Romílson e Vettel

Santo ou Campeão?
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O elo perdido
16/10/2013

O tetracampeonato ainda não foi matematicamente garantido, mas já começa a surgir a dúvida: Vettel é invencível?

Romílson tem 25 anos e cumpre alguns dos pré-requisitos daquilo que se pensa brasilidade: é bastante solícito e solidário, e também um tirador de sarro nato. Gosta bastante de churrasco e é corinthiano. Fã de Senna, hoje é um crítico mordaz de Felipe Massa. Cumpre o roteiro brazuca, portanto. Pode-se dizer que ele em algo lembra o Rafael da coluna da Alessandra.

Em conversa outro dia, Romílson comentou que considera Vettel uma aberração da natureza: “eu acho que se botarem esse cara pra correr em qualquer carro ele ganha corrida ainda, tá loco, o piá nasceu pra fazer isso, impressionante!”. É mais do que óbvio que nenhum dos grandes mitos da F1 (“escale” o grupo que quiser) conseguiria vencer com uma Caterham ou uma Marussia, mas acho que a hipérbole usada por Romílson é válida para uma reflexão.

No último GP do Japão, Vettel deu razão a Romílson.

É verdade que Vettel teve um desempenho estranho nesse fim-de-semana: primeiro, perdeu a pole; na largada, viu irem embora outras duas posições – recuperando a de Hamilton. O alemão largou mal, de fato: parecia não conseguir subir as marchas.

Depois, visitou a grama uma vez, e na sua entrada nos boxes teve de frear pesado. Não acho que Vettel ceda à pressão: foram duas decisões de título na última corrida, em situações diferentes (uma como líder, na outra como franco atirador), afinal. Talvez seu carro não estivesse tão bem acertado, dessa vez.

E qual foi o resultado? Vettel venceu. São 5 vitórias seguidas, igualando Mansell e apenas duas atrás de Ascari e Schumacher. Na temporada, 9 triunfos, podendo chegar aos lendários 13 primeiros lugares de Schumy em 2004.

Parafraseando Shakespeare, “A Fórmula 1 é uma história contada por Vettel, cheia de som e de fúria, sem mudança alguma”.

Confesso ter torcido por uma vitória de Mark Webber em Suzuka: não apenas para que ele tivesse uma despedida digna da F1 – claro, ele ainda pode ganhar algum dos próximos GPs, talvez em Interlagos – mas porque esse foi o primeiro fim-de-semana em que ele esteve melhor que Vettel ao longo do ano.

A estratégia de três paradas – que em determinados momentos parecia caminhar para um final feliz – acabou prejudicando-o no momento chave em que buscava a retomada da ponta. Webber marcou a melhor volta no giro 44, mas levou ainda 8 voltas para superar Grosjean.

Lewis Hamilton também frustrou expectativas, visto que largou bem e podia almejar quem sabe um pódio, mas um furo no pneu já na primeira curva decretou o fim de sua corrida algumas voltas depois.

Uma imagem que foi pouco explorada na corrida, mas que talvez possa ter sido a briga mais importante da prova, foi a disputa entre Alonso e Kimi. Futuros companheiros de Ferrari, Raikkonen marcou uma sequência de voltas mais rápidas e encostou em Alonso.

Foram vários giros com uma distância inferior a um segundo, o Iceman não conseguindo ultrapassar o espanhol. Alonso foi forte, e fez o possível para ao menos postergar o título de Vettel: sua ultrapassagem sobre Hulkenberg foi notável.

Alonso tem uma tatuagem de samurai nas costas. Em terras japonesas, é natural que lhe perguntem sobre o interesse no desenho. Sua resposta foi a mesma de quando revelou a tatoo: “o samurai pode não ser o mais forte. Inteligência e força de vontade são os lugares onde ele tira energia suficiente“.

Fernando terá de canalizar essa energia para que consiga (re)começar em 2014.

Pra falar de Caterham e Marussia, só mesmo com algo atípico: a tomada aérea na largada e a posição onde os carros pararam (um indo direto à barreira de proteção dos pneus, outro no meio da brita) em muito lembrou a largada do GP do Japão de 1990, quando Senna e Prost se chocaram e ali ficaram para decidir o mundial.

Outra reminiscência aos tempos antigos veio nas voltas iniciais, quando Daniel Ricciardo formou um verdadeiro comboio atrás de si: meia dúzia de carros andando colados fez lembrar o famoso GP da Espanha de 1987, quando Senna segurou deus e o mundo.

httpv://youtu.be/LaTmmGA1Koc

Depois, como Senna, Ricciardo foi ficando para trás…

A Toro Rosso de Ricciardo que estará vaga ano que vem.

