Política

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Não adianta se esconder dela. Se você não vai à política, a política vem até você.

Domingo, como bem lembrou Márcio Madeira, Lewis Hamilton, depois de vencer brilhantemente o GP da Estíria, repetiu no pódio o gesto de Tommie Smith e John Carlos após conquistarem as medalhas de ouro e bronze nos 200 metros rasos nas Olimpíadas do México. O punho cerrado erguido, naquela época, era a saudação dos militantes e simpatizantes do grupo americano Panteras Negras, criado originalmente para lutar, inclusive por meios violentos, contra a violência policial contra os negros na Califórnia. Tommie e John foram duramente penalizados pela sua atitude, sendo expulsos da competição.

Hamilton não sofreu nada parecido, pelo contrário. Imagino que de suas salas protegidas, os donos da Fórmula 1 até suspiraram aliviados: a atitude, mais uma hashtag, mais um prometido programa de apoio à diversidade ajudam a limpar a barra da categoria e mantê-la flutuando em um momento de stress máximo, muito maior até que o 1º de maio de 1994.

 

 

A equipe Mercedes sentiu-se compelida a informar que apenas 3% do seu pessoal vem de minorias étnicas e que 12% da equipe é composta por mulher.

Legal que uma empresa movida por competição tenha estas preocupações e legal também que tenha indicado Stephanie Travers, do Zimbábue, para receber o prêmio na Estíria em nome da equipe.

Acho estranho que avanços sociais desta natureza – avanços que devemos apoiar, claro – dependam mais e mais de capitalistas. Em 68, eles eram o inimigo, mas as coisas mudam e, de repente, este é o caminho para minorar um problema que, como se vê, pouco mudou: 52 anos passados, o motivo para os punhos cerrados segue sendo o mesmo.

A Mercedes está sendo sincera em seus propósitos civilizatórios? Até acredito que esteja, ainda que por motivações diferentes das minhas, mas não é atrás de sinceridade o que estamos agora. Em nossa época, símbolos são importantes e, às vezes, é tudo o que podemos festejar.

 

 

Valtteri Bottas e Charles Leclerc contrariaram as recomendações da F1 e foram para a casa deles, em Mônaco, depois dos GPs na Áustria.

Brincam com fogo, em vários sentidos. Uma hora dessas, um vírus entra na trama e tudo pode cair por terra.

 

 

“La batata della Ferrari no va benne”, zoou Kleber Machado no domingo, com toda razão. Por que a equipe se tornou tão frágil tecnicamente, depois de 2014, quando se impôs o motor híbrido?

Compreende-se que a Ferrari tenha apoiado a mudança de regulamento: só com ela poderia romper a hegemonia alcançada pela RBR. Endossou, porém, um motor, ou melhor, um power train, exótico, com dois kers, turbo e unidade elétrica, e, pior, teria apostado numa arquitetura que deu errado, enquanto que a Mercedes acertou.

Dizem que os alemães forçaram a barra pela aprovação do regulamento porque já estavam pesquisando o motor híbrido há algum tempo e confiavam nele. A Ferrari simplesmente não teve força política para se opor à ideia da Mercedes, que alvejou também a Renault, neutralizando assim a RBR.

Até hoje a Ferrari não conseguiu reverter o prejuízo. No ano passado, deu um grande passo à frente, mas o abismo estava logo ali. O motor italiano era irregular – um negócio louco, que nem sei se entendi direito: conseguia enganar o software de controle de vazão de combustível. A Fia descobriu e chamou a Ferrari num canto. O que conversaram não se sabe. Por uma questão que certamente só pode ser política, o caso permaneceu secreto, mas suas decorrências são bem visíveis. Os Ferrari, hoje, têm de se contentar com sobras.

Leclerc, vale lembrar, tomou um segundo de Bottas no grid da Áustria, no qual não se pode alegar influência da chuva, e os Ferrari disputam a condição de carros mais lentos em reta de 2020 e, ao contrário dos RBR dos bons tempos, eles estão longe de compensar esta desvantagem nas curvas.

 

 

Os motores são a explicação pontual para os problemas da Ferrari, mas há uma explicação, digamos, estrutural, e Matias Binotto a reconheceu com desconcertante franqueza no último domingo: “nossos problemas são de método, de projeto de base, de conceito”.

Sim, e é difícil não centrar este problema no próprio Binotto. Ele concentra poderes demais. Não há na Ferrari, por exemplo, a figura de um diretor técnico, como James Allison na Mercedes e Adrian Newey na RBR.

Abaixo de Binotto no organograma técnico da Ferrari, há cinco pessoas, respondendo por motores, chassis, direção esportiva etc. Cabe a Binotto desempatar todas as disputas entre eles, ao mesmo tempo em que responde por toda a gestão esportiva, administrativa, comercial, institucional e política da equipe.

É coisa demais para um homem só…

O estado de ânimo dos pilotos da Ferrari, claro, não ajuda em nada, Leclerc naquela fase típica dos Jovens Leões em busca açodada por resultados, Sebastian Vettel assombrado por um fim melancólico de carreira.

Sim! Definitivamente la batata dela Ferrari no va bene.

 

 

Por algum motivo que me escapa – seriam os efeitos do distanciamento social? –, não consigo olhar os carros de F1 desta temporada sem vê-los como insetos gigantes, seus apêndices aerodinâmicos e sem-número de detalhes (reparem na suspensão traseiras dos Mercedes), assemelhando-se mais e mais a antenas, presas, esporas, patas e articulações ameaçadoras.

 

 

Ver Spielberg – ou seja lá como se chama aquele autódromo medíocre, emasculado como Interlagos – vazio me deu uma tristeza profunda, ao evidenciar como a pandemia expõe a Fórmula 1 a uma situação que pode muito bem leva-la a uma ruptura definitiva. Ambiciosa ao máximo em suas pretensões de vendas e lucros crescentes, como pode a categoria sobreviver a um semestre inteiro de receitas em queda ou mesmo zeradas?

A retomada das corridas sem público é uma tentativa desesperada de retomar os negócios e não garante entrada de dinheiro, pelo contrário. Não sei como a Fórmula 1 vai sair desta como, de resto, cada um de nós. Imagino que todos estejam se endividando, confiando que algo acontecerá depois de meados de setembro.

Este desespero pode ser a última esperança de voltarmos a ver a Fórmula 1 em Interlagos. Como precisa de GPs, a categoria talvez se arrisque em voltar ao Brasil. Depois disso, não sei.

Pedindo desculpas, mais uma vez, pelo meu já tradicional pessimismo, envio abraço aos leitores, esperando que todos estejam bem e recomendando prudência e distanciamento.

 

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

1 Comment

  1. Mauro Santana disse:

    Belíssimo texto Edu!!

    Sobre Vettel, espero que não aconteça om ele o mesmo que aconteceu com Prost em 1991.

    E infelizmente Sérgio Perez pode perder seu ligar na F1 para Vettel no ano que vem.

    Perez, na minha opinião, vem se tornando um grande piloto, muito mais maduro do que aquele Perez da McLaren de 2013, e já faz um tempo que ele merece um lugar numa equipe de ponta, pois faria bem para a F1 um mexicano vencendo corridas.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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