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Tudo sobre as 500 milhas de Indianápolis, edição de 2015, que coroou Juan Pablo Montoya pela segunda vez.

Mais uma edição das 500 Milhas de Indianápolis. E, numa corrida com tamanha tradição, ligações históricas brotam naturalmente. Foi particularmente interessante ver um piloto vencer após 15 anos desde seu primeiro triunfo.

E quanta coisa aconteceu nesse tempo para Juan Pablo Montoya. Em 2000, ele era um fenômeno da Cart, oriundo da extinta F-3000 – descoberto pelo mesmo Helmut Marko que levou Sebastian Vettel a um tetracampeonato. Montoya era substituto a altura do arrasador Alex Zanardi na Chip Ganassi, uma vez que vencia o título já em seu primeiro ano na categoria, 1999, feito comparável ao de Nigel Mansell em 1993.

Era o quarto título seguido da Ganassi, que já vinha de taças para Jimmy Vasser em 1996 e o próprio Zanardi nos anos seguintes, sempre com o pacote Reynard-Honda-Firestone. Isso fez com que a Cart “sugerisse” que Chip deveria rever seus conceitos, e em 2000 Montoya foi “obrigado” a correr de Lola-Toyota-Firestone. Apesar de bom em ovais, o pacote deixava a desejar nos mistos, e isso privou Juan Pablo de tentar o bi.

httpv://youtu.be/NGhYZ7L1n0Q

Mas Chip – um pouco por provocação, e muito por dinheiro – resolveu voltar à Indianápolis. Ninguém da Cart pisava no jardim da IRL desde a cisma em 1996. Com estrutura invejável e um staff de fazer inveja, compensaram imediatamente a falta de intimidade com o carro a ser usado, um G-Force equipado com um V8 Oldsmobile com som de máquina de lavar.

Também compensaram com estilo a pecha de “forasteiros” e deram um banho na concorrência. Montoya, 2º do grid, liderou nada menos que 167 das 200 voltas, vencendo com margem de 7 segundos para Buddy Lazier, um dos top-drivers da IRL naquele momento. Vasser também participou ao lado de Montoya e, numa estratégia diferente de pits, quase tomou para si a vitória.

Necessário lembrar que esse foi o start para equipes da Cart retornarem às 500 milhas, o que determinaria dali em diante a acelerada decadência e a posterior fusão: A vitória “fácil” fez Roger Penske competir ano seguinte, e vencer com Hélio Castroneves.

Vieram os anos de F1, dos quais ficou a incômoda e nítida impressão de que Montoya era um talento desperdiçando a si mesmo em seus dias de Williams e McLaren. O certo é que o ambiente da categoria mostrou-se tóxico para o “família” Juan Pablo, tão acostumado ao lifestyle americano.

Interessante perceber que, apesar de, em certo ponto de vista mostrar-se incompatível com a F1, o colombiano nunca teve medo de sair da zona de conforto, pilotando qualquer carro que viesse pela frente. Ao mesmo tempo em que botava um pé fora da Europa, colocava, via Ganassi, outro na Nascar, território dos sulistas mega-tradicionalistas e que não gostavam de forasteiros.

Não brilhou, mas fez a Nascar engolir um forasteiro que mostrou que, numa escola completamente diferente de pilotagem, cravou um 8º lugar no campeonato de 2009 – nada mal. As vitórias em oval não vieram, mas ao menos se mostrou o melhor em Sonoma 2007 e em Glen 2010.

Assim que Chip Ganassi mostrou ao fim de 2013 que não queria mais os serviços do colombiano na Nascar, pensei que este era o fim da linha: Montoya iria ficar em Miami, vivendo de renda, a viver de assistir TV e fazer churrasco com a família.

Mais gordito que o costume e sem perspectiva nítida de futuro, foi um espanto vê-lo assinando, do nada, com a Penske e… malhando forte para perder a cinturinha de ovo. Foi e continua sendo gratificante ver seu renascimento como piloto competitivo e vitorioso, ainda mais com toda a experiência em ovais adquirida.

Tenho certeza que essa expertise nestes 15 anos fez valer um diferencial na corrida. Montoya escalou aos poucos o pelotão, vindo de seu 15º lugar no grid e caindo para 30º e último da pista com a substituição da asa traseira, pelo toque levado por Simona de Silvestro.

Foi possível claramente separar a corrida em quatro quartos. Nas primeiras 50 voltas foi possível ver quais eram os concorrentes mais fortes. E os carros de Penske, muito estáveis e rápidos, e de Ganassi, que “caçavam” com muita facilidade, estavam realmente um degrau acima da concorrência. Não havia sombra sequer de carros Honda, mesmo com a Andretti tendo um histórico recente tão bom.

No segundo quarto de corrida isso ficou ainda mais preciso, quando pilotos começaram a pegar retardatários e a andar no tráfego, fazendo pits em bandeira verde.

