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A Williams teve dois anos, 1986 e 1987, bem-sucedidos em termos técnicos, mas com resultados que foram afetados pela briga interna entre seus pilotos. Já nas temporadas de 1988 e 1989 teríamos uma mudança de supremacia, ainda mais intensa, em favor da McLaren.

A grande questão que circulava no paddock é se haveria para a McLaren o mesmo tipo de problema e clima interno que afetou a Williams. Afinal, Ron Dennis fez uma aposta alta e reuniu Ayrton Senna e Alain Prost para compor sua dupla de pilotos. Senna era uma grande promessa e Prost, mesmo já bicampeão, ainda demonstrava que tinha a ambição para conquistar vários outros títulos.

1988 marcou o fim da era turbo. Seria a última temporada com esse tipo de propulsor e a F1 só retomaria tal configuração em 2014, juntamente com a tecnologia híbrida de recuperação de energia.

A fim de equilibrar as “fórmulas” entre aspirados (de 3500cc) e turbos (de “apenas” 1500cc), foram aumentadas as limitações desse último tipo de motor: a pressão do turbo caía de 4,0 para 2,5 bar (que, na prática tirava uns 250 cavalos de potência), e restringia o combustível para apenas 150 litros, sendo que aspirados não tinham restrição nesse quesito.

Mesmo com tantas limitações de regulamento, o motor Honda, em sua nova atualização, continuava a ser o melhor da F1, e teve um casamento perfeito com o novo chassi da McLaren, o MP4/4. A temporada foi um massacre, com vitória em 15 das 16 provas do campeonato. Mas isso não significou que foi um campeonato monótono. Muito pelo contrário: ele seria marcado pelo duelo aberto entre Prost e Senna.

E Nigel Mansell? E Nelson Piquet? Depois de dois anos disputando ferrenhamente o título, os dois teriam uma temporada miserável em 1988. Piquet se refugiou na Lotus, com um grande salário, e com um motor Honda atrás dos ombros. O problema é que a Lotus projetou um carro pra lá de infeliz, que chegava a ser 3s mais lento por volta que a McLaren em Imola, sendo que ambos tinham o mesmo motor!

As coisas também não foram boas pra quem ficou na Williams. Mansell que o diga. Ao perder o Honda, a equipe de Frank Williams teve que assinar um contrato emergencial com a Judd, que trazia um novo V8 aspirado para a F1. O FW12 era um carro pouco inspirado, e não compensava a falta de potência do motor, que além de tudo quebrava demais. Juntos, Piquet (6º) e Mansell (9º) somariam apenas 5 pódios e 34 pontos.

Alain Prost | Nigel Mansell (Spain 1988) by F1-history

Prost, tendo convivido com Niki Lauda e perdido o confronto com o austríaco em 1984, havia aprendido que o clima da equipe seria importante no convívio com Senna e apostou suas fichas nessa possibilidade. Assim, ele recebeu o brasileiro de braços abertos e contava com a pouca intimidade que o brasileiro teria em sua primeira temporada na equipe.

Ledo engano por parte do francês.

Senna não entrou no jogo político. Ele era muito focado e sabia que a McLaren era a equipe para ele levar adiante sua tão planejada carreira e conquistar vitórias e títulos. Afinal, a transferência do motor Honda para a McLaren havia ocorrido por sua causa, como bem definiu o nosso colunista Márcio Madeira. Senna tinha apoio da Honda e Prost da McLaren.

Vale a pena assistir os vários vídeos com o resumo da temporada de 1988:

Nas primeiras 4 provas (Brasil, San Marino, Mônaco e México) Prost obtém 3 vitórias contra 1 de Senna. Por enquanto, o clima entre eles estava ameno e Prost achava que já tinha Senna sob controle, muito em parte pelo famoso erro por desconcentração de Ayrton em Mônaco, que segundo ele declarou, foi um ponto de virada na sua forma de encarar uma corrida.

A partir da quinta etapa, no Canadá, a coisa muda totalmente de figura. Na primeira batalha direta entre os dois na pista, Senna demonstra sua ousada habilidade, faz uma ultrapassagem sensacional sobre Prost e não é mais alcançado pelo francês.

Até o GP da Bélgica, a décima primeira etapa, seriam disputadas mais 7 corridas. E o placar vira completamente, tendo Senna obtido seis vitórias contra apenas uma de Prost.

Mesmo com Prost mostrando notável regularidade, obtendo o segundo lugar em 5 oportunidades (exceto na Grã-Bretanha, onde sob forte chuva ele abandona), ficava evidente que Senna era muito superior. O francês esperava que o brasileiro se curvasse e fizesse um papel de segundo piloto, mas ao invés disso, derrotava rotineiramente o francês na pista. Até a Bélgica, na disputa em pista dessas 11 etapas, Senna liderou 479 voltas, contra 213 de Prost.

