Sobre barreiras e vitórias em casa

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Os três grandes objetivos de um piloto: vencer pela primeira vez, conquistar um título, e ganhar uma corrida em casa.

Todo jovem piloto, quando inicia sua carreira e é perguntado qual sua meta no automobilismo, invariavelmente responde que um dia quer chegar a disputar provas na Fórmula 1. Milhares de pilotos estão em atividade mundo afora e nutrem essa ambição.

Poucos, de fato, conseguem esse feito, isso acontece desde o primórdio do automobilismo e esse não é um caminho fácil. Estima-se que atualmente mais de 15 mil pilotos estão em atividade pelos quatro cantos do planeta. Essa é uma matemática cruel, já que só temos 20 assentos disponíveis no campeonato mundial.

Nesses anos em que acompanho a Fórmula 1, escuto muitos pilotos falando sobre suas metas, que a maioria se impõe ao chegar à categoria. Três delas me chamam a atenção, por ouvir de forma muito recorrente a menção nas entrevistas.

A primeira meta é quebrar a barreira da vitória e conseguir vencer seu primeiro GP. Mais de 980 pilotos já disputaram provas oficiais de Fórmula 1 até agora. Desses, 105 conseguiram ao menos uma vitória, muita gente talentosa bem que tentou, mas ficou pelo caminho.

A segunda meta é ser campeão mundial. Ninguém em são consciência admite que esteja na disputa para ser mero figurante, nem os que disputam nas equipes nanicas. Lá, no intimo, existe a vontade de ir a uma equipe grande para transformar o sonho em realidade.

A terceira meta é a de conseguir ganhar um GP no país natal. Tem piloto que às vezes deseja mais uma vitória em casa que um campeonato. Citando Senna como exemplo, ele nunca deixou de mencionar a vontade de vencer o GP Brasil, até conseguir sua tão sonhada – e no caso suada – vitória em 1991.

Na história da Fórmula 1 encontramos 9 corridas em que os pilotos conseguiram em uma oportunidade conquistar duas das metas acima, quebrando a barreira da vitória e vencendo um GP em seu país natal.

São os seguintes GPs:

– GRÃ-BRETANHA 1955 – Circuito de Aintree

– GRÃ-BRETANHA 1957 – Circuito de Aintree

– ITÁLIA 1966 – Circuito de Monza

– BRASIL 1975 – Circuito de Interlagos

– CANADÁ 1978 – Circuito de Montreal

– FRANÇA 1979 – Circuito de Dijon-Prenois

– FRANÇA 1981 – Circuito de Dijon-Prenois

– EUROPA 1985 – Circuito de Brands Hatch

– GRÃ-BRETANHA 1995 – Circuito de Silverstone

A primeira vez que esse fato aconteceu foi em 16 de julho de 1955. Stirling Moss venceu o GP da Grã-Bretanha, sendo essa justamente sua primeira vez na Fórmula 1. Essa corrida foi disputada no circuito de Aintree, circuito que ficava nos arredores de Liverpool, que naquele ano substituiu Silverstone.

A Mercedes era franca favorita para a corrida, tendo levado 4 carros para disputar a prova. Nos treinos, seus pilotos entre os 5 primeiros colocados. A corrida em si marcou uma forte disputa entre Fangio e Moss pela vitória. O argentino andou na cola de Moss durante 64 voltas, sem superá-lo.

Houve depois quem achasse que Fangio havia facilitado para que Moss, além de ganhar o seu primeiro GP, o fizesse em sua casa. Fangio rebateu: “Hoje Moss estava muito rápido, fiz de tudo, mas não consegui superá-lo” declarou o argentino, que naquele dia sagrava-se campeão pela terceira vez.

O GP da Grã-Bretanha de 1957 novamente foi disputado em Aintree, em 20 de julho. E marcou a segunda vez que um piloto quebrava a barreira da vitória em casa. Dessa vez foi a vitória de Tony Brooks, pilotando um Vanwall. Essa também foi a primeira vez que o construtor britânico conseguia uma vitória, nada mais eufórico para o publico presente: afinal carro e pilotos eram da casa.

Passamos para 1966. Em 4 de setembro ocorreu o GP da Itália em Monza,  corrida que marca a única vitória do italiano Ludovico Scarfiotti, a bordo de uma Ferrari 312. Curioso é que esse piloto, um especialista em ralis de subida de montanha, participou de apenas 10 GPs em sua curta carreira. Ele havia sido chamado como terceiro piloto naquele fim de semana, junto a Lorenzo Bandini e Mike Parkes, já que o campeão de 1964 John Surtees havia brigado com o time e se demitido antes mesmo do meio do ano.

O GP Brasil de 1975, disputado em Interlagos em 26 de janeiro, teve um sabor especial para nós torcedores brasileiros. Foi nesse GP que José Carlos Pace quebrou a barreira da vitória, quando herdou a liderança de Jean-Pierre Jarier, que andava muito bem na velha Interlagos com a Shadow negra.