Há algumas semanas, Bernie Ecclestone defendeu Felipe Massa e sugeriu essa como uma das possíveis vagas para que o brasileiro permaneça na F1. Acho que é uma chance interessante para Massa. A outra boa seria a Sauber de Hulkenberg. Se o alemão é quem divide com Massa as chances de vaga na Lotus, acho difícil explicar a não-contratação de Hulkenberg para ser parceiro de Romain Grosjean.

Massa teve um bom início de corrida, de fato segurando Alonso. Mas depois que o espanhol o ultrapassou (E Massa fez toda questão de valorizar a ultrapassagem do espanhol, alegando ter desobedecido ordens de equipe), não teve quem não o superasse. A imagem que resumiu o GP de Felipe foi a da punição com drive through: excesso de velocidade na entrada dos boxes. Parece piada pronta: “Massa é punido por andar rápido demais“.

Foi um festival de drive through, aliás. Destaque para o quase choque entre Nico Rosberg e Sergio Perez. A situação foi mais grave ainda porque Rosberg estava saindo enquanto Perez vinha para fazer sua parada… E o box da McLaren é exatamente em frente ao da Mercedes.

No entanto, implico bastante com essas punições, especialmente quando elas atingem diretamente o piloto. Acho que seria mais prudente uma multa à equipe, ou então uma punição na pontuação de construtores.

Excelente foi o fim-de-semana de Romain Grosjean. Largada primorosa, e uma corrida fortíssima, só perdendo a segunda colocação para Webber nos momentos finais.

httpv://youtu.be/XzzSEugJm8g

O Grosjean estabanado e que gerava desconfiança foi embora em 2013, E aproveitando que mencionei a dança das cadeiras para o ano que vem, já não faz mais sentido falar que a Lotus precisa de um piloto experiente para liderar a equipe.

Na realidade atual, com todo mundo recomeçando do zero (ao menos oficialmente), a Lotus precisa mesmo é de uma dupla jovem e rápida. Hulk e Romã – chorei de rir com Luís Roberto o chamando de “Roumêin“, inglesando o nome do francês – seria a minha aposta

Uma pequena nota sobre a MotoGP: Na última etapa (confira nosso resumo aqui), Malásia, Dani Pedrosa conseguiu uma ótima vitória (sua segunda seguida no circuito), seguido por Márquez e Lorenzo. Agora, o espanhol estreante já livra quase 50 pontos na tabela, com 75 em jogo.

Como Vettel, Marc Màrquez chegou pra ficar, e será o mais jovem campeão da história da categoria.

Essa nova geração vai muito bem, obrigado.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

12 Comentários

  1. Sandro disse:

    Senna segurando varios carros em Jerez’87. Varias voltas. E Piquet passou Senna…

  2. Lucas dos Santos disse:

    Foi uma corrida muito boa, diferente do que eu imaginava. Para quem não assistiu e só ficou sabendo do resultado depois, deve ter achado que a corrida foi “mais do mesmo”.

    Vendo a largada de Grosjean pela câmera onboard, tenho a impressão de que essa foi a largada mais fácil de sua vida, no sentido de ganhar posições. Aliás, o piloto franco-suíço teve uma atuação memorável nesse fim de semana e merecia ganhar a corrida. Acredito que a equipe deveria ter arriscado uma terceira parada para o piloto da Lotus. Se desse certo, ele teria chances de garantir o segundo lugar. Se desse errado, o máximo que aconteceria era ele chegar em terceiro, como de fato aconteceu. Ou seja, não tinha nada a perder.

    Quanto a Felipe Massa, ficou bem clara a ordem do “Multi-A” vinda pelo rádio, que o Luciano Burti não entendeu, que foi solenemente ignorada pelo piloto da Ferrari. O problema do Massa é ultrapassar carros mais lentos. Podem notar que em toda corrida ele sempre fica preso atrás de alguém. Nessa corrida não foi diferente. Enquanto havia caminho livre pela frente, ele conseguia se defender perfeitamente dos ataques de Alonso. Bastou ele alcançar Hulkenberg e Ricciardo para ter sua velocidade diminuída, permitindo que Alonso se aproximasse e passasse. Não somente Alonso como os outros que vinham atrás. Não é à toa que o piloto só conseguiu vencer corridas largando da primeira fila.

    E por falar em ordens de equipe, eu não acredito que o Luciano Burti esqueceu do “Multi-21” da Malásia (http://youtu.be/QwAUchvDAl4). Nesse fim de semana, os termos “Multi-21”, “Multi-22” e até “Multi-3” apareceram nas mensagens via rádio da Red Bull e o Burti achando que fosse informações técnicas de configuração do carro! Eu não sei o que significa isso, mas está na cara que são mensagens cifradas. Não tinha nada a ver com informações técnicas.

