R.I.P. Douglass North

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16/12/2015

Aprendi com o Prêmio Nobel de Economia de 93 dois conceitos fundadores para a compreensão e convivência com o mundo - e com a F1

Morreu em 23 de novembro, aos 95 anos, Douglass North, um dos meus heróis.

Aprendi com ele, Prêmio Nobel de Economia de 93, dois conceitos fundadores para a compreensão e convivência com o mundo. O primeiro deles: não temos um corpo de teoria econômica para entender e promover o desenvolvimento com um mínimo de segurança dos resultados.

Por minha conta, extrapolei esta ideia: economistas, políticos, sociólogos, jornalistas, empresários, a sociedade como um todo, não temos a capacidade de identificar todos os elementos que movem as pessoas, as famílias, as cidades, os países e o mundo e, a partir daí, traçar um caminho rumo ao crescimento, aqui entendido como algo que possa melhorar uma dada condição. O que deu certo aqui, pode dar o resultado oposto ali ou não produzir qualquer efeito acolá.

Fulanizando minha extrapolação a partir da lição de North: FHC, Lula ou Bernie Ecclestone não estão capacitados, a despeito das suas qualidades pessoais e cargos que ocupam, para promover de maneira minimamente garantida o desenvolvimento econômico e social. Não se trata de uma questão de assertividade da ideia, da sua elaboração ou implantação, tampouco da intenção que os motiva; trata-se, antes, de uma incapacidade natural pois não temos os conhecimentos, as ferramentas ou a capacidade de antecipar tantos movimentos de sociedades tão complexas quanto as de hoje.

Políticos, empresários ou militantes podem, movidos pela fé nas próprias convicções, induzir a certos resultados, eventualmente positivos, mas não podem, nunca, em qualquer circunstância, garantir um determinado resultado. A consequência desta lição pode, em muitos casos, ser trágica: somos reféns de ideias, manifestações, movimentos que podem conduzir a resultados opostos ao que se pretendia.

Três exemplos, dois envolvendo questões públicas, um a Fórmula 1:

1) a política de redução da velocidade de trânsito de veículos, recém implantada em São Paulo pelo prefeito Fernando Haddad, parece correta e tem produzido resultados: caiu a acidentalidade no trânsito da cidade. Mas Haddad não pode garantir que esta política produzirá resultados consistentes no longo prazo. Ele simplesmente não tem os elementos que permitam tal conclusão. É uma questão de fé do prefeito e sua equipe (e se questiona porque demoraram três anos para implantar uma política simples e relativamente barata) que, torcemos todos, siga produzindo resultados positivos. Mas a verdade é que só o tempo dirá se os benefícios foram pra valer.

2) A disposição do governo do estado de São Paulo em fechar escolas, reagrupando os alunos segundo suas faixas etárias, também parecia, em essência, correta mas não se pode garantir que o eventual ganho de qualidade no ensino – que é o que se verdadeiramente deseja – compensaria os transtornos à sociedade. Era uma tentativa, uma engenharia social no lombo do cidadão, uma aposta sem qualquer garantia de resultado – e nem vou comentar a vergonhosa incompetência do governador Geraldo Alckmin na condução da questão, inviabilizando na base a discussão de uma ideia que merecia ser discutida. Ao menos ele voltou atrás…

3) O mesmo raciocínio baseado nas ideias de North nos leva à Fórmula 1 e à discussão sobre o regulamento de motores.

Lá atrás, aparentemente movido pela percepção de que o mundo valorizaria cada vez mais tecnologias conservacionistas, o presidente da Fia, Jean Todt, bancou um regulamento exótico, que misturava motores elétricos e a explosão – estes típica e justamente associados à poluição.

No plano das ideias, o movimento de Todt aparentava boas probabilidades de limar narizes tortos para a categoria, reprojetá-la como vanguarda da tecnologia automobilística e conter o desempenho dos carros, favorecendo a segurança, além de dinamitar a hegemonia RBR-Renault, então em voga. Mas era apenas uma aposta e, fora a Mercedes Benz, ninguém no mundo dirá que foi acertada. Claro que o problema verdadeiro não é a tecnologia de motores mas a hegemonia tirânica que ela produziu, graças à competência dos alemães, mas está aí posto para a Fórmula 1 um problema gigante motivado pela fé de Todt e do grupo que o sustentou nesta iniciativa.

