Os maiores de Indianápolis

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Esta coluna é dedicada a relembrar a quarta e última vitória de cada um dos maiores vencedores das 500 Milhas de Indianápolis, três pilotos entre os maiores de todos os tempos do automobilismo norte-americano: AJ Foyt, Al Unser e Rick Mears.

Você é indubitavelmente um grande campeão, com glórias durante a carreira, muita grana, superando todas as dificuldades. Mas não se engane: os cabelos brancos, as rugas e a silhueta mais avantajada dizem muito. Dizem que o tempo passou, que a idade agora é o maior adversário. E que, se você não pensa em aposentadoria, muitos estão pensando isso por você. Ainda assim, você junta forças e mostra seu melhor uma última vez, dando uma lição em todos os outros no palco mais importante que você conhece. E se torna o maior vencedor de todos.

Esta coluna é dedicada a relembrar a quarta e última vitória de cada um dos maiores vencedores das 500 Milhas de Indianápolis, três pilotos entre os maiores de todos os tempos do automobilismo norte-americano: AJ Foyt, Al Unser e Rick Mears.

29 de Maio de 1977, AJ Foyt

Em 1977, Anthony Joseph Foyt Junior já tinha o status de lenda. Mas era um caubói grisalho de 42 que já estava longe do auge, após muitas vitórias em ovais da Indy, da Nascar (incluindo a famosa Daytona 500) e seu triunfo em Le Mans com o Ford GT40. Sua primeira conquista em Indianápolis havia acontecido há muito, em 1961, época do pavimento de tijolos, motores dianteiros e zero de downforce…

Para aquela edição, Foyt contava com um chassi Coyote projetado em 1975, que só de batermos o olho sabemos que tinha uma aerodinâmica horrorosa, bem mais grosseiro que os McLaren e Parnelli da época. Seu motor era um Ford V8 standard turbinado e de preparação própria, muito menos refinado que a grande novidade da época, o Cosworth DFX Turbo, derivado do lendário V8 DFV que conquistou a F1.

Os rivais de AJ para a corrida eram justamente grandes pilotos da época, todos vencedores em Indianápolis: Johnny Rutherford, Gordon Johncock, os irmãos Bobby e Al Unser, Tom Sneva e Mario Andretti. Ironia das ironias: com um carro velho e nada competitivo, um dos novatos que não conseguiu qualificar-se nesse grid chamava-se… Rick Mears.

Na corrida, AJ largou em quarto lugar. Johncock, 5º do grid com um Wildcat-DGS, começou a se destacar e tomou a liderança na volta 18, passando a ser o grande favorito. Foyt, o pole Sneva (McLaren-Cosworth) e Al Unser (Parnelli-Cosworth) eram seus perseguidores. Com 20 voltas para a bandeirada, Foyt começou a tirar a diferença de 10s e tinha pneus externos novos no último pit. Tudo se encaminhava para uma perseguição final espetacular, quando o motor do líder explodiu na reta principal, quatro giros depois. Era a confirmação de Foyt na ponta, com folga de 30s para Sneva.

A história estava escrita: Indianápolis tinha seu primeiro tetracampeão.

24 de maio de 1987, Al Unser

A história da quarta vitória de Al Unser beira o inacreditável. Ele era um piloto decadente de 47 anos, desempregado e sem patrocínio, que triunfou na principal corrida do país a bordo de um carro de segunda mão do ano anterior, que semanas antes estava no saguão de um hotel qualquer servindo de modelo de exposição.