    E, para finalizar, alguém sabe por que a TV não quis mostrar o Vettel bebendo champanhe na taça? Não vejo nada de ofensivo ou impróprio nessa cena, muito pelo contrário.

  3. Lucas disse:

    E sobre o Massa, se ele fosse um sujeito esperto deveria ter deixado o Alonso passar imediatamente – pelo menos daria pra ter usado a desculpa de que “só perdeu porque teve que cumprir a ordem de equipe”. Dando uma de rebelde, só mostrou ao resto do mundo que, com ou sem ordens de equipe, existe um abismo entre Alonso e ele.

  4. Lucas disse:

    Que coisa, eu já acho que o fato de ter ganhado mesmo com os erros (o problema no Q3 pelo que eu soube foi mecânico) fala muito mais a favor do carro que do Vettel. Afinal o Webber usou uma estratégia infeliz (alguém mais além dele fez três paradas?) e ainda assim completou a dobradinha, só sete segundos atrás. E tirando o Grosjean, que teve a vantagem de largar muito bem e poder segurar as Red Bull enquanto pôde, o resto estava mais de meia volta atrás. A impressão que deu é que se o Grosjean não tivesse conseguido aquele pulo na largada, as duas Red Bull teriam botado volta em cima de quase todo mundo…

    • Allan disse:

      Lucas, se Vettel tivesse ficado 5 – nem vou dizer 8… – voltas atrás do Grojã, Webber teria engolido os dois…

  5. Rafael Carvalho disse:

    Espero não ser eu o Rafael citado na coluna da Alessandra Alves. Kkkk

  6. Fernando Marques disse:

    Foi uma bela corrida.
    A RBR deu uma de Ferrari e preparou uma tática melhor para Vettel chegar na frente do Webber, que deve ter usado o plano B.
    O Grosjean foi a meu o destaque da prova … andou forte desde o inicio e com uma bela largada trouxe emoções novas a Formula 1 que em suas ultimas corridas apenas via o Vettel disparar na frente. Em Suzuka foi diferente, graças ao Grosjean.
    Sinceramente acho melhor o Massa se aposentar …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Flaviz disse:

      Fernando, acho (só acho) que o problema do Webber não foi a estratégia. O problema foi Grosjean. Não ter ultrapassado o francês rapidamente acabou com a corrida dele em relação ao Vettel. Aí tem uma curiosidade, Webber, na caça a Grosjean após o pit acionou o DRS antes da linha, e o flap não abriu. ele perdeu segundos precisosos que lhe custaram a ultrapassagem. Nessa era de Pirellis de farofa, uma volta a mais atrás de um carro rápido custa muito caro para a performance do pneu.

      • Mário Salustiano disse:

        amigos

        Sim também acho que houve uma perda de Weber nesse momento, acho até que a Red Bull quis favorecer Vettel quando adotou estratégias de paradas diferentes, mas revendo a ultrapassagem de Vettel sobre Grojean duas coisas me chamam a atenção, a primeira é como ele vem e faz algo bem mais estudado e arrojado, reparem que ele encosta faz a R130 colado e vai para o lado de fora, possibilitando a sua entrada na reta bem mais colado pois ele contorna a chicane com essa intenção, o outro ponto é que ele só abre o DRS quase no final da reta, ou o mecanismo não funcionou ou no calor da disputa ele esqueceu de acionar,e eles estavam com pneus do mesmo tipo de composto, evidente que com vantagem para Vettel por ter pneus mais novos, mas depois Weber vem com compostos mais macios e demora o tanto que demorou
        Falando em ultrapassagem, Massa falou tanto e para mim mais uma vez se afobou com a presença de Alonso, não soube se defender e acabou tomando uma ultrapassagem que parecia naquela hora facilitada, uma pena ele vir depois dizer que desobedeceu a equipe, tem determinadas coisas na vida que o silêncio fala melhor que palavras ele devia ter lembrado disso

        abrs

        Mário

      • Allan disse:

        Eu já tenho certeza – se o canguru perneta tivesse passado na primeira volta, iria facilmente alcançar Vettel e, com pneus mais macios e mais novos, o passaria, sem resistência, até, porque o alemão quer mesmo é faturar o canecão…

      • Fernando Marques disse:

        Flavis,

        pode ser que voce esteja certo mas o Webber me pareceu sempre mais rápido que o Vettel e não ganhou … a RBR previlegiou o Vettel com certeza … o fator Grosjean foi apenas uma surpresa inesperada …

        Fernando Marques

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