Redução de danos (?)

GP da Malásia [de 2001]
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Queimar naves – parte 1
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O que parecia ser o início de uma carreata prateada, sem qualquer ameaça vermelha, acabou surpreendentemente se tornando uma festa do energético. Reparei que Max Verstappen, ao se colocar em segundo lugar após a largada, cravou a melhor volta logo no segundo giro. Pensei comigo “ah, desde já Lewis Hamilton vai controlar o ritmo para não forçar demais, vai navegar em águas tranquilas”.

Nem tive muito tempo para acreditar nisso, porque logo na quarta volta o jovem holandês, que completou 20 anos sábado, passou à liderança sem cerimônia e controlou a prova até a bandeirada. Isso definitivamente não estava do script…

A falta de ritmo de corrida da Mercedes é um mistério para a própria equipe. Hamilton não teve como oferecer resistência, e Valtteri Bottas fez sua corrida mais apagada do ano. Daniel Ricciardo só não completou dobradinha porque demorou para se livrar de Bottas nas primeiras voltas, e ficou sem tempo de remar e brigar pela segunda posição com Hamilton.

Durante a corrida, me chamou atenção a configuração dos carros. As asas da Red Bull eram muito mais pronunciadas, denunciando que eles usaram uma configuração que gerava muito mais downforce que a concorrência, com ótima velocidade em curva, ao mesmo tempo que isso não acarretou em desgaste excessivo de pneus. O speed trap confirma, já que Max ficou apenas em 11º em velocidade máxima em reta.

A vitória de Max não deixa de ser um cala-boca para seus detratores, que se esquecem que a imensa maioria de seus abandonos no ano foi por fruto de quebras e de envolvimento em acidentes nos quais não teve culpa.

Como mencionou meu irmão Márcio Madeira, a vitória dele equivaleu a do Gerhard Berger em Portugal 1989, aquele ano em que o popular austríaco só colecionava abandonos, a maior parte por causa do novo câmbio semi-automático.

Convenhamos: por mais que a gente torça por boas corridas, todos nós murchamos, em várias escalas de intensidade, após a tragédia vermelha da largada de Cingapura. A disputa pelo título foi pro vinagre. Todo aquele prognóstico de “pistas da Mercedes, pistas da Ferrari” já pode ser jogada fora, e Hamilton precisa de uma tragédia duas ou talvez três vezes maior que a sofrida por Sebastian Vettel para perder a taça deste ano.

A Ferrari foi para a Malásia com a clara intenção de reduzir danos. Não conseguiu, e carregou danos até mesmo para a próxima corrida. Como bem lembrou o amigão Mário Salustiano, assim como no ano passado, um motor quebrado está sacramentando o campeonato.

Se ano passado, o inquebrável Mercedes quebrou atrás dos ombros de Hamilton, neste ano o turbo quebrado da Ferrari de Vettel obrigou o alemão a fazer uma corrida escalando o pelotão. Ele, de fato, fez uma belíssima corrida de recuperação, mas não passou do quarto lugar quando seus pneus supermacios decaíram, justamente quando lançou um feroz ataque a Ricciardo, que se defendeu e sumiu de vista.

E a redução de danos falhou ainda mais quando Kimi Räikkönen nem ao menos largou, depois de sofrer perda de potência ainda antes do alinhamento do grid. O que ele diz sobre isso? Boah, sei lá, perdi potência e não larguei, a Ferrari vai ver o que aconteceu…

A questão é que ficamos sem saber se Kimi poderia roubar de Max a vitória. A escalada de Vettel e seu ritmo de prova apontam que a possibilidade era grande. A lembrar: Kimi não vence um GP desde Austrália 2013.

Desde que a Haas entrou na F1, torci para o time dar certo. Eram americanos querendo fazer bonito na festa dos europeus. Mas está difícil engolir seus pilotos. Romain Grosjean não para de reclamar pelo rádio, e Kevin Magnussen joga demasiadamente e desnecessariamente duro com todo mundo que quer dividir curvas com ele. Ambos têm tanto carisma quanto uma taturana, e não estão entregando resultados na pista.

O Sr. Gene Haas precisa de um americano bom de volante e com apelo junto ao público para permanecer no jogo. Que tal pescar alguém da Indy? Alexander Rossi, Josef Newgarden e Ryan Hunter-Reay seriam ótimos nomes.

Pierre Gasly fez uma estreia discreta, porém sólida, pela Toro Rosso. O francês entrou no lugar do ejetado Daniil Kvyat, que desde que foi rebaixado de seu cargo da Red Bull entrou numa espiral descendente e jamais conseguiu recuperar a autoconfiança. Ele certamente é muito mais rápido do que seus últimos resultados, mas a escola de pilotos da Red Bull, sob a batuta do Dr. Helmut Marko, não se importa em ser fria e cruel na busca pelo piloto perfeito.

Sim, a escola nos revelou o fantástico Sebastian Vettel, e está claro que Daniel Ricciardo é um futuro campeão. Mas o programa também é o maior cemitério de carreiras de pilotos jovens. Sébastien Buemi é um exceção: ejetado do programa, se reinventou na Fórmula E, categoria que vem crescendo em importância e virou refúgio para quem não consegue permanecer ou chegar à F1.

E o que eu acho da F-E? Ainda me causa estranhamento enorme. Pra mim, motor elétrico continua sendo coisa de Autorama, e compactuo com a teoria do querido amigo JC Viana: “Os carros são vergonhosamente lentos e a F-E só corre em circuito de rua para disfarçar a lentidão dos carros, que ficaria evidente em circuitos permanentes, além da comparação com outras categorias”.

