Replay – final

Replay – parte II
08/04/2016
Esporte ou entretenimento
14/04/2016

A conclusão da história sobre Rolf Stommelen e sua vida no automobilismo pós-Espanha 1975.

Confira a primeira parte desta história clicando aqui e a continuação dela aqui.

Então, no último domingo de abril, se disputaria o GP da Espanha, em Montjuic, onde Rolf largaria de um bom 9º lugar no grid. Dada a largada, logo na primeira curva, se forma um tumulto do que emerge líder James Hunt, com Andretti, Watson e Rolf a continuação. Brambilla e Pace vinham em 5º e 6º lugares.

Os sucessivos acidentes de Hunt e Andretti, deixam Rolf na liderança, com Pace ao seu encalço. O acosso de Pace era constante, mas Rolf se mantinha firme até que, na volta 25, quando se aproximavam à curva da rasante, o ponto de máxima velocidade do circuito, o aerofólio traseiro do GH1 é arrancado violentamente. Sem controle, o carro choca contra os guard rails e sai voando dezenas de metros em direção a um posto de segurança, onde se arrebenta matando a 4 pessoas e ferindo a uma dúzia. Rolf, milagrosamente, sobrevive com fraturas numa perna, um braço e varias costelas.

Rolf retornaria às pistas para o GP da Áustria em agosto, mas sem evoluções no carro, os resultados são pobres. No inverno,a equipe começa a trabalhar no novo GH2, mas um acidente aéreo acabaria com as vidas de Hill, seu piloto Tony Brise, seu engenheiro Andy Smallman e seus dois melhores mecânicos. Era o fim da Embassy-Hill!

Rolf fica sem equipe na formula 1 para 1976, mas volta a ser piloto oficial da Porsche, conseguindo boas classificações, além de vencer em Pergusa e nas 6h de Watkins Glen, onde marcaria a volta rápida. Porem, sua melhor atuação da temporada teria lugar nos 300 km de Nurburgring. No inferno verde, Rolf estrearia o novo 936, a arma com a que a Porsche pretendia evitar a vitória dos Renault-Alpine turbo, que partiam desde primeira linha do grid.

Na largada, com forte chuva, Rolf supera a Jabouille, ficando entre os dois Renault, porem sabendo que não poderia resistir muito tempo o acosso do francês. Assim, quando chegam na curva Nordkhere, Rolf retrasa ao máximo a frenagem mas, deliberadamente, deixa espaço no interior. Jabouille logo pretende aproveitar a ocasião mas não consegue segurar o carro e , indo reto, abalroa o Renault de Depailler, abandonando ambos. Rolf lidera em solitário mas, na volta seis, seu acelerador fica travado no fundo e, apesar que lhe dizem que abandone, Rolf segue adiante, controlando o carro com a embreagem, o freio e apagando o motor na entrada das curvas e ligando-o na saída. O 5º lugar seria seu premio.

Nas 24 h. de LeMans, junto a Schurti, termina 4º na classificação geral e 1º em sua categoria. Ainda teria três esporádicas participações na formula 1: 2 com o Brabham BT45 (6º lugar em Nurburgring) e uma com o velho Hesketh 308. Em 1977 Rolf vence o campeonato internacional DRM com o Porsche 935, superando a Bob Wollek na última prova em Nurburgring sob forte chuva. Também venceria nas 6 h. de Mugello e nos 1000 km de Nurburgring. Wollek, outro dos grandes pilotos de SportCars da época diria então: “Rolf não é apenas valente. Jamais vi um piloto com tanto domínio do carro quanto ele!“.

Assim chegamos à temporada de 1978 e, também com o 935, Stommelem, com Hazemann, vence novamente as 24 h. de Daytona e termina 2º nas 6 h. de Watkins Glen com a equipe de Dick Barbour, um dos clientes da Porsche. Para as 24 h. de LeMans, a Rolf se lhe encomenda estrear o 935/78 “Moby Dick”. Com um motor turbo de 3,2 litros e cerca de 850 cv de potencia, Rolf, como havia feito antes com o 917, supera todas as expectativas ao alcançar os 366 km/h na reta da Mulsanne, sendo o primeiro piloto a superar os 360 km/h em LeMans. Porem, devido ao alto consumo do motor ( o carro tinha que reabastecer cada 13 voltas ), termina em 8º lugar.

