Pecunia non olet! – final

Pecunia non olet! – parte I
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Outras equipes além da Ferrari também se beneficiaram – e beneficiam – de seu envolvimento no terreno militar.

Assim temos a McLaren, cuja colaboração com a BAE Systems lhe rendeu muitos bons resultados. A BAE é uma das maiores empresas no ramo da alta tecnologia militar, com cerca de cem mil empregados em vários países. Em 1996, McLaren e BAE chegam a um acordo de patrocínio e colaboração mediante o qual a McLaren receberia a assistência da BAE em programas CFD (dinâmica de fluidos computacional), para o desenvolvimento da aerodinâmica de seus carros em túnel de vento.

Por sua parte, a McLaren se ocuparia de ajudar no desenvolvimento e provas de novos programas e sistemas para a BAE, que se beneficiava da versatilidade dos engenheiros da McLaren e dos testes que a equipe levaria a cabo de seus novos sistemas nas duras e exigentes condições da competição.

Dado o caráter secreto destas atividades, pouco transcende dos trabalhos que se realizavam, mas contar com uma empresa líder de alta tecnología foi vital para a McLaren e, não é à toa que naqueles anos se dizia que a equipe de Woking desfrutava dos melhores simuladores da categoría, enquanto que a BAE dispunha em tempo recorde de valiosa informação sobre seus projetos. Segundo diriam responsáveis da BAE, a empresa havia recorrido à McLaren para dispor do “melhor do melhor” quanto ao desenvolvimento de novas tecnologias. Assim mesmo, a McLaren acabou estabelecendo sua própria divisão de eletrônica e, atualmente, fornece os ECU (unidades centrais de controle) para a F1 e Nascar. Também vale recordar que Jonathan Neale, o atual diretor da McLaren, provém da BAE, assim como Martin Whitmarsh e Doug McKiernan, que chegou a ser chefe aerodinamicista da equipe antes de se retirar em 2014.

Aquela colaboração acabaria sendo tão frutífera que outros nomes destacados do mundo do automovilismo logo se lançaram à busca do suculento mercado dos contratos militares.

Paul Jackson, diretor da Lola Cars, se dedicou a promover as capacidades da empresa longe das pistas, tendo como objetivo empresas do ramo militar. Os contratos não demoraram a chegar. Dentre os mais importantes, estava um com a BAE, para desenvolver e construir o fuselagem do avião não tripulado do projeto Mantis. Isto lhe serviu para conseguir contratos similares com as empresas Elbit Systems e Thales Security para a construção dos seus próprios aviões não tripulados. Também com a BAE, a Lola trabalhou no projeto do novo sistema da radar Artisan 3D para a Marinha e com a EADS no desenvolvimento de protetores de radar para fragatas. Uma vez mais com a BAE, foi desenvolvido um pequeno submarino não tripulado para trabalhos arriscados nas profundezas e a detecção e destruição de minas. Hoje, o sucesso da Lola fora das pistas é tão significativo que menos de 30% de sua atividade se dedica à competição automobilística.

Cabe citar também o caso da Williams. Para aumentar seus recursos, a equipe começa a colaborar com empresas do âmbito militar e até uma divisão, a Williams Advanced Engineering, é criada em 2010 para tal propósito, e que não deixou de crescer desde então.

Em 2015, a empresa consegue um suculento contrato de vários anos para dotar os veículos blindados que fabricará a General Dynamics com um sofisticado sistema eletrônico para a coleta e processamento de dados que se espera seja o mais avançado do mundo. O contrato contempla o fornecimento de cerca de 600 desses veículos para o exercito britânico. Mike O’Driscoll, executivo da Williams, disse que a empresa continuaria a se prodigar nos campos aeroespacial e militar, como uma forma de financiar a equipe de F1. E assim foi: em 2017, a Williams consegue outro bom contrato em colaboração com a Thales Security para o desenvolvimento de equipamento para a proteção de tropas contra ataques biológicos. A Williams se encarregará de desenhar e de desenvolver os detetores de tais ameaças e se ocupará de realizar todos os testes pertinentes em um dos túneis de vento da sua sede, em Grove. Recentemente, a Williams Advanced Tecnologies desenvolveu junto à BAE um simulador para o treinamento de futuros pilotos para os caças Hawk e Typhon para a RAF.

Interessante também é o envolvimento da Cosworth em projetos para o ministério de defesa britânico. O primeiro foi para a coleta de dados en veículos blindados no Afeganistao e análise da forma de melhorar sua segurança. Depois disso, a Cosworth também desenvolveu novos sistemas de injeção eletrônica para melhorar o rendimento dos motores diesel de veículos blindados e no desenho de motores mais ligeiros e eficientes. Também constrói motores ligeiros para aviões não tripulados da marinha dos Estados Unidos, o Blackjack Drone. Segundo Tim Routsis, executivo chefe da Cosworth, o campo militar é de crescente interesse para a companhia.

Deste modo, lendárias equipes da F1 e fornecedores de componentes para competição automobilística vêm trabalhando intimamemente com empresas contratistas militares.

Tampouco podemos esquecer de Jody Scheckter.

O sulafricano pouco depois de se retirar da competição se estabelece perto de Atlanta, nos EUA, onde tinha uma granja – sendo filho de colonos holandeses, as granjas não eram um meio desconhecido para ele.

Então, ao ver um daqueles primitivos video-games de tiro ao alvo, tem a ideia de melhorar o conceito. Pouco depois, em 1984, fundaria a FATS, empresa dedicada à fabricação de programas e de simuladores para treinamento e aperfeiçoamento no uso de armas de fogo de mão. A empresa, logo após as primeiras encomendas recebidas do FBI e a polícia de Los Angeles, consegue bons contratos do exército e da força aérea estadunidenses. A empresa crescia sem parar, expandindo-se a vários países e chegaria a deter cerca do 95% do mercado mundial destes sistemas, tanto para uso policial quanto militar. Os sistemas da FATS, por exemplo, foram usados para o treinamento dos soldados norteamericanos que tomaram parte na Guerra do Golfo em 1991.

Contratos com exércitos como os da Holanda e Reino Unido, entre outros, também foram assinados e a FATS tinha clientes em mais de 30 países. No entanto, a empresa demandava uma dedicação plena e, quando em 1996 um fundo de investidores norteamericano lhe faz uma boa oferta, Jody vende a empresa. Assim, com os muitos milhões conseguidos, Jody e sua família se mudam para a Inglaterra, terra natal de sua mulher, e compram uma bela granja em Hampshire, onde moram até hoje. Ali Jody cumpre seu velho sonho de se dedicar ao cultivo e produção de alimentos ecológicos.

Como vemos, e apesar de que quase 2.000 anos passados, quando se trata de conseguir finançamento para cumprir algum objetivo, não importa a procedência dos fundos pois, como disse Vespasiano… o dinheiro não cheira!

Abraços e até a próxima

Manuel Blanco

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

3 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Fantástico, Manuel!

    Também desconhecia estas parcerias, e os seus respectivos sucessos.

    Parabéns!!!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Fernando Marques disse:

    Manuel Blanco,

    muito legal o seu texto … e bacana pois desconhecia totalmente a parceria de Equipes de Formula 1 com o âmbito militar … afinal conhecimento e tecnologia não faltou as equipes da Formula 1 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Rubergil Jr disse:

    Muito bom o texto! Isso é que eu chamo “diversificar” o portfolio de serviços…

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