Tony & Helinho

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Tony Kanaan e Helio Castroneves, dois nomes gigantes do automobilismo brasileiro.

O começo da noite de 27 de setembro de 1997, portanto há quase 20 anos, foi um pouco diferente para quem gosta de automobilismo. De forma até surpreendente, o SBT resolveu transmitir ao vivo a etapa decisiva da Indy Lights, no novíssimo circuito de Fontana, na Califórnia.

A emissora paulista transmitia desde 1995 a Indy e a razão para a aparição daquela corrida era que a decisão do campeonato envolvia dois jovens brasileiros. Tony Kanaan, de 22 anos, e Helio Castro Neves (ainda escrito separado), também de 22, companheiros na equipe Tasman, brigavam palmo a palmo pelo título.

As carreiras de Helio e Tony sempre foram ligadas, mas a amizade começou de uma forma triste. Em abril de 1988, o baiano Antoine Rizkallah Kanaan Filho tinha perdido seu pai, o maior apoiador de sua carreira nos karts. Apenas dois dias depois do falecimento do pai, Tony foi para a pista disputar uma etapa do Campeonato Paulista da modalidade. “Eu não queria ficar em casa e o pai dele (Helio) veio falar comigo e disse que sentia muito,” falou Tony.

Com doze anos, Helinho veio logo depois e disse. “Se precisar de algo, me avise”. Foi o começo de uma amizade que extrapolava as pistas. “Nós passávamos as férias juntos. Quando não tinha corrida, ou eu ficava na casa dele no final de semana, ou ele na minha. Passamos carnavais, natais e anos novos juntos”, relembrou Tony. Porém, essa amizade não atrapalhou a disputa nas pistas. Com idades similares, Tony e Helio foram grandes rivais no kart, vencendo vários títulos na modalidade.

Tony ascendeu primeiro aos monopostos, estreando na F-Ford em 1991, enquanto Helinho debutou nos carros no ano seguinte, na novíssima F-Chevrolet, conquistando um brilhante vice-campeonato, enquanto Tony era sexto no campeonato.

Em 1993, Helio participou da F3 Sul-Americana e foi protagonista de um dos episódios mais tristes e polêmicos do automobilismo dessa parte da América, quando os argentinos se uniram numa vergonhosa patriotada para dar o título para Fernando Croceri na última etapa e tiraram o pé na última volta, deixando Castro Neves novamente com o vice. Isso causou um cisma entre F3 Sul-Americana e F3 Brasileira.

Ainda em 1994 houve a única separação da dupla, quando Kanaan foi para a Itália continuar sua carreira e por lá, sem muitos recursos, teve que dormir na oficina de sua equipe, que ficava sediada numa cidade italiana minúscula. Todo esse sacrifício valeu a pena e Tony conquistou o título da F-Alfa Boxer com cinco vitórias consecutivas, o que lhe garantiu a passagem para a F3 Italiana em 1995. Nesse mesmo ano, Helio se mudou para a Europa após outro vice-campeonato na F3 Brasileira, se mudando para a Inglaterra e a sua tradicional F3. Castro Neves não se adapta bem e acaba longe de mostrar o brilho que mostrara na versão local da categoria.

No final de 1995, as carreiras internacionais de TK e Helinho estavam numa encruzilhada. Ambos não tinham dinheiro o suficiente para se graduar na F3000 e continuar no sonho que ambos nutriam de fazer sucesso na F1. No entanto, patrocinadores conseguiram testes para os dois brasileiros na Indy Lights no começo de 1996, categoria similar à F3000, mas que era antessala da Indy, categoria que na metade da década de 1990 vivia seu auge técnico e de público.

Sem muita escolha, os dois brasileiros cruzaram o Atlântico e estavam reunidos novamente, mesmo que abandonando o sonho de seguirem até a F1. O teste pela equipe Tasman, a melhor da Indy Lights, foi um sucesso e a dupla Kanaan / Castro Neves voltava a correr juntos, ainda por cima companheiros de equipe. “Éramos amigos, mas havia muita rivalidade. Quando eu saía do carro, eu imediatamente perguntava por ele. Se eu estava em 15º, mas ele em 16º, me sentia um pouco melhor”, falou Kanaan. Os dois lutaram pelo título de Novato do Ano em 1996, ganho por Kanaan.

Mais experientes e conhecendo melhor o carro e a categoria, Tony Kanaan e Helio Castro Neves eram os favoritos para 1997. O chefe da equipe Tasman, Steve Horne, sabia da amizade entre os dois brasileiros e por isso, alimentava o outro lado desse relacionamento, que era a rivalidade entre os dois. “Nós temos a melhor equipe da categoria e nós assinamos com vocês para que um, apenas um de vocês, chegue na Indy. O primeiro ano será de aprendizado, mas no segundo eu quero o título. Um de vocês ou os dois voltará ao Brasil se não for campeão”, falou Horne.