Nessa mesma temporada de 1978, Rolf tem uma nova presença na formula 1. A recém criada equipe Arrows, que inicia o ano sem patrocinador, consegue encontrar um a partir de Kyalami: Seria a cerveja alemã Warsteiner. Rolf , que já havia pilotado carros sport sob seu patrocínio, é chamado para formar parte da equipe. Ali, Rolf termina nono, igual que em Long Beach mas, a partir dai, o alemão volta a sofrer a falta de bom equipamento, pois a equipe concentrava seus escassos recursos e atenções no jovem e promissor Riccardo Patrese.

Após não conseguir sequer se classificar em vários GPs, um jornalista alemão lhe pergunta como era possível que um piloto como ele estivesse rendendo tão pouco. Rolf, com resignação e mostrando-lhe os pneus de seu carro responde: “Nossos recursos são tão escassos, que tenho de equipar velhos pneus que sobraram da formula 5000 britânica, extinta o ano passado!” . A explicação não podia ser mais esclarecedora! Rolf, então já com 35 anos de idade, compreendia a situação e era consciente de que a formula 1 havia acabado para ele.

Assim, em 1979, Rolf volta aos carros Sport com a Porsche e os bons resultados… também. Com os modelos 908 e 935, que ele tao bem conhecia, consegue 4 vitorias e vários pódios. Porém, não venceria numa de suas atuações mais memoráveis. Dick Barbour, proprietário de uma equipe cliente da Porsche, com quem Rolf já havia corrido em ocasiões anteriores, o chama para participar nas 24 h. de LeMans com um 935, formando equipe com ele mesmo e seu amigo o famoso ator Paul Newman.

A largada seria sob condições de chuva, com Bob Wollek na pole e Rolf , um verdadeiro especialista na água, no 16º lugar. Pilotando a maior parte do tempo e de forma magistral, especialmente à noite, e girando 25″ mais rápido por volta que seus dois companheiros, Rolf chega à liderança. Contudo, estando na liderança e quando a vitória parecia ao alcance da mão, numa das últimas paradas para reabastecer e trocar pneus, um parafuso empenado numa roda traseira lhes faz perder cerca de 23 minutos… e a liderança. Ainda assim, conseguiriam manter o segundo lugar, terminando a apenas 7 voltas do ganhador e vencendo em sua categoria.

Aquela corrida passaria à historia como a edição em que o famoso Paul Newman chegou em 2º lugar. Ao todo, Newman havia pilotado o carro apenas durante 4 horas mas, com sua notoriedade, ele era quem atraia todas as atenções da imprensa e, além dos verdadeiros aficionados, pouca gente ficou sabendo quem foi o verdadeiro artífice daquele resultado. Uma vez mais, outros usufruíam os méritos de Rolf. Com companheiros mais competentes, sem dúvida, Rolf teria vencida a prova.

1980 começa bem para Rolf, com uma nova vitória nas 24 h. de Daytona. Sempre com o 935, também venceria os 1000 km de Nurburgring, alem de outros bons resultados. em 1981 vai correr na america, onde venceria de forma consecutiva as 6 h. de Mosport, as 500 milhas de Road America e os 500 km. de Mid-Ohio. Em 1982, em sua única participação nos EUA vence por quarta vez as 24 h. de Daytona, competindo o resto do ano na Europa e conseguindo, entre outros bons resultados, outra vitória nos 1000 km de Nurburgring.

Agora chegamos a 1983 e Rolf inicia a temporada com um bom 3º lugar nos 1000 km de Monza, no dia 10 de abril. Entao Rolf não sabia, mas aquela seria a última vez que cruzaria uma linha de chegada e, curiosamente, na mesma posição em que o havia feito em sua primeira vez. John Fitzpatrick, seu amigo e piloto, com quem havia corrido em varias ocasiões, tinha entao sua própria equipe para o campeonato IMSA norteamericano. John competia junto a David Hobbs com um Porsche 935 e para a prova das 6 h. de Riverside do dia 24 de abril (último domingo do mês), John inscreve um segundo 935 a ser pilotado por Derek Bell e Jochen Mass.

