Que pátria?

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As competições esportivas devem ainda ser confundidas com manifestações esportivas de alguma forma?

Certa vez*, pouco tempo depois da conquista do quarto título mundial pela seleção brasileira de futebol, eu estava fazendo compras e notei que as sacolas de plástico do supermercado ostentavam o desenho da bandeira do Brasil. No ato, minha percepção colou-se à tal pátria de chuteiras. “Deve ter sobrado da época da Copa”, pensei. Alguns instantes depois, constatei meu equívoco. Estávamos no início de setembro, em plena “Semana da Pátria”. A bandeira era pela comemoração da independência do Brasil, não pela conquista do tetra.

Para mim e, acredito, para muita gente da minha geração, o verde-e-amarelo era sinônimo da seleção brasileira de futebol. Ora, eu não via em outra ocasião ninguém adornar as antenas dos carros com fitinhas nas cores nacionais. E só via bandeiras do Brasil penduradas em janelas quando a “seleção canarinho” entrava em campo. E isso era o melhor que eu podia extrair desses símbolos nacionais porque, no mais das vezes, bandeira, hino e afins só me faziam recordar das detestáveis paradas militares e outras festividades dos meus tempos de colégio, tempos de ditadura.

Assim, cresci com certa prevenção contra manifestações nacionalistas, como se adorar os símbolos nacionais fosse coadunar com um regime de exceção. Há duas semanas, quando Felipe Massa venceu o GP da França e assumiu a liderança do campeonato, ele apontou para a bandeira, que subia atrás dele, na tradicional cerimônia do pódio, com gestos contidos, mas respeitosos. Durante a transmissão, pelas rádios Band News FM e Bandeirantes AM, assumi a emoção de ver um brasileiro novamente liderando um campeonato. Horas depois, aqui no GPTotal, transcrevi essa emoção em uma coluna, intitulada “Pelo amor e pela dor”.

Não foi exatamente a devoção discreta de Massa pela bandeira que me tocou. Foi, de fato, ver um brasileiro à frente dos outros pilotos, o que não acontecia há exatos quinze anos. Minha relação com a bandeira e com os símbolos nacionais segue mal resolvida. Talvez um dia eu me acerte com eles, mas não sinto um pingo de culpa por associar arroubos ufanistas a um período catastrófico da história do Brasil. Foi por um brasileiro na liderança, e não pela bandeira do Brasil, que meu coração palpitou.

Eis que abro a caixa de comentários do meu blog para considerações dos leitores acerca da coluna “Pelo amor e pela dor” e recolho depoimentos contundentes de desconfiança em relação a Massa. Não estranho o pé atrás de muitos espectadores da Fórmula 1 nesse aspecto. Massa, de fato, equilibra-se desde 2002 na categoria entre desempenhos corretos e velozes e outros atabalhoados e vexatórios. O que realmente me chamou a atenção foi a contundência de alguns leitores em se declararem apáticos quanto a torcer por um brasileiro. Mais que isso: detectei mesmo enorme inclinação a rechaçar tal torcida. Hoje, não é incomum encontrar brasileiros que torcem contra o “Brasil” em competições esportivas mundo afora.

Usar aspas, neste caso, não denota ironia nenhuma. O Brasil, afinal, é um país da América do Sul, ex-colônia de Portugal, que desponta no século 21 como economia emergente. O Brasil não é a seleção brasileira de futebol, de basquete, de vôlei ou de pólo aquático, o Brasil não se aposentou das quadras de tênis há algumas semanas, o Brasil não é piloto da Ferrari, da Renault ou da Honda. Reconhecer isso me parece inequívoco sinal de amadurecimento. Esportistas são apenas esportistas, não heróis nacionais nem sinônimos de um país.

Até bem pouco tempo atrás, a simbiose entre a nação e seus representantes esportivos extrapolava os limites da lógica. O “Brasil” entrava em campo, o “Brasil” faturava o tri, o “Brasil” vencia seu primeiro título de Fórmula 1, enquanto o Brasil matava presos políticos, o Brasil via a inflação corroer-lhe a economia, o Brasil se afundava na dívida externa. Talvez, pelo fato de o Brasil ser tão seguidamente subtraído de dignidade, o “Brasil” ia à forra como grande potência mundial.

Saudável perceber que os esportistas brasileiros não são o Brasil e que as vitórias dos primeiros não apagam as mazelas do segundo, no passado ou no presente. Mas, de fato, intriga-me a disposição cada vez maior de parte da torcida em vibrar com o contrário. Em vez de almejar as vitórias, agora parte da arquibancada se compraz com o revés do verde-e-amarelo, seja nos campos, nas quadras ou nas pistas.

