Um GP, muitas histórias

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Na noite de sexta-feira escrevi uma longa introdução a esta coluna, tratando das expectativas em torno da evolução da disputa entre Lewis e Verstappen em meio a tudo que se passou em Silverstone. Mais tarde, na noite de sábado, dei continuidade ao texto ponderando o quanto a controversa postura de Hamilton na fase final da Q3 – que contribuiu para que fosse vaiado pelo público presente – poderia ter ajudado a derramar mais pólvora num barril que parece pronto a explodir a qualquer momento.

E então vem o domingo e os deuses do esporte decidem jogar todos os rascunhos no lixo, escrevendo um roteiro totalmente novo para uma corrida que será lembrada por décadas.

Existem muitas camadas a serem analisadas, então parece oportuno que comecemos por entender como o resultado final foi construído, a fim de que fiquemos livres para dar a devida atenção a alguns detalhes importantes.

1) Grid

Em condições normais, quatro décimos de segundo num treino classificatório não costumam fazer a diferença entre terminar uma prova no pódio ou na décima colocação, mas neste atípico GP da Hungria o impacto não apenas teve essa dimensão, como esteve perto de ser ainda maior. Possivelmente a atitude de Hamilton na Q3, que acabou custando a Sérgio Pérez a chance de uma segunda volta rápida, não teve maiores implicações sobre o grid de largada, considerando que o mexicano dificilmente teria melhorado o próprio tempo em seis décimos, intervalo que o separava de seu companheiro de equipe. Por outro lado, a boa forma da Mercedes – que se sentiu segura para disputar a Q2 com pneus médios – e a excelente volta de Hamilton acabaram sendo decisivas para o ordenamento que se estabeleceu após a carnificina das voltas iniciais.

2) Largada

Largadas com pista úmida são sempre tensas e mais propensas a ocorrências, agregando especial dose de risco a quem toma a linha de fora na curva 1, sobretudo em posições intermediárias. A mais recente visita da F1 ao Hungaroring não fugiu à regra.

Com cada piloto tendo de reescrever os procedimentos de largada a partir da própria sensibilidade e daquilo que foi possível avaliar sobre as condições da pista durante a volta de aquecimento, seria natural que houvesse boas e más largadas. De fato, Hamilton partiu muito bem, assim como Verstappen, que o seguia de perto. Bottas, por outro lado, teve um arranque miserável e ao fim de 100 metros já havia sido superado por Lando Norris e por Sérgio Pérez, e tinha Pierre Gasly à sua esquerda. Logo atrás de Valtteri vinha a Ferrari de Leclerc, seguida de perto pela Alpine de Esteban Ocon e pela McLaren de Ricciardo, os dois carros avançando lado a lado.

Um pouco atrás desse pelotão surgiam a Alpine de Fernando Alonso (pela esquerda) e a Aston Martin de Lance Stroll (pela direita), com a Ferrari de Carlos Sainz entre eles, ainda que alguns metros atrás. E então tudo se precipitou.

Não satisfeito em largar muito mal, Bottas aproximou-se da zona de frenagem completamente embutido na traseira da McLaren de Norris, sem ter o cuidado de tirar de lado antes que os carros começassem a desacelerar. De forma previsível o piloto inglês – que vinha numa impressionante sequência de 15 corridas seguidas na zona de pontuação – foi abalroado e saiu deslizando rumo à área de escape, indo chocar-se com alguma violência contra a Red Bull de Max Verstappen, que justamente naquele momento contornava a curva 1. E, como desgraça pouca é bobagem, a própria Mercedes de Bottas seguia desgovernada logo atrás e escorou-se de igual forma na outra Red Bull, de Sérgio Pérez.

Para Norris, Bottas e Pérez os danos foram pesados demais para que pudessem seguir na prova. Verstappen, por sua vez, perdeu parte do assoalho e certamente guiou sob condições muito desafiadoras e limitadas, mas ainda assim seguiu na corrida, nos limites exteriores da zona de pontuação.

Paralelamente ao erro de Bottas e às colisões que acabamos de narrar, a primeira curva reservou ainda diversas outras ocorrências.

