Vitória de Pirro

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Pirro de Rei do Épiro, primo de Alexandre o grande, acabou criando sua fama ao cunhar uma frase que se tornou lendária e que conhecemos como vitória de Pirro.

Após a vitória sobre os romanos, na batalha de Asculum, isso em 275 a.C., ao perceber que o número de baixas de seus soldados havia sido muito grande, ele falou aos seus generais:

“Mais uma vitória como esta e estarei perdido!”

Desde então sempre que alguém consegue conquistar algo em que o preço pago não vale o sacrifício imposto, essa frase é lembrada.

E é justamente o que essa frase pode definir o que aconteceu esse final de semana após o GP canadense.

Numa cena que vai ainda ter muitos desdobramentos e polêmica, na volta 48, Sebastian Vettel erra na curva 3 e após retornar dá uma fechada em Lewis Hamilton, logo se estabeleceu a polemica, afinal foi proposital ou involuntária a ação de Vettel? Durante mais 6 a 7 voltas ficamos aguardando e os comissários de pista após a análise deram a penalização de 5 segundos ao alemão e a sua vitória não foi validada, mesmo ele tendo cruzado a bandeirada em primeiro lugar.

Apesar de chegar à frente na pista, o piloto da Ferrari acabou na segunda posição. Charles Leclerc foi o terceiro colocado a um segundo de seu companheiro de equipe, após a correção do tempo somando a penalização.

Valtteri Bottas, Max Verstappen, Daniel Ricciardo, Nico Hulkenberg, Pierre Gasly, Lance Stroll e Daniil Kvyat completaram os top-10.

O que se seguiu foram cenas onde um Vettel visivelmente irritado, a princípio não levou o carro a posição do trio que compõe o pódio e foi embora para o trailer da equipe se recusando a ir a comemoração do pódio, acabou sendo convencido e numa cena que entra aos anais da história tirou a placa de primeiro lugar da frente da Mercedes de Hamilton.

As caras de todos os presentes foram de constrangimento puro, ficou um clima no mínimo estranho, nunca uma festa acabou dessa forma na Fórmula 1 moderna, a ultima vez que um piloto se recusou a ir ao pódio foi em 1981 quando um Alan Jones enfurecido pela atitude de Carlos Reutemann em não atender a ordem da equipe se recusou a trocar de posição com ele, não subiu ao pódio.

Antes da disputa da corrida, as expectativas no Canadá estavam em alta de termos uma boa disputa, desde os treinos da sexta e com a conquista da pole por parte de Vettel no sábado, a força da Mercedes estava em xeque, todos estavam muito atentos a possível quebra da hegemonia das vitórias dos pilotos da Mercedes em 2019.

A Ferrari não tem um carro bom de curvas e ainda contando com dificuldades em relação a sua adaptação aos pneus usados nessa temporada, mas em velocidade de reta é um dos carros mais velozes do grid, contando com as retas de Montreal e 3 áreas de abertura do DRS, eles finalmente teriam uma chance e tanto para brigar pelo primeiro lugar.

Tudo isso se concretizou na pista, após a largada Vettel assume a ponta com Hamilton em seu encalço e um Leclerc em terceiro, sem dúvida seria um desses 3 a levar a vitória, ao longo das primeiras voltas a atenção estava na estratégia que seria adotada as trocas de pneus e como os carros se comportariam, esses 3 pilotos logo formariam um pelotão destacado, com cerca de 5 segundos entre Vettel líder e Leclerc em terceiro

No pelotão seguinte a boa surpresa de Daniel Ricciardo em quarto lugar, seguido pelo seu companheiro de equipe Nico Hulkenberg, eles ficaram na zona de pontos todas as voltas mostrando uma Renault em boa evolução

Quem também fez uma prova de destaque foi o Max Verstappen, largando em décimo após ter sido cortado no Q2 em função da batida de Magnussen no muro dos campeões, o holandês adotou uma estratégia de pneus diferente e partiu para uma prova de paciência e recuperação, finalizando em quinto já dá para falar que seu amadurecimento está muito elevado esse ano

Quem ficou bem abaixo das expectativas foi Valtteri Bottas, errou no treino e largou em sexto, mesmo terminando em quarto, ele fez uma prova burocrática e terminou a 51 segundos de Lewis Hamilton.

Vettel e Hamilton ficaram muitos próximos durante a corrida, uma bela disputa se desenhava para o final da prova, até acontecer a punição, com um Vettel usando de todas as forças para manter seu carro a frente de Hamilton, estava claro que ele não teria ritmo para abrir os 5 segundos e aliviar a punição

O Comissário convidado para essa prova foi o ex-piloto Emanuele Pirro, com passagem modesta pela Fórmula 1 o italiano teve uma carreira bem destacada em endurance, não a toa venceu as 24 horas de Le Mans 5 vezes, não é um piloto amador ou ruim, muito pelo contrário tem um currículo robusto e nunca foi insensato ou desleal, acredito que a FIA nessa hora usa esses pilotos apenas como justificativa para sua forma burocrática de avaliar o conceito de conduta esportiva, aqui vamos deixar em aberto o que nossos leitores pensam sobre a punição.

