Recomeço e Reconstrução – Parte I

Como estão os nossos jovens?
21/04/2017
O começo
26/04/2017
Alex Zanardi na Jordan

Você já teve vontade de jogar tudo para o alto e dar uma guinada radical na sua vida ou carreira profissional? Esse é um movimento que vem ganhando cada vez mais adeptos na sociedade moderna.

Segundo empresas especializadas na chamada transição de carreira, o percentual de pessoas que procuram estes serviços para mudar de área mais do que dobrou nos últimos anos.
Em algumas situações existem, nesses grupos, pessoas que tem tudo (cargo, salário e status) para permanecer onde está. Ainda assim, encontramos quem decida arriscar e partir para outra atividade. Entre os mais jovens, trocar de carreira tem sido um movimento natural na busca de uma atividade que renda satisfação pessoal e uma remuneração no fim do mês.

Os gatilhos que despertam a vontade de dar uma guinada são quase sempre os mesmos: qualidade de vida, busca de aprendizado ou trabalho com mais significado.
“As pessoas estão prestando mais atenção em si mesmas e procurando uma vida que tenha mais sentido” – é o que relatam os consultores especializados.


Mas isso não quer dizer que a mudança seja fácil ou deva ser feita sem um bom motivo. É preciso ter clareza do que se quer para fazer uma boa transição, quer seja pessoal ou profissional, do que se pretende fazer no futuro e quais resultados se deseja obter.

Com um bom planejamento, o risco de transição pode ser calculado. É preciso ter fôlego financeiro, um plano estruturado, boas doses de paciência e uma tal de resiliência.

E quando a mudança é forçada ou contra a vontade? O que pode acontecer? São dúvidas difíceis de responder. Muitas vezes o caminho de um recomeço é árduo e impreciso, que geram ansiedade e medos, naturais em mudanças fora de hora, ou contra a vontade.

O personagem da coluna de hoje, dividida em duas partes, mudou radicalmente de carreira. Na verdade, foi forçado a mudar.

O aprendizado deste personagem pode – e deve – servir como inspiração. Você vai perceber, durante a leitura, que a determinação, foco, apoio emocional e muita resiliência são fatores-chave no processo de mudança. E também é preciso assumir uma dose de risco, fácil de falar, difícil de entender, complicado de aceitar, pois nada é claro nessas horas.

Estou falando de Alessandro Zanardi.

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Nascido em Bolonha, Alessandro começou sua carreira no kart pelos idos de 1985, disputando várias categorias até chegar no Europeu de Kart em 1987.

De 1988 a 1990, Alex disputa a Fórmula 3 Italiana evoluindo sempre, sendo vice campeão no último ano. Em 1991, vai para a Fórmula 3000, vence corridas e termina o ano como vice-campeão, superado apenas por Christian Fittipaldi. Ainda em 1991, Alex recebe a oportunidade de estrear na Fórmula 1 pela equipe Jordan, pela qual faz as três últimas corridas.

Em 1992, ele torna-se piloto de testes da Benetton, e participa de mais 3 provas na F1, desta vez pela Minardi, substituindo o lesionado Christian Fittipaldi. Com um carro pouco competitivo, ele deixa de se classificar duas vezes.

No ano de 1993, ele assume um lugar na Lotus para substituir Mika Häkkinen. Na segunda prova, no Brasil, Zanardi marca seu primeiro ponto na categoria ao terminar em sexto lugar.

Nos treinos de sexta-feira para o GP da Bélgica, Zanardi sofre seu primeiro acidente grave na carreira. Ele errou a tomada da famosa Eau Rouge e bate a mais de 240 km/h, destruindo completamente o carro. Com uma concussão, Alex fica hospitalizado.

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O acidente deixou Zanardi fora de combate por 9 meses, e finalmente na quinta prova de 1994, ele volta à Lotus. Mas a equipe está em franca decadência e tem um carro sofrível. Nessa altura, apesar de seus esforços e de ter um talento reconhecido, Alex não consegue nada em termos de resultados. Ao final do ano, a Lotus encerra sua participação na Fórmula 1 e Zanardi fica sem opção para a temporada de 1995.

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Esse é o primeiro revés que Zanardi sofre na carreira. Prejudicado por fracos resultados, nenhuma equipe se interessa em contratá-lo e ele começa a repensar em busca de alternativas para recomeçar.

A opção de Zanardi acaba sendo cruzar o Atlântico. (Aqui eu abro um parêntese para falar que às vezes insistir em uma opção e não olhar para outras alternativas tira muitas possibilidades interessantes de atuação no campo profissional.)

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Em 1995, Alex chega aos Estados Unidos e bate à porta das equipes da Cart. Ele pensava que, com experiência na Fórmula 1, conseguiria uma vaga facilmente. Não podia estar mais enganado. Ele acaba passando um ano inteiro levando portas na cara, até que a fabricante de chassis Reynard finalmente dá a Zanardi uma força para que faça um teste pela ascendente Chip Ganassi no fim do ano.

