“Semper Fidelis”

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A "Silly Season" de férias aponta para a possibilidade de Sebastian Vettel sair da Red Bull, equipe na qual ele está há 15 anos. Você crê na fidelidade do alemão?

Desde 1883, o famoso corpo de marines norte-americanos, as tropas de elite estadunidenses, tem como lema a frase latina “Semper Fidelis”, que significa sempre fiel. Outras unidades de outros exércitos, como Chile, Canada, Reino Unido ou Portugal, também exibem com orgulho esse mesmo lema, cujo cumprimento ao pé da letra representa não apenas seu dever, mas também a máxima obrigação entre seus membros e uma satisfação pessoal.

Sempre que se pretende citar algo importante ou enfatizá-lo, o latim é o idioma ao que se recorre. Assim, se consegue dotar o conceito aludido de respeitabilidade e credibilidade da maneira mais rotunda possível. Neste caso, estas duas palavras – Semper Fidelis – sintetizam de maneira inequívoca as virtudes de fidelidade e lealdade às que se refere o lema, situando-as acima de qualquer dúvida e deixando claro que ditos valores não são, em nenhum caso, negociáveis ou relativos, mas algo absoluto, permanente e irrenunciável… sempre.

Depois de vários meses de diversas conjeturas, alimentadas por noticias e boatos de todo tipo sobre qual seria o destino imediato de Sebastian Vettel, recentemente ficamos sabendo que o alemão acabou prolongando seu contrato com a Red Bull, que expirava em 2014, até a temporada de 2015. Assim, o tandem Red Bull – Vettel se mantem por outros dois anos, desmentindo os rumores sobre sua possível, e até próxima, passagem à Ferrari ou à Mercedes.

Nesses meses de boatos, Helmut Marko, diretor do programa de jovens pilotos da Red Bull, chagaria a dizer: “A base para que Vettel continue conosco é dar-lhe um carro ganhador. Sebastian ira aonde consiga o melhor equipamento possível e que lhe ofereça a maior possibilidade de vitória”. Dito assim, a afirmação de Marko parece bastante lógica, no entanto me pergunto se essa é toda a base para manter Vettel na equipe. Se for… me resulta algo até triste.

Recordemos que foi o próprio Marko quem “descobriu” Sebastian e o levou ao programa de jovens pilotos da Red Bull em 1998, quando o alemão contava apenas com 12 anos de idade. Vettel, portanto, cresceu no seio da equipe e me resulta difícil imaginar que, em todo esses anos, não se tenha desenvolvido algum vinculo menos materialista que fosse além do simples interesse de um por vencer e dos outros para que isso aconteça. Que estiveram criando durante todos esses anos: uma máquina de vencer e só de vencer… custe o que custar?

É bastante frequente ouvir comentários no sentido de que um piloto deve buscar o melhor equipamento possível, e que esse deve ser seu principal objetivo para triunfar. Não me atrevo a discordar dessa afirmação, mas, quando vejo esse tipo de comentários, sempre me pergunto se isso deve ser feito… a qualquer preço.

Felizmente, a rica história da formula um nos brinda belos exemplos de pilotos que não se deixaram cegar por promessas de vitória ou glória, e que não se sentiram atraídos por contratos vultuosos, mantendo-se fiéis a aqueles que os haviam apoiado e cumprindo o velho ditado popular que diz: “Quando saborear a fruta, recorde quem plantou o árvore“.

Um desses pilotos foi Piers Courage. O britânico começou sua carreira em 1964 na formula 3. Em 1965, ainda na F3 e integrado na equipe de Charles Lucas, Piers coincidiria com um tal Frank Williams, iniciando-se uma boa amizade entre ambos. Suas carreiras se mantiveram separadas algum tempo mas, quando Williams fundou sua equipe de Fórmula 2 para a temporada de 1968, Frank não hesitou em chamar o amigo, apesar de que a carreira deste parecia estagnada e sem futuro, após uma pouco afortunada passagem pela Fórmula 1.

Para 1969, Frank decide aventurar-se na formula 1 e Courage é novamente o piloto escolhido. Com um Brabham BT26 alugado e pouco competitivo, Courage conseguiria melhores resultados dos que caberia esperar, principalmente os dois segundos lugares em Mônaco e EUA e uma sensacional corrida em Monza.

Esse grande rendimento de Courage, não passou despercebido e varias equipes se interessam em contratá-lo. Ferrari lhe convida a formar parte da Scuderia e lhe convoca a uma reunião. Assim, durante sua visita a Maranello, Piers veria com seus próprios olhos os enormes recursos que a equipe poria à sua disposição e, na entrevista mantida com o velho comendador Enzo, este lhe chega a oferecer um tentador contrato para 1970 de 30.000 libras (dez vezes mais do que ganhava com Frank Williams!).

