Um amor que se esvai

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Pneus, regulamento, chase, grana... É demais pra mim. Mas confesso uma ponta de entusiasmo pelo desafio tecnológico que se imporá às equipes e pilotos no ano que vem

O meu amor pela Fórmula 1, entranhado desde os 10 ou 11 anos de idade, vai se esvaindo, desgastado pelo tempo e pelas intempéries. Mas a culpa não é da categoria; é minha.

Eu juro que tento mas não consigo aceitar como normal esta estúpida loteria pneumática imposta por Bernie Ecclestone como forma de reequilibrar as disputas. Como se viu nos últimos anos, reequilibrou coisa nenhuma…

Também não aceito os GPs divididos em baterias de duração aleatória e imprevisível, as limitações de regulamento – não me entra na cabeça não ser possível desenvolver um motor ao longo da temporada -, os autódromos que surgem e aparecem do nada, todos iguais, onde não há uma curva sequer que incendeie a imaginação da moçada. Não engulo, por mais que tape o nariz, a aparência de refinamento quando, em verdade, estamos em meio a um banheiro de rodoviária, as emoções manipuladas com finalidades comerciais, a picaretagem das “autoridades” esportivas, tutelada e institucionalizada por malandros de gravata, contrato e capital – ainda que, por vezes, se deem mal.

E agora, pra arrematar, a história dos pontos em dobro no GP final, primeiro passo para a imposição do chase, play-off, mata-mata ou como quer que se chame essa tentativa artificial de estender a decisão do campeonato até a última prova, apenas para proteger os interesses comerciais dos organizadores e emissoras de TV e tentar negar a evidência solar, que dura desde o primeiro GP do primeiro campeonato da Fórmula 1, de que a categoria se move de hegemonia em hegemonia.

Foi particularmente triste abrir mão de participar da belíssima retrospectiva da temporada escrita pelos colegas do GPTotal em nossa página no FaceBook: eu simplesmente não seria capaz de dizer quem foi o piloto do ano, o GP mais empolgante e coisas do gênero. Terminada a temporada, me dou conta que não retive nenhuma lembrança marcante, nenhum ponto de emoção ou raiva, nada. Minto: ouvir em Interlagos, da Curva do Lago, o barulho dos motores nas duas voltas iniciais do GP do Brasil foi arrepiante.

É verdade que a idade vai cobrando seu preço. Acordar de madrugada para ver uma corrida há muito deixou de ser um prazer, da mesma forma que tentar fixar a minha atenção na “estratégia” de pneus. Já estou meio velho pra memorizar que a faixinha laranja é a dos pneus médios-macios ou que diabo for. Aliás, pra começo de conversa, aplicar uma cor como o laranja ou qualquer outra que não seja o branco no ombro de um pneu já é um tapa na cara.

Tenho tentado nos últimos anos mas acho que eu simplesmente não consigo me adaptar a este cenário da Fórmula 1, onde o esporte e a exaltação humana – em destemor e engenhosidade – são um detalhe cada vez menor, onde as aparências massacram a substância e o dinheiro reina acima de tudo.

Naturalmente nada tenho, pobre de mim, a oferecer como alternativa ao que aí está. Sou, somos, seremos, folhas na tempestade. Não podemos esquecer o que já aprendemos ou voltar atrás pelo caminho percorrido. Não dá pra diminuir o peso do dinheiro, a ganância de todos, a ditadura da TV, dos patrocinadores e dos capitalistas subordinados alegremente à máxima “vendas e lucros crescentes”. A Fórmula 1 não pode voltar a ser mais simples, mais direta, mais humana. Temo que ela está condenada, assim como o planeta Terra, a ser espremida até o bagaço, em busca do último centavo.

Quero confessar, porém, uma ponta de entusiasmo pelo desafio tecnológico que se imporá às equipes e pilotos no ano que vem, caso o suco do bagaço não se esgote antes.

O power train, juntando motor à explosão e dois motores elétricos, é um enorme desafio, creio que o maior da história da Fórmula 1, tanto mais pela severa limitação de consumo de combustível e durabilidade do conjunto mais caixa de câmbio, impostas pelo regulamento.

É verdade que a Fia vai controlar com mão de ferro o desenvolvimento dos motores ao longo do ano e também para as próximas temporadas. Em 28 de fevereiro, os fabricantes de motores entregarão um modelo finalizado dos respectivos power trains à Fia. A partir daí, aperfeiçoamentos serão severamente restringidos, mais ou menos como é hoje, ainda que existam janelas que podem ser abertas em caso de erros graves.

