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Nome por extenso: Manuel Antonio de Teffé von Hoonholtz.

Linhagem nobre prussiana por parte do bisavô paterno, Friedrich Wilhelm von Hoonholtz. Linhagem nobre do Brasil Império por parte do avô paterno, Almirante Antonio Luís von Hoonholtz que, herói da Guerra do Paraguai, foi agraciado por D. Pedro II com o título de Barão.

O pai, Oscar de Teffé von Hoonholtz, casou-se com Da. Maria Mercedes da Costa Pereira, filha do Conde Manuel Antônio da Costa Pereira, empresário, banqueiro e um dos fundadores da famosa Fábrica de Tecidos Bangu.

Nair de Teffé, tia de Manuel, foi a primeira cartunista mulher do mundo e casou-se com o Presidente Mal. Hermes da Fonseca quando este estava no exercício do cargo.

Oscar, diplomata, estava à serviço do governo brasileiro em Paris quando Manuel nasceu, em 30 de março de 1905. Se isso não era um berço de ouro estava bem próximo disso.

Tendo sido campeão de esgrima na Universidade de Paris nas categorias florete e espada, o pai tornou-se a principal referência de Manuel no campo esportivo. Quando garoto, praticava remo e equitação. Aos 16 anos, ganhou uma Bugatti Brescia. Esse carro era um 1,4L de 4 cilindros, 16 válvulas, dois carburadores Zenith, entregando 30HP para puxar meros 300kg. Atingia 125 km/h de velocidade máxima.

Como qualquer adolescente desfrutando de um brinquedo de adulto,  Manuel não perdia oportunidade de explorar os limites dessa pequena mas valente máquina por toda Petrópolis. Sem licença de motorista, claro que obrigou Oscar a agir diplomaticamente inúmeras vezes junto à polícia local.

Quando o embaixador foi designado para servir o país em Viena, Manuel já estava apaixonado pela velocidade e aproveitou para fazer um estágio na fábrica de automóveis Gräf & Stift, tristemente célebre por ter fabricado o carro em que o Arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa foram assassinados, acontecimento que deu início ao primeiro conflito mundial.

Quando seu pai assumiu a embaixada da Itália, em Roma, Manuel contava 20 anos. O rapaz foi até Milão conhecer a Alfa Romeo, então uma das marcas européias de grande prestígio. Certamente aí encontrou o caminho para realizar sua paixão esportiva.

Em 1925, participa de uma prova no Circuito de Merluza, obtendo um terceiro lugar na geral e da Coppa Potenziani, vencendo na categoria. Em ambas com uma Alfa Romeo RLS, 3,0L, 71BHP.

Não compete no ano seguinte mas, em 27, com uma Alfa 6C, participa da 1a. Subida de Montanha de Monte Mário, das Coppa Gallenga de Merluzza e de Vermicino/Rocca di Papa e novamente da Coppa Potenziani. Quatro vitórias seguidas na categoria sobre quatro participações!

 

 

Observe: na época, não existiam escolas de pilotos nem academia de escuderias famosas. Sem experiência anterior em corridas, o rapaz se adapta bem e mostra talento desde o início, vencendo já em sua terceira participação. Vai ser um gentleman driver, como a grande maioria dos colegas da época. Nobre e dono de posses suficientes para bancar todas as suas despesas, mas competitivo. Só para dar dois exemplos, nos anos 50, início dos 60, competiram na Fórmula 1 o Príncipe Bira do Sião (hoje Tailândia) e o Conde Wolfgang von Trips.

Sobre o início de sua carreira parece que consta uma frase de Manuel na Revista de Automóveis, em entrevista do final dos anos 50:

 

– Mas o grande marco, o fato decisivo de minha carreira automobilística, aconteceria em Roma para onde meu pai fora designado como embaixador… 1927, o ano do meu início oficial” como corredor. A minha estréia foi brilhante! Nos anos seguintes tive diversas decepções… Mas é com vitórias e derrotas que se forja o verdadeiro desportista.”

 

Em 1928, participou da segunda edição da Mille Miglia a bordo de um Chrysler 72, fazendo dupla com a baronesa Maria Antonietta D’Avanzo, primeira mulher a participar daquela prova. Abandonaram por pane elétrica. A prova seguinte é o 1º GP Romano de Turismo, no qual obtém o segundo posto na categoria. Depois o 1º Circuito de Rimini, terceiro na geral.

Em 29, faz um 3º na categoria na Coppa Gallenga de Vermicino/Rocca di Papa e na Subida de Cimino. Todas essas provas a bordo da Alfa 6C.

Nesse ano teve um caso com a socialite italiana Wanda Barbini, também de ascendência nobre. Não se casaram, mas tiveram um filho, nascido em 21 de julho de 1930 no Palazzo Pamphilj, sede da embaixada brasileira. O menino Antônio Luís de Teffé cresceu com a família materna.  Quando adulto seguiu a carreira de ator com o nome artístico de Anthony Steffen, atuando em filmes spaghetti western.

Oscar de Teffé pareceu não ter aprovado o caso amoroso e mandou o filho de volta ao Brasil.