Mergulhando logo atrás de Pérez, Pierre Gasly também perdeu o ponto de frenagem e só escapou de atropelar o mexicano porque a Red Bull começou a desenhar a curva justo no instante em que a Alpha Tauri seguia reta pela área de escape. E quando finalmente encontrou a velocidade desejada para curvar, Gasly se viu obrigado a alargar ainda mais a trajetória, agora para evitar um choque lateral com a Red Bull que instantes antes havia sido arremessada para fora da pista pela Mercedes de Bottas. Ao retornar à disputa, Gasly estava à frente apenas de Antonio Giovinazzi, que havia largado dos boxes após arriscar uma troca para pneus slicks ao fim da volta de aquecimento.

Focado em permanecer na pista enquanto tantos partiam para o ataque, Esteban Ocon – guarde este nome – desviou da Ferrari de Leclerc e freou de maneira conservadora. À sua esquerda seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, freou ligeiramente além do limite, talvez induzido ao erro pela referência visual de Gasly. Fica difícil saber se Fernando teria conseguido fazer a curva, porque tão logo ele começa a virar se vê obrigado a desviar do rescaldo de uma terceira ocorrência, esta iniciada por uma manobra ridícula de Lance Stroll. Tendo feito uma ótima largada, o canadense da Aston Martin havia deixado para trás o companheiro Sebastian Vettel, antes de perder por completo o ponto de frenagem para a curva 1. Numa tentativa tosca de evitar a Ferrari de Leclerc, Stroll tentou cortar caminho pela área gramada interna à curva 1, onde, claro, a aderência seria ainda menor. O Aston Martin acabou se apoiando na Ferrari da mesma forma como havia ocorrido com os carros da Red Bull, e então foi a vez da Ferrari de Leclerc atingir levemente a McLaren de Ricciardo, o levando a uma rodada. Para Stroll e Leclerc a corrida terminava ali.

Enquanto aguardava por uma rota de fuga, Alonso acabou se posicionando em sexto, atrás de Tsunoda (5º), Carlos Sainz (4º), Vettel (3º), Ocon (2º), e do líder Hamilton.

3) Relargada solitária

Em meio a tanta agitação a prova foi naturalmente interrompida, dando alguns minutos para que a Red Bull tentasse reduzir, um pouco que fosse, o estrago imposto ao carro de Verstappen, que chegava a ter um buraco no lado direito de sua carenagem.

Mais tarde, com os carros de volta à pista e se encaminhando para o grid de largada, teve lugar uma cena que desde já entra para a história da categoria. Sentindo que o asfalto havia secado, 14 dos 15 pilotos que seguiam na disputa tomaram o caminho dos boxes buscando efetuar a troca por pneus slicks. E se você pensa que a única exceção foi Antonio Giovinazzi, que já havia feito a troca antes da primeira largada, enganou-se redondamente. Tendo tudo a perder, e trafegando sem informações a respeito de qual seria a postura dos demais competidores, Hamilton dirigiu-se solitariamente para o grid vazio. Para quem achava que a largada com apenas seis carros, no GP dos EUA de 2005, já havia sido bizarra, neste fim de semana tivemos algo ainda mais radical.

A situação, a rigor, foi tão inusitada, que por alguns instantes o carro médico simplesmente parecia não saber o que fazer. De fato, se Lewis tivesse optado por permanecer na pista por uma volta a mais, muito provavelmente teria encontrado o veículo ainda circulando pelo traçado.

Nessa altura a classificação mostrava Hamilton na liderança – ainda que condenado a cair para a última posição tão logo fizesse a troca de pneus que todos os demais já haviam feito -, surpreendentemente seguido por George Russell, e então Ocon, Vettel, Latifi, Tsunoda, Sainz, Räikkönen, Alonso, Mick Schumacher, Gasly, Ricciardo e Verstappen. Mazepin foi outro a abandonar, após colidir com Kimi Räikkönen dentro do pitlane em consequência de um equívoco da equipe Alfa Romeo.

A alegria dos entusiastas de Russell, todavia, não iria durar muito. Ainda na primeira volta após a relargada ele seria visto dando passagem para Ocon, Vettel, Latifi, Tsunoda, Sainz e Alonso, para finalmente se estabelecer na oitava posição. Que viraria sétima tão logo Hamilton rumou para o boxes, em sua queda para a última posição. O motivo? Russell havia superado todos esses adversários ao tomar uma via alternativa dentro do pitlane, no momento da relargada.