De novo: em sua essência, a lição de North e minha extrapolação não dizem respeito ao mérito das três questões e sim à incapacidade humana de tomar decisões complexas com resultados minimamente garantidos. Isso explica porque um número cada vez maior de líderes – Alckmin me parecendo ser o melhor exemplo -, cientes desta verdade, tendem cada vez mais ao medíocre, ao convencional, ao mexer o mínimo possível nas coisas. Não tendo certeza do que vai dar, melhor é deixar do jeito que está.

Talvez um dia, supercomputadores ou uma outra humanidade sejam mais capazes de articular movimentos e resultados…

North, no entanto, propôs uma saída para nossa aparente inação neste vale de lágrimas, e aqui vai o segundo conceito importante que aprendi com ele: precisamos fortalecer as instituições, as oficiais e, principalmente, as da sociedade, como a imprensa, por exemplo. É do entrechoque permanente destas instituições que pode emergir o melhor modelo para o desenvolvimento da sociedade como um todo.

Não é fácil transplantar este conceito para uma categoria esportiva privada, como a Fórmula 1, com poder de tal forma polarizado na mão de poucas pessoas. Uma associação de fãs ou de imprensa? Só funcionaria se uma e outra instituição tivessem força de contrapeso às decisões da Fia e Fom. Não rola, ao menos por enquanto.

Mas pode rolar! Assolada pela corrupção, a Fifa, uma entidade privada, acabou alvejada pela instituição policial internacional. Agora, dá sinais de se dobrar ao imperativo de respeitar princípios de honestidade e transparência, empurrada pela pressão de patrocinadores que não querem mais despejar dinheiro numa entidade cujos dirigentes encontram-se presos ou na iminência de. No Brasil, torcemos por coisa parecida na CBF, a Gillette já anunciando que não mais a patrocinara por conta dos escândalos em série que produz.

A pressão contra a Fifa e a CBF começou na sociedade, foi multiplicada na imprensa – honras a Juca Kfouri, modelo de jornalista a serviço da sociedade – e vai produzindo resultados, por tímidos, lentos, demorados, insatisfatórios, tentativos que sejam.

E esta talvez seja a terceira lição a ser aprendida com Douglass North: no mundo contemporâneo, necessariamente complexo, matizado, fragmentado e cada vez mais incapaz de convergir, tudo é difícil, tudo é complicado, tudo é lento e penoso.

Que North descanse em paz.

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

4 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Grande Texto Edu!

    E faço minhas as palavras do Fernando.

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

  2. Carlos Chiesa disse:

    Este é o Edu. Destemido, capaz de juntar algo aparentemente tão dessemelhante quanto o topo da economia com o topo do automobilismo. Neste ultimo caso, o topo da tecnologia inerente está sendo pessimamente usado pelo topo da hierarquia normativa. Esqueceram que, antes de mais nada, é preciso respeitar o que o público gosta no espetáculo. E o público formador de opinião gosta de V12, antes de mais nada.

  3. Fernando Marques disse:

    Edu,

    muito interessante a sua coluna … nos faz pensar e repensar em muitas coisas deste mundo …
    eu creio que a sociedade num todo perdeu o controle do crescimento da população … que quanto mais cresce mais problemas criam …
    soluções existem … enquanto vivo sempre existirão …
    Só que aqueles que possuem poderes, no caso os governantes e/ou os bam bam bam da Formula 1, mentem descaradamente … e perdem a confiança … perdem a credibilidade … é assim que eu penso … eles só querem os bolsos deles cheios …
    A sociedade se encontra cada vez mais abalada … são poucas as instituições que merecem respeito … a maioria estão enfraquecidas … seja pela corrupção seja pela mentira … o mundo em geral me parece assim …
    a maior das contrapartidas vem da natureza … ela não aguenta mais tanta agressão … daqui a pouco ela dá um basta!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Edu disse:

    Modesto serviço
    Douglass North não tem livros traduzidos para o português. Temos apenas um paper dele disponibilizado gratuitamente pelo Instituto Liberal: http://bit.ly/1NPiQ2c
    Há um texto publicado em abril de 2006 pela Folha de S.Paulo que compacta em poucos parágrafos o pensamento de North, inclusive o que resultou na minha extrapolação. Considerando a dificuldade inumana de desbravar textos dos grandes pensadores da Economia, este texto da Folha é uma pequena joia: http://bit.ly/1OkcPLB
    Também na Folha, o economista Samuel Pessoa rendeu homenagens ao colega recém falecido, em 29/11/15: http://bit.ly/1lxxHIH

    Edu

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