de liderança, o francês conseguia conter a fogosidade dos novatos sem tolher-lhes o talento natural.

É visível que entre Todt e Schumacher há mais que uma parceria. Pode-se dizer que existe entre eles uma autêntica e saudável cumplicidade – coisa que não se via desde Jim Clark/Colin Chapman na Lotus dos anos 60 e Nelson Piquet/Gordon Murray na Brabham dos anos 80. Senna e Ron Dennis também tinham um relacionamento muito forte, mas esta união foi bastante favorecida por ter acontecido quando as duas partes se encontram no topo da montanha. As outras três duplas tiveram que fazer a escalada juntas, superando dificuldades em comum.

Pense agora na Ferrari de 1990, quando Alain Prost e Cesare Fiorio trabalharam juntos. No final do ano anterior, quando a equipe anunciou a contratação do francês, tive certeza de essa dupla seria perfeita para colocar fim ao jejum de títulos da Ferrari – que, àquela altura, ia completar “apenas” 11 anos. Em menos de dez meses, Prost e Fiorio já estavam brigados e deram origem à sucessão de troca de farpas que durou até Fiorio ser demitido após o GP de Mônaco de 1991. Minha impressão é que os egos dos dois fizeram com que cada um quisesse ser reconhecido como maior responsável pelo sucesso. Isso impediu que se criasse a cumplicidade que vemos hoje entre Schumacher e Todt. Basta ver a maneira como eles se cumprimentam nos pódios para perceber que cada um considera o trabalho do outro parte fundamental de seus respectivos sucessos.

A persistência e determinação de Schumacher em fazer a Ferrari alcançar o topo apenas realça a grandeza de seus dois últimos títulos. Quando assinou com a Ferrari, em 1995, ele sabia que pelo menos as duas temporadas seguintes seriam de muito trabalho e poucos resultados. Mesmo assim, ele topou a parada. Será que Senna faria a mesma coisa? Acho que não. Ele queria ter o melhor equipamento agora e já. Plantar para o futuro não fazia parte de sua índole de vencedor obcecado.

Por último, vale a pena lembrarmos de alguns “se” (sim, eu sei que “se” não ganha corridas nem títulos, mas não custa especular um pouco). É bem provável que Schumacher fosse campeão em 1997 se não tivesse aquela idéia idiota de tentar jogar Villeneuve para fora da pista em Jerez. (Aquela vergonha serviu, pelo menos, para dar um basta nessa mania iniciada pela dupla Senna/Prost.) Em 1999, o alemão certamente teria sido campeão mundial se não fossem as pernas quebradas em Silverstone. Voltando mais um pouco no tempo, poucos pararam para pensar que Schumacher poderia ter vencido sua corrida de estréia na Fórmula 1, o GP da Bélgica de 1991. Lembre-se: ele largou em 7º, pulou para 5º na largada e parou algumas centenas de metros depois porque a embreagem de seu Jordan disse adeus. Seu companheiro de equipe, Andrea de Cesaris, largou umas três posições atrás do alemão e, a quatro voltas do final da corrida, estava prestes a ultrapassar Senna, que liderava, quando seu motor estourou.

Grande abraço,

Panda

PS – Hoje, 10 de setembro, estão fazendo 29 anos do primeiro título de Emerson Fittipaldi e de um piloto brasileiro na Fórmula 1…


GPTotal
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A nossa versão automobílistica do famoso "Carta ao Leitor"

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