Vencedor de Indy em 1970, 1971 e 1978, e campeão nacional em 1970, 1983 e 1985, Al Senior ficou sem emprego no começo de 1987, quando Roger Penske teve que optar por ficar com Rick Mears e Danny Sullivan como titulares. O veterano, portanto, nem ao menos estaria presente em Indianápolis. Unser só deu as caras por lá unicamente porque seu filho Al Jr., um futuro campeão, começou a ter problemas de acerto nos treinos e não conseguia se qualificar. Coisas de pai…

Enquanto Mario Andretti detonava a concorrência com o Lola-Chevrolet da Newmann-Haas, liderando 11 dos 13 treinos que participou, a Penske vivia um pesadelo. O novo chassi PC-16, para Mears, Sullivan e o interino terceiro piloto Danny Ongais (que havia fechado participação apenas para a corrida), não era competitivo. Ongais provaria isso numa batida violenta nos treinos. Roger Penske imediatamente vetou seu próprio chassi.

Mas havia outro problema: o novo chassi March 1987, que estava disponível e que todo mundo usava, também não era uma boa opção, pois não casava bem com os novos pneus Goodyear radiais. Muitos pilotos também estavam batendo esse carro. Roger então começou uma caçada para achar três March de 1986, desatualizados, porém estáveis, para conseguir correr. Não havia nenhum disponível a “pronta entrega”. Sullivan e Mears chegaram a tirar cara-e-coroa para saber quem ia dirigir o primeiro carro que conseguiram arrumar.

Para piorar, Ongais estava fora, vetado pelo departamento médico. Mas Roger quis manter a terceira inscrição: achou um terceiro March 86 que estava em exposição num hotel na Pensilvaniana e botou nele um motor Cosworth e chamou seu velho piloto Al Senior, que pouco treinou e se classificou num modesto 21º lugar. Para a Penske, era apenas uma substituição, não havia maiores ambições para a corrida, ainda mais com carros velhos e um Mario Andretti devorador.

Enquanto Unser Senior tinha que escapar de um acidente na largada, provocado por um piloto que largou ao seu lado, Mario arrasava e dava volta em todos, inclusive nele. O principal concorrente do ítalo-americano, o então campeão Bobby Rahal, teve uma pane elétrica e abandonou, mesmo problema que forçou a saída de Mears mais tarde. Sullivan também abandonou, com motor quebrado, de modo que Unser era o único Penske sobrevivente. Aos poucos, o velho Al começou a subir de posições, andando suave e calculadamente, achando seu ritmo com a paciência que sempre teve. Mas todos pensavam “ah, Al Unser, é mesmo, ele está correndo”.

A ‘maldição dos Andretti’ fez com que Mario, com uma volta inteira de vantagem para o colombiano Roberto Guerrero, tivesse uma pane na injeção eletrônica e perdesse a corrida mais ganha de toda a história do Indianapolis Motor Speedway, a apenas 20 voltas do fim. Unser estava em 3º, quase duas voltas atrás, e foi chamado por Roger Penske para um pit final antecipado, para botar pressão em Guerrero, mesmo que uma volta atrás.

A tática de Roger funcionou: acelerando em seu ritmo máximo, o velho Al colocou pânico na equipe Granatelli-STP. Guerrero, que vinha cuidado da embreagem defeituosa, em seu último pit hesitou e não conseguiu tirar o carro da inércia, perdendo muito tempo.

Aquele velho carro, com aquele velho piloto, descontou a volta e assumiu a liderança na volta 188. Foram doze voltas finais de comoção para todos. O velho Al Unser teve por uma última vez o gosto da vitória, inscrevendo seu nome ao lado de AJ Foyt da maneira mais gloriosa possível: do nada para a total consagração.

26 de Março de 1991, Rick Mears

O título de “Rei dos Ovais” não é pra qualquer um. Rick Mears não apenas mereceu esse apelido como também foi o único, até hoje, a ser chamado assim. Sua carreira, dos ovais de terra para piloto #1 da Penske, foi meteórica. De sua não-classificação em 1977 para sua primeira vitória, bastaria apenas dois anos. Seus outros triunfos em Indianápolis vieram em 1984 (ano em sofreria logo depois um gravíssimo acidente que debilitou muito suas pernas), e em 1988.

