PROST E DINIZ: FIM

MONTOYA VAI SE IMPONDO FRENTE A RALF
07/10/2001
Alesi, Japão, Massa
12/10/2001

Edu,

Domingo teremos o GP do Japão. Acho que vai ser o encerramento de temporada mais morno das últimas décadas. Os títulos de pilotos e construtores estão decididos, o vice de pilotos quase isso, as equipes principais estão todas definidas para 2002. Enfim, vamos aguardar…

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Enquanto 2002 não chega, vamos vivendo de fofocas e factóides. Soube de fonte segura que Pedro Paulo Diniz e Alain Prost não devem mais ser convidados para a mesma festa. Nos últimos meses, ouvimos alguns boatos de que Diniz pretendia comprar a Prost e assumir o controle total da equipe, mas essa hipótese parece cada vez mais remota. O francês não abre mão de continuar no comando, mesmo estando cheio de promissórias vencidas.

Ao contrário de você, eu sou um grande admirador do Prost piloto. O Prost chefe de equipe, porém, é um desastre. Deve ser insuportável trabalhar ao lado dele – isso fica evidente pela quantidade de parceiros que saíram da equipe batendo a porta: Peugeot, Seita (Gauloises), Panis, Total, Alesi… Definitivamente, ninguém é bom em tudo.

 

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Comprei outro dia um belo livro: “Circuito da Gávea”. Escrito pelo advogado Paulo Scalli, conta a história de todas as corridas disputadas nesse circuito de rua do Rio de Janeiro. O livro é ricamente ilustrado, tem tratamento gráfico de livro de arte e um texto fluido, sem frivolidades e com ótimas histórias do “Trampolim do Diabo”, como era conhecido.

Essa corrida, disputada entre 1933 e 1954, era o grande evento anual do automobilismo no Brasil (repare que ela é anterior à construção do autódromo de Interlagos, que foi inaugurado em 1940). Várias edições tiveram a participação de pilotos sul-americanos e europeus e a prova integrava o calendário da FIA. Não chegava a ser uma das corridas principais do cenário mundial (pilotos como Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola e Bernd Rosemeyer, os “grandes” dos anos 30, nunca vieram correr aqui), mas foi importante o suficiente para motivar a vinda do alemão Hans von Stuck (Auto Union) e do italiano Carlo Pintacuda (Alfa Romeo), que tinham um certo nome na Europa. Pintacuda, vencedor da edição de 1937 depois de uma memorável disputa com o favorito Stuck, ficou tão popular no Brasil que seu sobrenome virou gíria, sinônimo de coisa que se movia com rapidez. Virou também marchinha de carnaval (algo como “sou devagar para trabalhar, mas sou um Pintacuda para beijar”). Depois da Segunda Guerra, Pintacuda mudou-se para Buenos Aires, onde morreu, se não me engano, em 1972.

Minhas únicas restrições ao livro: 1) Algumas legendas encobrem parte do elemento principal da foto; 2) Cada corrida tem uma relação completa de participantes, mas não há os números deles; 3) Foram colocados somente os cinco primeiros colocados de cada corrida e não o resultado completo.

Nada disso invalida a grandeza de “Circuito da Gávea” como documento, principalmente considerando a dificuldade para se fazer pesquisa histórica em um país como o Brasil, que preserva tão mal a sua memória. Parabéns ao autor pela iniciativa.

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Edu, peço licença para, modestamente, dar um conselho a jovens escritores e jornalistas que porventura venham a ler esta carta: por favor, não caiam na tentação de usar o chavão “a fase romântica”. Eu mesmo já devo ter entrado nessa cilada, mas percebi o quanto essa expressão deve ser evitada ao ouvir certa vez o espanto do apresentador José Paulo de Andrade, da Rádio Bandeirantes, com alguém que se referiu à “fase romântica da Polícia Federal”. O extremo disso seria alguém soltar uma sandice do tipo “a fase romântica do crime organizado” ou “a fase romântica do terrorismo”.

Muitas pessoas (eu me incluo nesse rol) tendem a enxergar o passado com uma lente cor-de-rosa, considerando que muitas coisas eram melhores do que hoje. Vendo de hoje, os anos 70 e 80 parecem ser uma fase maravilhosa da F 1, cheia de camaradagem e amizades. Os relatos que eu lia nessas épocas já davam conta que o ambiente na categoria era (ou estava ficando) insuportável, embora fosse um refresco se comparado à F 1 dos anos 2000. Mas já existiam pressões, sacanagens, puxadas de tapete e tudo aquilo que caracteriza a F 1 de hoje. “A História de Jim Clark”, ótimo livro escrito pelo jornalista Bill Gavin logo depois da morte do piloto escocês, registra (sem dar nomes) pilotos dos anos 50 e 60 que eram antipáticos, grosseiros e arrogantes. As coisas não mudaram muito através dos tempos.

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Já que estamos falando de coisas antigas, conte-me uma coisa: como foi conhecer as ruínas do circuito de Reims, na França? Deve ser um negócio de louco estar em boxes que estão sem uso e iguais ao que eram há mais de 30 anos.

Seria ótimo se pudéssemos fazer a mesma coisa na Gávea, mas isso é impossível – entre outros motivos, porque parte do traçado passava por onde hoje está a Favela da Rocinha.

Abraços e bom final de semana,

Panda

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