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Em alguns anos, dizer que Alonso é(ra) melhor que Vettel ou Hamilton não passará de conversa de botequim.

O delírio é quase sempre melhor que a realidade, o que talvez explique o sucesso dos livros de ficção, das novelas e do álcool. E talvez tenha sido pela tristeza em ver Fernando Alonso fazendo cosplay de Zsolt Baumgartner que me entreguei ao delírio na coluna passada. É triste imaginar que aquele jovem piloto – sedento por vitórias, às vezes estabanado, que vi desde a Fórmula 3000 e testemunhei tornar-se um gigante – é hoje praticamente um ex-piloto em atividade.

No próximo dia 29, Alonso completa 34 anos. Está em sua 14ª temporada na Fórmula 1, conquistou dois títulos mundiais, 32 vitórias e 22 pole positions. São números maiúsculos, que ainda os colocam entre os grandes da história, mas pertencem cada vez mais ao passado. A última vitória veio há mais de dois anos, no GP da Espanha. Não larga em primeiro no grid há mais tempo: desde o GP da Alemanha de 2012. E, a menos que o delírio da coluna anterior se confirme, é difícil imaginar que Alonso não esteja mesmo no ocaso de sua carreira.

Não quer dizer que, daqui alguns anos, o espanhol vá andar por aí e ser apontado como um fracasso ambulante. Fazem companhia a ele, no clube dos bicampeões de Fórmula 1, os míticos Alberto Ascari, Jim Clark, Graham Hill, Emerson Fittipaldi e Mika Hakkinen. Ascari e Clark, ceifados da vida em plena atividade automobilística, poderiam ter ido além nas estatísticas. Hill e Hakkinen, por sua vez, completaram longas carreiras na Fórmula 1 e parecem ter aproveitado as oportunidades que o esporte lhes deu.

É provável que a história mais parecida com a de Alonso seja a do brasileiro Emerson. Ambos, após conquistarem dois títulos, fizeram escolhas que prejudicaram suas carreiras. Emerson, todo mundo sabe, largou a McLaren para juntar-se ao irmão Wilson no sonho (delírio?) de uma equipe própria. Depois de conquistar 14 vitórias na categoria (nove pela Lotus, cinco pela McLaren), Emerson disputou mais 60 corridas pela equipe com o nome de Copersucar, e outras 14 já como Fittipaldi. Alcançou o pódio duas vezes mais: um segundo lugar, no GP do Brasil de 1978, e um terceiro, no GP dos EUA-Oeste, em 1980.

O mau passo de Alonso parece, de forma cada vez mais clara, a saída da McLaren ao final de 2007. O péssimo relacionamento na equipe o levou a passar dois anos de semiostracismo na antiga equipe, a Renault. A temporada não foi de todo ruim, já que o espanhol conquistou duas vitórias no período. Uma delas, diga-se, a mais que suspeita corrida de Cingapura de 2008, aquela da fraude protagonizada por Nelsinho Piquet. Naquele período, Alonso estava com 27 anos, era bicampeão do mundo. Ou seja, um esportista ao mesmo tempo jovem e experiente. Poderia – e deveria – ter sido a peça que movimenta todo o resto do tabuleiro.

Ao optar pela Ferrari, a partir de 2010, Alonso caiu no canto da sereia. Que piloto diz não para a Ferrari? Pela mística, sim, mas também pelo salário sempre polpudo que o time de Maranello se dispõe a pagar a seus medalhões. Na Ferrari, Alonso conquistou onze vitórias e foi vice-campeão três vezes. Muitos dólares no banco, muitas capas de revista, três vezes o primeiro entre os perdedores, enquanto Sebastian Vettel consolidava sua dinastia. O declínio da Red Bull e a ida de Vettel para a Ferrari em nada se assemelham à decisão de Alonso. O espanhol desembarcou em Maranello sob dupla pressão: a de recolocar a Ferrari em um ciclo de vitórias e títulos, como na era Schumacher, e a de ampliar seu próprio recorde pessoal de títulos mundiais.

Vettel, ao contrário, escolheu o caminho da Ferrari por razões diversas. A mais importante, provavelmente, para melhorar seu salário, tido como “modesto” na Red Bull. Reviver os tempos do compatriota heptacampeão deve ter soado como um desafio interessante para Vettel, e sua obstinação alinha-se ao tamanho da empreitada. No entanto, o desafio pessoal – depois de quatro títulos seguidos – parece bem menor que o de Alonso, cinco anos atrás.

De volta ao passo em falso de Alonso, no já distante 2007, cabe outra reflexão. Seu afastamento da McLaren, e consequentemente das vitórias, impediram que ele se confrontasse novamente com Lewis Hamilton, embotando uma rivalidade que poderia reviver os grandes duelos da história da Fórmula 1, como Ayrton Senna x Alain Prost ou Nelson Piquet x Nigel Mansell. Hamilton permaneceu na McLaren nos tempos das vacas magras, e também mudou de equipe atraído por um salário melhor. Mas encontrou, na Mercedes, um time pronto para um novo ciclo vitorioso.

Desta forma, não é difícil antever que, ao período ultravencedor de Vettel, está se estabelecendo um ciclo de dominação de Hamilton. E não é exagero dizer que Alonso, extraordinário piloto, entrará para a história como um hiato entre a era Schumacher e a grande fase de domínio protagonizada por Vettel e Hamilton. Eu, que me encantava com o ímpeto do jovem espanhol nas manhãs de sábado, vendo as corridas de Fórmula 3000, acho pouco para ele. Mas não deixo de me arriscar em um pensamento, que certamente vai me colocar em litígio com os fãs de Alonso.

Em alguns anos, delírio à parte, o mundo da Fórmula 1 deverá reconhecer Hamilton e Vettel como pilotos melhores que o espanhol, e será difícil contradizer. A menos com ficção, enredo de novela e, talvez, um pouco de álcool.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

3 Comentários

  1. wladimir duarte disse:

    Quando Alonso estava na Ferrari o chamaram de Moss com título. Se continuar desse jeito em pouco tempo vão chama-lo de Jacky Ickx com título. Pois já conta quase três anos sem vitória.

  2. Fernando Marques disse:

    Aleesandra,

    eu penso que a chamada era de domínio Schumacher/Ferrari dificilmente será repetida na Formula 1 … e se vale uma teoria de conspiração, eu penso que a mudança no regulamento que culminou no declínio da RBR e ascensão da Mercedes foi feita exatamente para que Vettel/RBR não repetisse o feito de Schumi/Ferrari … e nesse caso o Hamilton se encaixava melhor neste enredo com a Mercedes do que o Alonso …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas dos Santos disse:

      De pleno acordo! Sempre haverá mudanças no regulamento para impedir domínios como esse. Vamos ver o que vão fazer no futuro para “parar” a Mercedes…

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