Em meio a toda a essa agitação, as posições haviam se estabilizado da seguinte forma:  Ocon e Vettel se distanciavam na liderança, aproveitando-se da presença de Latifi e sua Williams na terceira posição, segurando o ritmo de Tsunoda, Sainz, Alonso, Russell, Kimi e Ricciardo. Um pouco mais atrás, Max Verstappen lançou mão de muito arrojo para superar Mick Schumacher por fora na curva 2, entrando assim na zona de pontuação. Para quem viveu os anos 90 e viu Michael Schumacher triturar Jos Verstappen enquanto ambos dividiram os boxes da Benetton, o momento protagonizado por seus filhos não deixou de trazer alguma carga de ironia histórica.

E havia também muita tensão, pois nessa altura Hamilton estava bem próximo de Verstappen, e só o holandês sabe ao certo o tipo de postura que teria numa eventual disputa direta por posição, levando-se em conta tudo o que estava em jogo e, sobretudo, as consequências da batida entre ambos na Inglaterra, e também a postura assumida por Hamilton na parte final da Q3 na própria Hungria.

A lógica, contudo, prevaleceu, e a equipe Mercedes tratou de chamar o heptacampeão aos boxes, a fim de lhe dar pista livre para que pudesse andar mais rápido que todo mundo e assim recuperasse, sem lutas diretas, muitas das posições que havia perdido ao relargar com pneus intermediários. A grande pergunta proposta para este GP da Hungria, portanto, segue em aberto para ser respondida após as férias: terão os eventos recentes, tanto na Inglaterra quanto na Q3 em Budapeste, elevado o tom da disputa pelo título mundial?

Tão logo Hamilton rumou para os boxes, Ricciardo e Verstappen entenderam que deveriam fazer o mesmo de modo a evitar o undercut, e acabaram ficando com o pior dos mundos. Abriram mão da estratégia que vinham executando, e isso não impediu que tivessem a Mercedes à frente de ambos quando retornaram à pista com pneus novos.

Apequenada por tantos anos exercendo papel coadjuvante, a Ferrari surpreendeu ao chamar Sainz aos boxes quando o espanhol ocupava a quinta colocação e estava 30 segundos (e cinco posições) à frente de Hamilton, numa postura tão reativa e medrosa que o próprio piloto resolveu desobedecer. De fato, beneficiando-se de todos os conjuntos que Lewis ainda precisava superar, Sainz conseguiu permanecer à sua frente até bem perto da bandeirada, sem precisar abrir mão da própria estratégia para isso.

Já próximo ao fim da corrida Hamilton iria mais uma vez aos boxes, estabelecendo-se um cenário no qual Ocon e Vettel seguiam na ponta, Sainz e Alonso formavam um segundo pelotão, e Lewis aparecia em quinto, virando até quatro segundos por volta mais rápido que os conjuntos que iam à sua frente. Em condições normais ele seria favorito a uma vitória emblemática, mas havia um Alonso no meio do caminho.

Usando muito mais pista que o antigo rival, o velho bicampeão mundial – que, aos 40 anos, chegou a liderar por alguns instantes – cortou por completo o momentum de Hamilton, segurando-o por tempo suficiente para tornar impossível a caçada aos líderes. Após muitos momentos de tensão, que levaram Lewis a reclamar dos riscos envolvidos nesse tipo de disputa em altas velocidades – algo que talvez Verstappen gostaria de comentar –, finalmente Fernando acabou forçando demais o ponto de frenagem ao fim da reta, perdendo assim a quarta colocação.

Restavam cinco voltas e Hamilton ainda teve tempo de alcançar e superar Sainz com muita decisão, mas a essa altura Ocon e Vettel já estavam fora de alcance. Enquanto isso, em disputa pela décima posição, um aguerrido Max Verstappen finalmente conseguiu superar a McLaren de Daniel Ricciardo. Importante destacar também o feito da Williams, que finalmente pontuou, e o fez com seus dois pilotos.

