Um pouco de história

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No período pós Segunda Guerra Mundial, as corridas de stock car, que levavam esse nome por serem disputadas com carros originais de fábrica e sem modificações, estavam se tornando muito populares. O problema é que tudo era uma zona danada, com cada corrida tendo suas próprias regras, circuitos feitos para carros, mas não para pessoas, e as vezes o contrário, por incrível que parece.

A Nascar, National Association for Stock Car Auto Racing, foi fundada por Bill France, um ex-corredor, em 1948. Ele foi o cara que olhou para aquela loucura toda e resolveu que estava na hora de organiza-la. A primeira reunião para tentar colocar ordem na casa aconteceu em dezembro de 1947, mas a primeira corrida considerada oficial aconteceu em fevereiro de 1948, nas praias de Daytona. A vitória ficou com um famoso piloto de Atlanta chamado Red Byron, que levou a prova pilotando um Ford.

Nessa época a categoria contava com três divisões principais, Modified, Roadster (conversíveis) e Striclty Stock (os originais). Os fãs curtiam mais as categorias Modified e Stock, e logo a Roadster foi abandonada. A primeira corrida em pista asfaltada da Nascar aconteceu em Darlington em 1950.

Na década seguinte a Nascar cresceu de forma exponencial, aumentando seu público e número de fãs a cada ano, fruto de estruturação e investimento. Bill France queria manter as provas organizadas e contava com o apoio das cidades que mantinham as pistas. Em Daytona, se viu obrigado a mudar o local da corrida, visto que a cidade queria manter a corrida, mas também preservar as areias da praia, além do fato de os pilotos buscarem os recordes de velocidade nas pistas de sal, em Utah. Foi nessa época que os autódromos conhecidos como superspeedways começaram a ser construídos. E quem deu o pontapé inicial, mais uma vez? O pioneiro Bill France, claro. Ele percebeu que esse estilo de pista trazia uma competição extremamente acirrada e investiu nesse modelo de competição. A primeira Daytona 500 levou três dias para terminar. Você não leu errado, foram três dias para analisar a foto da chegada e decidir entre o vencedor. Lee Petty e Johnny Beauchamp foram os protagonistas, com Petty levando a famosa prova.

Na década de 60 tivemos as primeiras provas televisionadas, porém nessa época eram mostrados apenas alguns trechos das corridas, geralmente as voltas iniciais e as finais. Nessa época, eram disputadas muito mais provas do que nos tempos atuais, sendo que em 1964 tivemos incríveis 62 corridas no ano. Imagino um amigo colunista tentando acompanhar todas as provas… À título de comparação, hoje temos “apenas” 36 corridas no ano. Durante a década de 70, as corridas eram mostradas em forma de vídeo tape apenas três dias depois da realização das provas e foi somente em 1979 que a primeira corrida foi transmitida na íntegra. A prova escolhida foi a famosa Daytona 500, vencida pelo The King, Richard Petty.

Foi na década de 70 também que tivemos a primeira grande mudança no comando da Nascar. O visionário Bill France Sr. resolveu que era hora de descansar e passou a liderança da Nascar para seu filho, Bill France Jr., no início de 72. À época, a Nascar se tornou a categoria que mais levava gente aos autódromos, atingindo a incrível marca de 1,4 milhão pessoas comparecendo às corridas.

A década de 80 trouxe uma exposição ainda maior, com cada vez mais patrocinadores investindo na categoria. Os carros e pilotos passaram a ser figuras ainda mais conhecidas pela cor de seus carros e macacões, além do nome das marcas, claro. Os patrocínios dominam inclusive o nome de cada categoria, tamanho investimento. Nessa altura de sua existência, praticamente todas as corridas eram transmitidas na íntegra e ao vivo, aumentando ainda mais o número de fãs que poderiam acompanhar a categoria e criando os mitos da categoria, com pilotos tendo grande destaque. Foi uma boa época para a Nascar, mas a próxima década elevaria os números para níveis nunca antes imaginados.

