Rain Men

Na Casa de Fangio
15/01/2012
Gerações
23/01/2012

Lewis Hamilton confirmou sua presença na galeria dos Noé, os homens que fazem bonito durante um dilúvio. Francamente, acho natural em se tratando de naturais daquela ilha que em tempos remotos se chamava Albion.

Como vimos no British Grand Prix de 2008, em Silverstone, Lewis Hamilton confirmou sua presença na galeria dos Noé, os homens que fazem bonito durante um dilúvio. Francamente, acho natural em se tratando de naturais daquela ilha que em tempos remotos se chamava Albion.

Se você pensa na imagem mais típica de um inglês, deverá vir à mente um sujeito de chapéu côco segurando um inseparável, indefectível guarda-chuva. Se você pensa em neblina, deverá se lembrar da palavra “fog”, surgida lá mesmo, das brumas que costumeiramente envolvem a capital da Grã-Bretanha. Quem terá sido o primeiro a inaugurar essa galeria?

Forço a memória e me vêm à mente Tony Brooks, o estudante de odontologia que rapidamente tornou-se rival do legendário Sir Stirling Moss. Sei que ele foi o primeiro inglês a conquistar um primeiro lugar com carro inglês no “Continente”, como os ingleses chamam a Europa, depois de Sir Henry Seagrave, em 1924. Foi o GP de Siracusa, 1955, e ele pilotava um Connaught, batendo Ferraris e Gordinis. Era apenas sua segunda corrida fora do país natal.

httpv://youtu.be/mLGnFTl_6_I

Creio que suas vitórias na F1 foram todas obtidas com tempo seco mas, como era comum na época, ele correu em outras categorias e era tido como um mestre na chuva. Sabe-se que fez uma fantástica volta no molhado em um GP da Inglaterra disputado em Aintree, em 1961. Pouco depois, retirou-se das corridas, por não dispor de um carro competitivo. Sua principal característica era a suavidade ao dirigir, algo realmente muito adequado a pistas encharcadas.

Embora menos espetaculoso que seu contemporâneo Moss, Brooks também esteve no páreo para ser campeão mundial em alguns dos seis anos em que competiu, título que foi parar nas mãos de Hawthorne, Phil Hill, Black Jack etc..

httpv://youtu.be/CuRAFz8wtf4

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O especialista seguinte que me ocorre é o extraordinário belga Jacky Ickx.

Belga. Vindo da terra onde está um dos melhores circuitos do mundo, famoso não só pelo traçado como pelas condições climáticas peculiares, chuva torrencial numa parte e sol na outra, por exemplo.

Um dos talentos mais evidentes surgidos na F1, perdeu-se em escolhas erradas nos momentos certos, acabando por se especializar em sport-protótipos, categoria onde se tornou, incontestavelmente, um dos maiores de todos os tempos. Novamente, um piloto com tocada refinada que não se tornou campeão do mundo. Talvez um sinal disso, falhou fragorosamente em um supostamente fabuloso duelo com um “fuori serie” não-especialista, Jackie Stewart, que, como Brooks e Moss, vinha da enevoada ilha.

O duelo se deu em um densamente enevoado e encharcado Nurburgring. Não bastava ser o “Inferno Verde”, naquele ano de 68 o circuito alemão apresentou-se com condições climáticas horrendas, britânicas mesmo, durante todo o fim de semana. Esperava-se que Ickx, reconhecidamente um mestre na chuva como também nessa dificílima pista, sua favorita, levasse sua Ferrari à vitória com folga.

A largada foi dada com meia hora de atraso e mal foi vista das tribunas, tal o nevoeiro. Claro que foi cogitada a não realização da corrida, mas o que fazer com os mais de cem mil espectadores que enfrentaram essa barra para assistir ao GP?

httpv://youtu.be/gSRdTqqVxmw

Pois Ickx falhou lamentavelmente na partida, mesmo largando na primeira fila, e seu colega Chris Amon, o ícone maior do azar, disparou na frente para ser logo ultrapassado por Graham Hill. Antes de completar a primeira volta fica-se sabendo que Stewart ganhou o segundo lugar em Bredscheid e assumiu o primeiro em Brünnchen. Quando os vultos completam a volta inicial, Stewart tem 8 segundos de vantagem sobre Hill e 10 sobre Amon. Surtees, com o Honda, para. Jo Siffert contou que tinha passado pelo carro japonês sem o ver. Foi pura sorte não ter batido nele a mais de 240 km/h.

