Os versáteis

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Quem foi o piloto mais versátil da F1, aquele capaz de se adaptar melhor ao novo? Já adianto: o resultado é excelente para os pilotos brasileiros

O primeiro ingrediente para se discutir quem é ou quem não é o melhor piloto (assim como jogador de futebol, músico, escritor etc.) é a paixão. Geralmente, quando dizemos “o melhor” queremos dizer “o que mais gostamos”. Não é por acaso que discussões deste tipo costumam ser tão acessas, viscerais, apaixonadas, como se pode ver nas Cartas dos Leitores cada vez que se toca no assunto aqui no GPTo.

Não quero, ainda, discutir quem foi ou é o melhor piloto da Fórmula 1; quero discutir uma outra coisa: quem foi o mais versátil, aquele capaz de se adaptar melhor a novas tecnologias, novas configurações de motor, novas regras técnicas. E já adianto: o resultado é excelente para os pilotos brasileiros.

Comecemos por um aspecto técnico dos motores que muda com frequência e exerce grande impacto sobre a forma de pilotagem: a arquitetura e alimentação dos motores.

Olhando por este ângulo específico, não há muito o que valorizar nas conquistas de pilotos como Alberto Ascari, Graham Hill, Jim Clark, Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi e Mika Hakkinen, que ganharam seus respectivos títulos sempre correndo com motores de arquitetura idêntica, ressalvando apenas que Hill o fez com motores de diferentes capacidades cúbicas e de fabricantes distintos: BRM de 1,5 litro em 62 e Ford de 3 litros em 68. No caso dos títulos de Ascari, não só o motor era igual como também o resto do carro todo.

Situação melhor para Jack Brabham (dois títulos com os motores Climax de quatro cilindros em linha e um com o Repco V8), Niki Lauda (dois títulos com o Ferrari 12 cilindros boxer e mais um com o Porsche V6 turbo), Alain Prost (dois títulos com Porsche V6 turbo e outros dois com V10 aspirados, ainda que de fabricantes diferentes, Honda e Renault). Michael Schumacher, por sua vez, usou Ford V8 em 94 e V10 nos seus demais títulos, produzidos pela Renault e Ferrari, todos aspirados.

As coisas ficam bem mais interessantes quando se fala de Juan Manuel Fangio, Ayrton Senna e Nelson Piquet.

O argentino ganhou seus cinco títulos pilotando carros equipados com quatro configurações diferentes de motor: Alfa 8 cilindros em linha com compressor (51), Mercedes 8 cilindros em linha (54 e 55), Ferrari V8 (56) e Maserati 6 cilindros em linha (57). Em 51, a capacidade cúbica do motor era de 1,5 litro; nos demais anos, sempre 2,5 litros.

Ayrton Senna em seus três títulos, teve três motores diferentes: V6 turbo em 88, V10 aspirado em 90 e V12 aspirado em 91, todos da Honda.

Nelson Piquet foi além. Três títulos, três motores de três fabricantes distintos: Ford V8 aspirado em 81, BMW 4 cilindros em linha turbo em 83 e Honda V6 turbo em 87. Em 81, Piquet pilotava um carro com 475 cavalos de potência; em 87, já eram 900 cavalos – o motor mais potente em configuração de corrida jamais pilotado na categoria.

Outros itens que merecem ser diferenciados: freios, suspensão e demais apetrechos eletrônicos.

Nenhuma chance para Fangio aqui. Houve poucas modificações nestes três itens em seus tempos como pilotos.

Em seus anos de títulos, Senna sempre pilotou carros com freios com discos de carbono e viu nascer as suspensões e os câmbios eletrônicos. Piquet, por sua vez, venceu seus dois primeiros títulos pilotando carros com freios de disco em aço e todos os três passando as marchas no braço, tendo feito apenas umas poucas corridas com carros de suspensão ativa em 87.

Páreo duro pelo título de “O Mais Versátil”: Senna mostrou sua versatilidade ao se adaptar à parafernália eletrônica e Piquet aos freios de carbono. Ambos experimentaram grande diversidade de arquitetura e alimentação de motores mas a vantagem de Piquet neste quesito me parece clara pois além de tê-lo feito com três fabricantes diferentes, pegou os motores turbo – foi o primeiro piloto a chegar ao título com um motor deste tipo – logo no começo do seu desenvolvimento, o que é algo bem diferente de fazê-lo no final dos anos 80, quando a eletrônica já ajudava bastante no controle de toda aquela potência. E Piquet vivenciou e venceu em 83 o fim dos chamados carros-asa, ainda que isso não tenha significado uma ruptura tão dramática em termos de velocidade dos carros.