Porem, poucos dias antes da prova, Mass diz que por motivos familiares não pode participar. John, então recorre ao amigo Rolf e lhe pede que ocupe o lugar de Mass. Rolf logo esta disposto a ajudar e aceita. O 935 era um carro que Rolf conhecia bem e, como sempre havia sido habitual ali onde esteve, é ele quem se encarrega de classificar o carro, e logo o coloca na primeira linha do grid. Apenas o March Chevrotet de Holbert – Trueman lhe privam da pole por pouco. John e David, partiriam desde o 4º lugar.

Rolf e Bell se desenvolviam bem na corrida e o alemão já havia marcado a velocidade máxima da prova. Então, quando estavam na segunda posição e com meia corrida disputada, Bell entrega o 935 ao companheiro. Apenas 3 voltas mais tarde, Rolf perde o controle do carro em plena reta e a velocidade máxima, indo se arrebentar com violência nos muros de proteção. John, que estava no box esperando ocupar o lugar de Hobbs, não podia acreditar no que acabava de acontecer, indo de um lado para o outro do box como animal enjaulado e preocupado pelo estado de amigo.

Muito afligido e com voz tremula pelos nervos, John diria: “Faz 18 anos que conheço Rolf. É um piloto magnífico e só um grave problema técnico lhe faria perder o controle de um carro!”

Foi isso mesmo! Tal como acontecera em Montjuic, Rolf havia sofrido a perda do aerofólio traseiro do carro no trecho de maior velocidade do circuito, fazendo que este desse uma volta no ar antes de se arrebentar no muro e dar tombos por mais de 100 metros antes de virar um monte de sucata. Como diria um jornalista depois: “Parecia impossível que aquilo tivesse sido uma vez um carro”.

Rolf é imediatamente levado ao hospital, mas nao havia nada que pudesse ser feito por ele. Hobbs e Bell, que havia ocupado o lugar de John, terminariam vencendo a corrida, numa espécie de última homenagem ao companheiro recém falecido.

Rolf contava então com 39 anos de idade e sua carreira havia sido uma constante repetição de acontecimentos e circunstâncias que lhe impediram conseguir o que, por talento, lhe correspondia.

Também disse Nietzsche que nossa existência é como uma ampulheta sempre virada tão logo cai o último grão de areia e que, assim, tudo vai e tudo volta. Vendo a carreira de Stommelen, não parece haver dúvida de que isso é assim, pois Rolf parecia estar submetido a um permanente replay.

Abraços e até a próxima.

 

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

9 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Aproveitando a boa deixa de saudosismo criado pela otima coluna Replay parte I, II e III do Manuel Blanco para fazer um pedido ao GP Total.
    Este ano teremos um campeonato brasileiro dos Old Stock Cars cheio de Opalão do bons anos 70 e 80 nas pistas novamente. Bem que o Gepeto podeira dar uma cobertura pois afinal de contas não é mais todos os dias que vemos um Opala andando nas ruas quanto mais nas pistas.

    Fernando marques

  2. Robinson Araujo disse:

    Colegas, não os conheço pessoalmente, mas graças a tecnologia estamos sempre nesta troca de preciosas informações.

    Obrigado pela coluna, acima de tudo pelo aprendizado precioso!

    Aos amigos bom final de semana………

    Aproveito para questionar como posso publicar uma coluna aqui. Tenho muita coisa interessante escrita. Uma dessas seria a história do último GP que deixei de assisti, o do Japão em 1987, assim como as peripécias que já tive de fazer para não maisperde-los.

    Abraços

  3. Mauro Santana disse:

    Fantástico Manuel, Fantástico!

    Realmente eu também conhecia muito pouco da carreira deste grande piloto alemão.

    Incrível como naquela época dos anos 70 e 80, haviam vários pilotos que dominavam com maestria os carros de endurance, e Rolf Stommelen esfa entre eles.