O terceiro quarto foi o de ajustes finos, uma vez que em corrida de quase 3 horas, a pista e o carro mudam com o tempo, e é necessário otimizá-lo. Foi nesses ajustes finos que Tony Kanaan acabou se perdendo e assinando o muro branco da mítica pista.

No último quarto, Montoya, que havia se guardado de maneira inteligente, mostrou ousadia e determinação, chegando até mesmo a botar roda na grama em tangência de curva. Não é pra qualquer um fazer isso. Mostrou grande senso de momentum, tanto para passar quanto para manter posição. Scott Dixon, que parecia ter o melhor carro do dia, não teve o mesmo senso demomentum, e acabaria apenas em quarto.

httpv://youtu.be/hmo-EzDh71k

Vitória justa, merecidíssima.

Até Montoya surgir para o automobilismo mundial, a grande referência colombiana era Roberto Guerrero. Piloto que teve passagem apagada pela F1 por times impossíveis, ele bateu na trave de vencer em Indianápolis duas vezes, perdendo para duas lendas-vivas: em 1984 para Rick Mears e em 1987 para Al Unser.

Infelizmente, Guerrero é muito mais lembrado por ter feito a pole da edição de 1992 apenas para rodar de maneira constrangedora na volta de apresentação, ficando de fora ainda antes da bandeira verde ser agitada. Por sinal, aconteceu de tudo naquele ano, eu ainda me cobro escrever um texto sobre isso, como meu amigo Júlio Slayer o fez na clássica edição de 1982.

Deste modo, o feito de Montoya não se resume ao seu comeback e à vitória em si, após tanto tempo e tantas histórias para contar nesse caminho. A presença de garotos como Gabby Chaves, melhor estreante, e os já conhecidos Carlos Muñoz, Sebastian Saavedra e Carlos Huertas – que só não largou porque estava com dor de ouvido, mostram que uma nova geração pôde se inspirar no mestre Montoya – que segue vitorioso.

Como se não bastasse ter essa nova geração de seguidores, o currículo deste cara chamado Juan Pablo Montoya mostra vitórias em carros de Cart, Indy, F1, Nascar e Endurance – para quem não se lembra, ele ganhou 3 vezes as 24 horas de Daytona.

Isso transforma Montoya num Mario Andretti contemporâneo – ele se assemelha mais ao mítico ítalo-americano que os próprios descendentes Michael e Marco. Um homem extremamente eclético que venceu na Europa e nos Estados Unidos em vários tipos de carro, em vários tipos de situação.

Ei, Montoya, a próxima grande corrida do ano é Le Mans, mês que vem. Você está na crista da onda e é o único ser deste planeta em condições de repetir Graham Hill e ganhar a Tríplice Coroa do Automobilismo: Mônaco, Indianápolis e Le Mans.

Se eu fosse você, caro Pablito, dava uma passada por lá, como quem não quer nada, só pra ver como é… Se você pegar gosto, certeza que vai ter torcida.

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

5 Comentários

  1. Os textos anuais de Lucas sobre as 500 Milhas e Le Mans estão sempre entre os melhores do ano por aqui.
    E fecho contigo, meu irmão. Montoya tem que fazer Le Mans.

  2. Mauro Santana disse:

    Linda coluna, amigo Lucas!

    Pois é, o colombiano é Fera, e desde aquela ultrapassagem em cima do Dick Vigarista no GP Brasil de 2001, que ele ganhou a minha torcida.

    Realmente ele se parece e muito com o Mario Andretti, e é o único que pode igual o feito do Mister Mônaco Graham Hill.

    Tomara que ele se ligue nisso, e tope correr em Le Mans daqui uns anos.

    Agora, falando nos brasileiros, fico pensando que, quando o Tony e o Helio pararem, quem irá assumir a bronca de andar na Indy?

    A Colômbia que não tem piloto campeão na F1, já tem sucessores para quando o Gorducho parar.

    Já o nosso Brasil…

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    O Montoya é um daqueles pilotos que quando menos se espera dele, ele aparece e cala a boca de todo mundo. E pelo visto voltou aos seus bons tempos. Demonstra motivação e competência na Penske. Vale dizer que W. Power e o Helinho são da casa há tempos e conhecem certamente melhor toda a equipe e mesmo assim estão comendo poeira do colombiano.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Marcelo C.Souza disse:

    Esqueci deste pequeno detalhe,o J.P.Montoya terminou o campeonato da Sprint Cup(a divisão principal da NASCAR) em oitavo lugar.

  5. Marcelo C.Souza disse:

    Parabéns pela excelente coluna,Lucas!

    Só uma rápida(porém importante) observação: o “gordito” terminou o campeonato de 2009 da Sprint Cup(a divisão principal da NASCAR) sem conseguir vencer corrida nenhuma.

    Um forte abraço!!!!!

    Marcelo C.Souza
    Amargosa-BA

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