Paixão e Determinação – O Brasil na F1 – Parte 2

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“Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez” – Jean Cocteau

 

Vamos continuar a saga das histórias dos brasileiros nas pistas da Fórmula 1, a primeira parte está no link: http://gptotal.com.br/paixao-e-determinacao-o-brasil-na-f1-parte-1/

O termo determinação quando teorizado é meio difícil de explicar. Resolvi pesquisar e o que não faltou foram artigos, cada um com uma teoria na qual o senso comum é: determinação é quando você resolve começar algo e nada te impede de concluir. O sucesso resultante é a meta divina e está ali bem ao seu alcance, se esforce que você consegue…

Dessa pesquisa, o que mais gostei foram as muitas histórias usadas como exemplo de pessoas que superaram todos os obstáculos e chegam lá.

No automobilismo temos uma riqueza de histórias de pessoas que superaram adversidades para chegar no olimpo da vitória. Em 1970, há cinquenta anos, um piloto chamado Emerson Fittipaldi solidificou a trilha desse caminho iniciada um ano antes

Quando ele resolveu tentar carreira na Europa, precisou contar com vários fatores muito mais do que a sorte. Hoje, parece até piada falar dessa forma, mas em 1969 Emerson precisou de muita coragem para tomar essa decisão. Naquele tempo ele pertencia a uma minoria, ser brasileiro participando de competições internacionais era uma raridade, raros pilotos de fora da Europa conseguiam chegar e permanecer por lá. Para os europeus, o Brasil ficava onde mesmo?

Emerson chegou à Inglaterra em março de 1969. Comprou um chassi Merlyn MK11A de Fórmula Ford e, com a ajuda do construtor de motores Dennis Rowland, iniciou sua aventura na Europa.

Emerson preparava o Merlyn por conta própria e pilotou o carro sem um mecânico ou equipe dando suporte, algo que hoje não seria possível.

Sua primeira corrida na Europa foi em Zandvoort, na Holanda.  Se classificou na segunda posição no grid e liderou sua bateria de qualificação até ter um problema no motor. Em seguida, veio uma corrida em Snetterton e, desta vez, Emerson saiu da pole position, dando a volta mais rápida e conquistando a vitória. Acompanhou esta primeira vitória europeia com uma série de bons resultados, incluindo o 3º lugar no circuito rodoviário de Chimay, na Bélgica, o 2º em Vallelunga, na Itália, e outra vitória no Oulton Park, tendo superado todos os pilotos postulantes ao estrelato da época, como Tony Trimmer, Ray Allen e Dave Walker.

A ascensão de Emerson contou com dois elementos que o diferenciavam: talento e determinação. Seu talento em pilotar era algo muito natural, genuíno e surpreendente para alguém tão jovem. Isso já havia sido evidenciado aqui no Brasil desde o kart. Mesmo assim, seus resultados logo nas primeiras provas deixaram os ingleses surpresos. Emerson, em pouco tempo, chamava a atenção pela condução rápida e limpa – e obtendo vitórias.

Foi nesse período que o elemento determinação mais do que nunca foi fundamental para Emerson transpor os muitos desafios que estavam a sua frente, de estar num lugar longe da família, sem domínio do idioma, uma cultura bem diferente da brasileira e com muito pouco dinheiro para se manter.

Há uma frase que diz: “Sucesso é algo que todos querem, mas poucos pagam o verdadeiro preço para obter”

A essa altura – junho de 1969 –, Emerson achava que estava pronto para entrar na Fórmula 3. Vendeu seu Merlyn e comprou um Lotus 59 com as cores da escola de Jim Russell, na época o maior preparador de pilotos da Inglaterra. Emerson teria agora um mecânico – um tal de Ralph Firman, que no futuro alcançaria fama mundial como fundador de Van Diemen, a marca de Fórmula Ford mais bem-sucedida da história da categoria.

Emerson fez sete dias completos de testes com seu Lotus antes da estreia, em Mallory Park, terminando a prova em 5º lugar. Ele foi 2º na prova seguinte, em Brands Hatch, e, de volta a Mallory Park, obtém sua primeira vitória na Fórmula 3. Até o final do ano, venceu mais oito provas. Mesmo tendo entrado no meio do campeonato ele se sagra campeão.

