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Testemunhamos neste GP da Rússia mais um piloto a adentrar o rol dos vencedores da Fórmula 1, o 107º da história. Tento imaginar como Valtteri Bottas vai contar décadas mais pra frente esse GP da Rússia de 2017, sua primeira vitória, a seus filhos e netos. Suponho que seja algo mais ou menos assim:

Treinei bem naquele fim de semana, melhor que meu companheiro de equipe, mas não consegui passar de terceiro lugar no grid porque a Ferrari estava em melhor forma e era favorita. Mas na hora que as luzes vermelhas se apagaram, fiz uma ótima largada e usando o vácuo, peguei os dois carros vermelhos de surpresa!

O circuito da Rússia não tinha muitos pontos de ultrapassagem, mas minha liderança ficou sob risco todo o tempo, porque os pilotos da Ferrari, principalmente Sebatian Vettel, me pressionaram muito e poderiam me passar na tática de pit stop. Mas junto com a Mercedes eu fiz a tática correta: eles me chamavam para trocar pneus antes da Ferrari, para que eu pudesse andar muito rápido na saída do box com pneus novos e mantivesse a liderança.

Claro que isso seria um problema mais pra frente, e foi. A Ferrari de Vettel tinha pneus mais novos que os meus no fim da corrida e começou perigosamente a tirar a pequena diferença que eu tinha construído durante a corrida. Apesar dessa dificuldade, consegui andar no limite e mesmo que o Vettel diga que os retardatários o atrapalharam, ele nunca conseguiria me passar. Ah, meus netos, receber aquela bandeira quadriculada foi incrível, um dos momentos mais felizes da minha vida…

Diante de uma corrida com mobilidade nula entre as posições, e que muitos podem honestamente considerar como enfadonha, tento enxergar o GP da Rússia justamente por esse prisma: de um piloto que surpreendeu a favorita Ferrari com uma excelente largada, surpreendeu ainda mais ao resistir a um fortíssimo jogo de gato e rato por todo o GP contra um rival consagrado e multicampeão, e deste modo conquistou sua primeira vitória na F1.

Claro que esse tilkódromo não ajudou a termos disputa na pista – com exceção da primeira volta, simplesmente não tivemos ultrapassagens por TODA a corrida! No entanto, a guerra entre Bottas e Vettel foi muito intensa. Os dois pilotaram no limite. No primeiro stint, Bottas nunca conseguiu abrir mais que 5,5s. Mesmo andando rápido, o finlandês conseguiu conservar bem os pneus, que foram decair perigosamente apenas nas voltas 25-26, quando fez sua parada.

A Ferrari percebeu que não adiantaria antecipar a parada de Vettel, e, em vez disso manteve o alemão na pista por mais tempo, já que a decaída dos pneus dele demorou mais. A aposta, bastante sensata, era de ter Sebastian com borracha mais nova para tentar um ataque nesse stint final.

Está aí o segundo mérito de Bottas, que mesmo com pneus mais velhos, manteve um ritmo vencedor na segunda metade da corrida, e não sucumbiu ao assédio de Vettel, que não perdeu a corrida por ter sido “atrapalhado” por Felipe Massa na volta final. Na volta 42 (10 do final), ele já estava 1,4s atrás, em posição para atacar.

Com ou sem a presença do brasileiro na pista, Sebastian não teria como chegar junto e passar, justamente porque Bottas fez direitinho a lição de casa. Ele foi merecedor da vitória e o piloto do dia, como depois admitiu o líder do campeonato Vettel.

Até Niki Lauda confessou que a vitória de Bottas pegou a Mercedes de surpresa, pelo modo em que Bottas não sucumbiu à pressão de liderar o tempo todo com Vettel a persegui-lo.

Um dos pontos fundamentais deste GP vai ficar sem uma resposta exata. É sobre o quanto Lewis Hamilton teve déficit de desempenho por causa de seu carro, que sofreu com superaquecimento, e quanto ele simplesmente não pegou a mão do circuito.