Acontecimentos estranhos continuaram a se suceder, mesmo após a bandeirada.

Vettel não conseguiu completar a volta de consagração, e mais tarde seria revelado que ele tinha apenas 300 ml de combustível no tanque, volume menor que o estabelecido em regulamento para que sejam efetuadas as análises, redundando em sua lamentável desclassificação. A equipe recorreu, apontando um problema na bomba de combustível, e até o momento em que escrevo essas linhas não sei dizer se o recurso foi acatado ou não.

Esteban Ocon, por sua vez, perdeu a entrada dos boxes e estacionou seu carro diante da torcida, após o pitlane. Tendo vencido seu primeiro GP, o piloto francês se confundiu e precisou se apresentar à direção de prova para prestar esclarecimentos. No fim, acabou sendo apenas advertido.

Ao observar o pódio, o olhar atento de nosso chefe Eduardo Correa observou que as feições de Hamilton lembravam a carregada expressão no rosto de Niki Lauda após vencer o GP de Mônaco, em 1976. Mais tarde a Mercedes informou que o heptacampeão estava mesmo experimentando um mal-estar, provavelmente relacionado à fadiga e a possíveis sequelas da covid-19.

Nada, contudo, terá sido mais estranho do que ver Fernando Alonso festejar, de forma legítima e sincera, a vitória de um companheiro de equipe…

Brincadeiras à parte, o GP da Hungria enfatizou a urgência de se devolver ao piloto que vai à frente a possibilidade de se defender em pista. Ultrapassagens precisam demandar comprometimento e coragem!

Na Hungria Alonso conseguiu segurar Hamilton atrás de si graças ao seu enorme talento e às características de uma pista que, goste-se dela ou não, possui personalidade, mas é necessário que esse tipo de disputa possa acontecer mais vezes, e numa variedade maior de autódromos.

Da mesma forma, a temporada 2021 da Fórmula 1 chega à sua metade dando uma demonstração prática do risco a que estamos expostos graças a um regulamento que dá peso muito maior a abandonos do que a vitórias. Bastaram duas corridas problemáticas para que toda a vantagem duramente construída por Max Verstappen e a Red Bull fosse pelos ares, e eu nunca vou cansar de repetir que o formato atual de pontuação, no qual um abandono pode jogar por terra a vantagem acumulada por quatro vitórias, há que se considerar a hipótese de descartar, ao fim do ano, ao menos um ou dois resultados.

Após ajudar a limpar o autódromo de Silverstone, e levantar algumas bandeiras bastante pertinentes nos âmbitos educacional e ecológico, Vettel fez uso de seu capacete e sua máscara para posicionar-se sobre temas habitualmente ignorados por eventos esportivos, tanto mais em países como a Hungria da atualidade.

Sem qualquer intenção de politizar a coluna, faço o registro por entender se tratar de algo histórico e relevante, e também para observar que o tetracampeão parece mais feliz na Aston Martin, pilotando mais solto, e cada vez mais à vontade no papel de piloto atencioso com fãs e engajado em causas que lhe são caras.

É bom ver Vettel feliz assim. Torço para que sua desclassificação seja revertida.

Tenham todos uma ótima semana.

Márcio Madeira

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

3 Comments

  1. Fernando marques disse:

    Matcio,

    1) com certeza vimos a melhor corrida do campeonato até agora. A prova foi espetacular e seu relato está perfeito e conta muito bem como foi a corrida.

    2) a vitória de Sebastian Ocon foi sensacional. E foi bom ver a Renault vencer de novo.

    3) a desclassificação do Vettel foi uma sacanagem face a grande corrida que ele fez também. Nota zero para o regulamento. Nota zero para Austin Martin também.

    4) Fernando Alonso continua o bom e excelente piloto de sempre. Se alguém tinha alguma dúvida, ela acabou na Hungria.

    5) ser jogado pra fora em duas corridas seguidas por uma Mercedes deve ter deixado o Verstappen bem danado da vida … Mas nada como saber que corridas são corridas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. João Diógenes disse:

    Excelente!!!
    A história bem contada tem nuances que enriquecem a história vivida. Parabéns.

  3. Ótima coluna Marcio! Parabéns!

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