Rescaldo de Montreal

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Como toda grande polêmica na F1, os acontecimentos do circuito Gilles Villeneuve dominaram os noticiários dos últimos dias da categoria. A polêmica punição que tirou a vitória de Sebastian Vettel do último Grande Prêmio do Canadá mobilizou pilotos, dirigentes e fãs em dar opiniões sobre a decisão dos comissários da FIA em acrescentar 5s ao tempo do alemão da Ferrari e praticamente entregar a vitória para Lewis Hamilton. Justo? Injusto? Proteção à Hamilton e Mercedes? A F1 está perdendo a sua essência? As corridas estão cada vez mais chatas?

Seguindo apenas a letra fria da lei, a decisão da FIA não foi nenhum absurdo, mas faltou à Emanuele Pirro e os seus blue caps algo bastante importante em casos interpretativos: bom senso. Se a investigação tivesse como resultado o ‘No futher action’, a Mercedes poderia reclamar da volta de Vettel à pista, Hamilton chiaria sobre a manobra à sua frente, mas no fim o desgaste seria muito menor com uma vitória de Vettel, evitando um pódio extremamente constrangedor como o que vimos em Montreal e toda a polêmica que veio em seguida. Num momento em que a F1 busca mais fãs, que em troca querem mais disputas dentro da pista, a batalha entre dois multicampeões terminar com uma decisão fora da pista foi um belíssimo tiro no pé!

Os nostálgicos de plantão não demoraram a criticar o rigor da FIA e o exemplo clássico ocorreu a quase quarenta anos, na famosa disputa entre Gilles Villeneuve e René Arnoux em Dijon/1979. “Eles seriam punidos numa corrida atual”, bradaram os que reclamaram da punição de Vettel. Alguns dias depois do ocorrido em Montreal, Emanuele Pirro deu sua versão do ocorrido, relatando até mesmo ameaças sofridas por torcedores mais irracionais. “As corridas mudaram. Hoje a segurança está na frente do destemor dos antigos pilotos”, relatou o italiano, na defesa de sua polêmica decisão no Canadá. Ninguém quer ver pilotos machucados ou morrendo dentro da pista, mas o destemor ainda é um dos grandes chamarizes do esporte a motor. Pirro tem razão em dizer que o mundo mudou, mas não necessariamente para melhor…

Muitos fãs também olharam para outras categorias, mas a situação com relação à polêmicas decisões fora das pistas não melhora muito em outras glebas. A StockCar está com a etapa de Goiânia sub júdice. A chatíssima F-E vive mudando de resultado nos seus pós-corrida por causa de punições, lembrando que Lucas di Grassi já foi punido por suas vestimentas! Até mesmo a Nascar, considerada o faroeste do automobilismo, também está agindo com mais rigor com seus pilotos. Johnny Sauter foi suspenso por uma corrida por jogar seu carro contra um rival durante uma bandeira amarela no último domingo, numa prova da Truck Series. Sem contar a grande polêmica de 2015 entre Valentino Rossi e Marc Márquez em Sepang na MotoGP.

E falando em MotoGP, muitas pessoas ligadas à F1 estão olhando para a categoria de motos para exemplificar que uma categoria de elite do esporte a motor pode ser também competitiva, apesar de Marc Márquez não ajudar muito a causa da MotoGP por causa de sua genialidade. “Se inspirem na MotoGP”, clamaram dirigentes e pilotos da F1. Hoje a MotoGP tem seis montadoras com presença oficial na categoria, totalizando doze motos de fábrica no pelotão. Para completar o grid, equipes satélites têm motos com versões anteriores as que os pilotos de fábrica têm à sua disposição. Isso faz com que o gap entre uma Repsol Honda e uma Avintia seja menor do que entre uma Mercedes e a Williams, por exemplo.

Outro fator é que a Dorna tenta ajudar às montadoras novatas ou com temporadas ruins, com um inteligente sistema de concessão, que lembra um pouco os Drafts das modalidades americanas. Se uma montadora não conseguir pódios em piso seco, ela terá mais dias de testes e motores disponíveis. A Suzuki ganhou muito terreno com essas concessões e hoje briga de igual para igual com Honda, Ducati e Yamaha. Um sistema simples, mas bastante eficaz.

Se um dia a F1 utilizar esse modelo, podemos ver mais carros brigando por vitórias ou pódios, além de novas montadoras interessadas em entrar na categoria, mas também poderá ser o fim do sonho de uma equipe independente brigar pelo título. Sem contar que depender de montadoras é sempre perigoso, lembrando os casos de Honda, Toyota e BMW, que abandonaram a F1 sem prévio aviso dez anos atrás.

O Grande Prêmio da França é um dos mais tradicionais e foi o primeiro da história do automobilismo, em 1906. Ao contrário de Monza na Itália, a França já teve vários palcos como Reims, Rouen, ClermondFerrand, Le Mans Bugatti, Dijon e Magny-Cours. Quando estreou na F1 em 1971, o circuito de Paul Ricard, também conhecido como Le Castellet, era considerado o mais moderno da época, com suas várias opções de traçados e a famosa reta Mistral. O autódromo foi vendido à Ecclestone, foi utilizado por vários anos como pista de teste, mas quando Jean Todt assumiu a presidência da FIA, o francês patrocinou a volta do Grande Prêmio da França após um hiato de dez anos, retornando ano passado.