Rick era bom demais naquele retângulo. O retrospecto na pista é impressionante: nas nove oportunidades em que conseguiu chegar ao fim, sempre esteve entre os cinco primeiros. Todos os seus abandonos foram por problemas mecânicos, exceto em sua última participação, em 1992, ano em que muitos foram ao muro por conta dos pneus ruins, inclusive ele.

Em 1991, Mears tinha 39 anos e já pensava em se aposentar, sobretudo quando nos treinos sofreu seu acidente… número 1 em Indianápolis. Sim, é isso mesmo: de 1978 até 1991, Rick nunca havia assinado o muro da Brickyard. Algo na traseira do carro quebrou, tirando sua invencibilidade e lesionando seu pé direito. Aquele, que aperta o acelerador…

Mas, como sempre, Rick estava voando em Indianápolis. Pegou o carro reserva e estabeleceu o recorde vigente de seis poles na pista. Os pretendentes daquele ano formavam um cast muito forte. Mears enfrentava Emerson Fittipaldi dentro da Penske e ainda Mario e Michael Andretti da Newman-Haas; Bobby Rahal e Al Junior da Galles; e o então vencedor Arie Luyendyk, holandês cabeludo que também andava muito bem por lá. Até mesmo AJ Foyt estava em forma e qualificou-se na segundo lugar no grid. Nada mal para um velhote gorducho de 56 anos…

Na corrida, se Mears queria vencer, teria que superar Michael Andretti, que começou a dominar já no primeiro quarto de corrida. O futuro campeão da Indy daquele ano, quinto do grid, já estava em seu auge, agressivo e determinado como nunca. Rick também tinha que superar as dores do acidente, que ele mesmo classificou como algo parecido com alguém enfiando uma faca quente em seu pé. A dor só diminuía quando ele aliviava o acelerador e em alguns momentos ele chegou a usar o pedal com o pé esquerdo, o que, evidentemente, o deixava sem freios!

Quando Fittipaldi teve a caixa de câmbio quebrada na volta 171, apenas Andretti e Mears estavam na mesma volta. Quando houve uma bandeira amarela na volta 183, Michael aproveitou para um oportuno splash-and-go, posicionando-se logo atrás de seu rival da Penske para a relargada, 14 voltas do fim.

O que se viu então foi um movimento incrível, e um troco mais incrível ainda. Andretti usou a seu favor dois retardatários, pegou vácuo e passou Mears por fora na curva 1, em linda manobra que deixara Rick sem espaço para desenvolver velocidade na curva e manter a posição. Manobra perfeita.

Rick entrava no mesmo dilema de 1982, quando perdeu por menos de meio segundo para Gordon Johncock, apenas porque não encontrou um meio de ultrapassá-lo. Desta vez, mais experiente, devolveu a manobra de Michael com juros, assumindo riscos incríveis.

Já na volta seguinte, Mears encheu o turbo, pegou vácuo, apontou na reta e passou por fora em movimento ainda mais espetacular e assustador. Sua trajetória foi ainda mais larga, praticamente fora da linha ideal, no traçado sujo e sem aderência, e que permitia a Michael também entrar na curva com toda energia. “Não sei onde ele arrumou tanta velocidade”, diria mais tarde Andretti. Manobra mais que perfeita.

O fato é que a telemetria mostrou que nenhuma volta de Rick havia sido mais rápida do que aquela em toda a corrida. Ainda haveria mais uma bandeira amarela, a 10 voltas do fim. Mas depois daquilo, ficou claro que não havia como superar Mears naquele dia. Dada a bandeira verde, ele partiu novamente como um foguete em busca da quadriculada e a garrafa de leite.

Mears tetra.

Ao fim deste mês, Hélio Castroneves e Dario Franchitti correm por uma quarta vitória em Indianápolis. Fica a torcida para, caso um dos dois obtenha êxito, que seja de maneira tão gloriosa quanto foi para AJ, Al e Rick.

Aquele abraço!

