“Sonhar não custa nada 2.0” – final

Direto ao ponto
20/11/2017
Gratidão
26/11/2017

Confira a primeira parte clicando abaixo.

“Sonhar não custa nada 2.0” – parte 1

Nos primeiros anos desses torneios de justas, nao era raro que a lança de um participante acabasse
golpeando a cabeça do adversário, inclusive provocando-lhe graves feridas ou até a morte. Assim, os elmos foram evolucionando até apresentar o que alguns chamavam de “planos de desviação”. Com estes planos, se pretendía que a lança do adversario “escorregasse” ao longo deles, reduzindo a capacidade de golpear ou de simplemente empurrar o cavaleiro em questao.

Para melhor entender o próposito da forma de estrela das fortalezas e dos elmos nas que se basearam, devemos recordar que todo corpo em movimento acumula energia cinética e que esta aumenta com a velocidade à que se disloque dito corpo. Assim, quanta maior seja a velocidade, maior é a energia cinética acumulada pelo corpo em movimento. Contudo, se em sua viajem o corpo se encontra com um obstáculo perpendicular à sua trajetória, este, no momento da colisao, libera essa energia.

Segundo a formula para calcular a energia cinética, um corpo de 1kg de peso que se disloque a 200 km/h, acumula energia equivalente a 157,34 kg. Porem, conforme o ângulo de colisao se torna mais agudo, a capacidade de causar dano vai diminuindo, pois o corpo é desviado de sua trajetória liberando apenas parte de sua energia cinética no momento do impacto. Isso é precisamente o que se pretendia com os chamados ” planos de desviaçao ” dos elmos e das fortalezas : desviar a lança e as bolas de canhao, reduzindo seu poder destrutivo. Assim, levando em consideraçao o que nossos antepassados haviam feito e a soluçao encontrada por eles, tratei de aplicar aqueles principios à formula um.

Em primeiro lugar, aqui temos o desenho de um carro incorporando os planos de desviaçao: como podem ver, o cockpit está rodeado por tais planos de desviaçao, com o mesmo propósito dos antigos castelos em forma de estrela: evitar impactos próximos a 90 graus.

Assim mesmo, o capacete, tambem apresenta os tais planos, algo do que os atuais capacetes carecem, o que reduz a possibilidade de desviar objetos que colidam contra eles, como no acidente de Massa, onde o impacto foi quase perpendicular. O mais destrutivo possível. Nos seguintes desenhos, vemos como a tal mola que golpeou Felipe Massa, teria sido desviada rápidamente de sua trajetória, reduzindo a energía liberada no momento do impacto e minimizando os danos provocados por este.

Tambem podem ver que há uma fixaçao no topo do capacete (representada a um tamanho maior do que eu havia imaginado para, assim, melhor ilustrar sua finalidade). A fixação tem a funçao de segurar o capacete do piloto, mantendo a cabeça deste a salvo de bruscos movimentos aos que esta pudesse estar submetida durante algum acidente ou como resultado do impacto de algum objeto. Contudo, há certa folga para permitir que o piloto possa girar a cabeça para os lados, garantindo um bom campo de visao.

A fixaçao ficaria bloqueada em sincronia com os cintos de segurança, de modo que quando estes fossem soltos, a fixaçao se retrae e nao resulta num obstáculo para a saida do piloto do cockpit ou sua evacuaçao em caso de acidente.

Finalmente, recordemos que o HANS tem como objetivo proteger as vertebras cervicais do piloto em caso de acidente por colisao frontal, mas nao o protege tanto de bruscos movimentos laterais como o faz esta fixaçao. Como complemento à fixaçao e no caso de receber algum impacto de objetos pesados desde cima, ha dois pequenos apoios laterais no cockpit à altura da base do capacete, cuja missao seria a de impedir que a cabeça do piloto fosse comprimida contra o tronco, o que provocaría graves lesoes cervicais (atualmente, nao há nada que proteja o piloto dessa eventualidade).

