Os pilotos daquela foto – parte 2

Porta da frente
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Os pilotos daquela foto – parte 3
26/02/2018

Os pilotos daquela foto – parte 1

Na coluna anterior [leia clicano na imagem acima] percorremos os acontecimentos do campeonato de 1985, nessa segunda parte vamos passear pelo campeonato de 1986.

Ao final de 85, além da conquista de Prost, o acontecimento mais comentado era a súbita melhora na competitividade da Williams e a contratação de Nelson Piquet pela equipe inglesa.

Piquet tinha uma imagem muito forte como acertador de carros e de pilotagem segura, certamente era sensato apostar as fichas que ele terminaria o ano de 86 como campeão.

Um fato seria determinante e alteraria o que era esperado, durante os testes de inverno em dezembro no retorno após acompanhar o treino de pneus de sua equipe, Frank Williams se acidenta e fica entre a vida e a morte, a sequela do acidente o deixa paraplégico, ele fica de fora do comando da equipe até o final de 1986, essa falta de sua presença nos boxes afetaria o rumo de sua equipe, que sem uma boa liderança ficou órfã em momentos importantes durante a temporada.

Muitos historiadores e fãs consideram que essa temporada foi uma divisor de águas na história da Fórmula 1, por uma série de fatores, desde disputas acirradas, corridas emocionantes, e o mais sensacional o desabrochar de 4 pilotos na mais alta competência em seus talentos, culminando com um final onde o senso tático foi vencedor sobre o melhor conjunto de pilotos e carro da categoria.

As corridas do campeonato de 1986 tiveram um papel tão relevante na história da F1, que algumas delas entram fácil na lista das top 20 da história da Fórmula 1, fazendo um exercício consigo listar:

  • GP da Espanha, disputado em Jerez pela primeira vez em 13 de abril
  • GP da Inglaterra, disputado em Brands Hatch em 13 de julho
  • GP da Alemanha, disputado em Hockenheim em 27 de julho, a cena de Patrick Head gritando quando Piquet entra no lugar de Mansell para trocar pneus é impagável
  • GP do México, disputado no circuito Hermanos Rodrigues em 12 de outubro, corrida que marcou a volta da F1 ao México e viu uma valente vitória da Benetton com pneus Pirelli

A jóia da coroa desse campeonato é o GP da Austrália, disputado em Adelaide em 26 de outubro, corrida que decidiu o mundial, já escrevi em outras oportunidades que considero essa a melhor corrida da história da categoria

O ano de 1986 foi dominado por quatro pilotos: Mansell, Piquet, Prost e Senna.

Eles dividiram as vitórias em todas as corridas exceto uma, o GP Mexicano, ao termino da temporada havia mais de 30 pontos separando eles e o quinto colocado, o piloto Stefan Johansson.

A temporada iniciou no Brasil e foi vencido por Piquet, com Senna em segundo, foi a primeira dobradinha de dois brasileiros desde o GP Inglaterra de 1975.

Prost e Mansell não terminaram a prova brasileira.

Na próxima corrida, na Espanha, Mansell parecia na fase inicial da prova como provável vencedor, mas Senna, tendo começado pela pole pela segunda vez, conseguiu a vitória, na mais apertada diferença entre dois pilotos de equipes rivais.

Em 1986 Senna conquistaria a pole em oito das 16 corridas e, embora apenas duas corridas fossem convertidas em vitórias, ele estava demonstrando exatamente qual era o talento que ele possuía.

Os carros Williams e McLaren eram superiores, mas o brasileiro era um campeão em construção, tanto que em julho durante o GP da Alemanha a Honda anunciou que também equiparia a Lotus a partir de 1987.

Na sequência o calendário prosseguiu com provas nos GPs de San Marino, Mônaco, Bélgica, Canadá e Estados Unidos em Detroit.

Prost consegue duas vitórias, Mansell também duas e Senna uma vitória nesses GPs, o campeonato apresentava a liderança de Senna com 36 pontos, seguido de Prost com 33 pontos e Mansell com 29 pontos, Piquet estava com 19 pontos e não estava confirmando seu favoritismo, começavam os rumores que a Williams estava favorecendo Mansell.

As 4 provas seguintes, foram respectivamente, França, Inglaterra, Alemanha e Hungria.

Mansell e Piquet obtém duas vitórias cada, o inglês vence na França e na Inglaterra, onde trava uma bela disputa com o brasileiro, para essa prova comparecem mais de 120 mil torcedores claramente dando apoio a Mansell e marca a volta de Frank Williams ao paddock. Após a dobradinha uma cena emocionante toma conta do pódio, Ginny Williams é quem sobe para receber o troféu da vitória pela equipe.

Nessa altura Mansell passava a ser visto como um sério candidato ao título, já que pela primeira vez ele assume a liderança do campeonato de pilotos.

