Pneus e estouros, parte 2

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A conclusão da narrativa do GP da Austrália de 1986, para muitos a maior decisão de título de todos os tempos.

Retomamos a história do GP da Austrália de 1986, uma decisão de campeonato que aconteceu por causa dos pneus.

Após o furo de Prost na volta 32, a Goodyear examinou cuidadosamente todos os pneus do francês. O furo não parecia significante – qualquer coisa poderia tê-lo causado. Concluíram que naquela altura não era possível prevenir Rosberg. Mansell e Piquet seguindo à distância. Barry Griffin, da marca americana de pneus, declarou após a prova que Frank Williams e Patrick Head o indagaram “Como estão os pneus de Prost? Como estão os pneus de Prost?”.

Prost se manteve parado por 17.13s, o dobro do normal porque a McLaren estava tão baixa pelo dianteiro direito vazio que os mecânicos tiveram dificuldade para colocar o macaco embaixo dela. Prost retornou a corrida em quarto, mas vinte segundos atrás de Mansell e Piquet, e praticamente um minuto atrás de Rosberg.

Um pouco mais tarde, Mansell gostaria de ter ido aos pits pelos pneus.  Mas como Piquet não o fez, a Williams decidiu não fazê-lo também. Williams é claro sabia o que Goodyear tinha falado. Em relação ao conselho recebido, era a decisão certa: qualquer pit stop é um risco, principalmente se você não tem de fazê-lo.

Na volta 44, Piquet pegou e ultrapassou Mansell, uma jogada em que Mansell não resistiu porque ele não tinha motivos para tal.

Prost tentou contra-atacar, apesar da grande preocupação sobre seu combustível: “Mesmo quando cheguei pro pit, pelos pneus, o marcador apontava menos cinco e numa corrida normal eu teria recuado até que ficasse positivo de novo. Talvez eu tivesse me acomodado por um terceiro lugar ou algo do tipo. Mas em um dia como esse não havia chances de eu recuar. Eu pensei que se não ganhasse a corrida não ganharia o campeonato. Continuei forçando”.

Rosberg, enquanto isso, estava refletindo sobre como poderia dar a corrida a Prost, presumindo que o francês deveria passar as duas Williams. Ele deveria parar sua McLaren pouco antes da linha de chegada e deixar Prost passar? Não, ele pensou. Você corre o risco de estagnar o motor e o que vai parecer? Rosberg decidiu que próximo ao fim ele iria progressivamente reduzir para que Prost o alcançasse, e que todos entendessem o que ele estava fazendo.

Indo para as voltas 60 e 61, a tática de Rosberg parecia irrelevante. Mansell se mantinha em terceiro, sagrando-se campeão. Na volta 63, Keke escutou um barulho e achou que o motor havia pifado. Duas vezes ele torceu a cabeça para procurar fumaça pelo seu espelho retrovisor. Ele encostou o carro ao lado da pista – havia um pequeno recuo numa parede de concreto – saiu, circulou o carro e espiou por baixo da traseira procurando por qualquer sinal de óleo. Mansell viu a McLaren de Rosberg estacionada mas não tinha ideia do que havia acontecido.

Precisamente nesse momento Barry Griffin estava nos boxes assistindo por um pequeno monitor de TV. Ele sabia o que havia acontecido a Rosberg. Ele tinha acabado de ver. O pneu traseiro direito rasgou e tiras ficaram ricocheteando na lataria. Esse foi o barulho que Rosberg ouviu.

Alguém da Goodyear foi direto aos boxes da Williams e lhes avisar para trazer Piquet e Mansell imediatamente.

A Williams acatou e disse que traria os dois pilotos ao fim da volta. Neste mesmo momento, Mansell havia alcançado a reta, a Williams na sexta marcha, com velocidade passando a 320 km/h. Após desviar de um retardatário, o pneu traseiro esquerdo explode de maneira violenta. Uma fonte enorme de faíscas amarelas aparece com o carro arrastando pelo asfalto. O carro dançava de um lado a outro freneticamente.

Na torre de controle, o diretor da corrida, um americano de 57 anos chamado Berdie Martin assistia Mansell lutando pelo carro e pela vida naquela reta. Ele tinha um telefone de comunicação com a pista diretamente à sua frente e palavras estavam se formando. Enquanto isso, a Williams resistia e ia para todos os lados, já que tinha alcançado uma velocidade em direção a uma curva fechada logo ao final da reta.

Berdie Martin era um diretor muito experiente. Ele pensou rápido:

Nós já discutimos aquela curva, é a parte mais afunilada do circuito e uma das mais perigosas. Se a Williams parar em qualquer lugar ali eu irei acionar os oficiais para liberarem a bandeira vermelha”. Ele manteve a mão sob o telefone, mas não o tocou.

A Williams reduziu, dançando agora, se movendo como uma cobra em direção a curva, mas com velocidade suficiente para chacoalhar a cabeça de Mansell. Ela deslizou direto da boca da curva para uma área de escape da pista. Mansell a jogou ali por pura força, instinto e fantástico controle. A Williams bateu calmamente numa parede longe, longe da área de escape. Ele estava a salvo. E o carro, numa posição segura.