Porém, nada disso foi suficiente para que Piers deixasse seu amigo Frank, o homem que lhe apoiou quando sua carreira parecia definhar e ninguém já contava com ele. Sally, a esposa de Piers contaria algum tempo depois o que seu marido lhe disse então: “Frank me conhece e me entende. Eu confio em Frank e ele confia em mim!”. Para Courage, isso era algo que nao tinha preço! Infelizmente, o destino lhe havia reservado um triste fim, pois Piers perdería a vida alguns meses depois no GP da Holanda, ao volante de um carro de seu amigo Frank.

Na quarta-feira, confira a segunda parte dessa coluna.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

10 Comments

  1. Lucas disse:

    Ando lendo os livros do Nigel Roebuck, e que arrependimento de não o ter descoberto antes – são muitas as histórias (todas deliciosas e escritas com um estilo brilhante) de pilotos com exatamente essa mentalidade, ou com um grau de humildade e honestidade que parece inconcebível na F1 atual, onde, aparentemente, os valores definitivamente são outros. Tanto entre pilotos como entre “fãs”, vide por exemplo a geração atual fazendo troça, por exemplo de um sujeito como Stirling Moss. Com a aposentadoria de Fangio, praticamente todo mundo passou a considerar Moss o melhor piloto do grid, mas sua fidelidade aos carros de seu país (e a outro gentleman do esporte, Rob Walker) tirou-lhe a oportunidade de possivelmente ganhar um punhado de campeonatos.

    Eu fico com aquela máxima – há quem diga que o fato de Moss nunca ter ganhado um título diminui seu valor como piloto; talvez seja mais preciso dizer que o fato de Moss nunca ter ganhado um título diminui o valor do campeonato de pilotos.

    • Mario Salustiano disse:

      mandou bem Lucas

      considerando o mercantilismo que impera a tempos nas F1 de uma certa forma Vettel está sendo fiel a quem o descobriu e abriu suas portas na F1 ,como já mencionado o atual salario dele é baixo considerando já ter ganho três títulos, mesmo levando em conta a questão do carro ser um vencedor potencial para os próximos anos a de se louvar sua atitude , pelo menos por enquanto

      abraços

      • Lucas disse:

        Acho que é um bocado cedo para afirmar que Vettel está na Red Bull por “fidelidade”. Vettel chegou na equipe principal da Red Bull em 2009, e já na segunda metade daquele ano a equipe passou a ter o melhor carro do grid na enorme maioria das corridas. As poucas crises (se é que dá pra chamar de “crise” os raros momentos em que a Red Bull não parecia capaz de brigar por pole e vitória) jamais foram motivo para causar qualquer preocupação para Vettel, e, sendo assim, é fácil ser “fiel” em condições como essas. Mas se por um motivo ou outro a Red Bull resolvesse cortar drasticamente o orçamento para a F1 e, digamos, dispensar Adrian Newey, será que Vettel continuaria lá até as coisas melhorarem (se melhorassem)? Uma boa dica para responder essa pergunta é o próprio fato de que Vettel só renovou o contrato com a Red Bull após a equipe confirmar que Newey tinha sido também confirmado para as temporadas seguintes. O que me lembra o que aconteceu com Schumacher: alguns dizem ser coincidência, mas é digno de nota que após Rory Byrne anunciar que ia abandonar a F1 após o fim da temporada de 2006, o alemão escolheu precisamente a mesma data para ele próprio se aposentar, apesar do fato de que Montezemolo ainda queria ele lá – fidelidade à Ferrari ou preocupação em não ter um bom carro?
        Tentando buscar um exemplo recente como os dos “velhos tempos” só consigo pensar no Mika Häkkinen. Começou na McLaren quando a equipe já não era a potência que foi, passou por períodos onde a equipe amargava resultados pífios sem qualquer perspectiva de melhoras (quatro anos seguidos no quarto lugar dos construtores, as vezes com um abismo de pontos pra equipe em terceiro), e felizmente foi recompensado com os excelentes carros de 98 e 99. E foi lá, também, que ele se aposentou. Creio que Mika tenha sido o último piloto com essa mentalidade.

