UMA CARTA PARA COLIN CHAPMAN

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Prezado Colin,

Acabei de chegar de Genebra e terei amanhã uma segunda opinião sobre o estado da minha cabeça. Pessoalmente, me sinto muito fraco e doente, ainda tenho de ficar deitado a maior parte do dia. Depois de ver este novo doutor e ouvir sua opinião, poderemos fazer uma decisão final sobre Mônaco e Indy.

Estou segurando esta foto incrível que mostra muito bem o acidente. Não sabia que tinha voado tão alto. Aparentemente, Robin Herd viu a asa quebrar, mas ele não pôde ver o acidente porque ele ocorreu depois da curva.

Mas vamos ao assunto principal, Colin. Estou correndo na F-1 há cinco anos e cometi um erro (entrei por trás no Chris Amon em Clermont-Ferrand) e tive um acidente em Zandvoort causado por uma falha na hora de entrar uma marcha. Fora isso, consegui sempre me manter longe dos problemas. Esta situação mudou rapidamente desde que eu entrei na sua equipe: Levin, F-2 em Nürburgring e agora Barcelona.

Sinceramente, seus carros são tão rápidos que ainda seríamos competitivos com alguns quilos a mais para fortalecer as partes mais frágeis. Em cima disso, acho que você deveria prestar mais atenção no que seus funcionários andam fazendo, tenho certeza que a suspensão do F-2 seria diferente. Por favor, leve meus pensamentos em consideração. Só consigo dirigir um carro que eu confie, e o ponto da falta de confiança está muito próximo.

Saudações.

+++

A carta acima foi assinada pelo austríaco Jochen Rindt em 9 de maio de 1969, cinco dias após o acidente que sofreu em Barcelona quando a asa traseira de sua Lotus 49B se quebrou. O documento serve para ilustrar a maneira de Colin Chapman trabalhar: sempre buscando inovações nos seus equipamentos, levando-os ao limite, ainda que isso deixasse seus pilotos inseguros (interna e externamente).

Em uma época sem computadores e seus sofisticados programa de engenharia, Chapman se destacou pela genialidade. Não faltam relatos de algum estalo que o construtor teve enquanto jantava com amigos. Em um pedaço de guardanapo, fazia os primeiros rabiscos de alguma inovação que acabaria mudando a história da Fórmula 1. Algumas delas são aplicadas até hoje.

Ele criou o chassi monocoque, fez experimentos com um F-1 de tração nas quatro rodas, competiu com um carro-turbina (com Emerson Fittipaldi no GP da Itália de 1971) e criou o revolucionário carro-asa. Reza a lenda que esta descoberta veio por um acaso: Chapman teria fornecido dados errados em um teste num ainda primário túnel de vento, indicando a parte inferior do carro em fórma de abóbada ao invés de plana. Ele e o engenheiro Peter Wright quase caíram da cadeira quando viram os resultados: obtiveram o dobro de pressão aerodinâmica.

Para mim, sua grande obra foi o Lotus 72, o carro no qual o pobre Rindt perderia a vida e ganharia o título póstumo, e também o bólido da primeira conquista de Emerson Fittipaldi. Em forma de cunha, com radiadores nas laterais, o 72 marcou o rompimento com a Fórmula 1 do passado. Foi o fim dos famosos charutinhos e o início da era moderna, onde a aerodinâmica e os materiais mais leves ditariam o rumo a seguir.

Mas o preço do sucesso das criações de Chapman se mostrou muito caro para diversos pilotos. Alan Stacey (1960), Ricardo Rodriguez (62), Jim Clark, Mike Spence (ambos em 68), Jochen Rindt (70) e Ronnie Peterson (78) perderam suas vidas em cockpits da Lotus. Em 62, foi também a bordo de um Lotus que Stirling Moss sofreu o acidente que encerrou prematuramente sua carreira.

Esta triste lista explica as preocupações de Rindt na carta acima. Talvez, Chapman era um homem à frente do seu tempo. Fosse na F-1 contemporânea, o construtor poderia brincar à vontade que o risco a seus pilotos seria minimizado pela célula de sobrevivência e por circuitos infinitamente mais seguros que nos anos 60 e 70.

Um enfarte em dezembro de 1982 tirou a vida de Colin Chapman. Dizem.

Na época, o fundador da Lotus estava envolvido em um enorme escândalo financeiro. Das 80 milhões de libras destinadas à construção de uma fábrica para os carros DeLorean em Belfast, 17 milhões foram desviadas às contas de Chapman e John DeLorean na Suíça. Boa parte do dinheiro provinha do Governo Britânico, da “Dama-de-Ferro” Margareth Thatcher. Desaparecer numa hora como aquela era uma boa para o construtor. Ninguém nunca viu seu corpo, o caixão estava lacrado no enterro.

Em 1992, a justiça condenou Fred Bushell, diretor-financeiro da Lotus na época de Chapman, a três anos de prisão e uma multa de 2,25 milhões de libras. O juiz do caso fez a ressalva que, se ainda tivesse vivo, Chapman passaria pelo menos dez anos atrás das grades.

Sua Lotus foi passando de mão em mão e, aos poucos, se afundando em dívidas e projetos fracassados. Destaque para o Lotus 100T de 1988, tão ruim que afugentou a Honda da equipe, e os milhões desperdiçados com o péssimo motor Lamborghini no início dos anos 90. Em outubro de 1994, o espólio da equipe foi comprado por David Hunt, irmão do campeão de 1976 James Hunt. Sem conseguir patrocínio e dinheiro para pagar as dívidas, o novo dono anunciou o fechamento da Lotus em fevereiro de 1995, há exatos dez anos.

Hoje, Clive Chapman dirige o Classic Team Lotus, que negocia e restaura antigos bólidos construídos por seu pai e os chefes-de-equipe que o sucederam para a diversão de gente muito endinheirada. A sede é a mesma dos velhos tempos, o charmoso castelo de Kettering Hall, ao lado da fábrica em Hethel. David Hunt ainda possui os direitos sobre o nome da equipe para a Fórmula 1, e volta e meia surge o rumor de que alguém vai comprá-los para trazer a Lotus de volta à categoria. De um jeito ou de outro, o mito criado por Colin Chapman permanece vivo.

Um abraço e até a próxima,

Luis Fernando Ramos
GPTotal
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A nossa versão automobílistica do famoso "Carta ao Leitor"

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