Piquet tratou de se recuperar e obtém duas vitórias seguidas, Alemanha e Hungria, com essa reação ele diminui a vantagem de Mansell, mas ainda fica em terceiro, o campeonato apresenta Mansell na liderança com 55 pontos, segundo de Senna com 48 pontos, Piquet em terceiro com 47 pontos e Prost sem nenhum brilho nessa fase está em quarto com 44 pontos.

O ponto alto da corrida húngara foi a ultrapassagem de Piquet sobre Senna, só o encontro de dois gênios poderia proporcionar a famosa cena da atravessada em 4 rodas que Piquet deu para conseguir uma das mais belas ultrapassagens da história, como disse Jackie Stewart “foi como se um piloto desse um looping num jumbo 747”.

Faltando cinco provas para o termino do campeonato tudo levava a crer que a dupla da Williams polarizaria a disputa, eles haviam ganho sete das doze provas disputadas até ali.

Veio a corrida da Áustria e Prost volta a vencer, em seguida nos GPs da Itália a vitória ficou com Piquet e em Portugal Mansell levou a melhor.

No final de semana dessa corrida, temos a celebre foto dos 4 postulantes ao título sentados na mureta dos boxes de Estoril, uma foto que representa a imagem perfeita de uma geração ímpar na história da Fórmula 1.

Mansell abre 10 pontos de vantagem para Piquet e 11 para Prost, Senna nessa fase enfrentou a falta de competitividade de seu carro e mesmo tentando tirar a desvantagem no braço nada podia ser feito, ele estava fora da disputa final.

A corrida seguinte no México tem uma vitória inesperada, Berger com a Benetton surpreende e contando com a resistência dos pneus Pirelli vence de forma categórica, a Goodyear que equipava as equipes postulantes ao título foi surpreendida com a falta de resistência, isso teve um papel preponderante na corrida seguinte.

Chega a última prova na Austrália.

Na disputa bastava Mansell marcar de perto Piquet e Prost, uma corrida que marcou a história e sobre essa prova já escrevi a coluna: “Pneus e estouros” – confira aqui a parte 1 e aqui a parte 2.

Sobre o ano de 1986 numa ótica mais afastada pelos anos, concluo que Piquet a partir do momento que percebeu que não era considerado o primeiro piloto passou a trabalhar apenas para si e queria conquistar por si só, não o condeno por isso, só que as consequências foram dois pilotos lutando um contra o outro em vez de formar uma parceria tática, isso foi, em última análise, a destruição da Williams. Eles dividiram pontos valiosos, de modo que, no final, nenhum deles poderia ganhar.

Em contrapartida, Prost passou a esbanjar senso tático e literalmente tirou leite de pedra com um carro menos competitivo que as Williams, ele fez sucessivas corridas onde ele apenas mirou o campeonato e com isso conseguiu terminar o ano como campeão, vitória improvável até meados de agosto, diga-se de passagem, o primeiro bicampeão consecutivo desde Jack Brabham.

Sua campanha em 1986 consolidou a aura de professor, sem dúvida um piloto completo, mas que certamente se beneficiou da rivalidade de Mansell e Piquet, sem demérito para o francês.

Vamos falar na próxima coluna sobre o campeonato de 1987, um campeonato onde a astucia de um piloto derrotou um ambiente nada favorável, não tenho mais a ideia após todos esses anos que houve um complô contra Piquet, mas deixo essa conversa para nosso próximo encontro.

Até lá,

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

2 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Grande Salu!

    Falar de 86, é sempre muito emotivo pra mim.

    Concordo com o Fernando, Piquet nunca ajudaria o Mansell, mesmo que indiretamente.

    Sua cara de satisfação no pódio australiano, seria lembrada por Alonso no pódio de Interlagos 2007, pois ambos perderam, mas, saíram satisfeitos pela derrota dos respectivos companheiros de equipe.

    Que venham a próxima parte.

    Abraço!!!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Fernando MArques disse:

    Mario,

    a temporada de 1986 é realmente inesquecível e a unica que tiro o chapéu para o Prost que acabou campeão. Todos os motivos estão bem descritos na sua coluna.
    Mas eu não vejo Piquet como derrotado nesta temporada. Voce diz: ” … concluo que Piquet a partir do momento que percebeu que não era considerado o primeiro piloto passou a trabalhar apenas para si e queria conquistar por si só, não o condeno por isso, só que as consequências foram dois pilotos lutando um contra o outro em vez de formar uma parceria tática, isso foi, em última análise, a destruição da Williams. Eles dividiram pontos valiosos, de modo que, no final, nenhum deles poderia ganhar … ”
    Piquet a partir do momento em que se viu preterido na Willians correu também para não deixar o Mansell ser campeão. Era ele ou ninguém. Não havia chances nenhuma de poder formar uma parceria tática para Mansell ser campeão ou vioce e versa. A meu ver neste ponto ele saiu vencedor.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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