Eduardo Correa

P.S.: o dilema debatido na coluna, publicada originalmente em 18/7/05, merece dois acréscimos desde então, inclusive porque o regulamento técnico inibe severamente diferenças maiores entre carros e motores. A primeira menção é devida a Fernando Alonso, bicampeão em 05 e 06, ao volante de carros com motores Renault, V10 e V8, respectivamente.

A outra menção, esta bastante importante, vai para Lewis Hamilton, campeão em 08 e 14 com carros bastante diferentes em termos de configuração aerodinâmica e, principalmente, em disposição de motores, inicialmente um Mercedes V8, no ano passado um power train Mercedes com motor térmico V6 turbocomprimido, acoplado a dois kers.

Quanto a Sebastian Vettel, não é na versatilidade, ao menos por enquanto, que vamos distinguir o tetracampeão: todos os seus títulos foram conseguidos com carros e motores muito parecidos.

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

9 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Nesta questão da versatilidade, já que novos nomes estão sendo sugeridos, me vem a lembrança do belga Jack Ickx … ele não foi campeão na Formula 1, mas venceu 8 corridas e era tido como rei da chuva nos anos 70 … e a prova da versatilidade está no fato de ser 6 vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans e vencedor do Rali Paris-Dakar … eu acho que ele merece ser citado …

    Fernando Marques

  2. Mário Salustiano disse:

    amigos

    um exemplo muito marcante para mim no quesito versatilidade na Fórmula 1 foi o de Niki Lauda, ele precisou se adaptar a mudanças bem radicais na categoria quando retornou e ganhou seu tricampeonato

    • Mauro Santana disse:

      Bem lembrado amigo Mario!

      E li certa vez que o Gilles Villeneuve foi um dos que duvidavam que Niki Lauda não iria nem conseguir voltar a vencer GPs.

      Pena que ele não pode ver o que o futuro reservava.

      Abraço!

    • Edu disse:

      Mario e mauro

      Lauda tem uma história praticamente única na F1. Deveria ter valorizado um pouco mais a trajetória dele, mesmo porque o quesito idade pesa na adaptação aos novos tempos

      Abraços

      Edu

  3. Fernando Marques disse:

    Eu penso que em termos de versatilidade os pilotos dos anos 60 e inicio dos anos 70 são insuperáveis pois corriam de tudo fosse qual fosse a categoria, seja formulas seja carros de turismos … mas termos de motorização a coluna do Eduardo está perfeita

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Mauro Santana disse:

    Grande coluna, Edu.

    Este assunto é muito interessante, e realmente o Piquet se destacava muito pela sua grande qualidade em acertar um carro, e também a se adaptar as novas ideais, visto que na sua época, os testes eram permitidos, e sendo assim, um piloto do naipe de um Piquet, valia ouro.

    Senna teve também seus méritos, sem duvida, pois além de vencer com diferentes motores em termos de potência, o câmbio ainda era com alavanca manual.

    Já Prost além de vencer seus quatro títulos com três motores diferentes, conquistou seu quarto título com um carro equipado com câmbio semi automático no volante.

    Agora, se colocarmos neste tema, os pilotos que também venceram na F Indy, aí eu incluo nesta lista o Emerson e o Mansell, pois principalmente o Leão, depois de vencer seu título na F1 em 92 com aquela Williams recheada de eletrônica pesadíssima pra época, foi ser campeão na Indy em 93 pilotando um carro equipado com alavanca de cambio manual, e bem menos recheado de eletrônica se comparado a Williams.

    Mais uma vez, parabéns pela coluna e pelo tema escolhido, Edu.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Marcelo C.Souza disse:

      Muito bem lembrado, Mauro!

      Existem, até hoje, apenas quatro pilotos que conseguiram sagrar-se campeões tanto na F-1 como na F-Indy. Eles são: Mario Andretti, Emerson Fittipaldi, Nigel Mansell e Jacques Villeneuve.

      Um forte abraço a todos do GPTotal !!!

      Marcelo C.Souza
      Amargosa-BA

  5. Manuel disse:

    Oi Edu, coluna muito interessante !

    Ei destacaría o fato de Senna ter sido campeo em 1990 e em 1991 com motores diferentes ( V10 E V12 respectivamente ) mas, principalmente, com sistema de pontuaçao diferente. Em 1991, foi abolido o sistema dos melhores resultados, o que mudava completamente a forma de afrontar os campeonatos respeito a como se vinha fazendo.

    • Mauro Santana disse:

      Bem lembrado Manuel, em 91 não havia mais os descartes, e também a pontuação era 10, 6, 4, 3, 2, 1 e não mais os 9, 6, 4, 3, 2, 1.

      Aliás, na minha opinião, este sistema de pontos 9, 6, 4, 3, 2, 1 já deveria ter voltado, mas…

      Abraço!

      Mauro Santana
      Curitiba-PR

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