Pilotos com grana curta merecem ser ultrapassados

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O dia 30 de março de 2014 entrou para a história... de outra maneira.

Quisera 30 de março de 2014 entrasse para a história do esporte mundial como o Dia Internacional da Desobediência às Ordens de Equipe. A recusa de Felipe Massa em dar passagem para o companheiro Valteri Bottas, aparentemente mais rápido na disputa pelo sétimo lugar do GP da Malásia, não será lançadora de tendências nem pedra fundamental de coisa nenhuma.

Enquanto a Fórmula 1 for disputada por equipes compostas por dois carros e estes, juntos, forem responsáveis pelos pontos do time em um Mundial de Construtores, escuderia alguma vai assistir impávida a dois companheiros digladiando-se e colocando esses pontos em risco.

“Ah, mas a Mercedes franqueou a disputa entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg, que protagonizaram uma contenda extraordinária na corrida seguinte, no Bahrein”.  Sabe de nada, inocente… Por que será, então, que a equipe impôs uma estratégia de pit stops tão diferente para os dois, distanciando-os de forma conveniente e confortável, a ponto de garantir a dobradinha, sem permitir o resfolego no cangote?

A ordem da Williams, soprada no ouvido de Massa e repercutida mundo afora, foi típica de quem perdeu a mão. Faz tempo que a Williams não é um time vencedor, acostumado a disputar pódios, vitórias e títulos. O GP da Espanha de 2012, até hoje a única vitória de Pastor Maldonado, foi a exceção que confirma a nova regra. Houve um tempo em que a equipe contava conquistas. Hoje, conta trocados. Claire Williams dirige a tradicional escuderia do pai sem o fausto que o levou a conquistar nove Mundiais de Construtores, sendo a equipe com o segundo maior número de títulos, atrás apenas da Ferrari.

Contando trocados, a Williams hoje se rasga por um sexto lugar, a ponto de expor a si mesmo e seus pilotos ao ridículo. Ao ordenar que Massa cedesse lugar ao jovem finlandês, a chefia soou como o pai retrógrado que ensaia colocar o filho de castigo como se este fosse um moleque mal saído dos cueiros e não um homem barbado. Nem desrespeitoso nem amoral, foi estúpido o que a Williams fez, mas não é difícil entender.

Em 2013, o time somou pífios cinco pontos (um oitavo lugar de Bottas e um décimo de Maldonado). Apenas na primeira prova de 2014, a Williams contabilizou dez pontos e estava somando mais dez quando se viu diante da potencial disputa entre seus pilotos. Claire e seus comandados devem ter visto o pote de ouro empalidecendo na ponta do arco íris e consumaram o gesto tosco. É dinheiro que eles querem, amigos. Pontos rendem dinheiro. Não podendo impedir que os adversários roubem pontos, como fez Kamui Kobayashi sem freios na largada do GP da Austrália, evite-se pelo menos o fogo amigo.

É dinheiro o que eles querem e dinheiro Massa aportou neste ano. Conseguiu a vaga por méritos, não se discute, mas carregou patrocínios valiosos para o time. O banco brasileiro que estampa os carros da Williams fechou contrato depois da confirmação de Massa para a temporada de 2014. A petroleira já estava em tratativas desde o ano passado, mas não é difícil imaginar que acenou com um sorriso à chegada do vice-campeão de 2008. A posição de Felipe Massa, hoje na Williams, é muito diferente da que ele ostentava em seus anos de Ferrari.

Como pupilo de Michael Schumacher ou escudeiro de Kimi Raikkonen, Massa segurou por muitos anos o cetro de bambino em Maranello. O quase título de 2008 não mudou esse status, especialmente depois da chegada de Fernando Alonso, que desembarcou na Ferrari com seus pendores de prima donna. Ser pupilo na Ferrari pode ter suas vantagens, desde que se ajude a equipe a somar pontos e garantir (o quê?) dinheiro no final do ano.