Como bônus, a torcida viu pela primeira vez uma dobradinha de pilotos brasileiros, já que Emerson Fittipaldi terminou em segundo. Pace foi um piloto que teve poucas oportunidades de ter um carro competitivo e uma vitória é talvez muito pouco para seu currículo. Tendo um estilo peculiar, ele procurava se adaptar a um carro, mesmo em situações onde a máquina era inferior

Em 1978, o GP da Canadá foi transferido para o circuito de Montreal na Ilha de Notre-Dame, em substituição ao circuito de Mosport Park. Disputado em 8 de outubro, a corrida foi dominada desde o inicio pelo francês Jean-Pierre Jarier, que estava pilotando a Lotus 79 em substituição ao falecido Ronnie Peterson. Ele liderou com propriedade as primeiras 49 voltas da corrida, mas uma falha no freio tirou uma vitória certa, que acabou caindo nos braços de Gilles Villeneuve.

O canadense, que estreara no ano anterior, havia sido contratado pela Ferrari – na verdade foi o próprio Enzo quem o contratou. Em seu estilo arrojado, é até hoje um dos mais reverenciados pilotos pelos torcedores. O público local, que compareceu em massa, delirava ao final da prova com a primeira vitória do canadense.

O GP da França de 1979 foi disputado no circuito de Dijon-Prenois, em 1º de julho. É uma corrida muito lembrada pela forte disputa entre Gilles Villeneuve e René Arnoux nas voltas finais pelo segundo lugar, numa das mais cruas disputas jamais vista. Toda essa beleza acabou ofuscando a conquista do francês Jean-Pierre Jabouille a bordo de um Renault RS10.

Essa pode ser considerada a mais completa vitória de um piloto e carro em seu país natal, afinal carro, piloto e componentes eram todos franceses. Essa foi uma vitória que marcou uma nova era no meio da Fórmula 1, por ser a primeira de um motor turbo, desde que a Renault havia introduzido esse tipo de propulsor no ano de 1977.

Dois anos após, em 5 de julho de 1981, esse mesmo circuito de Dijon sediava novamente um GP da França. Dessa vez a vitória caberia ao francês Alain Prost, que estava a bordo de um Renault RE30. Não podemos deixar de mencionar que a vitória de Prost foi polêmica, na medida em que Nelson Piquet liderou as primeiras 58 voltas, quando uma forte chuva caiu no circuito, levando os organizadores a interromper a prova para que os pilotos trocassem seus pneus. A Renault aproveitou e mudou a configuração do carro de Prost, colocando pneus de classificação e aumentando a pressão do turbo, medida que facilitou a sua liderança na nova largada.

O piloto seguinte a conseguir uma primeira vitória e em casa foi Nigel Mansell. Em 6 de outubro de 1985 ele venceu em Brands Hatch, que sediava o GP da Europa. Ele foi, dessa relação, o piloto que mais demorou a conquistar sua primeira vitória: foram 72 participações em GPs para ele conseguir quebrar essa barreira. Para se dar uma dimensão, essa foi a 14ª corrida daquela temporada: Ayrton Senna já havia conquistado sua primeira vitória em Portugal, que foi a segunda corrida de 1985.

Precisou passar mais uma década, em 1995, novamente no GP da Grã-Bretanha, disputado em Silverstone em 16 de julho, para vermos um piloto vencer em seu país e conquistar sua primeira vitória. O piloto da vez foi britânico Johnny Herbert, a bordo de um Benetton B195. Herbert disputou 71 GPs para alcançar sua primeira vitória. Ele herdou essa posição após Damon Hill colidir com Michael Schumacher e ambos abandonarem.

Como vocês devem ter notado, das histórias acima, um personagem participou de duas delas de forma até melancólica. O francês Jean-Pierre Jarier liderava com folga os GPs do Brasil em 1975 e Canadá em 1978. E em ambas as ocasiões, o carro o deixou na mão, obrigando-o a abandonar. Jarier disputou 134 corridas, em 12 temporadas na F1 por 7 times diferentes, com 3 poles e 3 voltas mais rápidas.

Nunca venceu.

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

10 Comentários

  1. Robinson Araújo disse:

    Colegas do GPTo.

    Sensivelmente a vitória do Moco no mítico traçado de Interlagos em 1975 é a que mais nos cativa, mas interessante ressaltar aquela Shadow negra, na minha opinião um dos mais belos F1 da década de 70, a qual estraçalhou a concorrência enquanto estava na pista, porém como carreras são carreras, vale mesmo quem cruza.
    Neste sentido Nelson Piquet argumentou que Senna, nos tempos de Lotus, quando não tinha chances reais de brigar na frente, largava com meio tanque e fazia espetáculo enquanto sua máquina lhe permitia, sendo muito melhor do que andar numa sétima posição sem destaque e terminar em quinto ou quarto após abandonos.
    Imagino que como tudo na vida é necessário uma infinidade de conhecidências para que seja logrado o sucesso e com a F1 não seria diferente, talvez a exposição faça isso se tornar são valioso.