Martin afastou as mãos do telefone. Se Mansell tivesse parado 100 metros atrás, perto da entrada da curva “eu teria acionado a bandeira vermelha instantaneamente, o que significa que todos os pilotos têm que parar de correr e como mais de 80% da corrida já havia se passado, não haveria relargada”. A mente de Martin ainda estava a mil. “Se eu tivesse acionado a bandeira vermelha, as posições seriam congeladas onde cada um estava na volta anterior. Meu Deus, eu teria feito de Mansell o campeão…”.

Mansell agitou os braços por cima do cockpit, um movimento de grande desespero.

Piquet, ainda líder, estava alguns segundos à frente de Prost. Pelo rádio, ouviu a mensagem “venha para pneus novos imediatamente”. Prost o ultrapassou enquanto entrava nos boxes.

Novo líder, Prost avaliou o combustível como um fator crítico, sob um regulamento que proibia o reabastecimento. Enquanto Piquet se aproximava a 1min20s, Prost se igualou a ele e na volta 69 fez 1min20s9.

Na volta final, Prost esperou que o motor começasse a tossir e morresse. Piquet veio pra cima e, em supremo esforço, marcou a volta mais rápida, acabando com o antigo recorde. Não foi o suficiente. Quando Prost cruzou a linha, Piquet já estava virando a curva, mas ainda assim 4.2 segundos atrás.

Prost parou imediatamente após a linha de chegada. Pulou e bateu palmas no capacete. Ele balançava os dois braços para o time, nos pits. Tirou sua luva direita e a jogou no carro como se estivesse dizendo “e aí, que tal isso?”.

Mansell, já dentro dos pits, estava obviamente perturbado e a leva de jornalistas – alguns deles seus amigos – recuou um pouco, hesitando se aproximar de seu luto particular. Eles o fizeram depois, mas essa é outra história.

Em Dezembro no anual FISA, cerimônia de prêmios em Paris, Nigel Mansell estava sentado próximo a Berdie Martin e eles conversaram sobre os acontecimentos da corrida. Em certo momento, Martin lhe explicou o quão perto ele chegou de acionar a bandeira vermelha, e como a ordem chegou a tomar forma por um breve momento. Mansell não tinha conhecimento disso, mas é claro, de repente ele percebeu o quanto ele havia chegado perto do título, que acabou no colo de Prost.

“Oh meu Deus” foi a única frase que ele disse a Martin.

Um abraço,

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

8 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Interessante também, que no final da prova anterior no México vencida pelo Berger, que o Galvão soltou uma frase mais o menos deste jeito:

    “E na Austrália, tem o Senna, o Berger, ou seja, tem bastante gente pra brigar pela vitória e que pode ajudar o Piquet”.

    Infelizmente, tanto Senna como Berger mal apareceram na prova enquanto estiveram na pista.

  2. Mauro Santana disse:

    Que Show!!!!

    Parabéns amigo Mário!!

    Uma das coisas mais legais daqueles anos dourados, eram que os pilotos tomavam decisões na pista praticamente sozinhos, diferente dos tempos atuais em que o engenheiro corre junto com o piloto.

    E eu lembro como se fosse hoje, após a prova vendo a alegria do Piquet no pódio pelo segundo lugar, ele observando o show dos caças australianos no céu nublado, meu pai soltou a seguinte frase:

    “É Piquet, infelizmente não deu pra nós, mas também não deu pro Mansell”.

    Desligamos a TV National que tínhamos na sala, e fomos dormir.

    Nossa, que tempo bom eram aqueles, que saudades…

    E nunca me canso de ver este pequeno vídeo.

    https://www.youtube.com/watch?v=jQ6WgIexJGA

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Rubergil Jr disse:

    Que texto maravilhoso. E que corrida.

  4. Essa corrida é, provavelmente, a mais contada da história da F1. E com razão!

  5. Fernando Marques disse:

    Mário,

    parabéns pela lembrança dessa memorável corrida com uma história rica de detalhes.
    Eu confesso que de certa forma fiquei decepcionado com o resultado final. Afinal torci como nunca para o Piquet ser campeão. Afinal ele tinha o melhor carro da Formula 1. E pior já não gostava do Prost já naquela época.
    Vendo o pódio não me espanta a alegria do Piquet. Para ele, caso não fosse ele o campeão, o melhor era o Prost ganhar aquele campeonato e não o Mansell.
    A Willians como equipe errou demais naquela corrida. Não soube tomar as decisões certas nas horas certas … e quanto ao Prost a sorte lhe sorriu como nunca sorriu na sua vida naquele dia. Ter furado o seu pneu logo na 1ª parte da corrida acabou por ser o detalhe decisivo para ele ganhar a corrida e o campeonato.
    Quanto ao Berdie Martin, seria um insulto de parcialidade impar ele terminar corrida naquele instante por causa do estouro do pneu do Mansell.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Mário Salustiano disse:

      Fernando

      revendo essa corrida para escrever essa coluna e vendo o Piquet nesse pódio me vem a mente Brasil 2007 e o Alonso mais feliz que o Raikkonen naquele GP….rsrsrs

      abraços

  6. Lucas disse:

    Que bom que acabou sendo assim. Nada contra o Mansell, mas se não fosse assim nossa vida de fã de automobilismo ia ficar mais difícil a cada vez que um parente ou amigo vem com aquela pergunta “pra que acompanhar um esporte em que ninguém é campeão se claramente não tem o melhor carro? (aliás, que pena que o Grosjean acertou o Alonso em 2012 – daria até pra dar um exemplo contundente ainda dessa década!)

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