Os motores elétricos, um carregado pelos freios, como já é hoje, e outro acionado pelos gases do motor, via eixo do turbocompressor, desempenharão um papel central no desempenho dos carros. Os motores a explosão terão apenas 600 cavalos de potência antes os 750 de hoje.

Recuperar a potência atual dependerá, portanto, do uso dos motores elétricos. O kers ligado aos freios gera, hoje, 82 cavalos por menos de sete segundos; no ano que vem, gerara 164 cavalos por 33 segundos. Há quem tema problemas com o carregamento deste kers em pistas onde se freia pouca. Por isso, a necessidade e importância do kers ligado ao turbo.

Na melhor entrevista que li até o momento sobre o tema, Luca Marmorini, engenheiro-chefe de motores da Ferrari, disse que, em 2014, a gestão do power train, o que inclui consumo de combustível e refrigeração do aparato todo – algo bem crítico, por sinal -, será mais importante do que a potência total.

Certamente haverá um período de aprendizado intenso para as equipes. Tenho certeza que veremos muitas surpresas derivadas do consumo de combustível (há quem tema que a questão seja de tal forma difícil de contornar que as equipes possam optar por conter bastante do desempenho dos seus carros durante a corrida, inclusive inibindo ultrapassagens), funcionamento do power train e até no uso dos freios, cujo gerenciamento será bem delicado, dada a necessidade de recarregar um kers bem maior, sem falar na loteria pneumática.

Imagino também um grande potencial de polêmicas derivadas de interpretações do regulamento. É possível, ainda, que alguns pilotos tenham mais dificuldades em gerenciar todos os aparatos do carro.

A perda de potência, avisam os engenheiros, não deve significar redução da velocidade final dos carros. Eles estimam que possam ficar até um pouco mais rápidos em retas em 2014, graças ao novo regulamento aerodinâmico. O que deve cair é o desempenho em curva, todas as pesquisas de aproveitamento dos gases de escapamento, penosamente reunidas pelas equipes nos últimos anos, indo pro lixo…

É um mau sinal uma categoria que reduz de forma tão severa a potência dos seus carros e ainda grava pesadamente o desenvolvimento dos motores mas precisamos contar com a sabedoria dos engenheiros e técnicos de forma a recuperar o que se perdeu.

Dado o fato indiscutível que a RBR é, de longe, a melhor equipe técnica da Fórmula 1, fica aqui cravado o meu palpite para 2014.

Bom final de semana a todos

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

10 Comments

  1. costajr disse:

    Prezado Edu, Boa Noite!

    Parabens pela sua visão de mundo! O mundo esta entrando em colpaso.O esporte e a Formula 1 mais especificamente tambem, principalmente devido a falta de valores e da ganância desmedida. Formula 1 sempre foi uma conjugação de emoção, esporte,tecnologia, politica e interesses economicos e ate a algumas decadas, era mais emoção ,esporte e tecnologia. Hoje, sem desconsiderar o avanço tecnologico, ela e praticamente interesses politicos e financeiros. Quanto a pilotos alemães , ingleses e outros europeus, e obvio que eles tem de dominar a categoria mesmo. Onde estão as fabricas de automoveis mais tradicionais, ricas e tecnologicas do mundo? Não desconsiderando o talento dos pilotos atuais, sera que alguem e inocente a ponto de achar que estes fatores não tem um peso enorme na escolha do campeão mundial? Sera tão dificil assim perceber que os pilotos hoje são meros coadjuvantes?
    Repito, parabens pela sua visão de mundo!

  2. Manuel disse:

    Oi Mauro,
    Interessante pergunta a sua !

    Nao tenho dúvida de que sim poderíam chegar ser substituidos por robôs ou seja lá o que fosse. Basta ver os atuais DRONES e o que sao capazes de fazer ( inclusive os misseis Cruise dos anos 80 ). Mas o caso é que no fundo, um rapaz bonitinho ainda é muito mais atraente comercialmente do que um robô. Fica mais bonito um rapaz sorridente num grande cartaz publicitário do que uma fria máquina, portanto acho que teremos pilotos ainda por um bom tempo.
    um abraço, Manuel

    P.S. Creio recordar que, aqui mesmo no GPtotal, Ricardo Dívila disse que para os engenheiros os pilotos eram apenas um mal necessário.

