Queimar naves – final

Queimar naves – parte 1
04/10/2017
Indelicado fim
09/10/2017

Confira o início desta saga clicando aqui.

Já com 30 anos de idade, Keke pressentia que aquela seria sua última oportunidade de voltar à Fórmula 1 e fala a Newmann sobre a oferta de Warr. Paul, muito compreensivo, simplesmente lhe responde: “Eu entendo. Aproveite a oportunidade!

O retorno de Rosberg foi muito promissor: se classifica em 16ª posição e termina 9º. Porém, a equipe estava em franca decadência, pois Walter Wolf, cujos negócios não passavam por bom momento, já não investia o necessário para manter a equipe num bom nível, apesar de contar com gente muito competente. Assim, nas seguintes 7 provas, Keke abandona em seis e nem se classifica no Canadá. No fim do ano os irmãos Fittipaldi compram a Wolf, e no lote entrava também o contrato de Rosberg. Porém, a Copersucar anuncia que deixava de patrocinar a escuderia e a Skol ocupa seu lugar, ainda que aportando muito menos fundos que os que desfrutavam as boas equipes do grid.

A temporada de 1980 começa bem para Rosberg, com um 3º lugar na Argentina, mas nos seguintes 10 GPs, Rosberg só consegue terminar em 3, abandonando em 4 e não se classificando nas outras 3. Na Itália, Keke, com uma pilotagem magnifica, conseguiria terminar em 5º, senda essa a última vez que pontuaria com a Fittipaldi pois, na temporada seguinte a situação da equipe seria ainda pior e a falta de recursos repercutia sériamente no rendimento dos carros (Na Áustria, nem puderam participar por falta de motores!).

Contudo, apos o GP da Itália, estando Rosberg já nos EUA tomando umas classes de voo antes de disputar o GP do Canadá, recebe o telefonema de Jeff Hazell, então manager da Williams, que lhe diz: “Olha, não quero que se iluda mas Alan Jones nos acaba de dizer que se retira no fim da temporada e quero saber se você viria a Paul Ricard para fazer um teste conosco”. Rosberg, entusiasmado, responde: “Eu iria nadando se fosse necessário!”.

Antes do teste, Rosberg devia ir à fabrica da Williams para preparar um molde para seu o banco. Porem, já com mais calma, Rosberg percebe que havia um problema: o contrato que lhe vinculava com a Fittipaldi e que cobria também a temporada de 1982.

Keke, já próximo a completar 33 anos, sabia que não teria mais oportunidades como aquela, ainda que fosse apenas um teste, e telefona seu advogado na Inglaterra para que visse um jeito de cancelar o contrato. Este lhe pergunta qual era sua situação na equipe e Rosberg lhe dá alguns detalhes e também lhe diz que lhe deviam dinheiro. O advogado se ocupa do assunto e fala com Wilson Fittipaldi sobre a desejo de Keke de abandonar a equipe. Também lhe recorda que a seu cliente lhe deviam dinheiro, ao que Wilson responde: “se Rosberg renuncia à dívida, estará liberado do contrato”.

Dito e feito: Rosberg renunciou à divida e ficou livre. Rosberg havia tomado uma decisão muito valente pois, ainda que as coisas na Fittipaldi não iam bem, estava na Formula 1 e tinha um ano mais de contrato, algo que muitos outros pilotos lhes teria bastado.

Porem, aquela era a segunda vez que uma oportunidade inesperada se lhe apresentava e ele estava seguro de que não haveria uma terceira. Deste modo, Rosberg havia “queimado suas naves” e seu futuro dependia totalmente do que fosse capaz de fazer naquele teste. Ou conseguia um lugar na Williams, ou desaparecia da Fórmula 1 para sempre. A situação era irrevesível!

Quando Keke foi à Williams para preparar o molde, se encontra com Frank e lhe diz : “Já sei que se trata apenas de um teste, mas quero que saiba que estou livre!“. Frank gostou da sinceridade de Keke. Quando Keke foi para Paul Ricard, Frank Williams e Patrick Head não puderam estar presentes naquele teste, mas Charlie Crichton-Stuart e Frank Dernie se ocupariam de supervisar tudo em seus lugares. Keke nao era o único piloto convocado para aqueles testes, mas o finlandês, após receber algumas instruções de Dernie, saiu à pista disposto a tudo e, para surpresa de todos, de cara bateu o recorde da circuito!

Sem perder tempo, Charlie telefona Frank e sem rodeios lhe diz: “este cara é bom. Ele não esta na média. Ele tem algo realmente especial!”. Assim, antes de que o que havia feito Keke fosse divulgado, Frank lhe oferece um contrato. Já de volta à Inglaterra, Keke é convidado à casa de Frank, onde este lhe apresenta o contrato para a sua assinatura. O contrato estipulava a soma de 250 mil dólares já para a primeira temporada e, além do mais, permitia a Rosberg negociar por sua conta contratos de publicidade.