Ickx? Roda na Adenauer Forst e, mais adiante, amplia o atraso devido ao embaçamento da viseira.

Vantagem final de Stewart sobre Hill, segundo colocado: espantosos 4m6s!

OK, os pneus Dunlop que ele usava faziam diferença na chuva mas, será que tinham faróis de neblina também? Como se sabe, a maior dificuldade no Ring daquele tempo era decorar todos os pontos de tangência, freada etc., por ser muito longo. Como o pequeno escocês conseguiu enxergar através daquele algodão?

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O Rain Man seguinte, a meu ver, é Ayrton Senna.

Claro que tivemos diversos outros pilotos fazendo ótimas corridas na chuva mas nenhum tão claramente especialista quanto Ickx ou Senna. Este último desenvolveu sua habilidade aquática correndo na Inglaterra, em fórmulas inferiores.

Não, não vou lembrar mais uma vez Donnington 93, a não ser para parabenizar Reginaldo Leme, que fez justiça lembrando que essa primeira volta, obra-prima inconteste, ofuscou a excelente primeira volta de… Rubens Barrichello. A diferença é que Rubens não chegou na disputa pelo primeiro lugar.

Michael Schumacher, como Senna e Stewart, é um fora-de-série, andava muito bem na chuva, mas é preciso lembrar que Barrichello o superou em determinados e úmidos momentos. Portanto, é preciso reafirmar este brasileirinho na galeria dos Noé, ainda que não tenha se tornado campeão mundial. Especialmente depois deste terceiro lugar, com um carro que, no seco, nem lhe permitiu passar para o Q2. Enquanto Brooks, Moss e Stewart são reverenciados no Reino Unido, Ickx na Bélgica, em Mônaco etc., Rubens é motivo de chacota até hoje aqui no Brasil.

Mal-acostumado com o trio Fittipaldi – Piquet – Senna, e excitado pela auto-colocação de RB como “herdeiro”, o grande público não perdoa o autor da dispensável sambadinha por não ter conseguido trazer mais um caneco.

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Eu não crucifiquei Massa por essa corrida exatamente para não ser leviano, injusto, misturando patriotismo com patriotada, como está sendo comum. É preciso lembrar que esses caras não são infalíveis e nem mesmo a outrora aparentemente infalível equipe Ferrari tem cometido erros.

Assumidamente, estragou a corrida dos dois, mantendo-os com pneus intermediários. Mas várias outras equipes fizeram o mesmo e, se Massa rodou mais que o normal, quase todos o fizeram. Mas ele estava mais atrás e era quem tinha mais obrigação de andar rápido.

Levanto meu guarda-chuva para saudar Hamilton neste momento, como para saudar os Rain Men do passado, mas não descarto a possibilidade de fazer isso para Massa ainda este ano.

Da mesma forma que Kimi se recuperou esplendidamente na segunda parte da temporada, Massa é quem vinha apresentando melhor performance após a segunda corrida da temporada deste ano. Embora achando que Barrichello ainda está um grau acima dele, estou impressionado com a força de vontade e capacidade de superação do Felipe.

Espero, sinceramente, que ele continue essa evolução e, como seu similar Mansell, se torne campeão.

Carlos Chiesa

Coluna publicada originalmente em 10/7/2008, depois do GP da Inglaterra

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

5 Comments

  1. Allan disse:

    Fala, Arlindreo!

    Outra vez concordo contigo. Hoje temos excelentes pilotos em piso molhado. E olha que Rubens foi aposentado, e de dois anos pra cá andou em carro bem ruim.
    Atenção ao “Hulk”. Em chuva provou entender do riscado ao cravar a pole em Interlagos a frente de TODOS os cobras…

  2. Fernando Marques disse:

    Arlindo,

    eles podem ser bons na chuva mas nunca num patamar do Ickx e Senna que foram temas da coluna …

    Fernando Marques

    Niterói RJ

  3. Arlindo Silva disse:

    Discordo do Fernando, acho que pelo menos Button, Schumacher e Hamilton são excelentes pilotos para essa condição climática.

    Vettel e Alonso também não ficam muito distantes.

  4. Raul disse:

    O massa tomou foi literalmente um banho.

  5. Fernando Marques disse:

    Atualmente a Formula 1 não tem nenhum piloto especialista em pistas chuvosas .

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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