Se nos anos 70 tivemos Richard Petty como o grande piloto da década, atingindo a incrível marca de sete títulos e 200 vitórias, e nos anos 80 o domínio foi de Dale Earnhardt, The intimidator, que no fim de sua carreira também conquistou sete títulos, os anos 90 marcaram a chegada de uma nova geração, representada pelo piloto que transformou a categoria na maior série de corridas nos Estados Unidos. Seu nome é Jeff Gordon.

É impossível falar sobre a década de 90 na Nascar sem dar um destaque para Gordon. O garoto prodígio chegou à categoria em 1993, depois de ter corrido a última corrida da temporada de 1992, quando terminou em 31º, após um acidente. Jeff assinou com a equipe de Rick Hendrick e venceu logo em sua estreia correndo uma temporada completa. O resto do ano não foi tão bom para o piloto do carro 24, e Gordon se envolveu em muitos acidentes e polêmicas. O veterano Darell Waltrip foi um dos que duvidou da capacidade de Gordon, dizendo para o dono da equipe de Jeff que naquele ano ele havia conseguido bater em todos os carros, faltando apenas o Pace Car. Apesar da desconfiança sobre a capacidade de Gordon em disputar o campeonato inteiro com velocidade e regularidade, por sua pouca idade e muitos acidentes, Jeff recebeu o prêmio de estreante do ano.

Com o passar dos anos Gordon se mostrou um piloto extremamente veloz e eficiente, provando ser capaz de disputar com os grandes nomes da categoria, conseguindo quatro títulos de campeão. Com essa estatística, Gordon tornou-se o terceiro nome na lista de maiores vencedores da categoria. Aposentou-se em 2015.

O sucesso de Gordon e as disputas incríveis nas pistas levaram a Nascar a um patamar nunca antes alcançado. Foi nessa época que todas as corridas passaram a ser transmitidas na televisão, com grandes pistas no calendário da categoria, como Indianápolis e New Hempshire.

Após a explosão de popularidade nos anos 90, chegamos aos anos 2000 e, com a nova década, vieram muitas mudanças e um acontecimento chocante, além de muito triste, que mudaria os rumos da categoria. O ano era de 2001, a corrida, Daytona 500, a principal da categoria, pista onde Dale Earnhardt vencera incríveis 34 vezes. Após uma disputa intensa nas voltas finais, um acidente aconteceu na última volta, na última curva. O carro número 3 pilotado por Dale Sr. roda e atinge o muro. Ao mesmo tempo o piloto Michael Waltrip, pilotando um carro de Earnhardt, cruza a linha de chegada na frente e vence a prova, seguido de Dale Earnhardt Jr., filho de Dale Sr. O acidente na última curva marcou a Nascar por dois motivos: o primeiro e mais arrasador, a morte do piloto que muitos consideravam o melhor e mais feroz competidor da categoria, Dale Earnhardt. O sete vezes campeão não resistiu ao impacto frontal de seu carro no muro em alta velocidade, e por não estar utilizando o Hans, equipamento de proteção para a coluna e pescoço, faleceu poucas horas depois da prova ser encerrada.

O segundo motivo e principal lição que a Nascar tirou desse terrível acidente fatal, foi a maior preocupação com a segurança, em um caso muito semelhante ao que ocorreu na F1 após a morte de Senna.

A partir desse ponto a prioridade passou a ser a implementação de novas tecnologias e equipamentos de proteção aos pilotos. Essa foi a última morte de piloto ocorrida em um evento da Nascar.

A década de 2000 revelou para a Nascar um mundo novo. Dando continuidade ao crescimento de popularidade conquistado nos anos 90, a categoria iniciou seu processo de globalização, introduzindo corridas em circuitos internacionais, aumentando sua exposição na TV, elevando seu patamar como evento e mudando as regras para se manter atraente. Novas regras também foram implementadas para aumentar a segurança dos pilotos e para atrair novos fãs.

