Pneus e estouros, parte 1

Denorex
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Dançando na chuva
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Quando furos de pneu eram algo comum...

Na disputa do último GP da Bélgica, um irado Vettel sem papas na língua declarou no seu retorno aos boxes após o estouro de seu pneu: “Eu estaria fodido se o pneu estourasse na Eau Rouge”.

Vamos relembrar um pequeno drama vivido numa decisão de campeonato que envolve pneus e estouros.

Poucas temporadas traçaram a ascensão de um homem tão nitidamente quanto os anos de 1985 e 1986.

Em 8 de setembro de 1985, Nigel Mansell abandonou o GP da Itália em Monza. Até ali, o campeonato havia disputado doze rodadas, ele tinha sete pontos, fazendo dele curiosamente o décimo segundo na tabela. Em Monza, Mansell disputara a septuagésima corrida de sua carreira e ele nunca havia terminado em posição melhor que terceiro.

Somando todos os pontos conquistados até então na carreira, Nigel tinha um total de apenas 45. Para contextualizar, após Monza, Alain Prost era o líder do campeonato com 65 pontos e Michelle Alboreto o vice, com 53 pontos. Sim, todos os pontos somados naquele ano.

Mansell havia estreado na Fórmula 1 em 1980 pela equipe Lotus, sem nenhum resultado expressivo em 4 temporadas completas. Foi surpresa quando o anunciaram como piloto da equipe Williams em 1985. Ele tinha adquirido a fama de truculento e pouco sofisticado na pilotagem.

Na corrida seguinte a Monza, como que num passe de mágica, faz no GP da Bélgica em Spa-Francorchamps uma corrida consistente, debaixo de chuva, e termina em segundo lugar. Na sequência, na corrida disputada na pista inglesa de Brands Hatch, sob o rótulo de GP da Europa, Mansell finalmente consegue quebrar a barreira da vitória. Vence em casa no seu GP de número 72. Ele mantém a boa forma no GP da África do Sul disputado em Kyalami, obtendo a pole e a vitória. Faz 24 pontos em apenas três corridas.

Para a temporada seguinte, em 1986, fica uma enorme expectativa. Keke Rosberg deixa a Williams e vai para a McLaren, em seu lugar a Williams contrata o duas vezes campeão Nelson Piquet, que chega com status de primeiro piloto.

A temporada de 1986 reúne em sua disputa aqueles que são considerados os melhores pilotos daquela década. Estamos falando de Ayrton Senna, Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell.

Bem, olhando sob a ótica do tempo, o ano de 1986 começa com Piquet e Prost já com títulos conquistados, e Senna havia quebrado a barreira da vitória e era a grande promessa de um futuro campeão. Nessa turma, Mansell era o patinho feio.

Só que na temporada Mansell foi o maior vencedor, com cinco triunfos, e ficou outras quatro vezes no pódio. Sua linha de resultados no gráfico subiu e subiu. O homem que muitos rejeitaram como perdedor mudou a percepção de muitos por completo. Ele enfrentava apenas um problema: Nelson Piquet com o mesmo equipamento da Williams.

A questão de número 1 e 2 na Williams implodiu quando Mansell venceu o GP da Grã-Bretanha em Brands Hatch, chegando a frente de Piquet por uma margem de 5.5 segundos. O inglês usou o carro reserva de Piquet, e a equipe Williams se recusou a sinalizar para Mansell maneirar. Na verdade, a equipe estava favorecendo o inglês.

No regulamento da época, apenas as onze melhores colocações nas dezesseis rodadas do campeonato contavam. Chegando a Adelaide para disputar a corrida final na Austrália, tínhamos Mansell líder com 72 pontos (70 válidos), Prost 65 (64 válidos) e Piquet 63.

Tudo que Mansell precisava fazer era terminar próximo a Piquet e Prost. Ele havia ido a Adelaide mais cedo, buscando relaxar jogando golfe com Greg Norman, um amigo próximo e estrela daquele esporte. Algumas vezes Mansell o superou, e isso dava a impressão que ele estava tranquilo.

Enquanto isso, Prost pairava entre confiança e a certeza de que, seja lá o que acontecesse, não seria fácil. Ele tinha que vencer o GP australiano e mesmo assim torcer para Mansell terminar fora da pontuação. Prost não estava exatamente preocupado com Piquet. Se Mansell desistisse, ele apenas precisava ficar em qualquer posição à frente de Piquet. E Prost tinha um aliado, Keke Rosberg, seu companheiro de equipe na McLaren e correndo a última corrida de sua carreira. Rosberg disse a Prost com sua maneira direta: “Eu irei lhe ajudar”.

