Vitória derrota em 300 metros

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Para quem está ou esteve envolvido com o automobilismo, além dos elogios à emoção e a competição do esporte, vem sempre a seguinte afirmação: automobilismo é cruel. Ao final de uma corrida ou campeonato, há apenas um vencedor. Numa carreira que pode ser longa, um piloto mais perde do que ganha e isso faz parte da competição.

Automobilismo é um dos pouquíssimos esportes em que o atleta depende necessariamente de um segundo item para vencer. O piloto pode se preparar física, mental e psicologicamente, que ainda dependerá de uma máquina e seus caprichos. Engenheiros, técnicos e mecânicos preparam por centenas, até mesmo milhares de horas, para que tudo funcione bem, mas a máquina pode falhar. Muitas vezes em momentos inacreditavelmente cruéis.

O ano de 2018 começou com a segunda vitória de Carlos Sainz, do alto de seus 55 anos, nesse estranho Rally Dakar (cuja competição ocorre a milhares de quilômetros de… Dakar!) com uma pilotagem perfeita com seu Peugeot. O espanhol derrotou o não menos legendário ‘Mousier Dakar’ Stefan Peterhansel.

Contudo, vinte anos atrás, ‘El Matador’ sofria uma das derrotas mais cruéis da longa história do automobilismo e a Toyota teria uma avant-première do que lhe aconteceu em Le Mans dois atrás.

O Mundial de Rally viveria em 1998 seu segundo ano dos novos regulamentos técnicos, em que saía o Grupo A e entrava o WRC (World RallyCar), dando origem ao nome que todos nós chamamos o Mundial de Rally até hoje. Naquele momento, acabava a obrigatoriedade de que os carros fossem produzidos em massa para participar do campeonato, porém, não haveria a falta de limites como havíamos visto no Grupo B que durou até 1986, quando os carros eram protótipos monstruosos de motor central.

Esse cenário atraiu várias montadoras para o WRC e uma delas era a Toyota. Os japoneses estrearam seu Toyota Corolla (com um hatch de dianteira bem estranha) ainda em 1997. Os japoneses tentavam voltar aos tempos de domínio no começo da década de 1990, quando o Celica era o carro a ser batido, e tiraram da Ford o espanhol Carlos Sainz.

Sainz formava uma espécie de quadra de estrelas do Mundial de Rally na década de 1990. Além dele, havia o tetracampeão Juha Kankkunen, já vendo sua carreira entrando em declínio, o espetacular Colin McRae e o bicampeão do momento, Tommi Mäkkinen.

A Ford ainda utilizava o modelo Escort (bem parecido com que víamos nas ruas brasileiras nos anos 1990) e com Kankkunen não mantendo a velocidade de outrora, a marca americana praticamente não brigou pelo título em 1998. Piloto mais popular do rally por causa do videogame com o seu nome, além de sua tocada espetacular, McRae pilotava o mítico Subaru azul patrocinado pela ‘555’ em amarelo nas laterais. Um dos carros mais marcantes daquela geração, mas o escocês matinha sua impetuosidade que fazia conseguir três vitórias ao longo da temporada, assim como três abandonos num calendário de apenas 14 etapas. McRae esteve na briga pelo título até o último terço do certame, mas sua falta de regularidade deixou a batalha pelo campeonato entre Sainz e Mäkkinen.

Logo em sua reestreia pela Toyota, Sainz mostrava que os vários testes no inverno europeu tinham funcionado e, mostrando sua enorme maturidade, o espanhol conseguiu uma vitória logo na abertura do campeonato, em Monte Carlo. Mäkkinen daria o troco na etapa seguinte, conseguindo manter a tradição dos pilotos nórdicos sempre vencerem na gelada etapa da Suécia. A partir de então Sainz dá um show de regularidade. Foram quatro segundos lugares e uma vitória nas dez etapas seguintes, enquanto Mäkkinen se recuperava de dois abandonos seguidos (Safari e Portugal), ao vencer quatro etapas, sendo três de forma consecutiva. Sainz liderou a maior parte do campeonato, mas quando Makkinen venceu na Austrália, penúltima etapa do WRC, o nórdico ultrapassava Sainz (que fora segundo na Oceania) na tábua de classificação por apenas dois pontos. A última e decisiva etapa do WRC seria no Rally da Grã-Bretanha: o tradicional e lamacento RAC Rally.

Seria uma disputa titânica entre dois pilotos de perfis diferentes, mas muito experientes e conscientes. Correndo com seu belo Mitsubishi Lancer vermelho, Mäkkinen vinha embalado pelas suas três vitórias consecutivas, além de não ter que encarar um jejum de títulos que Sainz enfrentava desde 1992, além de ser a primeira disputa de título da Toyota num certame chancelado pela FIA. Era, acima de tudo, uma briga de titãs.