    • Mário Salustiano disse:

      caro Manoel, Mauro e amigos

      Assisti recentemente um programa na TV a cabo chamado Robocars, onde robôs substituem os motoristas, por enquanto a dificuldade encontrada é que alguns reflexos do ser humano ainda não são replicáveis, está evoluindo mas não conseguem por exemplo uma perfeita noção de profundidade para manter os carros separados corretamente, exceto se todos os carros forem dotados de sensores, outra coisa em cruzamentos os robôs também não conseguem replicar a percepção de proximidade de outros veículos ou pedestres, novamente a exceção é se tudo for dotado de sensores, bem sabemos que é uma questão de tempo isso ser transposto mas por enquanto o ser humano ainda é necessário, até quando eu não sei.
      Manoel infelizmente já existem pesquisas avançadas em neuro ciência para substituir rostos bonitos nas fotos publicitárias por imagens holográficas que combinariam informações de redes sociais com o que achamos em termos de confiabilidade, seria um comentário um pouco mais vasto de minha parte, mas a possibilidade desse lado tecnológico de marketing acontecer antes do robô guiando é maior que imaginamos, vamos assistir nos próximos 5 anos avanços exponenciais nessa parte, não sei ainda se felizmente ou não, mas o ser humano será substituído na publicidade mais cedo que pensamos

      abraços

      Mário

    • Tenho gravada essa afirmação dele, Manuel, numa entrevista que fiz anos atrás. E, sem puxassaquismo, ele logo em seguida disse “exceto o Senna. Aquele era meu ídolo”.
      E então citou o conhecido comparativo entre o brasileiro e Alesi, no Canadá em 1990.
      Abraço!

  3. Fernando Marques disse:

    Eu acredito que apesar das evoluções constantes por qual passa a Formula 1, ela ainda continua sendo uma categoria bastante atrativa … temos críticas sim mas ainda continua sendo a melhor categoria do planeta

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Eduardo Trevisan disse:

    Meu amor pelo gepeto vai se esvaindo. Mas a culpa não é do site, é minha. Não… acho que a culpa não é minha. Continuo empolgado com a F1, apesar de acompanhar desde 1982.

    Preciso achar um site que não fale só das glórias do passado e dos males da atualidade.

    Valeu pela terceira parte do texto Edu.

    • Guilherme disse:

      Prezado Eduardo, é seu direito pensar como quer, e nem de longe ousaria discordar disto… Também sei que o Edu(Correa) as vezes tem sido meio duro demais…
      Mas o que ele quer, e boa parte de nós também queremos é competição de verdade, com amor aos carros , à mecanica e à competição de verdade..
      Não queremos artificialismo barato:seja em manobras de classificação, seja em corridas, seja em resultados.
      Chega de inventar moda…
      Não se trata de culto ao passado, mas apenas culto à competição automobilistica: deixem os caras desenvolverem, deixem os caras treinar, e deixem o melhor vencer…Sem marabolismos…
      Para a F1 voltar a ser grande de verdade, basta ser simples assim.
      Abçs

    • Mário Salustiano disse:

      Eduardo

      Eu entendo tua colocação e acho que existem outras boas alternativas na internet, mas pense na diversidade como uma possibilidade de haver quem faça contra ponto as formas artificiais de espetáculo que nos são oferecidas, eu sou a favor do esporte, foi assim que aprendi a gostar de automobilismo, mesmo assim não acho justo para os que querem espetáculo serem ludibriados com suco de pó quando o pedido é suco natural.
      Mesmo em outros sites e demais veículos pipocam noticias sobre o descontentamento que essa recente mudança de regulamento está causando a maioria dos fãs.
      Vamos nos falando e não deixa de passar por aqui

      abraços

      Mário

  5. Mauro Santana disse:

    Ou então, carros que possam voar literalmente.

    http://www.youtube.com/watch?v=fs48g5xgHxM

    Abraço!

  6. Mauro Santana disse:

    É Edu, eu particularmente não sou contra a mudanças, mas que se caso ocorram, que sejam de maneiras racionais, e honestamente falando, já muito tempo que as mudanças na F1 estão mais para avacalhações do que para algo de bom.

    Esta é a minha opinião.

    Lembro da temporada de 92, em que os comentários eram gerais afirmavam que por conta de tanta tecnologia que os carros de Sr. Frank Williams carregavam, iria chegar um dia em que os pilotos seriam substituídos por robôs ou que os carros seriam guiados por controle remoto de dentro dos boxes.

    O tempo passou, e faço a pergunta a todos aqui do Gepeto:

    Será que um dia, os pilotos de F1 serão substituídos por robôs?

    Parece piada, mas a cada ano que passa, a F1 pira tanto e viaja tanto em seus regulamentos, que olha, eu não ficaria surpreso se isso um dia acontecer.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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