Kanaan e Castro Neves entenderam o recado e dominaram o campeonato. Helio começou o campeonato melhor, vencendo em Long Beach e Savannah, enquanto Kannan fazia um certame mais regular, só conseguindo suas duas vitórias (Detroit e Trois-Rivières) já no final do ano. Os dois fizeram dobradinha duas vezes, em Detroit (vitória de Kanaan) e Toronto (Helio). Na penúltima etapa do campeonato, o pódio foi todo verde e amarelo, mas quem venceu foi o contemporâneo Cristiano da Matta, seguido por Tony e Helio. Ao final da prova em Laguna Seca, Tony Kanaan tinha 152 pontos e Helio tinha um déficit de onze pontos.

Quem acompanhava a Indy naquela época conhecia a trajetória dos dois, mas haviam apenas compactos das corridas na ESPN, pra assinantes, ou em compactos corujões no próprio SBT. Ambos eram desconhecidos de boa parte do público. Com o sucesso de ambos na Indy Lights, a emissora resolveu transmitir a finalíssima do campeonato ao vivo. E acertou em cheio em sua escolha!

[su_youtube url=”httpv://youtu.be/MEBtJdsbGAQ”]httpv://youtu.be/jzQ1VJkcSF4[/su_youtube]

A pista de Fontana, de propriedade de Roger Penske, tinha o mesmo desenho do circuito de Michigan, mas por ter um asfalto melhor, era mais rápido, com os carros da Indy atingindo os 400 km/h! A Indy Lights não tinha kits especiais para corridas específicas em ovais ou mistos, tipos de provas que contava no campeonato.

Com um carro com muito downforce, isso permitia que os carros gerassem vácuo o suficiente para andarem juntos praticamente a corrida toda, gerando uma insana briga pela vitória que durou a prova inteira. Tony precisava de um quinto lugar, mas teve problemas durante a corrida e algumas posições. Mas o baiano teve muita sorte que a combinação pilotos jovens com uma corrida muito próxima trouxessem dois acidentes no final da prova.

Castroneves brigou muito pela vitória, mas foi vencido pela experiência dos americanos Casey Mears e Chris Simmons em ovais, terminando a prova apenas em quinto. Com um nono lugar, Tony Kanaan se sagrava o primeiro brasileiro a vencer na Indy Lights. E Helio Castro Neves amargava outro vice-campeonato, como em seus tempos de F3…

[su_youtube url=”httpv://youtu.be/97zu6zuA4yU”]httpv://youtu.be/97zu6zuA4yU[/su_youtube]

A repercussão da corrida em Fontana foi ótima. Houve vários comentários em jornais e revistas não apenas pelo título de Kanaan, mas pela emocionante corrida em Fontana. Ambos mostraram um trabalho que chamou a atenção de todos. Todos passaram a conhecer Tony Kanaan e Helio Castro Neves. Ao contrário do que disse Horner, os dois entraram na Indy logo no ano seguinte, e juntos. Enquanto Tony assinou com a Tasman, Helinho foi desenvolver o chassi Lola na equipe Bettenhausen.

Mesmo sem conseguir manter a amizade profunda de antes, os dois permanecem há vinte anos na Cart / Indy com muito sucesso, com um título e quatro vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis.

Este texto é uma homenagem aos dois longevos brasileiros, que podem seguir caminhos diferentes ano que vem. Kanaan não deve renovar contrato com a Chip Ganassi, e ainda tenta fechar com outro time ano que vem, talvez no segundo carro da Schmidt Peterson, enquanto Helio pode, ainda dentro da Penske, migrar da Indy para os protótipos, já que a equipe de Roger Penske fechou uma parceria com a Acura, a marca americana da Honda.

Nos acostumamos tanto a ver os dois juntos na Indy, que, se eles realmente forem embora, vão deixar uma pontinha de vazio na gente.

Abraços,
JC Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comentário

  1. Fernando Marques disse:

    JC,

    Tony e Helinho são as maiores provas (com méritos também para o Gil de Ferran, Christian Fittipaldi, M. Gulgemin, C. da Matta, Bruno Junqueira, R. Boesel, R. Moreno, André Ribeiro) que os pilotos brasileiros podem ser dar muito no automobilismo mundial sem necessariamente ser feliz na Formula 1. Emerson abriu uma porta na Indy e estes caras souberam muito bem como ser feliz por muito tempo na Indy. Eles ganharam fama e muito prestígio (principalmente lá), titulos, vitorias e também muito dinheiro.
    Tony e Helinho mereciam esta homenagem, mais que justa e merecida, há mais tempo, mas ela se faz ainda justa já que em 2018 poderemos ter uma Indy sem eles …

    Parabéns pelo texto

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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