Senna e Vettel

Em defesa de Tilke
15/11/2011
Em acusação a Tilke
21/11/2011

Há uma coerência insuspeita nos números de Sebastian Vettel em relação aos de Ayrton Senna: com metade dos GPs disputados, o alemão já obteve metade das vitórias, das poles, dos pódios e das voltas mais rápidas do brasileiro.

 

Eduardo Correa lançou duas questões em sua última coluna, ao falar sobre Sebastian Vettel. Edu indagou se Vettel seria tão melhor que Hamilton e Alonso devido, especialmente, aos discrepantes desempenhos da temporada 2011, e se o alemão poderia perder performance caso seu equipamento deixasse de ser o melhor de todos.

Vou tentar responder a ambas as questões, primeiramente focando na questão do equipamento: é comum, bastante comum, aliás, ouvir que “é só por causa do carro” e que “Vettel não é tudo isso”.

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Parece tolice ter que realmente argumentar sobre a existência de verdadeira qualidade em um piloto que já é bicampeão mundial e que está muito próximo de ser o 3º maior “poleman” da história, mas é isso mesmo o que acontece. Claro que existem exageros, colocando o jovem alemão como novo Schumacher/melhor que Senna/etc, mas isso faz parte da sede que nossa época tem em destruir o passado: querem Messi melhor que Pelé e Neymar melhor que Messi. Agora.

No entanto, parece-me ainda mais exagero pensar que Sebastian não é genial. Partindo do princípio em que poucos, mesmo com carros majoritariamente superiores, foram os domínios na Fórmula 1, já podemos ver que há algo diferenciado em Vettel.

No último GP, o vimos igualar a marca de Mansell em 1992, o recorde de 14 pole-positions numa mesma temporada. A princípio – e este colunista fez parte do time – a primeira reação é valorizar mais a marca de Mansell por ter sido ela conquistada com duas oportunidades a menos que Sebastian teve. Porém, uma análise cuidadosa do contexto nos indica que talvez seja a marca de Vettel a com maior valor, pois é fato que, mesmo sendo o melhor carro do ano, a Red Bull de 2011 não dispõe de uma vantagem tão grosseira quanto a Williams de 1992.

Além disso, Mansell obteve marca tão expressiva somente uma vez em sua carreira (foram 16 poles nas outras 11 temporadas completas que disputou) enquanto que Vettel já está em seu segundo ano dominando os treinos: com as poles do ano passado, se tornou o primeiro piloto desde Ayrton Senna a marcar 10 ou mais em temporadas seguidas.

Sempre fui da ideia de que números não podem ser parâmetros para medir se um piloto é melhor que outro, a não ser que corram na mesma equipe ou em contextos parecidos (por exemplo, Alonso X Hamilton nas últimas duas temporadas). No entanto, os números servem para mostrar o quanto um piloto é bom…

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Com o abandono prematuro no GP de Abu Dhabi, Vettel perdeu a chance de igualar a marca de vitórias/temporada de Schumacher, que em 2004 venceu 13 GPs. No entanto, assim como dito quanto às poles de Mansell, as 11 – quem sabe 12? – vitórias de Vettel em 2011 me parecem ainda mais valiosas que aquelas de Schumacher.

Vettel tem uma concorrência maior que a que Schumacher enfrentou: é fato que Webber não é melhor que o Barrichello de 2004, e que o alemão também tinha Button e Alonso como adversários naquela temporada. Mas estes eram, além de pilotos de uma BAR e Renault inferiores às McLaren e Ferrari atuais, apenas uma amostra dos grandes pilotos que seriam hoje, 7 anos mais tarde. E ainda há Hamilton como adversário direto.

Além disso, ao que tudo indica a supremacia de Vettel ante Webber dentro da equipe veio de forma mais natural do que a de Schumacher sobre Rubens (mesmo não havendo qualquer questionamento sobre a diferença de talento pró-Schumy).

Curioso para saber dos recordes já conquistados –e daqueles ainda por vir– por Sebastian Vettel, acabei encontrando dados muito interessantes.

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Eu já havia mencionado, após o GP da Inglaterra, que Vettel chegara a 13 GPs liderados consecutivamente, se tornando o terceiro nesse aspecto. A prova seguinte aconteceria em Nürburgring, onde ele teve sua única exibição abaixo da média na temporada, e ele não conseguiu aumentar esse dado. No entanto, após o GP alemão, Vettel liderou, ao menos por uma curva, todas as 8 etapas seguintes. Resultado: ele foi líder em 21 dos últimos 22 GPs, algo que não encontra paralelo na história.

E por falar em sequências, Vettel perdeu a chance de, nos EAU, superar outra marca talvez mais impressionante de Schumacher: até então, Seb havia pontuado seguidamente em 19 provas, 5 atrás do recorde do heptacampeão, que foi de 24 entre o final de 2001 e o início de 2003. Mas, novamente: em suas 19 provas, o atual campeão obteve apenas uma quarta colocação, enquanto que Michael teve dois quartos e um sexto em seu recorde.