Um novo conceito de carro foi introduzido durante essa década com o modelo chamado de “Car of Tomorrow”, que tinha uma aparência muito mais futurista do que de carro de rua, algo que a Nascar sempre preservou como uma de suas principais tradições. É verdade que a mudança não foi apenas visual, já que a grande preocupação dos diretores da categoria era a segurança, algo que melhorou muito após os eventos no início da década. Mesmo com as melhoras observadas nessa esfera, o novo visual não agradou muito e logo a Nascar propôs uma nova configuração de bolha, com os novos carros da Geração 6, muito mais parecidos com carros de rua tradicionais.

O piloto de destaque da década de 2000 só pode ser um: Jimmie Johnson. Estreando na categoria em 2003, ele rapidamente se elevou como um dos grandes destaques da categoria. Além dele, a Nascar viu a aparição uma renovada leva de pilotos que colocaram uma dose extra de energia nas disputas. Pilotos como Ryan Newmann, Dale Earnhardt Jr., Kevin Harvick, Math Kenseth, Kurt Busch, Brad Kaselowski, Joey Logano, Kyle Busch e Denny Hamlin se juntaram aos velhos leões da categoria e travaram duras batalhas nas pistas.

Nesse período, Johnson foi o piloto de maior destaque, vencendo nada mais nada menos do que sete títulos da categoria principal, sendo cinco deles de forma seguida nos anos de 2006, 2007, 2008, 2009, 2010.

No decorrer da década, os líderes da Nascar exploraram algumas mudanças na categoria buscando sempre trazer mais emoção e inovação para a categoria, obviamente visando um aumento de cobertura da mídia, aumento no número de fãs e venda de ingressos. Em 2004 foi instituído um novo formato de disputa pelo título, o famoso Chase. Em resumo, o novo formato classificaria apenas os dez melhores pilotos do campeonato e qualquer outro que estivesse até 400 pontos do líder para a disputa do título, buscando trazer mais emoção para as últimas corridas do campeonato.

Nesse período da história da Nascar tivemos mudanças na liderança da categoria, com a nomeação de Brian Z. France, filho de Bill France Jr., como novo CEO e Chairman da liderança. Brian continua tentando inovar a categoria e aumentar os números de venda de ingressos, audiência, cotas de patrocinadores e venda de merchandising.

Os carros também mudaram bastante nesse período, com a introdução do conceito do Car of Tomorrow, um carro focado no aumento de segurança, baixo custo e visual mais voltado para carro de corrida do que carros de rua. Esse foi um dos pontos mais criticados nesse novo carro, já que as origens da Nascar são justamente o contrário disso. A Nascar sempre foi a categoria que trazia carros de rua para as pistas, aumentando a identificação das pessoas com os carros que elas poderiam ter em casa.

Outro ponto muito criticado foi a falta de dirigibilidade dos novos carros, o que prejudicava muito as disputas na pista. Com os fãs torcendo o nariz e os pilotos reclamando do novo carro, não foi surpresa quando a Nascar anunciou a nova geração 6 de carros para a categoria. Introduzidos em 2013, os novos carros lembravam muito os carros de rua, eram bem mais bonitos, mais seguros e melhores para dirigir. Um tiro bem no alvo, não poderia dar errado, assim todos ficaram felizes com a mudança.

Além do novo carro, a Nascar assegurou um novo contrato de transmissão com as televisões com duração até 2024, sem dúvida um ótimo negócio para os fãs da categoria.

Abraços e até a próxima!

Rafael Mansano

Este texto é um redução de três colunas publicadas originalmente em meados de 2015.

Rafael Mansano
Rafael Mansano
Viciado em F1 desde pequeno, piloto de kart amador e torcedor de pilotos excepcionais.

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