O que sabemos é que sim, o carro esteve ligeiramente abaixo, ao mesmo tempo que o próprio Lewis admitiu que não esteve desde os primeiros treinos rápido o suficiente no primeiro fim de semana da temporada em que não foi ao pódio.

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A Red Bull simplesmente não consegue ter o mesmo ritmo de prova de Mercedes e Ferrari. Max Verstappen chegou num distante quinto lugar, um minuto inteiro atrás do vencedor. Mas ainda há outra preocupação: com o abandono de Daniel Ricciardo, por problemas de freios, a equipe tem seu terceiro abandono por falha mecânica na temporada – junta-se aos casos do mesmo Ricciardo na Austrália, e Max no Bahrein.

A Red Bull neste momento se isola como terceiro melhor time do grid, ainda um pouco à frente de dois times que disputam o quarto posto: Williams, que parece ter um pouco mais de velocidade mas não pontua com o novato Lance Stroll, e Force India, que conseguiu pontuar com seus dois carros nas quatro corridas do ano. Ambos os times são incomodadas por Toro Rosso, Haas e Renault, esta última, crescendo aos poucos com Nico Hülkenberg, que foi 8º ao resistir quarenta (!) voltas com um mesmo jogo de pneus.

Ainda temos a Sauber, que não tem potencial algum para pontuar, mas que certamente comemora o fato de não ser o pior time da temporada. Isso porque a McLaren consegue ser em 2017 ainda mais desgraçada que nas primeiras corridas de 2015, primeiro ano de motor Honda.

Até agora o melhor resultado da McLaren foi o distante 13º lugar de Stoffel Vandoorne no GP da Austrália, quando tomou duas voltas do vencedor. O mesmo Vandoorne chegou em 14º na Rússia e Alonso, que nem mesmo largou quando seu câmbio travou na volta de apresentação, ainda não recebeu a quadriculada este ano.

A McLaren já achou um jeito de vingar da Sauber: deixou a Honda fornecer motores a partir de 2018 para o time suíço, e a própria McLaren vai fornecer o câmbio.

Excelente tática: se não pode “vencê-los”, “junte-se” a eles…

Quando a corrida começou, e Bottas tomou a ponta, achei que, de fato, seria divertido se ele ganhasse. Eu estava pensando no campeonato, e este ficou um pouco mais embolado. O virtual favoritismo de Lewis Hamilton, que chegou em distante quarto lugar, vai ficando cada vez mais em xeque e este é um belo abacaxi que a Mercedes deverá descascar.

Vettel agora tem uma liderança de 86 pontos, vindos de duas vitórias e dois segundos lugares. Hamilton mantém o segundo posto, agora 13 pontos atrás (73). O vencedor Bottas se solidifica em terceiro, com 63, enquanto Kimi Räikkönen, 3º do GP, continua em desempenho mais apagado, com 49.

Isso resulta em um delicioso equilíbrio no campeonato de construtores, em que a Mercedes tem 136 pontos, e a Ferrari tem 135. Por mais que tenhamos a certeza de que haverá mais corridas enfadonhas na temporada, ao menos temos uma disputa polarizada em duas equipes, e não apenas em uma, como foi nos três anos anteriores de domínio da Mercedes.

A próxima corrida é o GP da Espanha, outra pista encardida de se ultrapassar. Mas suponho que o maior atrativo da corrida deverá ser o tradicional pacote de atualizações que as equipes normalmente colocam em funcionamento para a prova espanhola.

Depois dessa amostragem de quatro corridas, poderemos ter a real dimensão se os upgrades vão mudar as forças já estabelecidas.

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

4 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Belo texto Lucas!!!

    Olha, a corrida foi chata porque a pista não ajuda, e quando a F1 chegar em Spa, Suzuka e Interlagos, ficará ainda mais escancarado que estes tilkodromos são verdadeiras aberrações.

    Gostei dá vitória do Bottas, e guardada as devidas proporções, acho que ele vai fazer com Hamilton, o que Hamilton fez com o Alonso em 2007.