Na corrida em Monza, aconteceu a única vitória de um carro que não era McLaren, Berger e Alboreto fizeram uma dobradinha pela Ferrari, após o abandono da dupla Senna-Prost. Nessa altura do campeonato Prost começa a sua famosa guerra de nervos contra Senna. Via imprensa, o francês argumentava que a Honda estava favorecendo o brasileiro

Fato ou folclore, o que acabou acontecendo foi a reação do francês nas duas provas seguintes, em Portugal e na Espanha. Enquanto ele obteve essas duas vitórias, Senna apresentou na pista seus piores resultados do ano, ficando sem sexto e em quarto lugar, respectivamente, lutando contra um consumo de combustível muito maior que o normal.

Em 1988 vigorava o sistema que ficou conhecido como de “descartes”, em que valiam 11 dos 16 melhores resultados. Assim, mesmo atrás na pontuação total, Senna venceria o título no Japão, por antecedência, por conseguir sua oitava vitória no ano, sem poder ser superado por Prost nos melhores resultados.

Numa de suas melhores atuações da carreira, Senna após quase ficar parado na largada, parte em busca de Prost e consegue ultrapassá-lo na vigésima sétima volta.

Assista a corrida, vale a pena:

https://youtu.be/lUA92btW_bk

Senna consegue seu primeiro título em sua primeira temporada na McLaren e no, balanço da temporada, a equipe devora recordes. Além das 15 vitórias em 16 corridas, foram 199 pontos de construtores e 10 dobradinhas. Das 1.031 voltas, só deixou de liderar 28 – 27 para a Ferrari, que teve o segundo melhor carro por praticamente todo o ano, e uma voltinha liderada pela March com Ivan Capelli no Japão.

Prost percebe que apenas com jogo politico ele teria chance de derrotar o brasileiro e se prepara para a temporada seguinte em 1989, na qual ele usaria essa nova arma para conseguir seu terceiro título, agora com uma F1 só com carros aspirados.

Na prova de abertura da temporada de 1989 acontece a vitória de Nigel Mansell, que mudara para a Ferrari, que estreava o carro concebido por John Barnard com câmbio semi-automatizado com borboletas no volante para a troca de marchas. Senna bate na primeira curva e não consegue se recuperar, enquanto Prost mesmo terminando em segundo não tem o rendimento esperado de uma McLaren.

Este seria um dos poucos lampejos da concorrência frente a uma McLaren que não seria tão dominadora quanto no ano anterior, mas que novamente tinha o melhor carro do ano, e concentraria a disputa do título entre seus pilotos.

Mansell teria ainda mais uma vitória com a Ferrari, mas os problemas de confiabilidade, frutos de um carro tão revolucionário, tiraram qualquer chance. Quanto a Piquet, o ano foi ainda mais frustrante e seria ele a sofrer com um motor Judd agora. Na Lotus, que perdeu o motor Honda, ele não consegue nenhum pódio, e ainda fica  no currículo com uma eliminação no grid da Bélgica.

Voltando a San Marino, acontece a largada e Berger, logo nas primeiras voltas, sofre um acidente pavoroso à primeira vista, mas ele sai ileso, apenas com algumas queimaduras. Na segunda largada Senna ultrapassa Prost na curva Tosa, ainda na primeira volta.

Esse fato gera toda uma polêmica por parte de Prost, que passou a alegar que Senna estava jogando sujo e não cumpriu o acordo que eles haviam estabelecido de não se atacarem até estarem em posição definida em relação aos demais competidores. Senna refutou alegando que o acordo valia para a primeira largada e que eles estavam retomando a corrida.

A partir daí os dois passaram a se atacar via imprensa. Nesse jogo, Prost havia se preparado melhor e fez o uso de tal forma que ficou patente a desestabilização que ele provocou em Senna.

Na pista, Senna obtém 3 vitórias seguidas (San Marino, Mônaco e México) e assume a liderança do mundial. Parecia que ele, novamente na pista, derrotaria Prost.

Essa situação muda quando nas quatro provas seguintes (EUA, Canadá, França e Grã-Bretanha) o brasileiro abandona todas, enquanto Prost conquista pontos importantes ao vencer três delas.

Nas seis provas seguintes (Alemanha, Hungria, Bélgica, Monza, Portugal e Espanha) Prost passa a administrar sua vantagem nos pontos no campeonato e Senna tem resultados irregulares em virtude de quebras.

Prost não se faz de rogado e insinua a todo momento, na guerra de declarações, que Senna está sendo protegido pela McLaren e que a equipe está torcendo para ele perder o campeonato. O então presidente da FISA, Jean-Marie Balestre, conhecido por ser autoritário e sendo francês, passa a interferir nessa briga numa postura favorável a Prost.

Eles chegam ao Japão, com 16 pontos os separando ambos, Senna precisa vencer essa prova e a prova seguinte, na Austrália, para ter alguma chance de ser tornar campeão.