Circuito tradicional e rápido, Paul Ricard viu Lewis Hamilton dominar em 2018, o que já é um bom handicap para a Mercedes continuar dominando a temporada 2019. Ferrari e Red Bull não tiveram muito tempo para desenvolver seus carros para tentar quebrar a invencibilidade da Mercedes em 2019, mas já encontraram um culpado: os pneus Pirelli.

A Pirelli desenvolveu para essa temporada um pneu com borracha mais fina, que diminuiu as chances de superaquecimento e o aparecimento de bolhas, que tanta deram as caras em 2018. Ano passado a temperatura dos pneus foi o calcanhar de Aquiles da Mercedes, com um difícil gerenciamento da janela de desempenho dos pneus Pirelli. A grande maioria das equipes desenvolveram seus carros para essa temporada tentando diminuir o superaquecimento de pneus, construindo seus bólidos com menos downforce. A Mercedes foi na contramão de todas e construiu seu carro com muito downforce. Com a borracha mais fina dos pneus Pirelli, ter mais peso nos pneus causado por downforce não significa um problema de desgaste prematuro de pneus e a Mercedes nada de braçada com um carro com uma janela de desempenho bem mais gerenciável, enquanto as rivais sofrem com um carro com grandes dificuldades de aquecimento de pneus. Ferrari e Red Bull espernearam e até indicaram um suposto favorecimento à Mercedes. A Pirelli prometeu mudanças, mas somente em 2020. Resumindo, o domínio da Mercedes continuará e com Hamilton abrindo vantagem no campeonato, o hexacampeonato poderá se tornar apenas uma questão de tempo.

A Ferrari tentará utilizar sua enorme potência de motor nas retas francesas para lhe auxiliar na inglória briga contra a Mercedes, algo visto em Montreal. Vettel mostrou grande caráter em Montreal ao exibir toda a sua frustração pela punição recebida. Ao invés de ficar choramingando pelos cantos (ou pelas redes sociais), o alemão quebrou todo o protocolo pré-pódio e a imagem de Vettel colocando o número dois na frente do carro de Hamilton já é uma das melhores dos últimos tempos. A Honda trará um novo motor para a Red Bull, mas já avisou que ainda está devendo com relação à Mercedes e Ferrari. Num circuito rápido, isso não é uma boa notícia para Verstappen, que faz sua melhor temporada desde que entrou na F1. Gasly fez outra corrida horrorosa em Montreal e já se fala abertamente em outros pilotos para o lugar do jovem francês, confirmando a fama da Red Bull de destruidora de carreiras.

Correndo em casa, a Renault tentará repetir o bom desempenho do Canadá, quando pontuou com seus dois pilotos e Ricciardo conseguiu um excelente quarto lugar no grid, chegando a brigar com Mercedes e Red Bull. Porém, a Renault ainda está devendo em 2019 e estar atrás de sua equipe cliente (McLaren) no campeonato não pega muito bem. A McLaren ainda tenta se recuperar do baque de Indianápolis e a corrida no Canadá não foi das melhores, com Lando Norris abandonando com sua suspensão derretendo ainda no começo da corrida. Günther Steiner está tendo um enorme trabalho com seus pilotos, pois quando não batem forte, reclamam pelo rádio. A descompostura que Steiner deu em Magnussen durante a corrida passada foi simplesmente épica! Com um meio de pelotão apertado e que muda corrida a corrida, a briga pelo sétimo lugar será interessante. No reino de Claire Williams, já se fala abertamente na substituição de Robert Kubica. A heroica volta do polonês à F1 foi um dos fatos de 2019, mas o sonho de Kubica vem se tornando um pesadelo com o polaco não conseguindo andar no nível de George Russell, um novato promissor, mas ainda assim um novato. Num circuito curto como Montreal, Russell chegou uma volta na frente de Kubica. Nos bastidores, Nicolas Latifi, piloto bilionário e liderando a F2, já participa de treinos livres na Williams. Com o time precisando de dinheiro, isso não deixa de ser um indicador que a batata de Kubica está assando.

O tradicional Grande Prêmio da França retornou ano passado com um público que engarrafou as estradas gaulesas, mas não viram exatamente uma corrida emocionante, por sinal, outra característica das corridas francesas. Mais importante do que uma corrida emocionante, a F1 precisa de uma corrida sem maiores intervenções dos seus comissários e que o vencedor seja literalmente quem receber a bandeirada em primeiro.

Abraços!

Em tempo: a FIA rejeitou a apelação da Ferrari sobre a punição em Montreal.

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

2 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Parabéns, excelente texto, JC!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. tassios disse:

    Texto claro e direto. Realmente teria sido melhor um “no further action” e parabéns para o Vettel.

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