Lucas Giavoni

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

13 Comments

  1. […] recomendo a leitura da coluna do Lucas sobre a Indy e seus maiores vencedores, aqui. E também acompanhe as melhoras provas de Mônaco na nossa página no […]

  2. Rafael Carvalho de Oliveira disse:

    Não sei se vocês concordam comigo, mas Lucas Giavoni acho que você deveria ter citado o Dan Wheldon porque ele também estava meio esquecido na Indy e a vitória em Indianápolis foi a sua redenção em 2011!

    • Lucas Giavoni disse:

      Caro Rafael,

      Deixei bem claro no texto que só falaria dos veteranos tetras de Indianápolis (num texto que já ficou um pouco maior do que de costume). E que, para mim, são os três maiores pilotos de Indy de todos os tempos.

      De fato, Dan Wheldon, duas vezes vencedor, andava uma barbaridade em Indianápolis e para mim ele é um assunto inacabado, dada sua brutal e lamentável morte. Ainda escreverei sobre ele, disso você pode ter certeza.

      Abração!

      Lucas Giavoni

      • Rafael Carvalho disse:

        Amigo Lucas, esquece que o cabação aqui falou! Realmente você está certo eu é me de liguei do foco principal do texto que por sinal esta excelente!

  3. Fernando MArques disse:

    Lucas seria uma delicia para Rick Mear, All Unser e A.J. Foyt lerem esta sua coluna.
    Indianapolis é sempre Indianapolis … a Formula Indy sempre proporcionou a longetividade aos seus grandes pilotos … e grandes historias …e grandes vitorias … domingo que vem estarei ligado na telinha … O Helinho sempre anda bem lá …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas Giavoni disse:

      Indianápolis causa fascínio porque transpira história. E homenagear os maiores vencedores é só uma pontinha do que é possível fazer. Ainda quero escrever mais textos sobre Indianápolis: Dan Wheldon, o motor Mercedes-Benz de 1994, a edição dramática de 1992… Enfim, tem um monte de boas pautas históricas na gaveta.

      Estou aguardando ansiosamente a corrida. Interessante constatar que não existe edição chata em Indianápolis: ou temos um grande vencedor dominando (e o congratulamos pela competência diante dos demais competidores), ou batalhas que decidem o vencedor nas últimas voltas e nos empolgam ainda mais.

      Quem sabe Helinho ou Franchitti não se juntam aos tetras?

      Abração!

      Lucas Giavoni

  4. Mário Salustiano disse:

    Lucas,

    o texto está primoroso, ainda mais que sou da geração dos “velhinhos”que acompanham o automobilismo, tive a sorte de assistir as corridas de 1987 e 1991, a vitória de Unser senior em 87 dada as circunstâncias citadas foi antológica para quem acompanhou ao vivo, fazendo um paralelo na F1 a vitória de Lauda sobre Prost em 84 também foi uma demonstração do ardil que a experiência as vezes impõe a juventude

    abraços

    Mário

    • Lucas Giavoni disse:

      Querido Mário,

      A história de Unser em 87 rende filme, de tão inacreditável que foi.

      Ron Howard: depois de lançar o Rush, pode fazer um sobre Indy 87, porque o roteiro é sensacional!

      Abração!

      Lucas Giavoni

  5. Que beleza de texto, hein?
    Abraço!

  6. Rubbergil Jr disse:

    Lucas, meu caro, não tenho palavras para expressar o quanto me emocionei ao ler a sua coluna e ver os vídeos. Me lembro muito bem da corrida de 1991 e entendi porque Mears era chamado o rei dos ovais.

    Indy 500 é inigualável.

    Abraços,

    • Lucas Giavoni disse:

      Agradeço as palavras, Rubergil.

      O automobilismo nos proporciona histórias de vida como desses velhinhos bons de volante. Caprichei na pesquisa justamente porque pensei que o tema rendia boas histórias.

      E, vamos lá, essa ultrapassagem do Mears em 1991 deve ter sido a mais bonita da história centenária do Indianapolis Motor Speedway.

      Abração!

      Lucas Giavoni

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