    Obrigado por nos agraciar com mais está belíssima história.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

  4. Fernando Marques disse:

    MAnuel,

    como é grande e vitoriosa a carreira de Rolf Stommelen e poucos sabiam … uma historia rica de detalhes e muito bem desenvolvida por você …
    Eu pensava que a carreira dele tinha acabado com aquele acidente em Montjuic. . Sabia que ele tinha sobrevivido mas que as inúmeras fraturas que ele sofreu pudesse ter deixado sequelas que impedisse ele pilotar em alto rendimento …
    Mas em todo caso, as poucas chances que ele teve na Formula 1 (nunca teve um carro vencedor) demonstra bem, que apesar de toda sua habilidade, ele na verdade jamais figurou entre os 10 mais top drivers na década de 70 da Formula 1, apesar de todo seu prestigio vencedor na Endurance. Cito como exemplo o Clay Reggazzoni, J. Ickx, Gilles Villenueve, Ronnie Perterson, Francoise Cevert, José Carlos Pace, John Watson que tiveram carros vencedores e mais prestigio que ele na Formula 1 mesmo nunca tendo eles conquistado um titulo mundial …
    Em todo caso fiquei deslumbrado com a historia do Stommelen

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. MarcioD disse:

    Muito Bom Texto!

    Caro Manuel,
    Gostaria que checasse a informação sobre a velocidade máxima na reta Mulsanne em Le Mans. Há registros de que o Porsche 917 cauda longa alcançou a velocidade de 386 Km/h nos treinos(não oficiais) que foram feitos em abril/71 com Jackie Oliver e que na corrida de junho de junho/71 atingiu 362 Km/h, oficialmente sendo o 1º carro a ultrapassar a barreira dos 360 km/h em Le Mans. A máxima oficial é de 405 Km/h atingidos em 88 por um protótipo WM Peugeot, antes de serem colocadas as duas chicanes.

    Abraços,

    Márcio

    • Manuel disse:

      Caro Márcio, muito obrigado pelo comentario.

      Talvez a minha fonte se referia ao periodo de vigencia dos chamados Sillhouette.

  6. Carlos José dos Santo disse:

    Sempre tive uma afeição muito grande pelo capacete e tambem pelo que sabia de Rolf na época 1971 / 1972 quando comecei a curtir automobilismo e só agora em 2016 descubro as proezas de um piloto excepcional e só lamento que não tenha sido reconhecido e respeitado como deveria. Adorei o texto e obrigado Manuel Blanco por me presentear com estas tres partes saborosas e a pergunta que não sai da cabeça:Como um piloto deste naipe não teve o lugar e a hora certa principalmente na F1 e porque não em protótipos?

    • Manuel disse:

      Muito obrigado Carlos !

      Talvez o motivo principal para que Rolf nao tivesse as oportunidades merecidas na formula 1 se explique pelo fato de que, naqueles anos, a categoria nao desfrutava de muita divulgaçao na Alemanha. Desde a morte de Von Trips, Rolf foi unico piloto alemao que participou com regularidade na formula 1, mas nunca contou com bom patrocinio. Recordemos que a televisao alema só começou a transmitir as corridas de GP a partir de principio dos anos 80s, portanto, sem divulgaçao, nao havia interesse das empresas alemas na categoria.
      Respeito ao sport prototipos, creio que a resposta mais simples seja dizer que Rolf nunca esteve no lugar certo na hora certa mas, mesmo assim, conseguiu muitas boas vitórias ( se nao me engano, foram 25 ao todo ).

      Enfim, me alegra muito que hajam leitores como você aos que esta coluna ajudou a saber mais sobre o Rolf.

      um abraço, Manuel

  7. Lucas Giavoni disse:

    Sempre aprendendo MUITO com os textos do grande Manuel…

    Meus melhores professores no mestrado sempre diziam que a autêntica comunicação é aquela que resulta em TRANSFORMAÇÃO por parte de quem a recebe.

    Este texto, como a maioria daqueles escritos por você, sempre trazem em mim essa transformação. Passo, agora, não apenas a saber mais sobre o piloto como se fosse uma biografia, mas também naquele toque de sensibilidade que explica a vida do personagem em uma grande sacada: o replay.

    Sempre falo para as pessoas que isso se dá porque o tempo é linear, mas as ações são cíclicas – vão e voltam. E nada ficou mais claro que isso nessa primorosa obra sobre o Rolf, um personagem que passo a respeitar ainda mais.

    Abração e parabéns mais uma vez.

    Lucas Giavoni

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