Vendo a coisa preta

Surtees – nas 2 e nas 4
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Pistas
07/09/2011

É preciso ver com muita atenção essa coisa preta, circular e impessoal antes de tomar decisões na F1.

 

Lá pelos anos 70, surgiu uma frase-revelação na F1: os projetistas começavam a desenhar os carros a partir dos pneus. Revelação porque ninguém – leigo – imaginava que os pneus fossem tão importantes, esquecendo que são eles o ponto que liga a potência ao solo, equilibrando tudo com aderência. Mas essa era uma época em que o fornecedor de pneus podia ser qualquer um para qualquer equipe.

Em sua épica vitória em Nurburgring 68, em meio a chuva e nevoeiro,  Jackie Stewart soube como ninguém tirar partido de seus pneus Dunlop, por exemplo, que não eram uma unanimidade no grid. E esta interessantíssima Spa 2011 merece ser vista sobre esse prisma também.

Após a corrida, Adrian Newey disse que foi a corrida mais assustadora em que esteve envolvido. Depois da classificação e a descoberta das bolhas nos pneus das RB, a Pirelli informou que isso se devia a uma cambagem diferente da recomendada e que isso poderia ter consequências graves se os pneus fossem demasiado forçados no início, com tanque cheio.

Importante ressaltar que a formação de bolhas não compromete tanto o desempenho, diferentemente do desgaste. Mas, sob stress, geram vibrações, que podem provocar rompimentos.

Dura decisão: mudar os carros no parque fechado e perder as posições conquistadas ou largar assim mesmo e seja o que God quiser? Houve uma tentativa de classificar essas bolhas como pneus danificados, para mudar a cambagem legalmente, mas as demais equipes chiaram, dizendo que quem não tinha esse problema iria ser prejudicado.

Como vimos, Christian Horner optou pela segunda alternativa, tomando o cuidado de aumentar a pressão dos pneus para maior segurança. Seus dois pilotos foram chamados cedo para o primeiro pit e, a partir daí, cada um fez a sua escolha estratégica, Mark declaradamente se sentindo mais à vontade com os médios.

Estratégias extremamente bem sucedidas, como se viu, uma vez que esse circuito não estava entre os favoritos da Red Bull, tanto que apelaram para uma asa traseira mínima.

Depois da corrida, tanto Alonso quanto Button acreditavam que tinham perdido uma oportunidade de vitória. O primeiro devido aos pneus médios e o segundo por ter largado em 13º. Se tivesse largado na primeira fila…

Olhando novamente para o registro dos tempos, a tese não parece se sustentar. As Red Bull foram mais rápidas que Ferrari e McLaren tanto com os pneus option quanto os prime.

Vamos analisar a corrida do asturiano primeiro, a partir da entrada do fator mais inesperado, o safety car, cortesia da dupla Hamiltão & Kobaya, que tocaram o Desafinado com galhardia.

Vettel trocou seus option velhos de oito voltas (fora as da sessão de classificação), e o espanhol, com cinco voltas no ativo, arriscou ficar na pista. Domenicali acha que fizeram a coisa certa, pois Fernando iria pegar tráfego, o ritmo era bom e a F150 Itália costuma ser contida nos gastos com borracha.

No entanto, a melhor volta de Vettel com o segundo jogo (options) foi 1m51s97 na volta 19 contra 1m52s90 de Alonso na 21 (options), praticamente um segundo de diferença. Para o terceiro stint, as RB e Alonso foram de médios. Este último colocou na volta 29, Vettel na 30 e Webber na 31.

Nesse ponto da corrida, o asturiano estava 6 segundos atrás de Vettel. Terminou a 13 segundos. Domenicali achou que a culpa era do velho problema de cocção pneumática insuficiente da F150 Italia quando pega pneu mais duro, inclusive porque estava com a versão antiga da suspensão traseira.

A melhor volta da corrida, de autoria de Webber, foi 1m49s88, a seguinte depois da troca. Nas três voltas seguintes ele foi 1.5 segundo mais rápido que o Alonso, cuja melhor volta, a 41, com primes, foi 1m51s10. Quem teve a ideia de voltar com essa suspensão antiga deve estar bem preocupado agora…

Agora vamos para o gentleman Button.

Largou com prime, tomou umas porradas típicas de meio de pelotão, foi pros boxes e calçou options. Continuou abrindo caminho no meio do tráfego e sua primeira volta sem ninguém pela frente foi a 29, virando modestos (comparando com Vettel) 1m52s56, com seus pneus já um tanto decrépitos.

A melhor volta de Button, 1m50s06, veio no stint final (volta 39), com options. Nessa volta Webber era 0.07 segundo mais rápido que ele com primes, que se acreditava serem um segundo e meio mais lentos que os options, se não mais.

Não critique os estrategistas antes do tempo. Como a maior parte dos treinos se deu com pista molhada, ninguém tinha dados confiáveis, por isso as cartas ficaram tão embaralhadas. Ninguém sabia exatamente como se comportariam os pneus de seco. A prova é que os quatro primeiros colocados optaram por quatro diferentes estratégias. Para Vettel foi muito bom ter parado na 5a. volta pois, saindo em sétimo, a 10 segundos do ponteiro, com pneus novos, pode manter um ritmo que possivelmente foi o fator decisivo para a vitória. Quando parou durante o safety car, tinha margem suficiente para perder apenas uma posição. Quando precisou por pneus médios, a equipe já tinha recolhido informações suficientes sobre eles para gerenciar adequadamente seu ritmo, graças às voltas que Webber tinha dado com esse tipo de pneu.

 

Definitivamente, é preciso ver com muita atenção essa coisa preta, circular e impessoal antes de tomar decisões na F1.

 

Bom final de semana

 

Carlos Chiesa

 

 

 

 

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

1 Comment

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