Seus resultados chamam a atenção de Colin Chapman, que o contrata para a equipe Lotus na Fórmula 2.

Emerson recordou anos depois: “Sem dúvida, essa foi a etapa mais importante da minha carreira. O timing e a sequência de eventos não poderiam ter sido melhores para mim. Foi por causa da boa sorte e pessoas como Jim Russell e Ralph Firman. Os ingredientes estavam certos, o tempo estava perfeito e a sorte estava do meu lado”.

Emerson sempre foi muito ponderado em suas declarações, essa foi uma das muitas demonstrações de sua humildade e fortaleza, nunca se vangloriou de ser um piloto de raro talento e sempre soube reconhecer as pessoas que o ajudaram – mas sem a sua tenacidade e talento esses resultados não teriam sido possíveis.

No começo de 1970, o Brasil entra na rota do mundo automobilístico, é organizado um campeonato de Fórmula Ford, o Torneio BUA, esse torneio fez parte da estratégia na criação da nova categoria por aqui, o campeonato de Fórmula Ford brasileiro. Em fevereiro de 1970, foram disputadas cinco provas de três baterias cada em todos os finais de semana do mês de fevereiro. Emerson conquistou esse título, mas o mais importante foi que isso abriu a porta para que mais pilotos daqui se mostrassem aos gringos. Foi a ponta de lança para em mais dois anos o Brasil passar a sediar um GP.

Nem demorou muito mais tempo para Emerson fazer a transição da F2 para a F1. Os carros Lotus F2 não eram os melhores, a Brabham era a equipe dominante em 1970, mas a sensibilidade de Emerson e sua capacidade de trabalhar junto com os mecânicos e a equipe foi relatada a Chapman, que decidiu que deveria dar uma oportunidade ao jovem brasileiro em um de seus carros de Fórmula 1.

“Lembro que alguém da Lotus disse: O Sr. Chapman quer conversar com você. Entrei no escritório dele e ele estava sentado em sua mesa e eu tremia!  Eu estava dizendo para mim mesmo: Ele vai me pedir para eu pilotar um de seus carros de Fórmula 1.  Esse foi um momento tão importante e nunca vou esquecê-lo”, contou Emerson mais tarde.

Na verdade, Chapman queria que Emerson estreasse no GP da Holanda, mas ele ponderou que precisava ganhar mais experiência e que mal havia feito provas suficientes na Fórmula 2 e pediu para aguardar mais uns dois meses.

Essa parte da história relatamos na coluna anterior: Emerson estreou em julho no GP da Inglaterra no Lotus 49. O primeiro piloto da equipe era Jochen Rindt, favorito ao título. Emerson iria pilotar mais algumas temporadas e ganhar experiência. Tudo mudou com o acidente fatal de Rindt. Emerson é promovido e, em outubro, vence em Watkins Glen.

Desde que chegara à Inglaterra, Emerson havia passado pela Fórmula Ford, Fórmula 3, Fórmula 2 e Fórmula 1 e em todas essas categorias disputou no máximo quatro provas até obter a primeira vitória.

Jackie Stewart foi o piloto que nos anos seguintes passou a disputar vitórias e títulos com Emerson. Ele uma vez foi indagado sobre todo esse sucesso que Emerson e a trupe brasileira estavam obtendo. Sua resposta famosa era que devia ser a água que nós, brasileiros, tomávamos.

Bem, Jackie, certamente a água não foi. Eu diria que paixão e determinação foram sem dúvidas “tomadas” de sobra.

Na próxima coluna vamos esmiuçar a fase em que Emerson passa de vitórias a títulos e como isso repercute nos brasileiros

Até lá

Mário

 

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

2 Comments

  1. Fernando marques disse:

    Mário

    Parte 2 nota 1000

    Fernando Marques
    Niterói rj

  2. Mauro Santana disse:

    Que espetáculo Salu, Parabéns!

    Grande abraço

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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