Queimar naves – parte 1

Redução de danos (?)
02/10/2017
Queimar naves – final
06/10/2017

Lá pelo ano de 335 antes de Cristo, Alexandre Magno se dispunha a se enfrentar com seus inimigos os fenícios. Pouco antes de chegar ao litoral fenício, Alexandre é informado que o exército inimigo lhes superava amplamente e a noticia logo se espalha entre seus soldados.

Aqueles homens que tantas batalhas haviam vencido, por primeira vez, eram presa do medo e pareciam já derrotados de antemão. Assim, tao logo todos haviam desembarcado, Alexandre ordena queimar todas as naves e, quando estas ainda ardiam, reuniu a todos e lhes disse: “Vejam como os barcos se queimam. Essa é a única razão pela qual devemos vencer pois, se somos derrotado jamais conseguiremos retornar junto às nossas famílias. Amigos, devemos derrotar o inimigo pois a única forma de voltarmos para casa é usando os seus barcos!

Assim, diante dessa irreversível situação, Alexandre Magno e seus homens lutariam como nunca o haviam feito antes e a vitória acabaria sendo sua. Então puderam voltar triunfantes para casa nos barcos fenícios. Magno e seus homens, ao ficar sem alternativas, se entregaram à tarefa que tinham perante de si com tudo e ao único que podiam fazer: vencer.

Alexandre havia demonstrado que os melhores não são aqueles que esperam as oportunidades, mas sim aqueles que as vem onde ninguém podia imaginar e as aproveitam sem vacilar, com valentia e segurança em si mesmos. Na vida, há ocasiões em que devemos enfrentar as decisões difíceis, e o medo a perder o que se tem pode acabar sendo um poderoso obstáculo.

Então, também devemos “queimar as naves” e seguir adiante com valentia. Os começos de Keke Rosberg no automobilismo não foram fáceis pois na Finlândia, além de rallies, não havia tradição automobilística. Inclusive seus pais se haviam dedicado aos rallies, que tiveram de abandonar por falta de recursos.

As primeiras incursões na competição de Keke seriam nos kart, sendo campeão nacional em quatro ocasiões. Para então, Keke se havia convertido no agente oficial da Birel Karts na Finlândia, o que lhe permitia poder financiar suas corridas.

Em 1972, Keke passaria a competir com monopostos na formula Vê, sendo 3º colocado no campeonato finlandês  daquele ano para, em 1973, vencer os campeonatos finlandês, escandinavo e europeu da categoria. Em 1974, agora competindo pela Fórmula Super Vê, terminaria em terceiro no campeonato europeu e conquistaria o campeonato alemão em 1975, além da Solex cup e a Castrol cup.

No fim de 1974, Keke havia escrito uma carta se apresentando a Fred Opert, um americano entusiasta do automobilismo que tinha uma pequena escuderia (a Opert havia sido inscrita em 1974 para o GP da Suécia um Shadow para Bertil Roos), o que lhe serviu para disputar uma prova de Super Vê em Watkins Glenn com sua equipe e, desde então, mantiveram contato.

Em 1976, Rosberg ascende à formula 2, entrando na equipe de Jorg Obermoser. O carro era um modesto Toj, que lhe permitia fazer muito pouco mas, ainda assim, Rosberg conseguiria um meritório 4º lugar na França e um 5º na Alemanha. Ele também havia disputado duas das provas com a equipe de Opert, já no fim do campeonato, e a relação entre ambos se manteria durante as duas seguintes temporadas.

Contudo, seria um relacionamento bastante peculiar: Fred não dispunha de dinheiro para poder pagar nenhum salário a Rosberg, e este tinha que conseguí-lo procurando patrocinadores que quisessem colocar publicidade no seu macacao.

Assim, além de disputar a F2 e para poder manter a equipe, Fred increvia Rosberg em todo campeonato ou corrida que podia e onde podia. Na formula 2, Rosberg vencería uma prova em 1977 e outra em 1978, vencendo também nesses mesmos anos o campeonato da Fórmula Pacific na Nova Zelândia. Na América do Norte, competiria na formula Atlantic, sendo 4º colocado em 1977 e vice-campeão em 1978, ainda participando em corridas na Argentina, Macau e Japão.