Para você amigo leitor, a decisão da punição foi certa ou errada? Deixa teu comentário.

vamos falar de jurisprudência…

O Canadá sediando a sétima prova, representa o primeiro terço do campeonato 2019, que tem previstas 21 provas,com uma hegemonia tão gritante, fizemos um levantamento sobre as maiores hegemonias na história da Fórmula 1 no terço inicial dos campeonatos, usando como critério o cálculo percentual de pontos obtido pelas equipes na pontuação válida no regulamento vigente no ano da disputa.

Nessa conta após a prova de ontem a Mercedes passa a ser a equipe com a maior hegemonia de uma equipe na história da F1, vamos aos números:

Disputadas 7 provas o máximo de pontos que são possíveis vem da soma dos 25 pontos da vitória, os 18 pontos do segundo colocado e o ponto adicional pela volta mais rápida, o resultado são 44 pontos, após 7 provas em 2019 o número máximo possível de se atingir são 308 pontos.

A Mercedes com 295 pontos consegue até o momento obter 95,8% da pontuação máxima e atinge o degrau mais alto desse hipotético pódio.

Temos o seguinte resultado em termos de hegemonia:

Campeonato de 2019 – Dupla da Mercedes (Hamilton e Bottas) atingindo 95,8% da pontuação máxima

Campeonato de 2015 – Dupla da Mercedes (Hamilton e Rosberg) atingindo 93,7% da pontuação máxima

Campeonato de 2014 – Dupla da Mercedes (Hamilton e Rosberg) atingindo 93% da pontuação máxima

Campeonato de 1992 – Dupla da Williams (Mansell e Patrese) atingindo 92,5% da pontuação máxima

Campeonato de 1988 – Dupla da McLaren (Senna e Prost) atingindo 84% da pontuação máxima

Fala-se muito da hegemonia da Williams em 1992 e da McLaren em 1988, nada disso se compara ao que a Mercedes vem obtendo nos últimos 5 anos.

Desculpem o trocadilho, mas fui buscar a inspiração para o título da coluna a partir do comentário em nosso grupo de WhatsApp e do nome do comissário.

Essa foi uma vitória de Pirro.

Não para a Mercedes, que os números mostram que não precisa de proteção ou decisão de tapetão, nem para Hamilton, um piloto que não conquistou à toa 5 títulos mundiais.

Só que a conquista vai ficar maculada, respinga nos protagonistas esse excesso de espetáculo que é imposto pela FIA, tornando muito as disputas artificiais e sem sentido.

Dando uma navegada na internet encontramos muitas opiniões, a favor e contra, agora todos estão pontuando a dificuldade de termos na pista uma boa dose de disputas sem o excesso de zelo da FIA.

Nas palavras de dois ex-campeões:

Mansell em seu Twitter: “O que o Seb deveria fazer? Louco, o carro saiu. Nesse momento ele era um passageiro. É ridículo 5 segundos de punição, Seb fez bem não bater no muro. SEM ADERÊNCIA NA GRAMA! Sem espaço na pista. Ótima condução do Lewis”.

Mário Andretti em seu Twitter: “Eu acho que a função dos comissários é penalizar movimentos inseguros e não erros sinceros resultado de uma corrida disputada. O que aconteceu no GP do Canadá não é aceitável neste nível de nosso grande esporte a Fórmula 1”.

Em resumo: Segurança Sim, artificialismo não

Outra situação como essa mata de vez o pouco de disputa que ainda vemos na Fórmula 1

Boa semana

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

9 Comments

  1. Arthur Medeiros disse:

    Pelo comentário do Giaffone que foi comissário, acho que a situação é resolvida, ele disse que se fosse comissário tbm daria os 5 segundos, cumpriram a regra. Se atrapalha o espetáculo aí já é outro ponto de vista. Acredito que o próprio Vettel acabou se beneficiando dessa punição que lhe custou a vitória, porque com isso quase ninguém debateu mais um erro crucial dele sob pressão. Caso o Hamilton tivesse feito a ultrapassagem após o erro, ou ele batido, na segunda feira a mídia do mundo inteiro estaria caindo de pau no alemão, a punição deu uma mascarada boa no 6º ou 7º erro grave dele nesse último ano e meio.