Zanardi não decepciona e assina com a equipe para 1996, apesar do engenheiro da equipe Morris Nunn, ex-dono da equipe Ensign de Fórmula 1, ter sido abertamente contra, por acreditar que pilotos italianos erram demais.

Em sua primeira temporada com a Chip Ganassi, depois de um começo difícil e de adaptação, ele obtém a sua primeira vitória em Portland, a nona etapa do campeonato. Essa vitória “liga” Zanardi e prova que Mo Nunn estava errado. Até o fim do ano, ele é o piloto que mais pontua: vence mais duas vezes, termina no pódio em outras três e termina o campeonato num notável terceiro lugar, empatado com o experiente Michael Andretti. De quebra, ainda leva o título de Rookie do ano. Desse primeiro ano na Cart, o que todo mundo lembra é daquela incrível ultrapassagem em cima de Bryan Herta no temível trecho do Saca-Rolha no fim da corrida de Laguna Seca, etapa última volta.

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Assumindo o posto de melhor piloto da Cart, Zanardi vence cinco etapas e sagra-se campeão em 1997. No ano seguinte, numa performance ainda mais brilhante, vence sete corridas, termina outras oito no pódio e consegue um bicampeonato com enorme antecedência. E as comemorações eram todas com os famosos donuts da vitória.

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Nesse momento, Alex é exemplo do típico cara que, com uma boa dose de perseverança e ousadia, se deu bem numa mudança de vida e se torna um vencedor.

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Ainda no meio da temporada de 1998, Alex recebe a proposta da equipe Williams de Fórmula 1 para retornar à categoria, com um belo contrato de três anos. A Williams já havia feito essa experiência de levar o campeão da Cart com Jacques Villeneuve e se dado bem, já que o canadense conquistou o título de 1997 na Fórmula 1.

Oferta e tanto, a Williams nessa ocasião era uma equipe vencedora e de ponta, então Zanardi pensa: “Por que não? Volto por cima”. No mundo profissional, chamamos isso de oferta mais do que tentadora.

Em 1999, o piloto italiano está de volta à F1, cinco anos depois de deixar a categoria pela porta dos fundos, dessa vez aparentemente com tudo para se consolidar como um vencedor, numa equipe de ponta. Como ele já havia quebrado a barreira da vitória, mesmo em outra categoria, é o que costumamos classificar como “volta com moral”. O objetivo é agora vencer na Fórmula 1.

Entretanto, o ano acaba sendo de total fiasco. O chassi da Williams não era mais vencedor, o motor Supertec não era nada mais do que o Renault de 1997 rebatizado, houve muitos problemas de durabilidade, com panes de câmbio e elétricas, e Zanardi simplesmente não se adapta aos pneus sulcados da época. Ele termina o ano sem pontuar, enquanto Ralf Schumacher, seu companheiro de equipe, termina nos pontos em 11 oportunidades, incluindo três pódios.

Os resultados são tão ruins, que para o ano de 2000 a Williams prefere trazer o jovem Jenson Button e rescinde o contrato com Zanardi. Não resta alternativa ao italiano senão tentar retornar ao campeonato da Cart, nos Estados Unidos.

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Por baixo com a repercussão do fiasco na Fórmula 1, Zanardi vê seu prestígio abalado na Cart. As coisas não são mais como antes, e depois de passar o ano 2000 a pé, só vai conseguir abrigo na pequena equipe de seu antigo engenheiro Morris Nunn, que havia saído da Ganassi.

O recomeço na Cart é difícil e a maioria das provas na temporada 2001 é fora dos pontos, sendo um quarto lugar em Toronto a melhor performance. Risinhos de canto de boca de colegas entregam o quanto ele estava sendo considerado um perdedor. O bicampeonato já é passado.

Em 15 de setembro, porém, acontece o pior. No circuito oval de Lausitz na Alemanha, Zanardi vinha bem até seu último pit. Ele comete um erro na saída, fica com o carro atravessado e é atingido em cheio por um carro que vai mais de 320 km/h. O impacto é brutal.

Zanardi é levado de helicóptero para o hospital. Apesar de perder litros e litros de sangue, ele milagrosamente escapa da morte, mas tem que ser amputado das duas pernas.

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Para muitos, o fato dele ter escapado com vida, mesmo perdendo as pernas, já seria motivo de comemorar e parar por aí.

Recomeço nem pensar, loucura diriam muitos. “Vá para casa e leve um restante de vida sossegado, numa cadeira de rodas. O que mais você acha que pode fazer? Ainda mais no automobilismo, esporte que exige e muito do físico”.

No entanto, apesar de sua deficiência, Alex começa a demonstrar algo que muitas vezes um currículo recheado de números não é capaz de mostrar. Ele expõe a sua perseverança, resiliência e vontade de superação e com isso deixa claro que não quer desistir de sua paixão pela velocidade e por fazer aquilo que ele ama. Ao final de 2002, em um kart e com pernas artificiais, Zanardi retorna as pistas.