        • Mario Salustiano disse:

          Lucas
          sem dúvida não é uma questão muito fácil de abordar, mesmo no caso de Hakkinen olhando hoje de forma mais ampla que opções ele teria na época para mudar de equipe? não por vontade própria mas nenhuma equipe demonstrou algum interesse, essa coisa de fidelidade também é um terreno bem arenoso, acho que puxando pela memória, apenas Clark foi fiel no conceito de nunca ter procurado outra equipe para pilotar, na alegria e na tristeza, minha referência a Vettel tem como base apenas o fato de tá bom ele fica por conta do carro, mas ganharia um caminhão de dinheiro se mudasse e já levaria os três títulos como satisfação de ter ganho, talvez até ele pense assim quando tiver 4 ou 5 títulos, isso só o futuro dirá

          abraços

        • Lucas disse:

          Sempre li que não faltaram ofertas de outros times para Hakkinen (mais em sites/revistas, preciso comprar uma boa biografia dele), então acho que faria sentido sim colocá-lo no time dos que se mantiveram fiéis a um time “na alegria e na tristeza”. E como a McLaren, no período de 93 a 2001, teve bem mais tristezas que alegrias, nem era questão de precisar pagar uma fortuna para tirá-lo de lá.

          Quanto ao Vettel, eu tenho minhas dúvidas se teria mesmo gente disposta a pagar “um rio de dinheiro” para ele em outra equipe. Essas votações que quase todo ano fazem entre pilotos e dirigentes de equipes para escolher o melhor piloto do grid vêm repetindo o mesmo resultado desde o fim de 2009 – de lá pra cá Vettel ganhou três campeonatos seguidos e ainda assim não é considerado o melhor piloto do grid, o que imagino ser um forte indício de que as pessoas (mesmo entre quem trabalha no esporte) ainda não se convenceram de que os resultados de Vettel são fruto mais do seu talento que do carro que ele tem, e isso certamente pesa na hora de negociar um “caminhão de dinheiro” em outra equipe. Não são tantas equipes assim que poderiam contratar um piloto a peso de ouro, e como Ferrari, Mercedes e Lotus já têm Alonso, Hamilton e Kimi Räikkönen (três pilotos que boa parte das pessoas considera no mínimo tão bons quanto o Vettel), não há muito poder de barganha para cobrar um caminhão de dinheiro nessas equipes. Especialmente a Lotus, que paga, pelo que dizem, só um quarto do salário do Vettel para o Kimi. Assim, a única equipe que talvez pudesse oferecer o tal “caminhão” para Vettel seria a McLaren, que de fato tem dinheiro para pagar um bom salário e atualmente tem uma dupla que muitos questionam – só que o Whitmarsh recentemente falou que Vettel, “apesar de ser um piloto impressionante, nunca vai ser reconhecido enquanto guiar pela Red Bull”, o que sugere que, também pelas bandas de lá, os números impressionantes de Vettel são considerados mais o fruto dos excepcionais carros que Newey vem fazendo nos últimos anos que de um talento fora do comum de Vettel que justificasse mover mundos e fundos para tê-lo como piloto. Tenho quase certeza que se qualquer outra equipe tivesse a oportunidade de contratar Vettel ou Newey pelo mesmo valor, fariam a segunda opção. Tanto é que é boatos sobre equipes assediando Vettel são mais raros que os que involvem Kimi ou Alonso, que não ganham um campeonato há um bom tempo. E no caso de Hamilton, o que dizer da inesperada mudança para a Mercedes?

  2. Allan disse:

    Bem, sinceramente não conheço piloto que vista tanto a camisa a ponto de se manter em uma barca furada por muito tempo… Até porque a relação de Vettel, seja de empregado-modelo ou de “filho”, certamente tem bastante desgaste, mesmo com vitórias e títulos. Piquet, Senna, Schumacher e Hamilton são claros exemplos de pilotos que tinham equipes vencedoras e à sua disposição quando resolveram mudar de ares… Claro, há várias circunstâncias que cercam – o melhor carro naquele momento é o do vizinho, falta de tempo para desenvolver o fruto da casa, mais grana… No caso do Hamilton poderia até ser bem parecido com o de Vettel caso este, se perder o campeonato de 2014 (2013, sabe cumé, já foi…) quiser mudar de equipe. O tratamento é de FILHO, com os benefícios e cobranças que isso traz. É diferente, por exemplo, de Schumacher na Ferrari, em que ele era muito mais PATRÃO, onde só mandava menos que o Montezemolo… Nos tempos de hoje, é quase impossível um profissional correr “por amor”…

    • Fernando Marques disse:

      Eu vejo que os interesses financeiros envoltos na Formula 1 não permite tais fidelidades … mas no caso de Vettel vale um elogio, pois atualmente ele é o maior vencedor em atividade e não ganha nem 1/3 do que Hamilton e Alonso ganham … e no caso esta renovação dele com a RBR até 2015 até me surpreendeu pois certamente em termos de salario ele não deve ter recebido um aumento tão grande … o que não ocorreria caso ele fosse para Ferrari …

      Fernando Marques

  3. Fernando Marques disse:

    Salve Manuel!!!
    Se querem saber da historia da Formula 1, nunca deixem de ler a coluna dele

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Mauro Santana disse:

    Mais uma bela coluna Manuel!

    E que chegue logo quarta-feira.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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