Como aditamento, a fixaçao estaria dotada de um amortecedor para oferecer certa progressividade de movimento no caso de acidente, evitando a brusquedade de um golpe sêco. Com esta fixação, o HANS já nao seria necessário.

Tampouco é descabido pensar que o HALO pode se constituir num verdadeiro obstáculo no caso de que um carro fique travado nele, como poderia ter acontecido no acidente entre Alonso e Grosjean, dificultando enormemente a evacuaçao do piloto.

https://www.youtube.com/watch?v=7ztUaWWbamg

Inclusive, no acidente entre Alonso e Raikonnen na Áustria em 2015, a presença do HALO teria impedido que o carro de Alonso escorregasse por cima do Ferrari de Raikkonen, pois vemos como o fundo plano do McLaren passa justamente por onde estaría a barra vertical frontal do HALO. Sem aonde poder ir, o McLaren de Alonso, teria ficado cravado lá mesmo, deixando Raikonnen sem saida. Nesses casos, cada segundo que passa pode ser vital, no entanto a própria FIA aumentou o tempo de saida do carro… ainda em condiçoes normais sem acidente !

Dizia o filósofo escocês do século XVIII Adam Smith que, dentre as qualidades que nos sao mais uteis estao a razão e a compreensão, mediante as quais somos capazes de discernir as consequências remotas de nossos atos, prevendo as vantagens e as desvantagens que se possam derivar destes.

Sendo assim, e vendo as medidas adotados pela FIA, não parece que hajam sido muito previsores, pois me parece que não tem sentido tomar medidas tendentes a melhorar a segurança num campo… em detrimento de outro.

Em definitiva e como sonhar não custa nada, apenas tratei de aplicar uns principios desenvolvidos na idade média e que, me parece, abrangem aspectos de segurança mais amplos do que o tal HALO é capaz de oferecer.

Esta é minha última coluna desta temporada, portanto desejo a todos um muito bom natal e fim de ano

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

5 Comentários

  1. Rubergil Jr. disse:

    A solução é interessante, caro Manuel. Melhor que o Halo, sem dúvida.

    O único ponto negativo que vejo: creio que a viseira de um capacete com planos de desviação causaria certa distorção na visão do piloto, não? Lembra do Vettel testando a proteção de policarbonato tipo pára-brisa, e reclamando da visão? Creio que aconteceria o mesmo. Mas acredito que seja possível ajustar isso nas lentes e ângulos.

    Se o Gordon Murray fosse diretor de segurança da FIA com certeza seria esta a solução a ser adotada!

    Abraço,

    • Manuel disse:

      Oi Rubergil,
      Huhh, neste caso, nao creio que houvesse distorçao. No cado do Vettel, alem da propria viseira do capacete estava o tal pára-brisa, muito inclinado, grosso e longe dos olhos do piloto. Alem do mais, em caso de chuva ( ou sujeira ), nao haveria forma de limpar o pára-brisa.

      Só nos resta esperar que nao haja nenhum acidente para comprovar se o tal Halo funciona ou nao !

  2. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    só saberemos se o HALO vai ser uma boa solução quando houver algum incidente em treino ou corrida … a sua coluna esclarece muita coisa … para quem gosta é ficar atento em 2018 para ver como a coisa vai funcionar …
    Só uma pergunta: será que a introdução do HALO não poderia ser um passo para no futuro no sentido da celula de sobrevivência do piloto ser totalmente fechada?

    Boas festas
    e tido de bom em 2018 para você também

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Mauro Santana disse:

    Fantástico Manuel!

    O problema é que os que comandam a F1 não sabem olhar o passado para melhorar algo do presente e futuro, seja em qual for a área, pois são orgulhosos demais.

    A nós, só nos resta aguardar.

    Abraço e um Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  4. Joe disse:

    Penso que ; À desigualdade técnica-financeira entre as equipes tem feito do Automobilismo um Esporte muito truculento . O Piloto precisa começar sua ” Guerra ” contra seu adversário mais próximo , o companheiro de equipe ; assim sendo , vemos estas batalhas deselegantes e desleais com o apoio dos canais de rádio em todos os GPs !

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