    Vamos aguardar pra ver.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Rubergil Jr. disse:

    Não sei não, mas este campeonato tem muito a cara de 2007:

    – Muito equilíbrio entre as 2 melhores equipes
    – A terceira melhor equipe está bem longe.
    – Uma equipe com 2 postulantes ao título (Mercedes-2017 e McLaren 2007) e outra com um postulante e outro coadjuvante “de luxo” (Ferrari em ambos os anos).
    – As corridas são decididas na largada, e corridas com poucas ultrapassagens.

    Será o que resultado será o mesmo? Se for, é Vettel campeão.

  3. MarcioD disse:

    Lucas,

    Fulminante o “bote” de Bottas na largada deixando Kimi e Vettel para trás e já abrindo distancia desde o inicio, para mim a corrida se definiu ai, e no final resistindo muito bem à pressão de Vettel que contava com melhores pneus. Quando todos achavam que o campeonato se decidiria entre Vettel e Lewis agora temos Bottas na disputa. Pela cara de Bottas no pódio do GP do Bahrein, onde recebeu ordens para deixar Lewis passar, já se via que ele não se presta ao posto de 2º piloto.

    Acredito que Kimi só será um coadjuvante, não tem mais a garra de um campeão. Isto beneficia bastante Vettel. Se a Ferrari perder o campeonato de construtores este ano, titulo que sempre foi muito valorizado pelos italianos, além de implicar em menos grana na conta, acho que não ficará com Kimi ano que vem. É bom para a F1, dar oportunidade em equipes de ponta para pilotos mais novos, rápidos e com mais gana pela vitória.

    Uma das coisas mais legais de se ver na F1 é quando um piloto mais novo estreia em uma equipe que conta com um medalhão, que está a muito tempo nesta mesma equipe sendo campeão por ela e por ser este novato um piloto rápido, começa a colocar pressão neste medalhão, caso de Bottas e Lewis, chegando às vezes a derrota-lo no campeonato (Senna e Prost 88) e até mesmo de uma forma fragorosa (Ricciardo e Vettel 2014).

    Agora Lewis tem além da pressão externa da disputa com Vettel, a pressão interna do companheiro de equipe. Toto acertou na contratação de Bottas e vem ai mais uma dor de cabeça para administrar. Creio que as coisas este ano vão ser bem mais difíceis para Lewis do que no ano passado. Vai ter que repensar muita coisa senão adeus mais um campeonato.

    A Red Bull é que tem me decepcionado. Com o novo regulamento dando maior ênfase ao aumento de downforce acreditei que ela seria a maior beneficiada, principalmente por contarem com o mago Newey.

    Márcio

  4. Fernando Marques disse:

    Lucas Giovani,

    a corrida não foi enfandonha … foi chata mesmo.
    O que salvou a prova foi a primeira vitória do Valteri Bottas na Formula 1 … graças a uma excelente largada e depois pelo fato da Mercedes ter lhe dado um carro para não só liderar a corrida mas vencê-la também … só não sabemos se tal moral vai continuardaqui para frente pois Hamilton certamente vai reclamar … vamos aguardar …
    Uma coisa me chamou bastante a atenção neste GP … a distância que separa a Ferrari e Mercedes em relação as demais equipes … a 3ª fila do grid de largada com Ricciarco e Massa era de mais ou quase 1,5 seg do pole Vettel e mais de 1 seg do Hamilton (4º no grid) … com isso se alguém pensava, assim como eu, que este novo regulamento poderia trazer mais equiíibrio entre as equipes que andam mais na frente, se enganou por completo … ao menos a Ferrari reage e promete salvar a temporada … mas estou atento ao comentário do Chiesa, de que a Ferrari já usou 3 turbos e que a próxima troca já lhe causa punições … isso pode mudar o panorama do campeonato certamente … e aquela cena do Toto Wolf dando murro na mesa ser apenas uma encenação …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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