    Bom final de semana aos amigos do GPTo

    Robinson Araujo – Cuiabá

  2. Manuel disse:

    Caro Mario,

    Você sim que continua quebrando a “barreira do talento” !

    abs. Manuel

  3. Rodrigo disse:

    Vale lembrar, também, que Peterson, na Suécia em 1973, e Reuteman, na Argentina em 1974, quase entraram nesta estatística, pois lideraram a corrida quase toda e tiveram problemas no carro nas ultimas voltas.

    • Mario Salustiano disse:

      bem lembrado Rodrigo

      Tem um caso também dos chamados “quase” que seria o mais incrível e interessante, o único piloto que teve a oportunidade de se sagrar campeão da F1 no país e cidade natal foi Felipe Massa em 2008, essa marca durou 20 segundos

      abraços

  4. Aproveito o belo texto do Mário para falar de algo que está enchendo o saco atualmente.

    De uns tempos para cá, vários pilotos andam falando que ‘não sentem falta da F1’, que estão felizes aonde estão e por aí vai. Como o Mário falou, a maioria dos pilotos que começam no kart sonham com a F1, mas por contingências em suas respectivas carreiras, esses mesmos pilotos optam por outras categorias.
    Duvido muito que Lucas di Grassi, um dos últimos que falou isso, sonhava em correr na F-E quando começou a correr…
    Sinto cheiro de recalque para esses pilotos que não sentem falta da F1 simplesmente… porque fracassaram!

    • Mauro Santana disse:

      João Carlos

      Na minha opinião, Lucas di Grassi não fracassou na F1, pois o cara só teve chance de andar numa Marussia.

      Aí, os pilotos começam a perceber que sim, existe vida fora da F1, e acabam indo embora pra correr em Le Mans, Indy e agora a F-E.

      Outro que esta pensando seriamente em vazar da F1, é o Niko Hulkemberg, pois ele esta com uma baita proposta da Porsche.

      Pode não ser o que eles sempre sonharam, mas, do que adianta ficar andando atrás do grid numa F1 cada vez menos improvável!?

      Aquela época de equipes pequenas, com somente um carro, e que lutavam na pré-qualificação, não existe mais faz muitos anos.

      Agora, se tem um piloto que jogou sua chance no lixo na F1, este alguém é o Piquet Jr.

      Abraço!

      Mauro Santana
      Curitiba-PR

      • Fernando Marques disse:

        Concordo com o Mauro
        E digo mais … qualquer piloto brasileiro que tenta a sorte no automobilismo europeu não pensa mais só em chegar a Formula 1 e sim seguir uma carreira como piloto profissional e sobreviver como piloto …
        Há pouco tempo o Xandinho Negrão, hoje na GP2, ao ser perguntado sobre esta questão no Programa Super Motor na Bandsports foi bem claro neste sentido e disse que dá para ser feliz em outras categorias … e que esse é o seu principal objetivo … seguir carreira como piloto profissional de corridas … e o caminho é o mesmo … se quiser ser visto neste sentido nada melhor começando nas categorias de base europeias …
        Com relação ao Nelsinho Piquet, não resta duvidas que ele jogou fora suas chances na Formula 1 … mas ainda acho ele um dos três melhores pilotos brasileiros na atualidade … ele manda bem em qualquer carro … seja no kart, seja em carros de turismos e seja nos monopostos …

        Fernando Marques

  5. Fernando Marques disse:

    Mario,

    belas lembranças!!!!
    A começar pela vitoria do Pace … acho que foi a vitoria de um piloto brasileiro que mais me emocionou até hoje … eu torcia como nunca para o Moco conseguir a sua vitoria … e aquela vitoria em Interlagos é inesquecível …
    Destaco a vitoria do J. Herbert, que mesmo após um terrivel acidente na Formula 3000, que lhe deixou serias sequelas, conseguiu ainda algum brilho na Formula 1. Vale lembrar que é dele a unica vitoria conquistada pela Equipe Stuwart.
    No mais a lembrança do Gilles Villenueve é sempre mais do que válida e não resta duvidas Jean Pierre Jarrier merecia melhor sorte na Formula 1.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Mauro Santana disse:

    Belíssimo texto, amigo Mário!

    Realmente o Jarrier merecia ao menos ter vencido ao menos um GP na F1.

    Lembro como o Prost se transformava quando a F1 desembarcava em Paul Ricard.

    O Baixinho Professor parecia que ficava possuído, e mudava totalmente o seu estilo de pilotagem.

    Ele guiava literalmente com a faca nos dentes.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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