Para se ter uma ideia das posses da família e do amor paterno, convém registrar que Oscar construiu um castelo em estilo escocês em Petrópolis, que chamou de Castelo São Manoel, em homenagem ao filho.

 

 

Sendo competidor bem sucedido em provas de alto nível, Manuel tornou-se naturalmente famoso no Brasil e assim não foi difícil convencer o prefeito do então Distrito Federal, Pedro Ernesto Batista, a realizar um evento esportivo que atraísse atenções internacionais. E assim foi criada a Quinzena do Automobilismo, composta por três provas: Quilômetro Lançado, Subida da Montanha e o 1º Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, este no dia 8 de outubro de 1933. Manuel participou também da escolha do Circuito da Gávea para essa prova, um traçado urbano com quase 12 quilômetros de extensão que contornava o Morro Dois Irmãos.
Com sua Alfa 6C ele faz um 2º na 2a. Subida de Montanha de Petrópolis.

Confirmando o prestígio além-fronteiras de Manuel de Teffé, o 1º Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro tornou-se a primeira corrida automobilística brasileira de nível internacional e a primeira a fazer parte do calendário da Association Internationale des Automobile Clubs Reconnus, precursora da Federação Internacional do Automóvel, FIA.

Coroando dignamente seus esforços, Manuel foi o vencedor. Recebe os cumprimentos de dois chefes de estado: Getúlio Vargas, presente ao evento, e Benito Mussolini, que envia um telegrama de felicitações por ter corrido com uma Alfa Romeo.

Em 1934 faz um 5º na categoria com a 6C na Gávea. Em 35 participou novamente do Circuito da Gávea com sua nova Alfa Romeo 8C 2300 Monza obtendo um 6º na categoria.

Em 35, foi sexto nas 500 Milhas de Rafaela, na Argentina.

Em 36, vence o Quilometro de Arrancada do Rio de Janeiro, abandona no GP Thermal de Poços de Caldas, vence a Subida de Petrópolis, faz um 3º na Gávea, mesma colocação no GP Cidade de São Paulo (mais em http://gptotal.com.br/os-primeiros-a-beber-dessa-agua/) e um 4º no GP de Buenos Aires, sempre com a Alfa 8C 2300.

 

 

Em dezembro Manuel casou-se com Maria Luiza de Mello, com pompa e circunstância, nos suntuosos salões do palacete dos pais do noivo, no bairro de Botafogo, na época um dos bairros mais chiques do Rio. A elite carioca esteve presente en masse.

 

Foi proibido de participar do Circuito da Gávea de 37 devido a uma briga com o Automóvel Clube do Brasil, organizador da prova. Abandona na Subida de Montanha de Petrópolis e nas 500 Milhas de Rafaela. Talvez seu pior ano nas pistas.

 

Em 38, Manuel voltou à Europa para trabalhar no serviço diplomático brasileiro na Suíça e lá foi convidado pelo Conde Giovanni Lurani para competir pela Escuderia Ambrosiana, tendo como companheiro o famoso Luigi Villoresi.

Bom lembrar que nesse ano a disputa pelas primeiras colocações no circuito Grand Prix ficava restrita às esquadras da Mercedes e da Auto Union, com motores de 8 e 16 cilindros entregando mais de 600HP.

Com uma Maserati 6CM faz um 12º na categoria no XII GP de Tripoli, um 6º na geral na XXIX Targa Florio, 9º na geral no IV Circuito de Nápoles e um 5º na geral no V GP de Berna. Essa Maserati tinha motor seis em linha 1,5L, duplo comando de válvulas, supercharger Roots e carburadores Weber. 155BHP a 6200 rpm.

Manuel trouxe essa Maserati para o Brasil e com ela conquistou sua segunda vitória no Circuito da Gávea. Mas desta vez sem a participação de pilotos estrangeiros. Era outubro de 1939, início da Segunda Guerra Mundial.

 

 

Em 1940, participa apenas do Grande Prêmio São Paulo, prova inaugural do Autódromo de Interlagos (também abordada em coluna anterior), abandonando.

No ano seguinte, faz um 3º na Subida de Montanha de Petrópolis e obtém outro 3º no 1º Prêmio Cidade de Santa Fé, na Argentina. Sua corrida foi prejudicada porque, tendo enfrentado dificuldades para desembarcar o combustível, teve pouco tempo para treinar. Depois disso, vence a Subida da Tijuca e chega em terceiro no Circuito da Gávea, novamente com a participação exclusiva de brasileiros, em sua última corrida com essa Maserati.

Não participou de corridas em 42.

Em 43, plena era do gasogênio, vence a Subida de Montanha de Petrópolis, obtém um sexto no Prêmio Interventor Amaral Peixoto no Rio e um quinto no Prêmio Interventor Fernando Costa em São Paulo, a bordo de um Chevrolet.

A partir daí parou com as corridas para para se dedicar às atividades diplomáticas, seguindo os passos do pai.