Mais duas marcas impressionam: Vettel já tem 16 vitórias em circuitos diferentes: das 21 que obteve, apenas 5 foram “repetidas”. Nesse critério o recorde também é de Schumacher (23 foram as pistas onde Schumy venceu uma ou mais vezes), e o mais jovem bicampeão da história ainda persegue Prost (22), Mansell (19), Alonso (18) e Senna (17). Poderíamos novamente incorrer no erro de desvalorizar as marcas de Sebastian porque “inventam pistas a toda hora”. Porém, essa é uma via dupla: Vettel tem um aproveitamento absurdamente alto em pistas estreantes.

Sem muito esforço, podemos notar que em Abu Dhabi (venceu as duas primeiras e fez a pole na última), Coreia (ganhou a segunda e na primeira liderava tranquilamente quando teve uma falha mecânica), Valência (ganhou as duas últimas das 4 edições) e Delhi (venceu a única edição) o domínio de Vettel é completo, tendo vencido 6 de 10 provas, e feito a pole também em seis ocasiões. Tudo isso se deve à sua capacidade de adaptação, haja vista que em algumas vezes o RBR não foi o melhor equipamento.

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Outro número que vem a reforçar ainda mais a qualidade do alemão são suas, até aqui, 16 provas em que obteve pole e vitória no mesmo GP: ele já é o quinto na estatística, apenas uma atrás de Mansell -portanto, podendo igualá-lo em Interlagos- e duas de Prost. Depois, terá pela frente as 29 de Senna e as 40 de Schumacher.

Aqui, aliás, cabe uma comparação com o brasileiro.

Há uma coerência insuspeita nos números de Vettel em relação aos de Senna: com metade dos GPs disputados por Ayrton, Sebastian obteve metade das vitórias, das poles, dos pódios e das voltas mais rápidas. Assim como Senna, o número de pole-positions é altíssimo e o de melhores voltas é relativamente “baixo”. Característica clara dos descendentes, como já explicou-nos Márcio Madeira, mas acima de tudo uma grande semelhança entre os dois.

Não é exagero dizer que Vettel assume o papel de Senna da atual geração. Aliás, estamos num “déja-vu” do quarteto fantástico daqueles anos 80: Mansell, Piquet e Prost também estão muito bem representados.

Mas isso é assunto para a segunda parte dessa coluna.

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Bom fim-de-semana a todos

Marcel Pilatti

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

4 Comentários

  1. Alexandre disse:

    Parabens pela coluna. Eu apenas acho que Button e Alonso ja eram excelentes pilotos em 2004 (alonso seria o campeao logo em 2005).
    Vettel recentemente disse que o carro de 2010 tinha uma superioridade maior que o desse ano. Eu tendo a aceitar, se olharmos para o que Webber fez (2010) e faz (2011). Entao, o diferencial seria mesmo o alemao, mais confiante e maduro?
    Eu nunca vi um piloto tao jovem ser ao mesmo tempo tao rapido e experiente. Em 1 ano Vettel aprendeu a administrar corridas e me parece ser essa a unica razao para que ele nao faça voltas mais rapidas.
    Alexandre.

  2. Rogerio disse:

    Não gosto de comparações entre pilotos.
    Já entre carros… A Ferrari de Schummy e a Willians de Mansell disputavam um campeonato e as outras equipes, outro.
    Não vejo a Red Bull tão superior assim. Acho que ano passado a superioridade dela era maior.
    Acho Vettel um piloto excepcional e ponto.

  3. costajúnior disse:

    De fato, é um absurdo dizerem que Vettel só consegue seus resultados devido ao carro que tem. Da mesma forma que é absurdo dizerem que o sucesso de Schumacher ou de Senna só se deram devido a possuirem equipamento superior aos dos demais.Todos os três tem talento, embora não caiba a mim mensurar quem é melhor ou pior. Entretanto, a F1 de hoje se tornou muito estável devido a altíssima teconologia de materiais, pistas não muito bem projetadas e carros com pouco torque. Embora respeite a opinião de muitos que tentam de fato “provar” que os pilotos ou atletas de hoje são superiores aos demais, é preciso levar em conta que disputar uma corrida de F1 em que existem pouquíssimas possibilidades de quebras, saídas de pistas e outros contra-tempos parece muito mais simples que pilotar a F1 de 15, 20, 30 anos atrás. Sei que muitos me interpretarão mal, mas o único piloto da atualidade que vejo com qualidades suficientes para brigar com os grandes do passado,incluindo Senna, Mansell, Piquet e Prost é Fernando Alonso. A propósito, recentemente fiz uma comparação entre os tempos de volta em algumas pistas como Brasil, Japão, Bélgica, Monza e Hungria e descobri que em 1991 os carros estavam mais rápidos que os atuais e quase tão rápidos quanto os V10 de até 2005. Quero ainda acrescentar que não “torço” para nenhum piloto em especial.

    CostaJúnior

  4. Fernando Marques disse:

    Eu não sou muito chegado a numeros para dizer se um piloto é melhor ou não que outro … mas não se pode negar o alto grau de qualidade do Vettel principalmente depois daquela ultrapassagem sobre o Alonso em Monza … acho que outro fator que demonstra o tão quanto é bom o Vettel é só fazer uma comparação com Webber que possui o mesmo equipamento e não venceu uma corridazinha sequer este ano ainda … um outro fator é saber que o Massa continuaria sendo a mesma porcaria se tivesse um equipamento igual ao do Vettel …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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