  2. Fernando Marques disse:

    Vou tentar repetir meu comentário que ficou na moderação.
    A polêmica da punição ao Vettel está tendo destaque por ter sido numa disputa pela liderança da prova.
    Meu questionamento é que em todas as corridas, em disputas nos pelotões lá de trás, sempre acontece este tipo de situação pois é raro não ver uma corrida em que um piloto não tenha sido punido por isso, ou seja um piloto fechando e impedindo a passagem de outro em razão de erros de pilotagem.
    Nunca vi ninguém da mídia fazer críticas destas punições, pois elas pouco interferem no resultado principal da corrida. Todos dão razão ao regulamento.
    Vejo assim a punição do Vettel. O regulamento foi cumprido.
    Agora que este regulamento está deixando as corridas sem graça.
    Não foi a toa que o publico presente vaiou. O final ficou sem graça

    Fernando Marques

  3. Mauro Santana disse:

    Excelente Coluna Salu!

    Parabéns!!

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. Fernando Marques disse:

    Fiz um comentari e pelo visto ficou na moderação

    Fernando marques

  5. Manuel Blanco disse:

    Caro Mario, ante tudo te dou meus parabéns por outra excelente coluna !

    Entrando em matéria, em minha opinião a punição foi merecida ainda que sua aplicação resultasse deficiente. Foi merecida, pois o que tivemos foram dois erros de Vettel : um de pilotagem ( ao perder o controle do carro ) e outro de comportamento ( ao voltar à pista como fosse ). Andretti fala de “erros sinceros”, o que me leva a pensar que, segundo esse mesmo raciocínio, também há “erros fingidos”. Assim, como todos temos a tendência de fingir, mentir ou o que seja necessário em prol de nossos interesses, é lógico que o regulamento se aplique sob a premissa de que todos mentem. Alem do mais, também é lógico que quem erre sofra as consequências desse erro.
    De todo modo, me parece que um “drive through” ou um “stop and go” teriam tido um efeito punitório mais imediato do que alterar a ordem de chegada da corrida. O que sempre resulta pouco estético.

    • Rubergil Jr disse:

      Manuel Blanco, perfeito o seu comentário.

      Apenas uma discordância. Um stop-and-go ou drive-thru considero como penas excessivas. Os 5 segundos adicionados são corretos, mas resultam plasticamente ruim.

      Minha sugestão é a seguinte: já que a FIA tem total controle sobre a telemetria do carro, então que se elabore um modo “punição” nos carros, que o piloto aciona em um determinado ponto da pista que seja seguro (por exemplo uma saída de curva lenta), e que limite os giros do motor a, digamos, 8 mil rpm em sexta marcha por 5 ou 10 segundos. Aí o piloto ficará com potência baixa e receberá uma punição já na pista, no desempenho.

      Será isto tão absurdo assim? Em tempos de VSC e regras loucas de bandeira amarelas nos treinos, não acho.

      Abraço.

      • Manuel Blanco disse:

        Oi Rubergil,
        Obrigado pelo comentário.
        O problema das punições é que, supostamente, tratam de restabelecer a situação anterior à infração e isso é o realmente difícil de conseguir e muito menos de comprazer a todos. Muito possivelmente, o erro de pilotagem de Vettel foi decorrente da pressão à que o submetia Hamilton, portanto o demérito de um foi mérito do outro. Se, após sair da pista, Vettel tivesse retornado a ela atrás do inglês, não haveria nenhuma polemica, pois estaríamos todos de acordo em que o alemão tinha sido vitima do seu erro. Contudo, como ele voltou à pista justo na frente de Hamilton, muitos consideram a punição excessiva, sem considerar o perigo que a manobra envolveu para os dois, e que foi o que lhe custou a punição. A punição dos 5 segundos, realmente foi uma punição de uma posição perdida. Assim, considerando que antanho uma saída de pista representava na maioria dos casos, no mínimo, o abandono da prova (em alguns casos algo até muito mais grave), essa punição me parece apenas um mal menor.

        • Rubergil Jr disse:

          Perfeito caro Manuel, bem observado a questão das áreas de escape de antigamente. Abraço!

  6. f disse:

    mario

    bela coluna.

    Eu estou em dúvidas em relação a punição que o Vettel tomou … como voce bem mostrou exemplos que demosntram jurisprudência e assim uma injusta punição …
    A minha linha de raciocínio vai com relação a varias punições já aplicadas a pilotos que andam no pelotão de trás, onde eu me lembre não ouvi e nem li nenhuma critica a punição aplicada. E muito menos a esta exposição de destaque que a punição de Vettel está tendo nas midias. E muitas já aconteceram neste ano. Eu acho que estes exemplos é que deveriam ser usados para saber se a punição do Vettel foi correta ou não, por estar já sendo aplicada a outras punições nesta temporada.
    Em termos esportivos, eu achei a punição absurda. É comum numa disputa por posições que erros aconteçam, ainda mais quando se briga pela liderança de uma corrida. Foi o que aconteceu com Vettel, que depois se defendeu como pode, evitando que o Hamilton aproveitasse da situação. Hamilton faria o mesmo se tivesse na pele do Vettel.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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