Foram anos de muita atividade e como diria o próprio Rosberg: “Eu morava no avião!”. Seu primeiro contato com a formula 1 teria lugar no fim de 1977 quando Willie Kauhsen, quem tinha uma equipe de sport protótipos, pensava entrar na categoria máxima. Em principio a intenção era comprar os carros da equipe japonesa Kojima e Rosberg testou o KE009 no circuito de monte Fuji, mas… o projeto não prosperou.

Porem, Teddy Yip, o excêntrico milionário (então era o principal acionista na Singapore Airlines além de possuir outros negócios em Macau) e entusiasta do automobilismo, decide entrar na formula 1 com uma equipe própria: a Theodore Racing. Assim Yip, encomenda a Ron Tauranac a construção de um carro para 1978 e o piloto sería Eddie Cheever.

Nas duas provas iniciais da temporada, Argentina e Brasil, Cheever nem se consegue se classificar e abandona a equipe. Yip, que havia visto Rosberg correr no Japão e em Macau, lhe telefona e o convida a correr para ele já em Kyalami, a seguinte prova.. Rosberg pega um avião e vai direto para a Africa do Sul. Rosberg toma seu primeiro contato com o carro nos treinamentos e, apesar de não conhecer o circuito, consegue se classificar na penúltima fila do grid.

Na corrida, teria de abandonar com problemas na embreagem. Ainda assim, não havia sido uma má estreia. Apenas uma semana depois, se disputava o BRDC Thophy em Silverstone e Rosberg, apos se classificar magnificamente na 11ª posição, de maneira surpreendente e sob forte chuva, venceria a corrida, com Emerson Fittipaldi no seu encalço durante as últimas 20 voltas. Contudo, nas seguintes quatro GPs da temporada, Rosberg não consegue se nem se pré-classificar e Yip se retira nas 3 provas seguintes mas Rosberg participaria com a ATS.

Com o retorno da Theodore no GP da Alemanha, desta vez com carros comprados da Wolf, Keke retorna à equipe. Porem, com a falta de resultados (Rosberg nem se pré-classifica na Itália), Yip não acode às duas últimas provas – EUA e CanadÁ e Keke volta a correr para a ATS, abandonando na primeira e não se classificando para a segunda.

A temporada havia acabado e, quando um acordo com a ATS para 1979 não se materializa e nenhuma outra equipe mostra interesse por seus serviços, Keke vai ir aos EUA. em busca de alguma oportunidade. Ali, encontraria acomodação na equipe de Paul Newmann, para o campeonato Can-Am. Paul e Keke se deram logo muito bem e Rosberg lhe havia dito que seus dias na formula um haviam terminado. Keke logo venceria a primeira prova, conseguindo a pole nas seguintes seis (vencendo também a 5ª), mas seus 4 abandonos por problemas mecânicos lhe privaram de lutar pelo título.

Todos na equipe estavam muito satisfeitos com Keke. Contudo, no meio da temporada, Peter Warr, então manager da Wolf, lhe oferece ocupar o lugar de James Hunt na equipe…

O final dessa história você confere na próxima sexta-feira.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

4 Comments

  1. Alair Walter Vieira Barbosa disse:

    Um grande piloto de uma época onde não havia tanta segurança e os autódromos eram mais desafiadores.

  2. Manuel disse:

    Oi Fernando,
    Em 1974 tivemos a Leo Kinnunen competindo pela Surtees em alguns GPs mas sem nenhum destaque

    Leo morreu em julho.

  3. Manuel disse:

    Oi Fernando,
    Em 1974 tivemos a Leo Kinnunen competindo pela Surteess em alguns GPs mas sem nenhum destaque

    Leo morreu em julho.

  4. Fernando Marques disse:

    Manuel Blanco,

    a história sobre Keke Rosberg me parece bem interessante.
    E daí vai uma pergunta: teria tido antes dele algum piloto finlandês antes dele que tenha feito sucesso na Formula 1? … Se não, creio que ele, como pioneiro, pode ter sido uma espécie de Emerson Fittipaldi abrindo portas para pilotos como Mika Hakkinen e Kimi Raikkonen brilharem também na Formula 1 assim como aconteceu com Pace, Piquet, Senna, Barrichello e Massa …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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