The Greatest 1

A Jaqueta
05/04/2021
The Greatest 2
12/04/2021

1983 Formula One World Championship.. Nelson Piquet (BR), Parmalat Brabham BT52B.. John Player Grand Prix of Europe, Brands Hatch, 25th September 1983.

Muhammad Ali costumava se autoproclamar como “The Greatest” (o maior). Em certa ocasião, durante uma entrevista, quando já se havia retirado, ao ser perguntado a respeito de toda a parafernália que ele promovia ao seu redor, apesar de ser alguém muito diferente da imagem pública que transmitia, Ali respondeu: “Olha, é que agora eu não tenho que lotar o Madison Square Garden!”. Assim, ficava claro que tudo aquilo era uma manobra para atrair o público aos seus combates.

Contudo, ainda que pudesse tal afirmação ser um recurso para atrair a audiência própria de um fanfarrão, no seu caso não estava desprovida de fundamento, pois Ali é quem sempre aparece em primeiro lugar nas listas de melhores boxeadores da história. Para os profissionais do esporte, como antigos boxeadores, comentaristas e historiadores, Ali foi mesmo o maior de todos. No entanto, chama a atenção que seja assim sem que Ali tenha sido o boxeador com mais combates, mais vitórias, menos derrotas ou mais nocautes. Enfim, seus números não são os melhores.

Anthony Mason, um dos mais reputados comentaristas, escritores e historiadores do mundo do box, quando perguntado ao respeito das listas de melhores diria: “Acho que a única forma de classificar de maneira justa o lugar de um boxeador na história é comparando seus currículos. E isso não significa apenas vitórias e derrotas”.

Por sua parte, Emanuel Steward, um dos lendários e mais respeitados treinadores e que teve sob sua tutela a vários campeões, também viria a confirmar a opinião de Mason com a seguinte afirmação: “Você consegue credibilidade por meio do seu rendimento contra oponentes de máxima categoria”.

Ainda sobre o assunto, Lewis Watson, outro distinguido escritor e historiador sobre o box, falando sobre o recorde de invencibilidade de Floyd Mayweather diria: “Registros de invencibilidade são bastante ‘preenchidos’; é preciso verificar se há vitórias notáveis sobre competidores de primeira linha”.

Assim, tanto Mason quanto Steward e Watson vinham a dizer que o “melhor” não apenas se define por puros números e estatísticas, mas pelas circunstâncias e condições em que esses números foram conseguidos e, principalmente, ante quais rivais.

Na Fórmula 1 também existem muitas dessas listas de melhores que aparecem de tempos em tempos. Listas que sempre promovem nos aficionados tanto a alegria de uns quanto a decepção de outros, e que sempre acabam gerando animados debates e tertúlias. No fim, nenhuma conclusão é alcançada e a eterna pergunta de quem é o melhor… permanece.

Contudo, é comum nessas listas vermos sempre determinados pilotos nos primeiros lugares, com apenas pequenas variações de posição. O comum é que essas listas tomem como base as estatísticas puras de vitórias, títulos, poles etc. para o estabelecimento do tal ranking, além de alguma espécie de “corretor” que compense esta ou aquela circunstância.

Já nas enquetes elaboradas contando com profissionais como chefes de equipe, engenheiros, pilotos, comentaristas e aficionados, os números puros parecem ter menor importância, e o habitual é ver como Ayrton Senna lidera essas listas, tal como acontece no caso de Ali. Assim, tratei de esquadrinhar nas estatísticas e números para ver além delas e, de algum modo, comprovar se havia fundamento que sustentasse as palavras de Mason, Steward e Watson ao respeito dessas listas.

Para tal efeito, decidi analisar as carreiras dos multi-campeões dos últimos 40 anos. Aqueles que, como Senna, obtiveram três ou mais títulos nessas temporadas. Isso deixa fora Fangio, Brabham, Stewart e Lauda. Contudo e ainda que estes campeões também apareçam com frequência nos primeiros lugares das listas de melhores, nenhum deles se enfrentou entre si. No caso de Fangio, sua inclusão nos primeiros lugares creio que se deve aos seus números, pois temo que poucos aficionados tiveram ocasião de presenciar suas corridas (certamente, nenhum dos presentes) e a Fórmula 1 tinha pouca difusão antes da era Ecclestone. Lauda sim disputou título com Prost, mas já no fim de sua carreira, que teve lugar, majoritariamente na década de 70.

Assim, dentre os campões analisados, Piquet, Prost e Senna protagonizaram a primeira das etapas desse período de 40 anos, enquanto que Hamilton e Vettel o fariam, e ainda o fazem, na etapa presente, deixando Schumacher na etapa intermédia como uma espécie de transição entre ambas.

Em ordem cronológica, o primeiro campeão deles foi Nelson Piquet, que conseguiria seus títulos em 1981, 1983 e 1987. Como o objetivo de qualquer piloto é a vitória (e o resultado que mais pontos e prestigio concede), dou ênfase a este quesito e assim vemos no seguinte gráfico todas as vitorias de Piquet, indicando contra quem foram conseguidas. Também vemos ante quem Piquet perdeu quando terminou em segundo lugar.

Em azul as vitórias e em vermelho as derrotas:

Ainda que Piquet, com 23 vitórias, seja o piloto com menos triunfos dentre os cinco multi-campeões, logo vemos que estas foram ante pilotos muito qualificados. Temos nada menos do que seis campeões entre eles e as 13 vitorias obtidas ante estes pilotos representam mais da metade de todas elas (56,5%). Assim mesmo sua percentagem total de vitorias sobre corridas disputadas é de 11,2%, o que lhe coloca na 19º posição neste quesito dentre todos os pilotos da história.

O seguinte piloto analisado é Alain Prost, cujos títulos viriam em 1985, 1986, 1989 e 1993. O francês é um dos pilotos que com frequência aparece nos lugares altos das listas de melhores, confirmando seu apelido de “O Professor”, e estes são os seus gráficos de vitorias. Novamente, em azul as vitorias e em vermelho as derrotas:

Tal como era o caso de Piquet, Prost também enfrentou pilotos muito qualificados e as 30 derrotas que infringiu a nada menos do que sete pilotos que eram ou foram campeões, representam 58,8% de todas as suas vitorias. Enquanto à sua percentagem de vitorias sobre GPs disputados, esta chega a 25,2%, elevando o francês até a sétima posição dentre todos os pilotos vencedores.

Destaca também o fato de que as derrotas de Piquet e de Prost foram em sua imensa maioria ante pilotos campeões, enquanto que a única derrota do brasileiro (1 de 20 = 0,5%) e as cinco do francês (5 de 35 = 14,28%), ante não campeões, resultaram ser também disputando a vitoria contra pilotos de primeira linha, como Didier Pironi, René Arnoux ou Gerhard Berger.

Vamos adiante em nossa análise na 2ª-feira, dia 12.

Até lá

Manuel Blanco

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    A minha expectativa também está em alta para parte 2.
    A minha analise é mais intuitiva. O melhor, o mais completo piloto da fórmula 1 para mim foi Nelson Piquet.
    Mas como tudo que você analisa é super bem feito e embasado, como não aplaudir as suas colunas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Mauro Santana disse:

    Ola Manuel!

    Excelente tema, e já estou na expectativa da segunda parte.

    Abraço!!

    Mauro Santana

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