Em 2003, Alex volta a Lausitz para resolver um negócio inacabado. Num carro da Indy adaptado e diante de uma multidão emocionada, faz 13 voltas para completar simbolicamente sua corrida inacabada de 2001. E não pensem que foi ‘café-com-leite’. A melhor volta de Zanardi naquele dia lhe daria o quinto lugar do grid!

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No mesmo ano, ele também participa de uma rodada do campeonato Europeu de Turismo em Monza. Animado, se acha apto para disputar uma temporada completa, o que ele faz em 2004 numa BMW, terminando em quinto no campeonato.

Muitas pessoas começam a ver em Zanardi algo diferente do que simplesmente pilotar. O italiano não se abate e resolve que, mesmo com as dificuldades, não vai desistir. Movidos pela admiração da força de vontade do italiano em não se deixar abater, seu fã clube cresce e, de campeão das pistas, ele se transforma num exemplo de superação e recomeço.

Alessandro Zanardi compete com os carros do WTCC no Campeonato Mundial de turismo da FIA na equipe ​​BMW, e em 28 de agosto de 2005, ele conseguiu a façanha de vencer no circuito de Oschersleben, na Alemanha, a sua primeira vitória no automobilismo desde sua dupla amputação. Ele se mantém no WTCC até 2009 e consegue vencer mais três provas.

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O exemplo de Zanardi mostra que, além de vontade é preciso ter uma alta dose de força mental, perseverança e paciência.

O caminho da mudança é solitário na maioria do tempo, contamos com poucas pessoas nessas horas a dar apoio e não nos abandonar. O italiano relata isso em diversas ocasiões, pessoas em situação idêntica na vida relatam da mesma forma.

Levado por um sentimento de solidariedade e superação e querendo motivar pessoas que como ele haviam sofrido reveses da magnitude da perda, ele resolve reconstruir sua carreira em outro esporte.

Zanardi resolve participar das Paralimpíadas.

Essa parte da vida do Zanardi vou deixar para a segunda parte dessa coluna.

Abraços e boa semana,
Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

6 Comentários

  1. wladimir duarte sales disse:

    Dezenas de pilotos em diversas categorias venceram corridas e títulos. Mas poucos teriam coragem de fazer ultrapassagens tão ousadas como Zanardi!

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Salu!

    Que coluna fantástica, muito show mesmo, Parabéns!

    Aí esta um esportista e principalmente, um ser humano, incrível, que soube encarar de frente as dificuldades que a vida lhe impôs.

    Em 2007 no WTCC aqui em Curitiba, tive o privilégio de visitar os box antes da corrida, e claro que o público ficou aglomerado na frente dos box da equipe BMW. Ansiosos estávamos todos no aguardo da Lenda, e quando ele surgiu caminhando com calma com o auxílio de um par de muletas, foi de uma emoção e alto astral incrível, pois ele atendeu a todos nós ali, com uma alegria única.

    Deste momento único do qual tive o privilégio de vivenciar, fiz alguns clicks com uma máquina digital, e estas fotos as tenho guardadas como verdadeiras relíquias.

    Parabéns mais uma vez Salu!

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    Só uma curiosidade: que fim levou o circuito Oval da Alemanha, já que a Indy não corre mais por lá?

    Fernando Marques

    • Mário Salustiano disse:

      olá Fernando, obrigado pelo comentário
      Consta que o autódromo ainda está em operação,e vem sediando provas do campeonato de DTM e o mundial de Superbike
      abraços

      Mário

  4. Fernando Marques disse:

    Mario,

    mais uma vez o amigo se supera e manda bem demais.
    Algumas considerações:
    – aquela porrada na Eau de Rouge, vendo o video, não sei como ele não morreu … ele sequer fez a curva, foi literalmente de frente com a cara no muro … ele deu muita sorte … que pancada!!! …
    – Aquela ultrapassagem dela no Saca Rolha de Laguna nem Senna, nem Piquet, nem Gilles, nem R. Perterson e nem ninguém fez e deve ter motivado ao Doctore Valentino Roosi a fazer o mesmo na Moto GP … depois da ultrapassagem do Piquet sobre Senna na Hungria, foi certamente melhor ultrapassagem que o mundo do automobilismo deve ter visto …
    – seu sangue de desportista, não resta duvidas, está gravado nas medalhas de ouros que conquistou nas Paraolimpíadas … nunca vi nada igual … nada abala o Zanardi … o prazer de competir acima de tudo ultrapassa a qualquer imaginação possível … ele tem uma história a contar … a de vencedor, sempre vencedor mesmo nas derrotas …
    Penso que infelizmente a Formula 1 perdeu em não poder ter um Alex Zanardi como um de seus campeões mundiais de sua história … e não ao contrário … e nessa o Formula Indy deu de 10 a zero na Formula 1, pois lá ele foi Bicampeão … mais do que merecidamente … pois deu muito show de bola …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Leandro Coelho disse:

    Muito bom! Obrigado por colocar em palavras o que eu sinto e vejo sobre o Alex. Abraços

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