Rosberg declarou a algumas pessoas da equipe McLaren que a consumação de sua carreira seria deixá-la de forma magnânima. “Se eu tiver que terminar em décimo sétimo para que Alain seja campeão eu irei assegurar que serei décimo sétimo”, disse.

Em contrapartida, Prost sabia que Piquet não ajudaria Mansell e muito menos Mansell ajudaria Piquet. Os dois pilotos da Williams encarariam as 82 voltas do GP sem aliados.

Prost tinha um elemento adicional de tranqüilidade. Ele já tinha estado em situação semelhante a essa três vezes (1982, 1983 e 1984 ) antes de ganhar o seu ansiado primeiro título. Ele definitivamente não se encontrava sob essa pressão e ele sabia que Nelson Piquet, duas vezes campeão, também não.

Prost depois disso, declarou que as pessoas estavam “impressionadas” com a confiança que isso tinha lhe dado, mas isso não o perturbava. “De várias maneiras”, disse Prost, “essa é a corrida ideal para mim. Eu preciso vencer. Sem necessidade de planejar, sério. É o mesmo para o Nelson e seguramente não é a mesma situação para Nigel…

Já Mansell declarou: “Eu tenho que tentar e vencer. Eu quero vencer. Não tem chance de eu pensar em tentar terminar em terceiro ou coisa do tipo. É muito perigoso por um motivo, pois você vai correr com outros carros ao redor e pode se envolver na disputa dos outros. Não, ou eu irei vencer essa corrida direito ou não irei vencê-la de forma alguma”.

Tudo o que Mansell precisava era adotar a tática da simplicidade, andando e seguindo pelos agradáveis contornos de Adelaide, garantindo apenas que não acertasse um muro. Adelaide não era feito Detroit ou Mônaco, onde as paredes pareciam mover-se até você. Adelaide oferecia amplo espaço. É claro que você precisava se concentrar, mas qualquer piloto experiente consegue fazer isso.

A qualificação terminou com Mansell na pole, seguido de Piquet, Senna, e Prost, que se concentrou sobre como os pneus estavam rendendo e quanto eles poderiam durar, porque era um aspecto que, nas palavras dele, “você tinha que acertar em cheio”. Esse comentário parece tão comum e óbvio que chega a ser medíocre, especialmente porque ele, Mansell e Piquet estavam todos de Goodyear.

Barry Griffin, da Goodyear, traça os acontecimentos que antecederam a corrida: “Durante a temporada, pode ocorrer de problemas nos pneus serem mascarados por outros eventos – pilotos fazendo paradas por novos pneus nas corridas, por exemplo. Então você não consegue julgar quanto mais o pneu duraria. A corrida antes de Adelaide – México – foi vencida por Gerhard Berger [Benetton] usando Pirelli e ele percorreu toda a distância com um jogo [de pneus]. Nós não havíamos conseguido fazer nenhum teste. Em Adelaide, Williams, McLaren e as outras equipes ao qual fornecíamos nos procuraram e disseram ‘pelo amor de Deus, se Pirelli vai sem parar nós podemos também?”.

Naquele sábado à noite, em sua suíte no Hilton Adelaide, Prost jogou baralho com amigos e foi dormir. O alarme de incêndio soou e ele, como todos os hóspedes, se juntaram no lobby antes do resgate chegar.

O domingo de manhã estava decorado por um céu azul, mas duas horas antes da corrida nuvens escuras começaram a seguir em direção ao circuito. Uma corrida molhada alteraria tudo e uma leve garoa caiu antes da largada.

Mansell sentou-se no pit abrigado embaixo de um guarda-chuva.

Prost parecia renovado após um cochilo interrompido.

A chuva parou.

Mansell conduziu a procissão na volta de apresentação, dando à sua Williams aceleração total por um momento ou outro, tão rápido que ele queimou borracha e a deixou lá duas marcas eqüidistantes, diretamente onde ele largaria na corrida. Ele percebeu um pouco de pó e a aceleração soprou isso pra longe. Quando ele voltou, ao reposicionar a Williams para a largada, ele teria a adesão da borracha que havia deixado. Aparentemente, ele estava pensando como um campeão.

No verde, ele assegurou a liderança e se posicionou na primeira curva à na frente de Senna, Piquet e Rosberg. Na curva seguinte, Mansell posicionou a Williams no meio da pista, permitindo a Senna que o cortasse por dentro. Piquet e Rosberg fazem o mesmo. Nigel se manteve em quarto, ficando longe de problemas. Era o momento de deixar as coisas se acalmarem. Prost, logo atrás, começava a se aproximar, e nesse momento Piquet passou por Senna para a liderança.

Na conclusão da volta 1, essa era a ordem: Piquet, Senna, Rosberg, Mansell, Prost.