A polêmica já começa durante os treinos de classificação. Prost acusa Senna de pilotar de forma perigosa e que ele não abriria mais a porta sem oposição, e também acusa os japoneses de estarem dando ao brasileiro melhores motores. Balestre novamente entra em cena e pede igualdade de condições, o que deixa os japoneses da Honda possessos com a insinuação que eles estavam favorecendo um lado.

Num dos episódios mais controversos da história da Fórmula 1, os dois fazem uma corrida épica, cada um pilotando no limite e usando de toda a habilidade possível. Prost larga melhor que Senna e toma a ponta; seu carro tem uma melhor velocidade em reta e ele se defende da melhor forma possível. Senna, por sua vez, o persegue e não consegue uma aproximação mais eficiente para realizar a ultrapassagem.

Até que na volta de número 46 o brasileiro tenta a ultrapassagem na chicane que antecede a reta de chegada. Prost dessa vez fecha a porta e os dois batem. Imediatamente o francês abandona o carro, enquanto Senna pede ajuda para retornar a pista e é atendido por pequeno exército de fiscais, que recolocam seu carro pra funcionar, pegando no tranco. Vale a pena rever essa incrível corrida.

https://youtu.be/tCnZpcInpJc

O resto da história já conhecemos: Senna consegue retomar a liderança e cruza em primeiro, mas nos bastidores Prost, juntamente com Balestre, manobram junto aos comissários e o brasileiro é desclassificado. A alegação foi  de ter cortado caminho ao voltar à pista.

https://www.youtube.com/watch?v=Qqo0Hs5ILyY

Prost consegue seu tricampeonato, de forma polêmica, e saindo do episódio maculado por usar a política como elemento para sua conquista. Ainda em setembro anuncia a mudança para a Ferrari em 1990, e assim a dupla mais dominante e polemica daquela época estava desfeita.

Nos anos de 1988 e 1989, Prost e Senna disputaram 32 provas, ganharam em conjunto 25 delas, sendo 14 vitórias de Senna e 11 de Prost.

Com a mudança de Prost para a Ferrari parecia que a fase política e brigas haviam ficado para trás. Não seria bem assim, mas sobre os acontecimentos no campeonato de 1990 vamos conversar na próxima coluna.

Até lá!

 

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

5 Comentários

  1. […] Confira as partes anteriores clicando aqui. […]

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Mário!!

    88 e 89 foram duas temporadas fantásticas, e 89 junto com 86, são as minhas duas temporadas prediletas da história da F1 que eu pude acompanhar na época.

    Com relação a 89, eu sempre falo que o Senna perdeu o título na largada do GP Brasil, porque, se ele recua e faz a curva em 3, as suas chances de vitórias seriam muito altas, e, na primeira largada do ano, ele não poderia ter colocado tudo a perder daquela maneira.

    Que venha 90!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  3. Luciano disse:

    Vale lembrar que Prost queimou a largada em Suzuka/89, o que foi determinante para que largasse à frente e tudo o que se seguiu. A “atuação” de Balestre já começou aí, ao não punir o francês.

  4. Fernando Marques disse:

    Mário,

    as temporadas de 88 e 89 foram épicas em se tratando do conjunto Mclaren/Honda ser praticamente imbatível e pelo fato de Senna e Prost serem os protagonistas na disputa pelo titulo mundial … a respeito disso a parte 4 “Dos Pilotos daquela Época” está perfeita e muito bom de se ler … mas a “briga” entre Senna e Prost se mostrou suja e anti esportiva demais (de ambas as partes) deixando um legado ruim e perigoso para o então futuro da Formula 1 … para quem se lembra daquela entrevista do Piquet e Mansell a pouco tempo aqui no Brasil, eles deixaram bem claro que jamais precisaram jogar ninguém para fora das pistas para serem campeões … algo que desde que Schumacher apareceu se tornou uma rotina utilizada por todos os campeões que a Formula 1 teve até hoje … sinceramente eu não acho isso legal …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • wladimir duarte sales disse:

      Boa tarde a todos.
      Senna deixou seu legado para a F1 e para o povo brasileiro. Mas agora analisando a situação depois de declarações equivocadas em outras épocas digo que Prost, com a vantagem que tinha em 89, não precisava apelar para queima de largada, batida proposital e apelo à cartolagem (vide Ballestre). Acabou provocando reações equivocadas dos fãs de Senna que, cegos pela paixão, até apoiaram a revanche do brasileiro no ano seguinte. Muitos só reviram seus conceitos graças aos artigos do gp total e do portal projeto motor que salientaram que Senna, com aquela atitude, estragou uma das melhores temporadas da F1 (1990). Mas Prost também se queimou feio pois com seu estilo de pilotagem e seus dotes como estrategista amplamente utilizados nas corridas aliados à sua experiência o tornavam ainda um dos melhores da época.

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