Massa não cumpriu esse papel nos últimos campeonatos e foi procurar o que fazer em outra freguesia. Mal comparando, é como habitar, de favor, a edícula de um palácio em Paris e mudar-se para uma casa própria com mil metros quadrados em Freetown, capital de Serra Leoa. Eventualmente, você poderá ser mais feliz em Serra Leoa do que foi em Paris, mas terá de se acostumar com as limitações do local e eventualmente fugir de animais selvagens – não que o intrépido Koba possa ser chamado de animal.

Em sua equipe agora humilde, que vibra com a perspectiva de um sexto lugar, Massa é rei. Porque, como no mundo aqui fora, quem paga manda. Pareceu um grande gesto de independência a recusa firme do brasileiro em ignorar, desta vez, o “is faster than you”. E foi mesmo: a independência de quem se sabe valioso do ponto de vista (de quê?) de dinheiro.

Por esse raciocínio, quem leva dinheiro para a equipe não precisa comportar-se como vaquinha de presépio. Ora, diria alguém, Sebastian Vettel não leva nem nunca levou grana para a Red Bull e já protagonizou situações na qual ficou claro que leva a preferência no time. O episódio “Multi 21”, no GP da Malásia de 2013, deixou evidente a troca de posições entre o alemão e o então companheiro, Mark Webber. Vencer quatro campeonatos e ser o protagonista da equipe na soma de pontos no campeonato de construtores é, sim, aportar muito capital para o time. Não paga, mas paga. E quem paga… manda.

Meu coração vermelho sangra ao ler tudo isso. Preferia viver em um mundo no qual as pessoas fossem queridas, valorizadas, respeitadas e até cultuadas pelo que guardam em suas mentes e não em seus cofres. Mas, enquanto a ambição e a cobiça forem mais importantes neste planeta de expiação e provas, vamos ter que nos fazer respeitar às cotoveladas. Hoje, Massa é um ser emancipado, que conquistou uma altivez inédita na carreira por ser uma peça produtiva dentro da engrenagem econômica da Fórmula 1.

Massa, por assim dizer, ganhou dignidade ao conquistar relevância financeira. É o escravo liberto que se torna trabalhador remunerado, o integrante da classe miserável que ascende à condição de consumidor regular, a mulher que sai do jugo paterno/conjugal e, com seu trabalho, conquista o direito de escolher a casa onde vai morar, o carro que vai dirigir, a roupa que vai vestir – curta ou transparente, justa ou decotada. Não, 30 de março não será lembrado como o Dia da Internacional da Desobediência às Ordens de Equipe, mas talvez as gerações futuras superem a necessidade de subjugação entre semelhantes e percebam que, neste nosso tempo, conquistar dignidade a partir da independência financeira foi a única saída para os fracos e oprimidos.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

3 Comments

  1. Eduardo Trevisan disse:

    Como você já aprendeu (e ensinou) uma vez: Se nada mais explicar, procure no dinheiro.

  2. Fernando Marques disse:

    Alessandra,

    acho interessante que todas as suas colunas abordam sempre de forma diferente diversas situações que vemos acontecer no mundo da Formula 1. Obviamente não resta dúvidas que o dinheiro sempre vai falar mais alto na categoria. Mas acho legal esta ótica da sua coluna. Fica cpmplicado discordar deste ponto de vista.
    Por outro lado concordo com Mauro no quem pode mais chora menos. Os grandes campeões da Formula 1 sempre demonstraram alguma coisa mais. Ninguém é campeão por acaso ou a toa.
    Agora ainda gosto de ver a Formula 1 sob o aspecto esportivo. O que me encanta nas corridas não é apenas a velocidade em si mas os pegas, as quebras, a largada, a chegada, e por que não os acidentes. E não posso jamais admitir ou aceitar, apesar de compreender, que os interesses financeiros possam ser determinantes numa ordem dada pelo rádio. Sei que a Formula 1 sempre foi assim desde os seus primórdios mas ainda prefiro prezar a esportividade.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Mauro Santana disse:

    Belo Texto Alessandra!

    Mas, eu prefiro deixar um recado diferente as futuras gerações, que é a de “Quem pode mais, chora menos”, pois é assim com Vettel e Alonso, e foi assim com Senna, Prost, Piquet, Fittipaldi, Stewart, e tantos outros que mostraram na pista e fora delas serem dignos de Grandes Campeões!!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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