Como era o líder do campeonato, Mäkkinen era o primeiro a largar para as especiais, seguido por Sainz. Considerado muito frio, Mäkkinen é traído por uma mancha de óleo numa curva à esquerda e bate forte o pneu traseiro direito numa pedra logo nas primeiras especiais de sexta-feira. O estrago tinha sido grande. O finlandês tentou continuar com apenas três rodas, mas estava claro que a rali tinha terminado para Tommi.

Sainz vinha logo atrás de Mäkkinen e avisado pela equipe do óleo no local, o espanhol tirou o pé e mesmo escorregando, continuou normalmente rumo ao tricampeonato. A pontuação era igual à F1 e os seis primeiros marcavam pontos. Tudo o que Sainz precisava era de um quarto lugar para se sagrar campeão em 1998.

Sainz diminuiu completamente seu ritmo, andando até mesmo a 60% do seu potencial, como o próprio espanhol afirmou em entrevista. Enquanto isso, desolado num hotel, Mäkkinen apenas esperava que algum milagre acontecesse, mas todos esperavam que o piloto da Mitsubishi entregasse o cetro de Campeão Mundial para Carlos Sainz. Ao final de todas as especiais, a torcida espanhola vibrava quando Sainz passava. O título era certo e Sainz demonstrava muita confiança. Depois de dois dias frios e com neblina, o terceiro e último dia tinha sol e bom tempo, diminuindo as chances para que algo desse errado para El Matador.

No entanto, aconteceu uma das cenas mais cruéis da história do automobilismo.

Na última especial do RAC Rally (liderado pelo jovem Richard Burns, companheiro de equipe de Mäkkinen na Mitsubishi) e do campeonato, Sainz se aproximava da meta final com vários fotógrafos esperando flagrar a alegria do espanhol com o tricampeonato. Quando o Castrol Toyota Corolla WRC branco apontou para o final da especial, notou-se algo muito estranho. Havia fumaça e Sainz diminuía o ritmo. Ao invés do belo ronco do motor Toyota, somente silêncio. Faltavam 300 metros para a linha de chegada. Sainz e seu navegador Luis Moya saíram do carro apressados e com extintores na mão. Ao abrir o capô, a cena parecia de um pesadelo. O motor simplesmente havia explodido para a estupefação de todos que viam a cena. Moya gritava para Sainz religar o carro, mas o Toyota não deu nenhum sinal de vida. Quando o próximo piloto passou pela cena e fechou o rali, ele parecia chocado. “Era Carlos. Faltavam 300 metros…”. Esse era o sentimento de todos que acompanhavam a decisão do WRC/1998.

As cenas a seguir misturavam todos os sentimentos de frustração que um ser humano pode ter. Luis Moya se desesperava, chutava o carro, xingava, quebrava o vidro traseiro com o seu capacete e por fim caiu no choro. Quando a informação chegou ao QG da Toyota, todos ficaram paralisados e atônitos. Aquilo não poderia estar acontecendo. Só podia ser um pesadelo. Mas não era. Assim como aconteceu nos boxes de Le Mans em 2016, apareceram as primeiras cenas de choro dentro da Toyota. Tommi Mäkkinen estava num hotel, à paisana, quando recebeu a notícia do seu celular. “O que?”, repetia várias e várias vezes o finlandês. Ele se tornava tricampeão mundial de forma consecutiva, mesmo fora da etapa decisiva desde os primeiros momentos do rali.

E Carlos Sainz? Em nenhum momento ele teve a mesma reação do seu navegador. O choque de perder o título tão próximo da chegada era simplesmente grande demais para o espanhol expressar tanta frustração. Ele se isolou num canto antes de ser buscado por helicóptero. Quando ele chegou ao parque fechado, não faltaram palmas ou pessoas que lhe desse a mão. Sainz cumprimentou Mäkkinen e se retirou de cena, com lágrimas nos olhos, de mãos dadas com sua esposa. Perguntado se era a pior coisa que lhe tinha acontecido, Sainz apenas respondeu: Absolutely.

Mais tarde e mais calmo, El Matador apenas disse. “Acontece. Não foi um erro meu. Isso me tornou mais forte”. Mesmo sem conquistar um merecido terceiro título mundial, Carlos Sainz é até hoje uma lenda do WRC e usou essa força para derrotar Peterhansel, Nasser Al-Attiyah, Sébastien Loeb e Cyril Désprés para conquistar seu segundo Dakar.

Abraços,

JC Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

2 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    JC,

    regra máxima do esporte é de poder comemorar seu trinfo após o término da prova.
    Comemorar antes, não sei se foi o caso, pode dar de acontecer o dito por você acima.
    Nigel Mansell no Canadá em 1991 sabe muito bem disso.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Mauro Santana disse:

    História fantástica e emocionante, JC!

    Parabéns por mais uma brilhante coluna.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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