Como pessoa crescida nos anos 90, mas com todos os referenciais culturais dos anos 70 e 80, não consigo pensar no esporte a motor… sem motor a explosão. E mais: motores barulhentos, potentes, que metam medo mesmo. E que sirvam de laboratório para os carros de rua, uma virtude do esporte que foi tristemente distorcida com o tempo.

Os motores elétricos são importantes para pensarmos a mobilidade dos grandes centros urbanos, mas eu, particularmente, penso que não são a solução dos problemas do automóvel – válidos apenas para veículos sobre trilhos. A própria indústria automotiva está criando motores a combustão cada vez menos poluentes, tanto pela melhoria da queima quanto do próprio combustível.

O automóvel nasceu como meio de transporte, foi elevado a bem de status, e nesse contexto, nasceu o PRAZER EM DIRIGIR – conduzir a máquina de maneira eficiente, sentir as reações de cada componente, tudo, claro, dentro dos limites das vias e da habilidade de cada condutor. Mas este é um fator que parece ter sido deixado de lado cada vez mais nessa complexa equação que é pensar a mobilidade das cidades.

Claro que é um pé no saco dirigir nas cidades, com trânsito pesado. Parece que estamos cercados por uma horda de idiotas imprudentes e negligentes que parecem ter saído às ruas só pra atrapalhar. É um exercício de paciência. Mas saia com o carro com pistas livres, ou pegando estrada. É uma delícia, um bem-estar daqueles.

Como dizia a famosa frase, a corrida só termina quando acaba. Não assisti o GP ao vivo, mas sim na reprise, às 8 da manhã. Claro, quando o Verstappen recebeu a bandeirada, nem fiquei pra ver o pódio, que é sempre a mesma coisa, já fui pra cozinha tomar café.

Só depois de secar minha caneca de café com leite fui ver a estercada que aconteceu entre Vettel e Stroll. Interessante perceber que, pela onboard de Vettel, a culpa seria só do alemão, que levemente fechou a trajetória. Mas daí surge uma câmera de bico a mostrar que o jovem canadense também foi de dentro para fora… Uma burrada em que eles gentilmente racham a conta.

Ao menos pudemos matar saudade da F1 das antigas ao assistir Vettel pegar carona na Sauber (ou seria Sa-Uber?) de Pascal Wehrlein para voltar pros boxes.

Vettel agora teme que a caixa de câmbio tenha sido danificada pelo choque – o que tem 99% de chance de acontecer. Daí completa-se o ciclo: a Ferrari não apenas falhou em reduzir danos na Malásia como pode levar danos pro Japão…

Abração!

Lucas Giavoni

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

4 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Grande texto Lucas!

    Estou torcendo para o Vettel, mas Hamilton está com uma mão na taça, e sou da opinião que, o fantasma que assombrou o inglês ano passado lá na Malásia, poderia reaparecer este ano novamente, e aí, o inglês tratou de conduzir a barca prateada na manha.

    E tem mais

    Sabe quando que o Hamilton iria dividir uma curva com Verstapen pela luta da vitória?

    Pois é…

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Carlos Chiesa disse:

    Muito bom, amigo Lucas. O garoto Lance se defendeu, dizendo que não estava olhando os retrovisores, uma vez que era volta de desaceleração. Por outro lado, pergunta-se porque Vettel resolveu ultrapassar, em uma volta de desaceleração. O mistério do turbo”rosso” foi oficialmente uma pane elétrica, em primeiro momento, depois parece que é um lote defeituoso de peça de carbono. Seja como for, a redução dos danos impediu que víssemos Kimi lutando pela vitória, coisa que, a meu ver, seria ótimo. Não sou detrator de Max, mas fico com a dúvida: parte dessas quebras não seria resultante do seu excesso de testosterona? Ou ele é muito azarado e Ricciardo muito sortudo?

  3. MarcioD disse:

    Lucas,

    E ainda vemos a possibilidade de Hamilton seguir a cartilha de Rosberg no ano passado, não correndo riscos e comboiando o 1º colocado nas corridas restantes, principalmente se terminar à frente de Vettel em Suzuka. Ai teremos um final de campeonato totalmente sem graça. A F1 a cada dia que passa se assemelhando mais a um jogo de xadrez, cheio de estratégias(principalmente de pneus), sem nenhuma briga de pista direta entre os 2 principais concorrentes ao titulo. Trata-se de uma disputa de pontos onde um ou outro prevalece em função do seu carro ser superior em determinado tipo de pista ou de estratégias adotadas.É nestas horas que faz falta o descarte de piores resultados, como lembrou o Marcio Madeira.

    Márcio

  4. Fernando Marques disse:

    Lucas,
    já foi comentado aqui no GEPETO, acho que pelo Chiesa, esta questão dos tokens das Ferraris … eles estão no limite para não serem castigados … a Mercedes me parece não querer usar tudo o que pode em termos de potencia e com isso vem vem administrando melhor esta questão …
    A vitória do Verstappen não atrapalhou em nada os planos de Hamilton … não havia o por que de brigar diretamente com o Holandês … Hamilton está correndo agora pensando no campeonato e faz o certo …
    Agora o Vettel, pelo visto, está querendo bater o Verstappen no quesito de quem mais causa acidentes na Formula 1 … agora tudo que é corrida ele bate … até na volta de desaceleração … Isso lembra uma história do piloto italiano Vitorio Brambilla, que na sua unica vitoria na Formula 1 , bateu sozinho com sua March na volta da desaceleração que tão eufórico que estava com seu triunfo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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