 

 

Terminada a Guerra, correu o Circuito da Quinta da Boa Vista em 1946 com uma Maserati 4CL. A barra de direção quebra, causando um acidente que deixou sequelas no seu joelho esquerdo.

Durante a convalescença, se torna presidente da comissão esportiva do Automóvel Clube do Brasil. Nesse posto, Manuel foi árbitro geral da prova 1º Prêmio Crônica Esportiva, realizada em Interlagos em 19 de abril de 1948 e diretor geral da corrida no 1º Grande Prêmio Cidade de Santos, em 26 de dezembro desse ano.

Só voltou a correr em 1950, obtendo um 6º no Circuito da Quinta da Boa Vista, um 3º na Subida da Gávea e um 2º na Subida do Joá. Na Quinta da Boa Vista Juan Manuel Fangio foi o vencedor e Chico Landi ficou em segundo.

No dia 30 de outubro de 1951 chegou ao Brasil a milionária tcheca Dana Edita Fischerova, vinda do México, onde havia se separado de seu terceiro marido. No Rio, em um jantar de gala, conheceu o diplomata Manuel de Teffé e começaram um romance.

 

 

Em fevereiro de 52, Manoel participou do Circuito da Quinta da Boa Vista, voltando a usar um Alfa Romeo (8C 308), obtendo a sétima colocação. Em seguida foi para a Cidade do México assumir o cargo de segundo secretário da embaixada brasileira e casar-se com Dana.

Lá encontrou um amigo, o príncipe Paul Alfons von Metternich, e este o convidou a participar em dupla da terceira edição da Carrera Panamericana, em um Porsche 356. A prova cortava as cidades de Tuxtla Gutiérrez e Juárez, na fronteira do México com os Estados Unidos, tendo mais de três mil quilômetros. O regulamento permitia que ambos pilotassem, não havendo navegador. Os vencedores foram os alemães Karl Kling e Hans Klenk, pilotando uma Mercedes-Benz 300SL. Manoel e Metternich chegaram na oitava colocação na categoria esporte, depois de 23 horas de prova.

 

“- Dirigíamos em estradas variadas e fizemos a corrida a uma média de 135 km/h.” contou Manuel numa entrevista de 1965.
Em 53, ele foi promovido a primeiro secretário e transferido para Montevidéu, no Uruguai, onde ficou até 1956, quando foi para o consulado de Toronto, no Canadá.

Lá, participou da Indian Summer Trophy Race, com uma Maserati A6GCS, mas não se sabe sua classificação. Em dezembro, participou daquela que se tornaria, talvez, sua última prova, Governor’s Trophy 2000cc, no Windsor Air Field, onde hoje é o Aeroporto Internacional Lynden Pindling, em Nassau, capital das Bahamas. Classificou-se em 34º lugar na geral e em 13º na categoria, com a mesma Maserati.

 

 

O casal Dana e Manuel de Teffé retornou ao Brasil em 1958, indo morar em Copacabana. Mesmo sem competir Manuel manteve-se próximo do automobilismo.

Na inauguração de Brasília, em 1960, ele idealizou e colaborou na organização do 1º Grande Prêmio Juscelino Kubitschek, ocorrido em 23 de abril, dois dias após a fundação da cidade.

Em 1961, ele é designado para exercer as funções de cônsul geral em Marselha. Em junho desse ano seu sobrenome toma conta das manchetes, por motivos alheios e sinistros: sua ex-esposa Dana foi supostamente assassinada quando viajava de carro pela Via Dutra, em direção a São Paulo, em companhia de seu advogado Leopoldo Heitor. Este cuidara da separação e tinha procuração para cuidar de seus bens, os quais passou para seu nome tão logo Dana desapareceu. Leopoldo Heitor apresentou três versões completamente diferentes para o desaparecimento durante o processo de julgamento. Acabou sendo absolvido pois o corpo de Dana nunca foi encontrado.

Em 1965, Manoel foi promovido a ministro de segunda classe e alocado em Honduras como embaixador extraordinário. Morreu pouco depois, com quase 62 anos de idade, no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, e foi sepultado em Petrópolis.

 

Fontes: wikipedia e www.bandeiraquadriculada.com.br

 

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

4 Comments

  1. Carlos disse:

    Olá Fernando. Acho pouco provável que tenha algum inteiro. Durante os anos 70 houve uma proibição de importação de carros, que só caiu com o governo Collor. Muita gente aproveitou o que já estava aqui mudando as características originais.

  2. Fernando Marques disse:

    Chiesa

    Manuel de Teffe pelo visto bom de volante
    E bom vivant …
    Muito bacana a história.onde estará os carros que ele correu aqui no Brasil. Será que tem algum inteiro?

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    Mais uma história sensacional.
    Um brasileiro com sangue nobre europeu. Época da aristocracia era rica e tinha muito poder.
    E um final de vida bem drástico e complicado.
    Mas pelo visto, brilhou muito nas pistas.

    Muito bom a história.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Cazarré disse:

    Mais um belo trecho da história do automo bilismo, trazido pelo Mestre Chiesa. Aguardando ansioso as próximas estórias (histórias?)!

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