No domingo anterior à vitória de Massa na França, a seleção brasileira de futebol protagonizou um de seus piores vexames, perdendo para o Paraguai, em uma exibição pavorosa, válida pelas eliminatórias da Copa de 2010. Três dias depois, novo jogo de terror, desta vez contra a Argentina. A grita contra a seleção de futebol tem se avolumado, e isso não está ligado apenas à indicação do inexperiente Dunga para seu comando. A apatia do time na Copa de 2006 fez reforçar a falta de identificação de parte da torcida com a seleção, dissonância que parece crescer há alguns anos.

A arquibancada torce contra a “seleção canarinho”, parte dos entusiastas de Fórmula 1 torcem contra os brasileiros que correm na categoria. O que estaria acontecendo?

Para buscar as raízes desta mudança, é necessário retomar dois movimentos paralelos que modificaram a relação da audiência com o esporte, nas últimas décadas. Um é a “desnacionalização” do esporte. Quase todas as seleções nacionais de futebol, hoje, são formadas por jogadores que não atuam no próprio país. Há jogadores de futebol, hoje, sendo transferidos para o exterior antes de completarem 20 anos de idade. A mesma lógica se aplica ao automobilismo. Ou seja, muitos de nós só vimos as atuações desses esportistas quando eles já não competiam no Brasil. Com categorias de base enfraquecidas, como a Fórmula 3, os poucos pilotos brasileiros que correm de monopostos precisam, obrigatoriamente, desenvolver suas carreiras desde cedo no exterior. Com isso, nem se tornam conhecidos no país em sua fase de formação nem criam seus próprios vínculos com o país de origem.

Emerson, Piquet e Senna foram para a Europa ainda jovens, claro, mas depois de correr muito em kartódromos e autódromos brasileiros. Os pilotos do presente, se não nasceram na Inglaterra, na Itália, na Alemanha e, talvez, na França, terão de abandonar muito cedo suas pátrias para almejar posições de destaque no automobilismo mundial. O jovem Robert Kubica é um exemplo bem acabado dessa tendência. Desenvolveu a maior parte de sua carreira na Itália, e não em sua Polônia natal, onde naturalmente a estrutura do automobilismo deve ser infinitamente menor e menos alvissareira. Se não se sentir atado ao país de origem e se seus compatriotas não se identificarem com ele, parte da explicação pode estar aí. Isso para não mencionar Nelson Ângelo Piquet, “brasileiro” nascido na Alemanha e criado fora do Brasil. Que pátria será a dele?

Outra tendência, talvez ainda mais forte e causa da primeira, é o apelo financeiro. Pilotos, jogadores de futebol e outros esportistas nunca, em tempo algum, ganharam tanto dinheiro quanto agora. Contratos publicitários cintilantes com marcas de material esportivo e outras corporações valem tanto ou mais que um bom contrato com uma equipe de Fórmula 1 ou com um clube de futebol. Andar a 300 km/h, fazer tangências perfeitas, dar dribles e marcar gols já não são atos em si mesmos, mas pontes para ganhar mais dinheiro, ser mais famoso e, assim, conseguir mais contratos para.. ganhar mais dinheiro.

A motivação esportiva dos atletas do presente fica muito diluída nas musculosas cifras dos contratos milionários. Por melhor que seja a ultrapassagem, por mais belo que seja o gol, fica muito evidente o real objetivo de todos eles – querem ganhar a maior quantidade de dinheiro, no menor tempo possível. Pilotar e jogar bola talvez sejam só atalhos para a conta na Suíça. Sentindo-se tão distante dessa realidade para poucos, é natural e até lícito que parte da platéia desenvolva desconfiança, apatia e até rejeição pelos ídolos do presente.

O pessimista diria que chegaram tempos de negação ao patriotismo, que a valorização de uma nação, por seus próprios cidadãos, aos poucos se torna ato risível. Que as verdadeiras pátrias, hoje, são as corporações globalizadas e que não tardará a chegar o tempo em que seremos todos mais identificados com nomes como Nike, Toyota ou Microsoft do que com Brasil, Japão ou Espanha.

O otimista pensaria que essa dissolução de fronteiras no fundo é benéfica para o ser humano. Já não nos dividiremos segundo as cores nacionais, mas segundo nossas próprias afinidades. Louvar o próprio país não será obrigação, mas desejo verdadeiro. “Torço por Massa porque gosto de seu estilo de pilotagem, de sua personalidade, de sua atitude dentro e fora da pista, não por ele usar verde-e-amarelo.”

O que continua parecendo desalentador é o papel do esporte nesse contexto. Na medida em que chegar à Fórmula 1 ou à seleção brasileira já não é fim, mas meio para se beneficiar financeiramente, qual o apelo dessas modalidades junto ao torcedor? Vamos todos, vibrar em coro, para que eles, esses poucos eleitos, sejam cada vez mais ricos, inatingíveis, tão distantes de nós mesmos? No final, torcer contra parece não só compreensível, mas quase irresistível.

*Coluna publicada originalmente em 04 de julho de 2008.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

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