O resto da história já a conhecemos : Pilotando um carro que havia sido improvisado no último momento, a partir do FW08 de seis rodas que FIA, repentinamente havia proibido, Keke seria proclamado campeão do mundo em 1982. Aquilo era como um sonho feito realidade!

Assim como fizera Alexandre Magno muito antes, Rosberg havia superado aquela situação irreversível na qual ele mesmo se havia colocado. Sem opções, Rosberg afrontou as voltas daquele teste como nunca o havia feito antes e saiu da pista vitorioso.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

4 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    a história do Keke Rosberg é muito legal … seu título em 1982 prova que quando ele teve uma verdadeira chance soube fazer proveito disso independentemente dos problemas que Piquet ( que desenvolvia os motores turbo da BMW), Gillenueve e Pironi na Ferrari tiveram naquele ano … na hora de decidir ele levou a melhor sobre Elio de Angelis que foi no fim da temporada seu principal adversário … foram os dois que lutaram pelo título na reta final da temporada …
    Como piloto seu estilo estava mais para Perterson e Villenueve do que para um Emerson ou Prost (sem comparações de quem era melhor ou pior) … como era veloz pela Mclaren, como um autentico coelho ajudou muito a Prost no titulo de 1986 …
    Sempre tive admirição pelo seu estilo de pilotagem.
    Manuel,
    parabens por mais um show de bola de coluna!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Manuel disse:

    É mesmo Wladimir,
    os acidentes de Pironi e de Villeneuve, com frequencia se mencionam como fator que diminue o valor do titulo de Keke. Mas nao devemos esquecer que Rosberg, tambem estava submetido ao mesmo perigo. Alem do mais, muitos parecem esquecer que Rosberg foi segundo no Brasil, atrás de Piquet e que ambos seriam injustamente desclassificados por aquele assunto dos depósitos de àgua dos freios. A McLaren, tambem usou os tais depósitos e nao foi desclassificada. Ainda sem aqueles 6 pontos, Keke acabaria levando o campeonato. Aqueles 6 pontos acabarian nas maos de Watson.

  3. Rubergil Jr. disse:

    Que textos fantásticos!

    É inegável que Keke era um piloto exuberante, mas creio que ele sempre foi considerado um campeão “menor” simplesmente pelos números. Foram só 5 vitórias, e será sem dúvida o eterno recordista negativo de campeão que menos vitórias tinha na carreira quando levantou a taça: apenas uma!

    Mas números não dizem tudo. Keke tinha um estilo próprio e uma velocidade nata invejável. E foi o pioneiro de uma saga de finlandeses muito talentosos: Hakkinen, Lehto, Salo, Raikkonen, Kovalainen (ok, este nem tanto) e agora Bottas. Seu papel como manager também é espetacular.

    E claro, é pai orgulhoso de um piloto talentosíssimo e campeão também, Nico. Um feito absolutamente histórico. Quantos pais campeões de formula 1 viram seu filho também sê-lo? Keke é o único a ter este privilégio.

    Rubergil Jr.

  4. wladimir duarte sales disse:

    Manuel Blanco se supera!
    Keke Rosberg, até hoje um campeão subestimado. Mas é fácil falar mal dele quando não se dispõe a conhecer sua história. Campeão numa temporada em que os motores turbo já começaram a ser dominantes apesar de ainda frágeis. A conquista certamente seria mais difícil se Didier Pironi não tivesse estraçalhado as pernas no acidente nos treinos do GP da Alemanha e se os McLarens não tivessem abandonado tantas corridas. Além dele havia John Watson, Niki Lauda (retornando após dois anos sabáticos e vencendo na segunda corrida pós retorno) e Didier Pironi (que, assim como Scheckter em 1979, mostrava a eficiência que faltava a Gilles Villeneuve vencendo e sendo consistente) como candidatos ao título. E depois da sucessão de tragédias a Ferrari teve como prêmio de consolação os títulos de construtores em 82 e 83. Apesar de não ter sido mais campeão Keke manteve-se competitivo até 1985 quando Nigel Mansell chegou a Grove e caiu nas graças de Patrick Head vencendo duas das três últimas corridas do ano. E graças ao gptotal descobri sua estratégia brilhante de usar gelo no capacete para driblar o calor infernal da corrida em Dallas/84. Curioso é que na mesma corrida criticou Mansell (ainda na Lotus) chamando-o de estúpido e qualificando as manobras deste como indignas da F1 (fonte: site STATSF1.COM). É no mínimo estranho vindo de um piloto tão agressivo e arrojado quanto Mansell, embora com resultados melhores que o Inglês àquela época. A trajetória de Keke Rosberg foi cheia de altos e baixos mas inegavelmente corajosa e vitoriosa.

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