Na volta 2, Rosberg passa Senna e ataca Piquet, que tinha que vencer para tirar Prost da jogada. Isso forçou Nelson a ser mais agressivo para segurá-lo. Antes da corrida, a Williams demonstrava preocupação em relação ao consumo de combustível e agora, na quarta volta, eles mediam constantemente o consumo.

Volta 5: Piquet, Rosberg 0.9s atrás, Mansell 9.7s,Senna 10.6s, Prost 11.2s, Berger 12.6s.

Na volta 7, Rosberg assume a ponta e rapidamente começa a abrir uma boa vantagem, tomando o papel de “coelho” e se afastado de Piquet, enquanto que Mansell estava a salvo com uma brecha de espaço os dois grupos. Ele podia levar o título se Piquet vencesse se ele chegasse em terceiro. Toda essa atividade se resolveu em simples equações.

Na volta 11, Prost atacou Mansell ficando em terceiro. Prost era rápido, iria com certeza alcançar Piquet e ultrapassá-lo. Rosberg iria assim ajudar Prost, dando-lhe a liderança. Mansell, em quarto, iria ter que ultrapassar Piquet pelo terceiro lugar.

Prost começou a alcançar Piquet, calma e precisamente, flutuando numa beira aqui,patinando numa beira ali mas sempre no controle. Ele podia ver Piquet claramente. Quando alcançou um retardatário o espaço entre ambos caiu para três segundos.

Na volta 20: Rosberg, Piquet 14.21s atrás, Prost 14.8s, Mansell 19.1s, Senna 37.7s, Johansson (Ferrari) 56.1s. Prost não conseguia achar um jeito de ultrapassar Piquet, e cada volta deixava Mansell mais próximo do campeonato.

Mas então Piquet erra e roda na volta 22. Na seção curta depois da chicana, ele travou os freios. Ele girou e, na volta a pista, cai para o quarto lugar. Agora Mansell podia enxergar Prost a certa distância.

Na volta 32, Prost teve seu pneu dianteiro direito furado. O pneu se esvaziou na longa reta e lhe deu um ‘pequeno momento’. Três voltas antes, ele havia encostado de leve em Berger quando tentou lhe aplicar uma volta, talvez essa fosse a causa. Prost precisou ir até os pits. Ele vinha girando na casa de 1m22s, e essa volta de entrada para um novo set foi feita em 1min53s7.

Mansell sobe para o segundo lugar, o título ficava cada vez mais próximo…

Termino essa história na minha próxima coluna.

Abraços!

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

3 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Amigos do Gepeto,

    1) Este bafafá do pneu estourado do Vettel parece mais um jogo de mentiras ou de esconder verdades. Em razão das trocas de farpas Vettel x Pirelli ninguém sabe quem tem razão … a Pirelli insiste em dizer que o pneu teria uma duração máxima de 25 voltas em SPA … Ferrari/Vettel afirma que tem informações de duração de 40 voltas … no fim a resposta só será dada após estudos e análises do pneu estourado … a unica verdade é que o Vettel se borrou todo de medo … o que é mais que natural … afinal não é qualquer um que segura um carro em linha reta, a quase 300 km/h com um pneu estourado … é só lembrarem do que aconteceu com o cantor Cristiano Araujo e o que um pneu furado lhe causou …

    2) Quanto a temporada de 1986 e a corrida de fechamento da temporada na Austrália, a história que temos o prazer de relembrar através do nosso amigo Mario Salustiano é a comprovação mais que comprovada que possivelmente aquela foi a corrida mais sensacional da Formula 1 da era moderna … como bem afirma nosso amigo Mauro Santana …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mauro Santana disse:

      Pois é Fernando

      Sabe, olhando esta tática do Vettel, e acho que na Hungria em 2010(ele parou pra trocar de composto na ultima volta, por causa da regra besta), me faz pensar que se não existisse tal regra, o alemão tentaria em algumas provas não trocar os pneus, assim como o Senna fazia em 1987.

      Claro, se os pneus tivessem uma durabilidade bem maior.

      Imaginem que legal que seria, pois aí sim, teríamos estratégias diferentes, e muitos ataques na pista mesmo.

      Não entendo isso.

      Abraço!

  2. Mauro Santana disse:

    Que coluna, amigo Mário!

    Eu sou suspeito em falar da prova da Austrália de 1986, pois ela é disparada a minha predileta decisão de campeonato.

    Lembro como se fosse hoje eu assistindo a corrida junto com meu pai, e ambos vibrando com o pneu de Mansell explodindo, mas também ficando brabos e não aceitando a decisão do Piquet parar nos box e deixar o caminho livre pro título do Prost.

    Torcemos muito para que o Piquet conseguisse atacar o francês no final, mas, o Professor não deu chances.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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